Amizade libertadora: a aliança entre chineses e soviéticos na Segunda Guerra Mundial

Tropas soviética na cidade de Harbin, Manchuria, China, ao final da Segunda Guerra Mundial. Crédito: https://thesanghakommune.org/

Que existe um vácuo historiográfico sobre a participação da URSS na derrota do fascismo já não é mais segredo para ninguém. O próprio presidente da Federação Russa esmiuçou alguns destes aspectos em um artigo publicado em junho desse ano na revista The National Interest, por ocasião dos 75 anos da vitória sobre o nazismo. Mas então, o que dizer sobre a campanha soviética na Ásia e sua colaboração com os chineses no seu processo de libertação nacional? Essa sequer é tratada na esmagadora maioria das fontes ocidentais disponíveis, ou quando muito, é minimizada (KULKOV, 1985). A crescente aliança entre russos e chineses na atualidade parece contribuir para o receio ocidental de que seja estabelecido um grande bloco alternativo com potencial militar, político e econômico na Eurásia.

Sendo assim, é natural que haja uma explícita tentativa de apagar a aliança histórica que permitiu dar um golpe de morte no fascismo japonês e que abriu caminho para a vitória da Revolução Socialista Chinesa de 1949. A contribuição dos povos da URSS e da Mongólia foi fundamental para trazer à tona movimentos anticoloniais que fermentavam nas sociedades vietnamita, coreana e chinesa.

Após libertar uma série de países na Europa Oriental e chegar até Berlim de forma triunfal, os soviéticos puderam voltar-se exclusivamente para o Extremo Oriente, onde mantinham estacionadas tropas em constante vigilância para evitar um possível ataque em massa dos japoneses. Usamos a expressão “em massa”, pois ataques pontuais já vinham sendo feitos há muito tempo, desde o início das hostilidades entre URSS e Alemanha, como o aprisionamento de cidadãos soviéticos por japoneses, bem como disparos na fronteira contra as divisões estacionadas na região.

Esse posicionamento de tropas na região próxima da fronteira ao extremo leste muito contribuiu para que o esforço de guerra soviético fosse ainda maior do que já havia sido, pois suas lideranças militares não poderiam lançar mão de um contingente razoável de soldados na luta contra os nazistas por estarem essas tropas à disposição da defesa de um território gigantesco e duplamente ameaçado. Dispor de todas as tropas na Europa Ocidental era tudo que os japoneses esperavam da URSS. Mas ainda assim, o Exército Vermelho conseguiu auxiliar os povos que lutavam pela sua libertação.

O que nós compreendemos como Segunda Guerra Mundial tem outros significados para outras nações. Assim como os soviéticos referem-se ao período entre 1941 e 1945 como Grande Guerra Patriótica, podemos dizer que para os chineses, esse conflito começou antes mesmo da invasão da Polônia pelos nazistas. Já em 1931, hostilidades ocorriam na região da Manchúria e em outros pontos estratégicos do já dominado território chinês. Entretanto, foi em 1937 que o conflito em larga escala iniciou-se, com a ocupação de fato daquela região importante na geopolítica da Ásia.

A ocupação japonesa foi marcada por uma extrema brutalidade e violência ímpar. O extermínio da população local foi feito de forma sistemática, tendo os mesmos recorrido à experimentos químicos e biológicos, já condenados desde a Primeira Guerra Mundial, até experiências médicas e científicas com cobaias humanas. A barbárie fascista alemã contra judeus, comunistas, homossexuais e tantos outros grupos às vezes parece obscurecer o que foi a dominação nipônica naquela região, que em quase nada ficou atrás em matéria de crueldade e extermínio.

Se a desproporção bélica entre os dois países já não fosse suficiente para ser um grave problema para os chineses, a política interna confusa e violenta, com choques entre o Kuomintang e a ala mais radical do Partido Comunista Chinês completavam o quadro de terror. De um lado, um governo que pouco ou nada contribuiu para o combate efetivo contra os invasores; de outro, as lideranças que propunham uma revolução de libertação nacional a reboque da luta contra os japoneses, armando os camponeses para primeiro expulsar os nipônicos, para em seguida promover uma revolução socialista. O próprio governo dito “nacionalista” chegou a combater em conluio com os invasores as áreas dominadas pelo grupo de Mao Zedong, com o intuito único e exclusivo de impedir a emancipação dos trabalhadores chineses.

Dessa forma, a capacidade de resistência do povo chinês era extremamente reduzida, na medida em que boa parte do seu território estava sob o controle de um governo colaboracionista, que não só combatia de forma tímida os invasores, como tentava de todas as maneiras sabotar o esforço de guerra daqueles que visavam encerrar aquela dominação (NAVES, 2005). Tudo isso em nome da preservação dos privilégios de classe dos chamados “senhores da guerra” e da incipiente burguesia chinesa, aliada ao capital estrangeiro.

