
Baseada no Webtoon Kakao de mesmo título, que destaca as experiências de vida de Lee Ra Ha, uma ex-enfermeira, “Uma dose diária de sol” trata de um tema delicado, polêmico e, aparentemente, ainda desconhecido para muitas pessoas: a saúde mental. Ambientado em uma unidade de psiquiatria dentro de um hospital geral de Seul, o Hospital Universitário Myungushin, vai abrigar uma equipe de médicos (as), enfermeiras (os), suas competências e histórias de vida.
Com foco na associação entre psicodiagnóstico referenciado no Código Internacional de Doenças (CID 10), tratamento medicamentoso disciplinado, aconselhamento e ambiente de acolhimento no cuidado do paciente e seus familiares em ambiente protegido, a abordagem aponta para o que hoje definimos como psiquiatria baseada em evidências que visa assegurar o tratamento individual baseado na informação mais atual possível na busca do estado de bem-estar, conforme preconiza a constituição brasileira para saúde. “O importante é fazer um diagnóstico preciso e começar o tratamento o quanto antes”, vai afirmar a (enfermeira) senhorita Min.

Muito além do diagnóstico, a série vai abordar as histórias de vida de cada personagem, suas
tristezas e mágoas, perdas, remorsos e angústias com riqueza de detalhes para que o
expectador consiga fazer as associações significativas entre o sofrimento e a vivência de uma
situação de ansiedade paralisante como na Síndrome do Pânico que Song Yu Chan desenvolve, por não saber dizer não e limitar as demandas excessivas no trabalho; a angustia intensa e o desânimo incontrolável no quadro de depressão que a senhorita Jung (enfermeira Jung Da Eun) desenvolve a partir do suicídio do sr. Kim, um paciente que se refugia em delírios sistematizados de ação cinematográfica, na tentativa desastrosa de enfrentar sentimentos recorrentes de fracasso.
Entretanto, os sinais da depressão da senhorita Jung já estavam ali há algum tempo, mas o preconceito impedia todos de reconhecer. Não faltarão histórias cheias de emoção e surpresa. A proposta de acolhimento em unidades de saúde mental em hospitais gerais, para pessoas que apresentam episódios de transtornos mentais, de diferentes espectros, intensidades e gravidade é o que temos de mais atual no mundo, pós movimento antimanicomial. No clássico “Manicômios, Prisões e Conventos”, E. Goffman afirma que o comportamento do doente mental na instituição fechada diz respeito muito mais à sua condição de internado, pois elas isolam a pessoa adoecida do fluxo de suas relações sociais.
O modelo da Unidade de Saúde Mental em Hospital Geral favorece internações breves e a manutenção dos vínculos sociais e familiares dos pacientes. O modelo tem a capacidade de
oferecer a proteção necessária nos episódios de crise, mas, também, auxiliar na busca de
novas alternativas de relações mais leves e arejadas como alternativas aos padrões do
adoecimento.

No Brasil, apesar do modelo ter se provado bastante eficiente, as iniciativas dos Centros de Atenção Psicossocial foram mais bem-sucedidas. Em nosso meio, o transtorno mental, ao adentrar o espaço hospitalar geral, faz aflorar fortes preconceitos da parte dos profissionais de saúde, médicos e não médicos. A preferência, apesar de todas as evidências de insucesso, ainda tem sido a instituição fechada. Feita essa ressalva, voltemos à série.
“Uma dose diária de sol” nos informa que a solidariedade é um elemento essencial para o bom trabalho em equipe e que este tipo de trabalho é essencial para que os envolvidos possam buscar um outro caminho para a felicidade. Nos informa também que estamos todos numa fronteira tênue entre o normal e o anormal e, por fim, nunca percamos a esperança, porque a cada amanhecer, o sol com seus raios luminosos, nos envolve em sua claridade e calor, depois da escuridão.
Ana Maria Otoni Mesquita
Graduada em Psicologia pela PUC-RS
Mestre em Psicologia Clínica e Psicodram pela PUC-Rio
Doutora em Ciências pela Ensp-Fiocruz, Rio de Janeiro

Sensacional!!