As múltiplas visões sobre a Índia em “Tigre Branco”, dirigido por Ramin Bahrani

Adarsh Gourav atuando como Balram. Crédito: divulgação Netflix.

Um dos fatos mais importantes a compreender-se sobre qualquer tipo de sociedade com raízes milenares como a Índia é a diversidade cultural e suas contradições políticas e sociais existentes dentro de diferentes épocas e regiões. O grande perigo da narrativa universal kantiana, consolidada no ocidente com as Revoluções Gloriosa (1688), Americana (1776) e Francesa (1789) foi  o estabelecimento de uma homogeneidade espacial e temporal sobre todos os continentes do planeta, conceptualizada desde o ocidente. Um movimento que destrói ainda hoje parte da tradição política, social e cultural milenar de vários povos.

O fenômeno descrito pelo intelectual Edward Said como Orientalismo também é discutível para outras regiões do planeta que foram colonizadas em algum nível pelos países ocidentais- oficialmente ou não, como é o caso dos Estados Unidos com Porto Rico e outros locais- durante os últimos cinco séculos. No caso indiano existe um fenômeno ainda mais curioso, pois, para o países, foi estabelecido um status oficial para segregação racial, a semelhança da África do Sul e Estados Unidos- todos ex-colônias britânicas.

A ideia abstrata de Índia construída ao longo do século XX pelo movimento independentista já apresentou problemas na construção da República. Inclusive o problema da relação entre hindus e muçulmanos aparece com destaque em um momento importante do filme “Tigre Branco” (2021), de Ramin Bahrani. Este problema gerou duas secessões da antiga administração colonial unificada, o Paquistão e o Bangladesh- ambas hegemonizadas por uma população muçulmana segregada nestas regiões, durante a administração colonial britânica, a partir da lógica um Estado para cada nação e vice-versa. É partindo dessas ponderações iniciais que será possível observar as múltiplas Índias presentes em “Tigre Branco”.

Crédito: divulgação.

O filme já pode ser inserido no grupo de filmes bollywoodianos de sucesso no ocidente, cujo caráter fascinante do desenvolvimento da história instiga uma permanente curiosidade de um cena para outra. A apresentação do contraste entre o fim e o início da jornada do personagem principal, Balram Halwai (Adarsh Gourav) já no início da trama, traz certas ’’pitadas’’ daquilo que no ocidente inaugura-se com a famosa obra de Quentin Tarantino “Pulp Fiction” (1994).

Adarsh Gourav atuando como Balram. Crédito: divulgação Netflix.

Contudo, é importante ressaltar que esta produção não é inteiramente indiana, pois, o diretor Ramin Bahrani é iraniano-estadunidense, inclusive, nascido em uma família imigrante nos Estados Unidos. Ele não é o primeiro que vive no ocidente a produzir um filme indiano de sucesso no mundo ocidental. Danny Boyle já havia feito um caminho parecido, porém, com maior sucesso no filme “Quem quer ser um milionário?”, que tem um caráter diferente. As críticas à sociedade indiana também são limitadas no filme de Boyle, sobretudo porque, como foi descrito em linhas atrás, trata-se de uma discussão de várias visões de Índias que se intercruzam. Visões presentes entre os espectadores, divididos entre indianos e ocidentais.

Rahmin Bahrani, antes de “Tigre Branco”, já dirigiu outros filmes retratando problemas sociais, políticos e econômicos, como “99 Casas” (2015), que apresenta a história de uma família que luta para sobreviver durante a Grande Depressão nos Estados Unidos; e “Farenheit 451” (2018), que é baseado uma novela distópica escrita por Ray Bradbury, ambientado em um futuro onde a leitura de livros é proibida e considerado um ato subversivo dentro de uma sociedade de características fascistas. O filme “Tigre Branco” é uma continuidade desta tendência, pois, trata-se de uma produção baseada em um livro escrito por Aravind Adiga de mesmo título, que fez grande sucesso em 2008, e que ganhou o mais importante prêmio britânico de literatura, o Booker Prize.

Destes pontos já é possível destacar que uma das múltiplas Índias presentes na obra é aquela que se conhece no ocidente. A Índia rica e desigual, contraste exposto o tempo inteiro no filme, e é a que guia o diretor e o desenvolvimento da narrativa, onde Balram seria uma espécie de condutor. A pobreza e exploração dos povos do interior do país é apresentada da maneira mais radical possível para o público ocidental, mas bastante conhecida entre os indianos, algo que nos leva a diferentes mensagens em múltiplas Índias, ao longo desta oposição desenvolvida na obra.

