Zelenskii sente a frieza dos aliados da Ucrânia

Uma mesa redonda da UE com Volodimir Zelenskii, em 14 de dezembro. Crédito: União Europeia

Três momentos apontam para um lento afastamento da Ucrânia pelos seus aliados mais próximos. Volodimir Zelenskii sentiu-se compelido a ir até à Argentina só para ter algum tempo frente a frente com o homem que obstruía a ajuda da União Europeia. Em seguida, um desvio para Washington, onde o presidente ucraniano, outrora aclamado como herói, saiu de mãos vazias. E então veio a cúpula em Bruxelas, para a qual ele compareceu remotamente, depois que ficou claro que sua presença não seria útil, mesmo quando o destino de seu país estava no centro das atenções, observou a Bloomberg.

A França, a Alemanha e outros informaram que comparecer não seria uma boa ideia, segundo pessoas familiarizadas com a discussão, que falaram sob condição de anonimato. Precisavam de espaço para tentar chegar a um acordo com o rebelde primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban que, orgulhosamente, mantém laços com a Rússia.

Em Bruxelas, a Ucrânia obteve uma vitória largamente simbólica com um acordo para iniciar negociações de adesão. Orban, de forma reveladora, vetou o pacote de ajuda de 50 mil milhões de dólares da UE, atrasando as negociações para o início do próximo ano. Em Washington, a Câmara dos Representantes deixou a cidade até 9 de janeiro sem aprovar o pedido do presidente Joe Biden de um adicional de 61 mil milhões de dólares em assistência à Ucrânia, enquanto os republicanos continuam a pressionar e exigir o controle sobre as fronteiras.

Os acontecimentos da semana passada contrastam fortemente com a recepção que Zelenskii teve outrora e expõem a árdua luta por apoio durante um ano eleitoral nos EUA, quando Donald Trump tenta retomar a Casa Branca. Há história entre os dois. Em 2019, Trump atormentou o recém-eleito Zelenskii para investigar os Bidens. Para os aliados, a redução do apoio está ligada, em parte, a uma contraofensiva muito alardeada que não conseguiu satisfazer as elevadas expectativas deles.

Mais tarde naquela noite, Orban forçou a UE a deixar as discussões para 2024. Cada dia conta para a Ucrânia nesta altura, uma vez que os combates serão retomados no início da primavera, com Putin a tentar ganhar tempo, enquanto Zelenskii sente a pressão para mostrar resultados no campo de batalha. Kiev não ficará necessariamente sem dinheiro nas próximas semanas, mas as lutas internas e os atrasos entre os aliados levantam questões sobre a capacidade dos apoiantes da Ucrânia sustentarem a ajuda a longo prazo, especialmente à medida que a luta chega a um impasse e nos EUA a campanha presidencial esquenta.

Depois de apoiar firmemente a Ucrânia durante quase dois anos, mais de 110 mil milhões de dólares continuam bloqueados em ambos os lados do Atlântico, com a ajuda a Kiev a tornar-se cada vez mais uma moeda de troca política. Alguns líderes da UE observaram que poderiam enfrentar dificuldades em manter o apoio público à Ucrânia se o bloco gastasse dinheiro com o país, mas não tivesse recursos para outros problemas.

O segredo de Biden na Ucrânia: o que há de tão monstruoso que leva a sua completa omissão midiática?

Políticos nacionalistas e populistas, dos Países Baixos a França, procuram ganhos nas eleições para o parlamento da UE do próximo ano e querem que questões como manter os imigrantes fora da UE sejam priorizadas, em detrimento do dinheiro para um conflito que está além de suas fronteiras. Os atrasos dos EUA e da UE na ajuda à Ucrânia correm o risco de enviar a mensagem errada, não apenas a Putin ou mesmo a Zelenskii, mas também a uns aos outros.

Os diplomatas europeus reconheceram a urgência da ajuda rumo à cimeira, especialmente porque os EUA também se encontram num impasse. Eles estão interessados ​​em contrariar quaisquer argumentos de que a UE não está a exercer a sua influência para apoiar a Ucrânia ou a sua própria segurança…

Fonte: Texto originalmente publicado em inglês no site da International Affairs.
Link direto: https://en.interaffairs.ru/article/bloomberg-zelenskiy-feels-the-chill-from-ukraines-allies/

Tradução – Alessandra Scangarelli Brites – Intertelas

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