NYAFF: “Querida, você não vai acreditar!”, comédia do Cazaquistão, coloca à prova os estereótipos da masculinidade

“Querida, você não vai acreditar” (2020), dirigido por Yernar Nurgaliyev. Crédito: divulgação.

Ao primeiro olhar, o longa cazaque Sweetie, You Won’t Believe it (жаным ты не поверишь!, “Querida, você não vai acreditar”, em tradução livre), lançado em 2020, dirigido por Yernar Nurgaliyev, parece uma comédia de sequências absurdas, do tipo pastelão, mas com uma mensagem repleta de propósito e relata a jornada de um trio de amigos que sai para pescar e acabam encontrando no caminho uma série de gangsters, maníacos, pervertidos e assassinos. O que parece descabido, no fundo faz sentido. Há muito mais por trás da superfície, e o que se encontra ao observar a narrativa de perto é uma certa crítica sarcástica à masculinidade e uma reflexão sobre os receios e as mudanças que a paternidade provoca na vida dos homens. De forma geral, ao redor do planeta, em diferentes países e culturas, é imposto aos homens e às mulheres estereótipos de comportamento que, muitas vezes, tornam-se inibidores da natureza humana.

É impossível ser forte o tempo todo, da mesma maneira que ninguém é fraco a vida toda. De forma bem criativa, “Querida, você não vai acreditar”, brinca com todos os tipos exagerados de exercício da masculinidade, em especial do homem desprovido de emoções, sentimentalismo e dúvidas e, por esta razão, torna-se um filme interessante. Ela lembra a trilogia “Se beber, não case” e será exibida no dia 12 de agosto, durante o Festival de Cinema Asiático de Nova Iorque 2021 (New York Asian Film Festival) (clique aqui), que ocorre de forma presencial e online (6-22 de agosto). Os brasileiros que vivem em Nova Iorque e nos EUA terão a oportunidade única de assistir um pouco do cinema deste país, cujos filmes raramente chegam às salas de cinema ou ao streaming dos países da América do Sul. No caso desta obra, ela foi trazida pelo diferenciado Festival Internacional de Filmes Fantásticos, o Fantaspoa, que ocorreu em abril deste ano.

“Querida, você não vai acreditar” (2020), dirigido por Yernar Nurgaliyev. Crédito: divulgação.

Das (Daniar Alshinov), o personagem central, está atrasado no pagamento de seus empréstimos e vive um período conturbado em sua vida privada com a chegada de seu primeiro filho. Sua esposa Zhanna (Asel Kaliyeva) já completa 9 meses de gravidez e está com os nervosos à flor da pele, como qualquer mãe de primeira viagem. Ela facilmente perde a paciência e faz do marido alvo de sua ansiedade, cobrindo-o de constantes xingamentos. Já no início do filme percebemos uma característica recorrente de todos os países da Eurásia: a ideia de que o homem deve ser o provedor da casa e, portanto, ser a fortaleza e o norte da família. Seja homem! É a frase constante. Nada muito diferente de nossa tão masculina América do Sul, ou latina. Mas no Cazaquistão, país onde existe a forte imagem de grandes heróis épicos, cavalgando pelas vastas planícies como deuses fundadores da nação, esta conotação de ser homem pode assumir proporções até maiores do que na periferia ocidental.

Não aguentando mais a pressão em casa, Das está em uma farmácia fazendo compras, enquanto fala com a esposa ao telefone. Eles tentam encontrar um nome para a criança, mas a tentativa é em vão. Das não consegue pensar em nada muito apropriado. Assim, de repente, ele pára e ouve uma reportagem na TV que afirma ser a pescaria algo essencial para os homens. É a alternativa ideal para escapar daquele martírio doméstico. Das decide, então, reunir e partir com os amigos Arman (Azamat Marklenov), um empresário de brinquedos sexuais fracassado e Murat (Erlan Primbetov), um policial local, para uma pescaria. Uma espécie de válvula de escape, de um trio que busca compreender ainda quem são. Há grande proximidade entre eles, e algo que é discutido desde o início, particularmente por Murat, é que Das afastou-se depois de casar e, agora, tem uma coleira no pescoço conduzida por Zhanna. Uma atitude pouco masculina…

“Querida, você não vai acreditar” (2020), dirigido por Yernar Nurgaliyev. Crédito: divulgação.