Em um dos momentos mais marcantes do filme, onde Balram vê-se mediante à pressão da família para casar com uma mulher de sua Gram panchayat (Algo equivalente à vila, um pequeno distrito administrativo autônomo), o personagem não apenas recusa o casamento, mas toma a decisão definitiva de abandonar sua família. Essa atitude pode ser interpretada por vários ocidentais como uma atitude lógica, pois a liberdade de escolha do personagem estaria sendo tolhida pela ingerência da sua família, em vista de que o culto ao individualismo e à independência pessoal no ocidente supera quaisquer outras necessidades de pessoas próximas. Entre os indianos, uma ação como essa é muito mal recebida, e inclusive pode ser encarada como símbolo de desafio à ordem ’’natural das coisas’’ e ingratidão em relação à família e à vila onde se nasce e cresce.

Ao mesmo tempo, na Índia rica, o fato mais marcante, é o período ápice do filme quando Balram assassinou seu chefe, Ashok Shah (Rajkummar Rao). Neste momento, ele não apenas supera as relações ditadas pela tradição de respeito às chefias hierárquicas, mas sobretudo à condição exploratória e colonial em que se encontrava. A Índia que vence a ’’prisão das tradições’’ que se relacionam ao colonialismo é representada pelo “Tigre Branco”, cuja clareza é expressada no fim da obra, quando, após escrever um e-mail ao primeiro-ministro chinês Wen Jiabao, Balram diz que a Era da hegemonia do homem branco havia chegado ao fim. Quebrar esta tradição significa tornar-se tão poderoso e rico, quanto o homem branco, usando os mesmos mecanismos de violência.

Isso é muito interessante, pois, para os ocidentais a revolta violenta é justificável a partir de um direito presente na tradição politica, e Balram é o exemplo máximo desta operação filosófica. O liberal John Locke é um dos principais defensores do direito a rebelião dos ’’homens livres’’ frente à tirania- aqui entendida enquanto ingerência à liberdade de expressão e à propriedade-, e isso é um dos fundamentos básicos da filosofia ocidental.

Na Índia, tal operação não faz sentido algum, pois, parte de suas filosofias, em especial as oriundas do hinduísmo, acreditam em uma harmonia que perpassa entre todos os campos, onde a violência contribui para a confusão e a desarmonia. Todos os seres são potencialmente divindades. Não existe o pensamento binário, isto é, bem e mal como é conhecido dentro do ocidente. Mahatma Gandhi é o principal exemplo disso, pois, conduziu uma luta anticolonial contrária ao uso da força armada que outros grupos utilizavam.

A outra das Índias expostas por Bahrani também é a política que possui variadas nuances de interpretações ideológicas. A primeira-ministra Indira Gandhi (1966-1977 e 1980-1984), cuja visão ocidental sempre foi de uma líder ’’populista’’ de inclinações comunistas, tem um papel de dupla interpretação no filme. Se por um lado, ela é apresentada como uma defensora da igualdade social e da luta contra discriminação entre as castas, por outro é exposta como uma política corrupta e exploradora das condições sociais do país. Esta dubiedade expõe a visão de duas Índias sobre a estrutura política atual indiana, porém, perpassada também pelas décadas iniciais de independência do país.

Uma delas é orientada pela manutenção das tradições adicionadas aos costumes e à forma de consumo ocidentais, representada no filme pelo próprio Ashok e seu pai (Mahesh Manjrekar). A outra visão é exposta pela própria narrativa de Balram sobre Indira, simbolizada na cena do encontro entre os dois, demonstrando que, apesar do desprezo pela maneira pela qual conduzia a política, ela era respeitada pelo carisma e acolhimento das castas mais baixas da sociedade. Representante do Congresso Nacional Indiano, o partido político mais antigo da Índia, Indira Gandhi foi responsável por construir boa parte da infraestrutura institucional atual do país com o seu pai, o ex-primeiro-ministro Jawaharlal Nehru (1947-1964).

A visão de uma Índia corrupta, construída recentemente por membros da oposição ao governo do Congresso Nacional Indiano, e que possibilitou a chegada ao poder do radicalismo hindu liderado por Narendra Modhi, origina-se da própria posição indiana frente ao ocidente. A postura política de Indira Gandhi na direção de um ’’socialismo que expulse a pobreza’’, baseada em um desenvolvimentismo- que trouxe frutos recentes-, foi mal recebido entre as elites internas e valeu-lhe a condição de um país não amigo dos Estados Unidos. Aliás, a Índia possuía uma aproximação histórica com a União Soviética. Esta posição transforma-se apenas recentemente por ocasião da entrada do Índia no Diálogo Quadrilateral de Segurança (Quad), um grupo que tem por objetivo conter a China na região do chamado Indo-Pacífico, e que também possui como membros: Austrália, Japão e Estados Unidos.

