A Ousadia Revolucionária do Comandante Fidel Castro

Centenas de jovens se reúnem em Havana para homenagear Fidel. Crédito: A. Ernesto/EFE.

São quatro anos da morte do comandante em chefe da revolução cubana, um estadista que nunca deixou de ser um ousado revolucionário tanto no pensamento, quanto na prática concreta. Essa postura diante da vida expressou-se na vitória sobre a ditadura de Fulgencio Batista e também na construção do socialismo caribenho, sendo uma das razões fundamentais de resistência do povo cubano por décadas. Apresento a seguir, de forma resumida, alguns dos momentos onde essa ousadia fez-se mais presente.

Diante do golpe de Batista, em 1952 , apoiado pelo governo estadunidense diante da possiblidade de vitória eleitoral de um candidato nacionalista do partido ortodoxo, parecia mais uma vez que todos os partidos seguiriam a lógica de montar frentes políticas que atuassem nas contradições da ditadura aguardando o seu desgaste. O advogado Fidel Castro, certamente um postulante a deputado caso não fosse efetivado o golpe, foi convencido pelos fatos que o caminho pacífico e institucional estava fadado ao fracasso.

Organizou, portanto, em julho de 1953,  a partir da juventude do partido ortodoxo, um movimento armado insurrecional, forma de luta com larga tradição na história do país, o Assalto ao Quartel Moncada,  no Oriente da ilha, região de intensa participação política desde as lutas de independência, na segunda cidade do país, Santiago de Cuba. O programa defendido pelos insurgentes buscava a derrubada da ditadura e o restabelecimento da Constituição de 1940, a reforma agrária, uma politica de nacionalizações, o confisco de propriedades daqueles ligados à ditadura e também a participação do proletariado fabril no lucro das empresas.

O Movimento é derrotado do ponto de vista militar, mas se torna uma vitória política porque deu outra dinâmica a resistência à ditadura, principalmente quando Fidel em seu julgamento produziu uma análise marxista da sociedade cubana vinculando a ação insurrecional à José Martí, herói da independência. Estava selada a linha de continuidade entre as lutas pela independência e a revolução que se propunha derrubar a ditadura, através de um programa nacionalista, democrático e popular, espalhado por toda a ilha por seus camaradas do  denominado Movimento 26 de julho, data da tentativa do assalto à Moncada.

Preso e anistiado, Fidel pedagogicamente divulgou suas ideias esperando que o próprio povo cubano fosse convencido da impossibilidade da atuação na legalidade, e só a partir daí deixou a ilha, salientando que ele e os integrantes do movimento voltariam como heróis ou mártires. Novamente a ousadia foi a marca das ações de Fidel no desembarque do Granma, quando o objetivo era outra insurreição tendo como retaguarda a Sierra Maestra. Em que pese a dura derrota frente às forças de Batista, resultante também do atraso do desembarque ter perdido  o caráter de surpresa, Fidel conclamou que a vitória era certa, mesmo com poucos homens presentes na Serra Maestra e armamento limitado.

As ações guerrilheiras e a construção de uma ampla frente política com os elementos da burguesia anti-Batista assustou alguns, até mesmo o comandante Che Guevara. Só que essa aliança baseava-se em um programa onde estava garantido o conteúdo programático de Moncada e, fundamentalmente,  a sobrevivência do Exército Rebelde.

Isso foi fundamental quando, após a vitória contra a tirania, o setor da burguesia cubana e o imperialismo estadunidense, surpresos com a aplicação real das medidas populares sem concessões, tentou de todas as formas impedir o avanço da revolução cubana. O povo trabalhador nas ruas, apoiando o congelamento de aluguéis e a reforma urbana, os camponeses e trabalhadores rurais com acesso a terra, a política de nacionalizações e a presença do exército rebelde foram chaves para alimentar ainda mais a ousadia de Fidel e boa parte do governo revolucionário no enfrentamento contra o imperialismo, trilhando a direção ao socialismo.

O socialismo cubano expressou toda sua força democrática na participação popular protagônica em cada bairro, sendo também assentado no desenvolvimento de valores morais e éticos, na construção de um novo ser humano a partir de novas relações sociais. Esse papel da consciência e do sujeito histórico na construção do socialismo cubano, que foi muito além da mera distribuição de renda e estatização dos meios de produção – a socialização econômica como apontou o Che-  superando o determinismo das forças produtivas, criou raízes em Cuba. O desenvolvimento material deveria estar associado a essa nova consciência, construída pela ação prática, o exemplo da vanguarda e a educação revolucionária.

Foi essa concepção diferenciada de socialismo assentada no sujeito coletivo, na consciência, nos valores e de tantas raízes nacionais e patrióticas, que criou condições para ousadia de Fidel em dois momentos: na reação aos ventos da Perestroika soviética em 1986, ao salientar que o caminho não era o mercado capitalista,  por isso contestando ao seu maior parceiro econômico e político, e também no duro momento do fim do campo socialista e da própria União Soviética (URSS).

Revelando energia, coragem e atrevimento político revolucionário, o comandante Fidel  levantou bem alto a bandeira do socialismo e do comunismo em um momento de forte avanço do imperialismo e da direita, diante de um bloqueio mais acirrado, quando muitos  achavam que a revolução estaria derrotada em semanas. E a ilha socialista foi sendo defendia pela resistência do seu povo, apesar das carências do Período Especial, ciente do que poderia acontecer caso uma revolução que lhe dera tantos direitos e garantido a soberania real do país fosse derrotada. Fidel impulsionou reformas, mas soube manter a essência socialista da revolução e viu na maior participação do povo, cada vez mais incorporado à gestão do Estado, a raiz da resistência.

E a revolução permaneceu vitoriosa, seu anti-imperialismo fundamental para a nova onda de governos progressistas no continente, que tiveram em Cuba um exemplo de resistência e apoio solidário. Tendo à frente o grande comandante, o governo cubano impulsionou ainda mais um componente fundamental da revolução, mesmo com todas as carências vividas pela ilha : a solidariedade internacionalista, estendendo a presença de técnicos, médicos e professores cubanos a diversos continentes, inaugurando a Escola Latino América de Medicina, e construindo uma revolucionária forma de relacionamento comercial, Aliança Bolivariana das Américas ( Alba).

O comandante, porém, mantinha-se com olhos abertos, sagazes, sem fugir a duros desafios espinhosos originados de análises profundas. Com humidade extrema, apontou que um dos seus erros, e dos revolucionários cubanos, foi a certeza dos caminhos da construção do socialismo. A prática revelara que era algo muito mais complexo. E, de maneira dura, mas sempre alertando pedagogicamente os revolucionários, levantou a questão que não seria possível o império reverter a revolução e sim seu próprio povo.

Foi, certamente, um chamado do comandante à unidade que garantiu tantas vitórias, ao cultivo dos valores revolucionários e  à eficiência produtiva com base em valores socialistas, sempre atentos ao imperialismo e ao individualismo produzido pelo mercado. Que seja o legado de Fidel, sua ousadia analítica e propositiva sempre revolucionária, algo bem presente no povo cubano e em todos nós.

Luis Eduardo Mergulhão Ruas
Doutor em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
Membro do Conselho Diretor da Associação Cultural José Martí – Rio de Janeiro

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por Anders Noren

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