“Mãe”: vingança e busca por justiça em uma Índia tolerante com a cultura do estupro

“Mãe” (2017), dirigido por Ravi Udyawar. Crédito: divulgação.

É uma inverdade afirmar que todas as mulheres podem ser mães. Da mesma forma, também não é uma realidade que os laços profundos entre mães e filhos são possíveis apenas entre os que compartilham uma origem consanguinea. O chamado amor incondicional é para poucos, fazendo com que os que nutrem por alguém tamanho e complexo sentimento, sejam capazes de tudo. Aos que se encontram em tal situação, é simplesmente insuportável ver o sofrimento e a injustiça ser perpetuada àqueles que amam e podem, sim, chegar a cometer atos extremos, no intuito de proteger, ou restaurar a honra e a vida de seus amados.

O filme “Mãe” (2017), dirigido por Ravi Udyawar traz esta questão como a energia impulsionadora de sua trama. Apresenta a crueldade de uma Índia, cuja sociedade e sistema jurídico permanecem tolerantes ao crime de estupro e à violência de gênero. Assim, em um contexto injusto e desigual, só restam às reais mães tomar certas atitudes e fazer justiça com as próprias mãos. Trata-se de um real levantar-se contra o mal maior, mesmo que isso seja utilizar de métodos considerados moralmente errados.

Baseado no roteiro escrito por Girish Kohli e produzido por Sunil Manchanda, Mukesh Talreja, Naresh Agarwal e Gautam Jain, este suspense policial foi estrelado pela já falecida Sridevi, atriz e produtora indiana, conhecida como a primeira superestrela da indústria cinematográfica da Índia, ganhadora e indicada a muitos prêmios nacionais. Uma grande artista que ficou conhecida por interpretar mulheres fortes, dispostas a enfrentar situações desafiadoras. Neste filme, a personagem de Sridevi persegue os estupradores de sua enteada Aarya Sabarwal, vivida pela atriz paquistanesa Sajal Ali.

Sridevi vive a professora e madastra Devki. Crédito: Netflix.

A obra também conta com a presença de nomes como Nawazuddin Siddiqui, Akshaye Khanna e o ator paquistanês Adnan Siddiqui em papéis coadjuvantes. Lançado em 7 de julho de 2017, em quatro idiomas, a produção tornou-se um sucesso de crítica e comercial, recebendo dois prêmios no 65º National Film Awards e seis indicações no 63º Filmfare Awards. O filme ganhou certa audiência mundial, em especial na China. Entre as diversas razões para o seu sucesso pode-se destacar um enredo bem construído que consegue abordar uma temática delicada sem ativismos, mas de forma envolvente, realista, sem moralismos e, assim, torna-se uma poderosa ferramenta para impulsionar reflexão e impacto no público sobre um problema tão urgente.

Já nos primeiros momentos, o espectador conhece a professora de biologia Devki Sabarwal, uma figura caridosa e popular entre seus alunos. De imeadiato ela precisa lidar com alunos problemático como Mohit Chadda (Adarsh Gourav) que envia à enteada Aarya Sabarwal (Sajal Ali) e aos colegas um vídeo ofensivo. A professora não pensa duas vezes e joga o telefone do rapaz pela janela. Logo após, é possível conhecer o ambiente descontraído da casa de Devki. Porém, apesar de sua insistência em abordar carinhosamente à enteada, esta permanece fria e distante, rejeitando uma aproximação com a madastra, tentando preservar a memória da mãe, suposta falecida, ainda muito recente.

Uma festa do dia dos namorados ocorre em uma fazenda distante e Aarya tenta persuadir Devki e o pai Anand Sabarwal (Adnan Siddiqui) de que o local é seguro, convencendo o casal hesitante a permitir a sua saída. Durante o evento, Aarya encontra seus colegas de aula abusadores e, particularmente, rejeita as investidas de Mohit e do primo dele Charles Deewan (Vikas Verma). Estes, inconformados, resolvem, junto com o criminoso Jagan Singh (Abhimanyu Singh) e o segurança da casa da fazenda Babu Ram Yadav (Pitobash Tripathy), sequestrar Aarya. Assim, estupram brutalmente a menina e jogam seu corpo em um córreo à beira de uma estrada, quase sem vida. Devki, assim que percebe a demora da enteada em ar notícias, vai ao seu encontro, porém sua busca é em vão.

A atriz Sajal Ali (dir.) vive a enteada Aarya Sabarwal. Crédito: India TV News.

Logo, a madrasta recorre à polícia, porém policiais descrentes em suas afirmações apenas contribuem para o seu desespero. Neste meio tempo, Daya Shankar “DK” Kapoor (Nawazuddin Siddiqui), detetive particular, a observa e decide abordá-la, oferecendo ajuda e entregando o seu cartão de visita, mas Devki suspeita dele. O tempo passa e já é dia quando Aarya é encontrada e levada para o hospital em estado deplorável. Ao recuperar a consciência, a jovem denuncia seus agressores ao policial Matthew Francis (Akshaye Khanna) que inicia uma busca e prende os criminosos.

No julgamento, uma corte comprada diz não haver provas suficientes e os réus são inocentados. Devki e Anand estão arrasados. Aarya entra em depressão. Sem ter outra solução, a madastra busca auxílio com o detetive DK. Juntos, eles iniciam uma caçada impiedosa aos culpados, ao mesmo tempo, que são observados pelo policial e oficial Francis, também obstinado a fazer com que a lei seja cumprida.

A interação entre a professora, o detetive particular e o policial promove transformações chaves no enredo da trama, criando momentos de suspense, ação, introspecção, que crescem no enredo com o auxílio de atuações memoráveis. Especialmente os olhares vão para Sridevi, que presenteia o espectador com uma interpretação sóbria e repleta de nuances, onde se testemunha a mudança paulatina de uma simples professora e dona de casa em uma obstinada, calculista, fria e atroz justiceira, porém não menos amorosa, capaz de sentir com a mesma intensidade a dor e o sofrimento da enteada.

“Mãe” suscita reflexões, questionamentos, em sua narrativa bem construída, sem procurar por soluções exageradas aos acontecimentos. Desta forma, o espectador tem o desenvolver de uma história crível, que fluí com toques característicos e típicos do cinema indiano. Apesar de se tratar de ficção, a trama é bastante caucada na realidade de uma Índia que teve, somente no ano de 2019, 88 estupros registrados diariamente, conforme o National Crime Records Bureau, agência do governo responsável por coletar dados de crimes como estipulado pelo código penal indiano.

As atrizes Sajal Ali e Sridevi, respectivamente (fotos superiores) e os atores Akshaye Khanna, que interpreta o policial Matthew Francis (centro, foto inferior), e Nawazuddin Siddiqui, que vive o detetive particular Daya Shankar “DK” Kapoor (dir. foto inferior). Crédito: Mango Bollywood.

É preciso ainda salientar as falas impactantes da trama, como a que acontece entre Devki e DK em uma estação de metrô. Pensativo e cheio de dúvidas sobre a natureza de suas ações, se o que ambos estão fazendo é certo, professora replica: “É errado, mas pior ainda é não fazer nada. Se tiver de escolher entre o errado e o muito errado, qual escolherá?“.

DK não responde e segue com o plano. Quando está para ir embora, DK pede à Devki que confie no poder do Deus Shiva, pois ele tudo resolverá. Devki retruca dizendo que o Deus Shiva não pode estar em todos os lugares. Assim, DK é tácito em sua tréplica: “Eu sei, por isso ele criou as mães“. “Mãe” é um filme poderoso e que pode, agora, ser assistido no Brasil através da plataforma Netflix.

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