As tropas soviéticas estacionadas na Manhcúria eram da ordem de 40 divisões, o que de fato era uma enorme ajuda para a Alemanha nazista, que soube aproveitar-se dessa superioridade numérica no início do conflito (ZHIILIN, 1985). Durante boa parte do conflito mundial, este foi um fator preponderante para as dificuldades do Exército Vermelho na Europa. A possibilidade de abrir uma guerra em duas frentes era um risco real que nunca deixou de ser considerado pelo Estado Maior da URSS.

Já as tropas chinesas, lutavam de forma a complementar o esforço de guerra de estadunidenses e ingleses, obtendo uma importante vitória na região da Birmânia Central, isso já em 1945. A região era rica em matérias-primas como o petróleo e a borracha, e passava para as mãos dos Aliados. Entretanto, dentro do próprio território chinês, o sucesso dos Aliados era praticamente nulo, muito por conta de sua descoordenação e pela constante sabotagem do governo nacionalista às tropas aliadas dos comunistas.

A partir de sua entrada no sudoeste chinês, conseguiram abrir um canal de comunicação com suas tropas instaladas em Singapura, permitindo uma ocupação extensa. O que trazia alguma esperança para o território chinês era o domínio do mar do Sul da China pela marinha dos Aliados, que potencializava os bombardeios sobre as ilhas japonesas. Se de uma maneira geral a situação era favorável aos Aliados pela tomada de algumas ilhas japonesas, em particular os chineses  viam-se em situação dramática.

O plano japonês incluía uma guerra prolongada na região, com a manutenção do chamado exército de Kwantung nas fronteiras com a URSS. Além disso, tinha a intenção de derrotar definitivamente as tropas dos exércitos populares chineses e forçar a assinatura de um acordo de compromisso com o governo de Chiag Kai Shek, tornando definitivamente a China um Estado fantoche, como outros tinham sido criados na Europa alguns anos antes. E apesar de já ter sofrido muitas perdas, o exército japonês ainda possuía uma força temível, com 7 milhões de homens, mais de 10 mil aviões e 500 navios de guerra. Nada indicava que a derrota japonesa seria simples.

Talvez por isso, EUA e Inglaterra já em Ialta e Teerã tentaram um acerto com a URSS para sua contribuição no conflito do Pacífico. O compromisso firmado pelos soviéticos estabelecia que entre dois e três meses após a derrota total da Alemanha, empenhariam-se na batalha do extremo oriente. Para tanto, algumas exigências foram aceitas: manutenção da República Popular da Mongólia; devolução da parte meridional da ilha de Sacalina e a entrega das ilhas Curilas; exploração conjunta das linhas de trem do sul da Manchúria numa parceria sino-soviética. Assim, a maior potência bélica da época poderia direcionar seus esforços para derrotar o último bastião do fascismo.

A situação dentro do Japão não parecia das melhores, pois com a total transformação da economia em indústria bélica, a situação da população piorava a olhos vistos, o que aumentava os riscos de tensão social, o que era agravado pelos grupos pacifistas que atuavam dentro do país. De fato, o destino do Japão era selado quando da entrada da URSS na guerra e da organização mais sistemática dos exércitos populares já no decorrer de 1945.

Os esforços esparsos que existiam passaram a ser mais sólidos e a criação de forças armadas revolucionárias e de autodefesa já constituíam mais de 2 milhões de homens e mulheres aptos à luta. Dessa forma, mesmo com armamentos de qualidade inferior e em menor número, as tropas populares chinesas conseguiram retomar 19 grandes regiões densamente povoadas, perfazendo um total de quase 100 milhões de resgatados. Esses homens e mulheres eram retirados do jugo japonês e passavam a fazer parte de um governo popular onde poderiam fazer parte das decisões da comunidade.

Essas vitórias deram impulso à reivindicação dos comunistas chineses de que o governo chinês assinasse um acordo com a URSS para que esta colaborasse oficialmente na luta contra os japoneses em seu território. Em 14 de agosto de 1945 esse tratado foi assinado. Começava oficialmente a história dessa amizade que ajudou a libertar um povo inteiro. Somente doze dias depois já era enviado um ultimatum ao Japão, assinado em conjunto por China, EUA e Inglaterra, onde se exigia a rendição incondicional das tropas japonesas. Apesar da URSS não ter participado do ultimatum, as exigências iam ao encontro dos seus interesses, entretanto, o governo japonês o rechaçou.

Assim, ia se desenhando uma feroz resistência japonesa na região, o que ficou evidenciado pelo grande número de soldados mortos dos EUA naquela área. A proporção de perdas humanas era substancialmente maior naquele teatro de guerra do que tinha sido na Europa Ocidental, ou seja, o exército estadunidense estava sendo testado de fato na guerra a partir dali, principalmente nas lutas dentro do território japonês.

