Cidade dos Mortos: os conflitos psicossociais de uma Rússia que busca preencher o vazio do fim soviético

Cidade dos Mortos, 2019. Crédito: Netflix.

Muito foi escrito sobre a série russa “Cidade dos Mortos”, que ainda pode ser assistida na Netflix. Muitos falaram da influência de filmes de zumbis e dos conflitos sociais que nela estão presentes, além da reação dos humanos em momentos de catástrofe. Porém, o que escapou aos olhos de vários nesta produção audiovisual, é que por trás de todo o enredo apocalíptico, estão os diversos conflitos psicossociais de boa parte da população do país atualmente. Uma sociedade que, há alguns anos, enfrentava o fim da União Soviética e a introdução imposta do capitalismo neoliberal e do modo de vida ocidental.

A trama de “Cidade dos Mortos” narra uma espécie de odisseia de três famílias disfuncionais de Moscou, que possuem fracos laços amistosos entre si, e que acabam tendo de sobreviver juntas à eclosão de uma pandemia que transforma os indivíduos em mortos vivos. Assim, o cenário fantástico, já tão assistido pelo espectador ao redor do mundo, serve apenas de vetor que leva a reflexões mais profundas.

Quando Vladimir Putin descreveu, em 2005, que o fim da União Soviética foi “a maior tragédia geopolítica do século XX”, ele não proferiu tais palavras à toa. Aqui não será aprofundada a questão referente às relações internacionais e à política mundial, já que não se objetiva escrever um texto acadêmico sobre o tema, porém é necessário abordar brevemente. Em termos geopolítico, o fim da URSS promoveu uma série de conflitos e instabilidades na região estratégica mundial que comporta a Eurásia e, também, para além deste espaço territorial. A esquerda, em todas as suas vertentes, em vários locais do mundo, parece ter levado um choque com o fim daquela que foi a primeira experiência socialista e representava a concretização dos primeiros Estados socialistas que almejavam, um dia, chegar ao comunismo.

Estas colocações são base para compreender algo ainda mais importante: a União Soviética foi a primeira tentativa socialista de oferecer uma alternativa civilizacional ao capitalismo. Isso vai além da disputa entre modelos econômicos, ou políticos. Foi a experiência que tentou formar uma nova sociedade, cujos códigos morais e éticos seguissem uma base coletiva, como de um humano que consegue despir-se de todo o seu individualismo primitivo, seu anseio de poder e passasse a viver em comunidade. Estes são apenas alguns preceitos que incorporavam o conceito do chamado “Homem Soviético”.

De forma bastante sintetizada, o leitor já pode mais ou menos inferir que tal ideia vai muito além de diversas abordagens sobre a URSS no ocidente e, certamente, corrige a noção mais errada de império que muitos atribuem à URSS. Esta foi uma união de repúblicas, ou até, quem sabe, pode-se considerar uma confederação de países. Dito isso, toda uma história e uma luta de gerações foram literalmente jogadas fora do dia para noite, quando Gorbatchiov decretou o fim da URSS. E a população da Rússia, em específico, dormiu sendo soviética, para acordar no outro dia e ser obrigada a ser russa e capitalista neoliberal, com valores civilizacionais estadunidenses e europeus (o chamado ocidente). Por mais que se tenha críticas à experiência soviética, é preciso compreender que tal mudança é de uma radicalidade brutal e promove choques psicossociais e de outras ordens inimagináveis.

Consequentemente, forma-se um vazio abismal para várias gerações de russos que foram criados e defenderam com suas vidas o ser soviético. Este espaço seria futuramente preenchido pela Igreja Ortodoxa Cristã. Não é à toa que Putin, nas entrevistas que concedeu a Oliver Stone, na série “As Entrevistas de Putin”, em um trecho explica brevemente a razão da volta fervorosa da fé cristã ortodoxa entre os russos, foi tudo culpa do fim do comunismo. A série “Cidade dos Mortos” acaba por trazer representações desta questão, que na visão desta autora, é a central.

Além deste debate possível, há outros dignos de atenção, como os conflitos entre uma elite oligarca e uma classe média moscovitas, mais inclinados a absorver os valores liberais do ocidente, e suas diferenças com a população de outras localidades da Rússia. Tais valores que acabam entrando em conflito com a Rússia do interior, ou com o povo que tem nostalgia do passado soviético. Assim, na representação dos personagens da série, observamos uma Rússia que ainda se contra em fase de transição e, portanto, em constante conflito.

Os integrantes das famílias abastadas moscovitas parecem viver em uma perpétua espécie de devassidão e caos total. Trata-se do clássico cenário de traições conjugais, jovens rebeldes sem causa que não tem atenção dos pais, inveja e desconfiança entre supostos amigos; de doentes mentais, ainda considerados tabus para os russos como os autistas, ou a empáfia de uma família mais abastada que deseja mostrar o quão é superior.

Ao longo dos episódios, a série vai acusando o lado mais sórdido da cultura ocidental que hoje influência e bastante o pensamento daqueles que vivem em grandes centros urbanos. Contudo, ao serem novamente confrontados com um ambiente de fim dos tempos; de terem de sair da bolha social que construíram para si e serem obrigados a contar com a solidariedade dos indivíduos pobres e comuns russos, os integrantes das famílias, juntos, vão encontrando, sem perceberem, a solução para seus conflitos internos…

Entretanto, quem seriam estes indivíduos comuns da Rússia? É o soldado que ainda vive sob o juramento de proteger a sua pátria soviética; a jovem cidadã, também patriota, que ajuda o grupo da família a fugir de paramilitares que atuam de forma criminosa, usando o nome do governo; ou uma representação atualmente mais forte ainda: o padre ortodoxo que, mesmo com o fim do mundo, em sua igreja no meio do nada, parece estar em uma ilha de tranquilidade, claramente imune a todo o mal que atinge o mundo ao redor.

Assim, a série mostra, na realidade, os dilemas que grande parte da população russa de origem eslava, branca, parece enfrentar no que tange a criação de uma nova identidade nacional: aderir ao modo de vida ocidental, ou voltar as bases da sociedade cristã e ortodoxa do período pré-soviético. A série indica que parte dos personagens escolhem a Igreja. Porém, o enredo certamente não representa a totalidade e complexidade de todos os povos que integram a Federação da Rússia, já que muitos nem são mencionados como os mulçumanos, povos de outras origens, crenças e etc.

Desta forma, a Rússia agora tenta construir um Estado nação. Algo diverso dos períodos históricos anteriores dos impérios e da URSS. Para tanto, ela usa sim de um passado que influenciou e mudou o cenário europeu, asiático e, no caso dos soviéticos, mundial. No entanto, são diversos códigos culturais e civilizacionais diferentes. Tentar equacionar toda esta complexidade não será fácil em uma sociedade que ainda busca entender e compreender quem será no futuro. Embora, um elemento parece certo: a sociedade da Rússia pensa agora mais em si e não quer mais carregar bandeiras e promover mudanças sistêmicas e alternativas civilizacionais como no passado mais recente soviético.

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