NYAFF: “Money Has Four Legs” – longa de Myanmar é uma metáfora sobre a corrupção, a desigualdade no mundo do cinema e a crise do país

“Money Has Four Legs” (o dinheiro tem quatro pernas, tradução livre) de Myanmar (antiga Birmânia), lançado em 2020, e dirigido por Maung Sun. Crédito: NYAFF, divulgação.

A censura não existe apenas em países onde regimes autoritários estão vigentes. De uma forma geral, a mídia e alguns centros acadêmicos, especialmente no ocidente, querem fazer crer que sim, apenas as ditaduras impõem controles deste tipo. Isto não passa de uma visão limitada da realidade. Censura predadora também existe nas chamadas democracias. E, sim, a grande mídia e os centros acadêmicos podem promover uma forma de ver o mundo bastante simplista. Eles estão alinhados com as forças que o controlam. Faz parte. O chamado orientalismo acadêmico é exemplo disso, já diria o palestino Edward Said.

Há muitas formas de você calar a voz de alguém. E na visão da autora deste texto, a mais eficaz delas é a econômica, pois você pode exercer a censura e sair ileso de qualquer tipo de crítica da sociedade. Naquela lógica de obter lucro, muitas histórias promissoras são impedidas de chegar ao público no mundo do cinema e do audiovisual. A indústria do cinema e do audiovisual é em si bastante desigual e elitista, é preciso dizer. São poucos que podem tranquilamente viver de fazer filmes, ou séries no mundo. Certamente, a situação de alguns países é melhor que de outros, mas sempre há a elite dos que são muito bem pagos sobre uma maioria que luta para pagar o aluguel do mês. Não é necessário nem dizer que em Hollywood, a realidade é a mesma.

O próprio mercado de distribuição internacional dos filmes é uma prova da falta de equilíbrio entre os países. Pare por um minuto e pense: quem tem mais oportunidade de ter seu filme visto ao redor do mundo, as grandes indústrias dos EUA e da Europa ocidental, ou os diretores independentes de países pobres? O longa-metragem “Money Has Four Legs” (o dinheiro tem quatro pernas, tradução livre) de Myanmar (antiga Birmânia), lançado em 2020, e dirigido por Maung Sun, aborda todas estas questões, sendo uma comédia crítica primorosa.

“Money Has Four Legs” (o dinheiro tem quatro pernas, tradução livre) de Myanmar (antiga Birmânia), lançado em 2020, e dirigido por Maung Sun. Crédito: NYAFF, divulgação.

Ela não só retrata a crise política e econômica do país, expondo aquela censura do governo clássica, e que os brasileiros e outros sul-americanos conhecem bem dos tempos das ditaduras em nosso continente, apoiadas pelos Estados Unidos, que apenas a criatividade artística pode escapar dela, mas consegue expor todo o quadro desigual da indústria do cinema birmanesa e mundial. Desta forma, tem uma via universal, porque o contexto ali apresentado está presente em todo o globo. Em outras palavras, talvez pior, ou tão ruim quanto o censor de um governo autoritário é uma economia em frangalhos e uma sociedade baseada em privilégios para poucos.

Assim, só basta aos menos favorecidos, como o personagem principal do filme faz, enfrentar de vez a elite do cinema, investigando as fraquezas de seus patrões, para depois ameaçá-los de frente para conseguir trazer a público suas histórias. “Money Has Four Legs” será exibido no dia 12 de agosto, durante o Festival de Cinema Asiático de Nova Iorque 2021 (New York Asian Film Festival) (clique aqui), que ocorre de forma presencial e online (6-22 de agosto). O filme já passou pelo Festival Internacional de Cinema de Busan, na Coreia do Sul, um dos maiores da Ásia hoje, e celebra 100 anos do cinema da antiga Birmânia. Os brasileiros que vivem em Nova Iorque e nos EUA terão a oportunidade única de assistir a esta comédia satírica sobre os bastidores corruptos da indústria criativa. E para os demais do Brasil, fica a dica para conferir o filme na primeira oportunidade.