Durante a viagem, o trio encontrará uma dupla muito estranha e perigosa composta por um pai e uma filha, que vivem praticamente isolados. Depois, será a vez de um grupo de gangsters que estão atrás de quem roubo o cavalo do chefe. O bando de maldosos, ainda que use da violência bruta, também é bastante excêntrico e, de certa forma, idiota. Um deles, por exemplo, apesar de corpulento, ter cara de mau e não pronunciar qualquer palavra, é hipersensível, adora dançar e desmaia com qualquer gota de sangue. Mas nenhum deles consegue ser equiparado ao misterioso homem que parece possuir forças sobrenaturais e é capaz de todas as atrocidades. Um homem que, na realidade, vamos entender posteriormente, enlouqueceu ao perder a família em um acidente e vive só no meio do nada, desde então.

O interessante desta obra é que todos os personagens masculinos são um real atentado à imagem masculina idealizada. São doentes, inseguros, emocionalmente instáveis, literalmente nada inteligentes, nada objetivos e, com exceção do trio de amigos, usam de violência desmedida. A influência do tipo comédia pastelão da Rússia é evidente aqui. As locações escolhidas, a fotografia com luzes quentes e planos que saem do padrão, assim como a ideia do homem que almeja ser machão, mas tem coração mole, são semelhanças que facilmente podem ser encontradas nas produções cinematográficas russas do mesmo gênero.

Para quem conhece um pouco a cultura destes países, sabe que as relações e influências culturais são enormes entre os dois. No filme, os amigos falam russo entre si, já os bandidos em cazaque, compondo o quadro linguístico do Cazaquistão. Há ainda resquícios do passado histórico e cultural, compartilhado por ambos como o amado e querido personagem Tcheburashka, presente na vida de todos que viveram a União Soviética.

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Daniar Alshinov, também conhecido pelo filme “A Dark, Dark Man”, nesta história vive um personagem oposto. Sua fragilidade é tácita, algo que ele nem consegue mais esconder. A paternidade o assusta, e a responsabilidade o faz até ter dúvidas se ama Zhanna mesmo. Porém, esta onda nervosa toda não é nada mais do que o estado emocional perturbado de quem está passando por grandes transformações que exigem amadurecimento. O elenco de apoio, principalmente seus amigos interpretados por Azamat Marklenov e Erlan Primbetov, é o suporte ideal e repassa para público a clara mensagem que os dois camaradas não aguentam a ideia de perder o amigo querido para a vida em família e repleta de questões de adultos. Ambos são o oposto dos heróis destemidos, cometem inúmeras burradas que só pioram a situação e os fazem cair nas mãos dos malucos acima apresentados. São o resultado do que pode ocorrer quando há falta de comunicação e diálogo.

Por fim, Asel Kaliyeva, que vive a esposa Zanna, não tem muitas cenas, ela aparece apenas no início e no final, mas sua presença é extremamente marcante e o amor de Das por ela, faz com que esteja presente, mesmo que não em pessoa, ao longo do filme todo. Nurgaliyev, que também co-escreveu o roteiro, acaba por criar uma narrativa única, absurda, repleta de sangue e violência extrema cômica. Contudo, ao mesmo tempo, é uma trama com momentos ternos, muito humana e cheia de significados. Mesmo não sendo tão fã do estilo comédia pastelão, a autora deste texto considera que esta obra, certamente, vale conferir assim que possível.

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por Anders Noren

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