Entretanto, apesar dessas operações, era na Manchúria e na região próxima à fronteira com a URSS que o grosso do exército japonês posicionava-se, com o exército de Kwantung contando com 31 divisões, 9 brigadas de infantaria e duas de tanques, e mais uma “brigada especial”, composta por condenados à morte que não deveriam retornar vivos das missões. A região da Manchúria tinha transformado-se numa fortaleza nipônica, contando com armamento especializado e que servia de cabeça de ponte para a expansão rumo ao domínio de toda a Ásia. Em mais de mil quilômetros de extensão, existiam nada menos do que 8 mil pontos de fogo japoneses. Parecia ser uma missão impossível transpor essa barreira. Mesmo com alguma superioridade numérica, o Exército Vermelho e as tropas populares chinesas teriam muito trabalho para derrotar o inimigo.

Para piorar a situação, desde o dia 8 de agosto, chuvas torrenciais alagaram o terreno na região, tornando os pequenos rios que vinham das montanhas, verdadeiras torrentes, o que praticamente impedia o avanço da artilharia autopropulsada. O caminho deveria quase sempre ser feito a pé. Ainda assim, entre 9 e 14 de agosto, as tropas soviéticas entraram na Manchúria e iniciaram o processo de libertação, apoiadas na guerrilha popular chinesa. Mesmo com as “brigadas especiais” atacando as posições soviéticas com homens-bomba deitando-se sob os tanques, a aliança entre guerrilha e infantaria pressionava cada vez mais os japoneses. Ao cercarem a cidade de Mutankiang, importante cidade da região, o conflito parecia muito mais inclinado para o lado sino-soviético, com os invasores japoneses encurralados em alguns pontos da cidade.

Essa situação desnudou uma realidade que já era conhecida pelos chineses, mas que boa parte do mundo ocidental parecia não querer enxergar: o tratamento dado aos prisioneiros de guerra nos campos japoneses. Um dos exemplos foi o sargento Kalinin, do 404° regimento, que teve uma perna e os olhos arrancados, marcado com ferro quente nas costas e outras barbaridades que dispensam a narrativa. Mesmo assim, através da tática de enlaçar a cidade, as tropas libertadoras conseguiram controlar esse importante centro administrativo que um dia fora japonês.

No mesmo dia das últimas batalhas da região, em uma cidade próxima a Mutankiang, trabalhadores chineses recém-libertados organizavam encontros para saudar os soldados soviéticos e colaborar na construção de infraestrutura para o avanço das tropas regulares, auxiliadas pela guerrilha chinesa. Ainda no dia 14, o Japão anunciava a rendição através do aceite das condições impostas na Declaração de Potsdam pelo imperador Hirohito. Parecia que o pesadelo ia chegando ao fim também no Extremo Oriente.

Entretanto, o exército de Kwantung ainda resistia na região, não acatando a rendição do imperador, que a propósito, não havia dado ordens expressas de cessação do conflito. Essa situação exigia que a colaboração entre as tropas populares chinesas e os soviéticos permanecesse. Em 19 de agosto, uma parte das tropas soviéticas encontra-se com o grosso do Exército Popular de Libertação no nordeste da China, formando um bloco unido que teria como missão forçar a rendição incondicional do exército de Kwantung.

Esta situação de libertação de regiões e caça aos japoneses que ainda resistiam permaneceu até 30 de agosto, quando a derrota definitiva chegava para os nipônicos. Importante lembrar que nesse ínterim, as tropas do Kuomintang não somente não atacaram posições japonesas, como tentaram atrasar o avanço do Exército Popular de Libertação comandando por Mao Tsé-Tung. Entretanto, isso não impediu a vitória definitiva contra os invasores.

Isso, no entanto, não significava que a situação chinesa se tornava tranquila. A partir desse momento, um outro quadro se desenhava na região, com os exércitos populares se voltando contra as tropas do Kuomintang para efetivar a revolução socialista. A aliança entre os nacionalistas e os japoneses permaneceu, como podemos perceber através da cifra de 225 mil soldados nipônicos que permaneceram no país a serviço do Kuomintang. Também os EUA desembarcaram tropas no país, enviando mais de 100 mil soldados para cidades importantes, entre elas, Pequim. Mas a experiência adquirida nos mais de 10 anos de lutas ferozes e o apoio logístico e técnico recebidos pelos soviéticos auxiliaram o povo chinês a efetivar sua libertação do imperialismo.

Esta trajetória de amizade pode ser sintetizada nas palavras do próprio Mao, eternizando o sentimento do povo chinês: “O Exército Vermelho chegou em ajuda ao povo chinês para expulsar os agressores. Um exemplo como este nunca houve na história da China. A influência deste acontecimento e impagável(ZHILIN, 1985; p.484). Assim, através do sacrifício do povo chinês e da valiosa ajuda soviética, era encerrado um triste capítulo da História da Ásia.

Bibliografia

KULKOV, E., RJECHEVSKI, O. e TCHELICHEV, I. A verdade e a mentira sobre a Segunda Guerra Mundial. Edições Avante, 1985.

NAVES, Márcio Bilharinho. Mao: o processo da revolução. São Paulo: Editora Brasiliense, 2005.

ZHIILIN, P. La Grand Guerra Patria de la Unión Soviética: 1941-1945. Moscou: Editorial Progreso, 1985.

 

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