Wai Bhone, interpretado por Okkar Dat Khe, é um jovem diretor de cinema que encara o desafio de dirigir seu primeiro longa-metragem. Além da censura do governo que já impõe restrições a cenas de sexo, de violência, de palavrões e cigarro, típico da superficialidade da censura de regimes autocráticos, ele tem uma esposa e uma filha para sustentar. A família vive em condições muito humildes. Wai Bhone é filho de um falecido e premiado mestre do cinema nacional, e até as gerações mais velhas cobram dele que suas obras precisam ser tão boas quanto. O projeto dele é fazer uma refilmagem de um clássico de gângster birmanês dos anos 1940, “Bo Aung Din” (dirigido por Shwe Done Bi Aung).

“Money Has Four Legs” (o dinheiro tem quatro pernas, tradução livre) de Myanmar (antiga Birmânia), lançado em 2020, e dirigido por Maung Sun. Crédito: IMDb.

Seus problemas pessoais e profissionais apenas acumulam-se, pois a esposa Sleazir (Khin Khin Hsu) quer mandar a filha Meemi para uma escola particular; e, no set, ele precisa lidar com o egocentrismo e o estrelismo dos atores. Muitas locações, como em outras cidades do mundo, é dificultada a autorização para a filmagem em lugares públicos, ou simplesmente proibida. Mas para cineastas famosos, sempre se faz uma exceção… Há também as demandas de seu produtor que constantemente quer interferir no processo de filmagem, no intuito de tornar o filme mais rentável. Seu cunhado, Zaw Myint (Ko Thu), que tem uma oficina de consertos de carros, foi preso, tem problemas com álcool, quer atuar em seu filme.

Porém, ele acaba quebrando uma câmera caríssima que precisa agora ser paga ao produtor. Assim, Wai Bhone e Zaw Myint decidem roubar o banco onde Sleazir trabalhava que está para fechar as portas e onde as pessoas estão protestando, exigindo o retorno de seus depósitos. Desta decisão, uma série de outros acontecimentos irá surgir.

Aliás, é o cunhado que em um momento de bebedeira explica provérbios do país que dão nome ao filme. Há quem goste de fazer relação com o clássico de George Orwell, a Revolução dos Bichos. Ainda que tenham referências dos livros do conhecido autor britânico, esta obra cinematográfica de Maung Sun acaba conseguindo não cair em tamanho clichê. Orwell, por sinal, alertou para existência da censura e do controle social no futuro, mas, na realidade, delatou ao menos 38 intelectuais ao governo britânico, durante a Guerra Fria, simplesmente por serem adeptos de uma ideologia que ele não gostava…

Da mesma forma que a situação interna e geopolítica de Myanmar não pode ser bem compreendida através de análises simplificadoras da realidade que grandes centros de poder querem propagar; culpar apenas a ditadura do país pela situação do personagem principal do filme é realmente limitar e muito o espectro desta metáfora repleta de ironia e sarcasmo e que acaba por propor uma reflexão muito maior. Não é nosso objetivo aqui, mas para comentar brevemente vamos lembrar que a situação política de Myanmar, antiga colônia britânica, tem os resquícios da questão colonial e imperialista que influem na história recente do país. É preciso salientar que se trata de uma nação que ainda não lhe foi possibilitado construir as suas forças produtivas e cujo Estado é fraco para proteger-se da interferência de forças externas em seus assuntos internos, apoiando este ou aquele grupo da elite, e exercendo suas esferas de influências.

O resultado do quadro acima é uma economia empobrecida e uma sociedade que cria grandes diferenças entre pobres e ricos. Por fim, a situação do cinema reflete o quadro político e econômico. Ultrapasse a superfície e vá além, porque o que está na mira de Maung Sun é todo o sistema capitalista e a indústria do cinema em si também. Esta narrativa com vários desfechos, atuações convincentes, e que consegue mostrar ao público mundial características do povo birmanês, sua luta cotidiana, revela que mesmo em situações de grande opressão, provenientes de todas as partes, não apenas do governo, o ser humano ainda encontra forças para resistir.

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por Anders Noren

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