Investimentos das empresas chinesas na América Latina: nem anjos, nem demônios

Crédito: reprodução o Retorno da Ásia.

As estatísticas oficiais da China mostram que, desde 2019, existem mais de 2.700 empresas chinesas na América Latina e no Caribe (ALC), com um estoque de investimento de US$ 435,8
bilhões. Os grandes números mostram a tendência geral de estreitamento dos laços econômicos e comerciais entre a China e a ALC nos últimos anos, ao mesmo tempo em que levantam algumas preocupações sobre os investimentos chineses na região.

Então, o desempenho das empresas chinesas estão de acordo com as expectativas dos países latino-americanos e caribenhos? A chamada “armadilha da dívida chinesa” existe ou não? Numa palestra dos Ciclos de conferência China-América Latina, Lin Yue, professor da Universidade Autônoma de Madri, na Espanha, respondeu detalhadamente a estas perguntas.

Subestimação e superestimação das estatísticas sobre as empresas chinesas na ALC

Em 2003, a China lançou pela primeira vez um estoque de investimento para ALC de US$ 4,6
bilhões, representando menos de 1% de todo o estoque de investimento estrangeiro na região. Em 2019, o estoque de investimento da China na América Latina atingiu 94 vezes o nível de 2003 e sua participação aumentou para 12%. O professor Lin disse que esses números são simultaneamente subestimados e superestimados, levando em conta fatores como a compreensão usual do investimento estrangeiro e a metodologia estatística dos dados oficiais chineses: ”Os dados oficiais chineses não incluem investimentos feitos através de terceiros e, portanto, são subestimados“.

Como exemplo, Lin explicou que em 2017 uma filial brasileira da State Grid adquiriu uma participação de 54,6% na terceira maior livraria do Brasil por US$ 7,92 bilhões. “Somente esta fusão foi mais de seis vezes o montante de todos os investimentos diretos na ALC contados pelo Ministério do Comércio da China naquele ano, e é claro que os dados oficiais chineses não incluem tais M&A em suas estatísticas. E do lado brasileiro, esta F&A também é classificada como uma F&A doméstica e não transfronteiriça, já que ambas as partes adquirentes são empresas registradas no Brasil“.

A razão desta superestimação vem da presença de dois centros financeiros offshore globais na ALC – as Ilhas Cayman e as Ilhas Virgens Britânicas. “96% do estoque de investimentos da China está concentrado nessas duas regiões e, assim como os investimentos de empresas multinacionais de outros países, são para fins de otimização financeira, não para investimentos na indústria e, portanto, não estão de acordo com o entendimento usual de investimento“, afirma. Após excluir os investimentos nas duas regiões acima mencionadas, o estoque de investimentos chineses na ALC era de US$ 17,8 bilhões a partir de 2019, disse Lin. Ele ressaltou que, olhando para a composição do investimento estrangeiro na ALC nos últimos 10 anos, fica claro que, mesmo com um cálculo das estatísticas mais estreito do investimento chinês, sua parcela de novos investimentos no local aumentou significativamente.

Qual é a imagem das empresas chinesas na América Latina e no Caribe?

Citando o exemplo das empresas chinesas registradas diretamente na região, Lin aponta que tais investimentos são pequenos, em sua maioria de pequenas e médias empresas (PMEs), e que embora proporcionem um grande número de empregos, as condições de trabalho e bem-estar não têm vantagens. “Por exemplo, as empresas chinesas que investem em autopeças no Brasil e no México, têm salários em média significativamente mais baixos do que suas contrapartes na Europa e nos EUA. De certa forma, é fácil entender que as empresas estão controlando os custos sem infringir a lei, mas em termos de construção de imagem, isto não pode ser dito que seja uma contribuição positiva“.

Ao mesmo tempo, as empresas chinesas estão acostumadas a ver o governo como o coordenador do projeto e de interesses, e em certa medida negligenciaram a comunicação com organizações sociais e comunidades na condução de negócios, falhando assim em transformar a responsabilidade social que assumiram em vantagem: “as empresas chinesas deveriam aprender mais com as empresas japonesas na ALC a este respeito”, Lin apontou. “O investimento na indústria manufatureira da China é muito popular no local. Tal investimento não só favorece a industrialização da economia latino-americana e caribenha, mas também otimiza a estrutura do comércio bilateral e incorpora ainda mais a indústria manufatureira latinoamericana à cadeia de valor global, alavancando a posição das empresas chinesas entre a cadeia industrial global”.

O professor Yue mencionou que empresas chinesas como Liugong Machinery, Jiangling Motors, BAIC Foton Motor e outras têm uma boa imagem na América Latina. Fusões e aquisições em grande escala são atualmente uma forma importante para a China e a ALC complementarem as vantagens uma da outra e cooperarem-se na capacidade de produção. Na opinião de Yue, a capacidade de gestão e eficiência operacional dos adquirentes chineses com contexto de empresas Estatais ainda não foram comprovadas. “A prática no futuro terá um impacto decisivo na imagem pública e reputação de tais empresas”, ele comentou.

Por que a “armadilha da dívida da China” é uma proposição falsa?

Vale ressaltar que as fusões e aquisições de empresas chinesas podem obter apoio financeiro dos bancos chineses, o que também gera uma relação de dívida entre a China e países anfitriões, que se traduzirá em recebimentos ou perdas comerciais para o lado chinês. Assim, quando um país anfitrião não puder pagar o empréstimo pode ocorrer a chamada “armadilha da dívida chinesa”, uma questão que sempre levanta diversas indagações.

Quanto a isso, Lin argumenta que a “armadilha da dívida” é uma proposição falsa, que assume que ao criar uma dívida enorme que resulta em insolvência, o acordo é então modificado para alcançar algum tipo de controle de um país sobre o outro: “Mas na realidade, quando um projeto encontra problemas de pagamento de dívidas, as empresas chinesas geralmente optam por prolongar o prazo de vencimento da dívida, o que não é diferente da abordagem adotada pelo FMI e outras organizações internacionais. As empresas chinesas às vezes até cancelam a dívida completamente, então como vai gerar uma armadilha?“.

Atualmente, a opinião pública em relação ao investimento chinês está claramente polarizada. Uns acreditam que o investimento da China contribuiu enormemente para o desenvolvimento da ALC, enquanto outros pensam que o investimento tem objetivos geopolíticos e é uma estratégia perseguida pelos governo chinês. Sobre o primeiro grupo, Lin disse que o investimento da China na região foi posterior ao dos países europeus e estadunidenses, em uma escala enorme e menos agressiva. É compreensível que a ALC gere otimismo. Contudo, deve-se considerar que não é realista esperar que os chineses ignorarem os retornos.

Em relação ao segundo grupo, Lin enfatizou que o sucesso econômico da China nos últimos 40 anos foi baseado no pleno respeito à lógica de mercado e autonomia corporativa. O governo chinês não tem como substituir as empresas na tomada de decisões específicas de investimento, mas só pode liberar sinais de incentivo através de acordos políticos para orientar suas escolhas. A lógica seguida tanto pelas empresas Estatais, quanto pelas empresas privadas em seus investimentos no exterior é essencialmente a mesma das empresas européias e estadunideses, o que é o resultado de uma consideração abrangente das três dimensões de custo, retorno e risco. “Portanto, as empresas chinesas não são os chamados anjos, nem os chamados demônios“, disse Dr. Yue.

Qi Ge
Jornalista do Diário Chinês para a América do Sul
Tradução de Pan Luodan
Do Diário Chinês para a América do Sul

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por Anders Noren

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