“Guerra Civil” (2024): a ficção como alerta para o presente

“Guerra Civil” (Civil War), dirigido por Alex Garland. Crédito: Divulgação.

Nada é mais assustador do que a realidade. Os horrores da nossa história superam os piores cenários imaginados na ficção. Perante isso, alguns artistas optam por um recurso interessante ao produzir suas obras: apresentar um cenário possível a partir de elementos existentes no seu presente. “Guerra Civil” (Civil War), dirigido pelo britânico Alex Garland (do excelente “Ex_Machina”, um dos melhores filmes de ficção científica da década de 2010), utiliza dessa premissa ao apresentar os Estados Unidos destruído por um conflito interno baseado em posições muito semelhantes a que encontramos naquele país e em todo o mundo no momento atual.

“Guerra Civil” não é um filme propriamente de guerra, nem se importa em explicar muito o que aconteceu naquele universo. O conflito é o pano de fundo para uma reflexão sobre contendas reais no presente da humanidade. Claro, algumas questões inerentes à guerra estão presentes na película: a destruição, as mortes em massa, a alienação de não saber mais o porquê se luta (como na cena na feira abandonada de Natal). Mas, Garland utiliza a roadtrip de um grupo de correspondentes de guerra como um inventário de extremismos políticos da sociedade estadunidense, muitas vezes mimetizados mundo a fora, inclusive no Brasil.

“Guerra Civil” (Civil War) do diretor britânico Alex Garland

O fanatismo religioso do atentado terrorista do início do filme é parte integrante das discussões políticas atuais, com seus fundamentalistas – de qualquer religião, mas principalmente cristãos – querendo impor versões retrógradas e punitivas de suas crenças como modo de vida para todos. O ataque suicida é apenas uma variável catártica de uma violência cotidiana que atinge a todos, em especial, aqueles que se negam ativamente a se enquadrarem em relações de controle. A presença constante das armas entre civis, e não só nos exércitos em conflito, é outro componente dos debates contemporâneos oriundos dos Estados Unidos e sua tradição de alimentar a ideia de segurança a partir do armamento próprio a despeito de todos os dados demonstrarem o oposto.

A xenofobia e o racismo são muito bem retratados na tensa cena da vala comum, em interpretação sublime de Jesse Plemons, como o clássico estadunidense branco, homem, cristão, devidamente armado com seu fuzil. O arquétipo do “cidadão de bem”, que ao questionar “que tipo de estadunidense você é?” deixa claro que não basta nascer nos Estados Unidos, você precisa “parecer estadunidense”, ou seja, ser como ele. Quem não se enquadra se torna “o outro”, aquele que será perseguido e eliminado em situações extremas, como a guerra e o fascismo.

Desmascarando falhas muito enraizadas na democracia dos EUA

E claro, sempre há em situações extremas um outro comportamento deplorável: os indiferentes, aqueles que tentam levar sua vida da mesma forma que antes, independente da destruição e da carnificina que os rodeiam. Convenhamos, uma posição também tipicamente americana. São aqueles que aderem ao fascismo ou ao partido da guerra não por convicção ideológica, mas simplesmente para tirar proveito próprio, seja diretamente, agradando o regime, seja indiretamente, com o discurso de autopreservação que guarda quase sempre um hedonismo repugnante.

Garland ambienta nos Estados Unidos cenas que o mundo ocidental se acostumou a ver em outras latitudes, sofrimentos protagonizados por pessoas não-brancas: campos de refugiados, escassez de comida e água, execuções sumárias, homens-bomba, saqueadores e milícias. É aí que reside o grande triunfo da obra. Ao misturar comportamentos tipicamente de um cidadão dos EUA, exacerbados pela polarização atual, com exemplos de catástrofe humana, o diretor e roteirista passa seu recado: o que vocês defendem hoje pode levar a esse cenário amanhã. “Guerra Civil” é um alerta de que as condições para que seu roteiro cinematográfico se torne realidade existem e estão ativas nos Estados Unidos do presente.

Todo esse debate se materializa a partir do olhar de um grupo de correspondentes de guerra, com grandes interpretações de Kristen Dunst (Lee, uma veterana que representa a consciência cansada do que vê), nosso Wagner Moura (Joel, o jornalista caçador de grandes furos), Stephen McKinley Henderson (Sammy, outro veterano, sábio e conformado) e Cailee Spaeny (Jessie, a novata que vai sofrer uma brutal jornada de amadurecimento), embalados em grande fotografia de Rob Hardy e trilha sonora de Ben Salisbury e Geoff Barrow.

Roberto Santana Santos
Professor da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (EDU-UERJ), doutor em políticas públicas e mestre em história política.

Ficha Técnica
Título: Guerra Civil (Civil War)
Direção e roteiro: Alex Garland
Elenco: Kirsten Dunst, Wagner Moura, Cailee Spaeny, Stephen McKinley, Nick Offerman, Sonoya Mizuno, Jefferson White, Nelson Lee, Evan Lai, Jesse Plemons, Karl Glusman, Jin Ha, Jojo T. Gibbs, Juani Feliz, James Yaegashi, Greg Hill, Edmund Donovan, Jess Matney
Duração: 109 min (1h e 49 min)
País e ano de lançamento: Estados Unidos/Reino Unido, 2024

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