Diante disso, chega-se a uma das visões da Índia mais visíveis na obra, e talvez uma das mais importantes, que é a observação de si a partir do outro, isto é, o ocidente. A noiva de Ashok, Pinky (Pryanka Chopra Jonas), é a representação dessa operação, enquanto uma indiana que viveu no ocidente, que se choca tanto com a realidade de seu país, a ponto de se recusar a nele permanecer. Esta realidade causa a Pinky uma espécie de mal-estar, sobretudo representada na sua relação com Balram, onde a divisão social e a exploração dos empregados, como no caso do atropelamento, em que ele assume a culpa enquanto motorista frente à irresponsabilidade da noiva de Ashok. Outro momento possível de ser citado é quando Balram também é chamado à atenção por ela, acerca de sua aparência e cheiro.

Primiera-Ministra Indira Gandhi recebendo a visita do Presidente do Conselho de Ministros da União Soviética, Aleksei Kossigin. Crédito: https://india.mid.ru

Portanto, uma das visões narrativas de Índia, que partem desde o ocidente, observam o país negativamente, em razão das tradições e da desigualdade, cultivadas pela mesma classe dominante, da qual fazem parte ou são aliados históricos. Esta visão, vigente entre uma parcela considerável da elite indiana, traz um problema que existe desde o pré independência, já que se desenvolveu durante o período colonial e foi assentada em uma posição de aristocracia, solidificada pela força da estrutura de castas e racializadas pelos britânicos. Pinky, a exemplo de boa parte desta elite, não sabe o que fazer, e é assombrada por um mal-estar social e político, resultado desta identidade construída.

Diálogo entre Ashok Shah (Rajkummar Rao), Pinky Shah (Priyanka Chopra Jonas) e Balram Halwai (Adarsh Gourav). Crédito: https://personaunesp.com.br

Seria este mal-estar facilmente solucionado com um simples desenvolvimento econômico e a emergência de vários Balrams? É uma pergunta retórica apresentada sutilmente na parte final do filme. No entanto, é difícil de afirmar que um Tigre Branco possa mudar toda uma ordem estrutural, apenas com base em elementos políticos culturais visualizados desde o ocidente. A imagem do Tigre Branco como um animal raro, apresentado e confundido com Balram no início da obra, conectada com a visão de empresário bem-sucedido no fim. Soa quase como: do esforço individual depende o triunfo ou não dos oprimidos em uma sociedade agressiva e cruel. Aqui é onde as visões da Índia encontram o ponto de interseção comum naquilo que Said discutia como orientalismo. Retomemos aqui algumas das palavras do clássico de Edward Said:

Seria incorreto acreditar que o Oriente foi criado- ou como digo, ‘orientalizado’- e acreditar que tais coisas acontecem simplesmente como uma necessidade de imaginação. A relação entre o Ocidente e o Oriente é uma relação de poder, de dominação, de graus variáveis de uma hegemonia complexa, o que está indicando com muita acuidade no título do clássico de K. M. Panikkar, ‘A dominação ocidental na Ásia’. O Oriente não foi orientalizado só porque se descobriu-se que era ‘oriental’ em todos aqueles aspectos considerados lugares-comuns por um europeu comum do século XIX, mas também porque poderia ser- isto é, submeteu-se a ser- transformado em oriental(SAID, 2007, pp. 32-33).

Em certo sentido, Tigre Branco trata-se de uma trama indiana, que é teoricamente narrada por um indiano desde uma visão ocidentalizada que superou sua condição de inferior, alcançando o status e o sucesso do homem branco. Seria este, o caminho que os indianos e demais povos asiáticos devem percorrer para superar os diversos problemas sociais, políticos e econômicos herdados da atual estrutura vigente?

Diante de uma obra com tantas complexidades, qualquer conclusão moral ou ética está em abeto, pois, transitando entre ocidente e oriente, e entre várias visões de Índia, Bahrani oferece a cada espectador possibilidades de vilania, malevolência ou superação a depender da leitura. Múltiplas posições que perpassam o próprio estágio presente de globalização, pois, o desafio de discutir até aonde a luta pela sobrevivência e avanço individual é aceitável. Assim como, os limites do respeito à tradição não é apenas um dilema para Índia, mas para todas as sociedades do Sul-Global.

Este talvez seja o único ponto de partida e fim possível para uma análise deste filme, cuja característica central não é apenas o retrato da desigualdade social como supõe-se com um primeiro impacto imagético. Trata-se do que é aceitável ou não em um mundo cada vez mais plural, porém ainda em transição desde uma ordem centralizada no ocidente.

Referências:

FLUSS, Harrison; LANDA, Ishay. The White Tiger Is a Window Into India’s Class Society. In: Jacobin. Disponível em: https://www.jacobinmag.com/2021/04/white-tiger-netflix-review-culture-industry-mass-culture-india-caste-system.

SABBAGA, Julia. O Tigre Branco é um conto de fadas cruel e real. In: Omelete. Disponível em: https://www.omelete.com.br/filmes/criticas/o-tigre-branco.

SAID, Edward. Orientalismo- O oriente como invenção do Ocidente. Editado por Companhia de Bolso, 1º Ed., São Paulo, 2007.

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por Anders Noren

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