“Não é a Israel que meus pais prometeram”: uma sincera autocrítica judaica por Harvey Pekar

Crédito: Vitralizado.

Harvey Pekar (1939-2010) foi um importante quadrinista underground e crítico musical. Norte-americano de origem judaica, Pekar foi um dos responsáveis ao longo da segunda metade do século XX por elevar a importância das graphic novels, utilizando uma forma de trabalho que batizou de “biografia escrita enquanto acontece”, especialmente em sua premiada série “American Splendor”. O recurso de utilizar os acontecimentos de sua própria vida como base para suas histórias surge de maneira mais macro ao apresentar sua visão autocrítica sobre o sionismo, o Estado de Israel e sua relação conflituosa com os palestinos.

Orginalmente publicado de maneira póstuma em 2012, a Editora Veneta traz ao mercado brasileiro “Não é a Israel que meus pais prometeram” (clique aqui) no tempo certo (2024), quando não só o conflito entre israelenses e palestinos torna-se novamente o centro das atenções mundiais, como as ações de Tel Aviv são cada vez mais questionadas até mesmo por antigos aliados, como os Estados Unidos. É com uma franqueza mal-humorada que Pekar narra, quase que em uma conversa com o leitor, sua desilusão com Israel ao longo da vida, acompanhado por enquadramentos inteligentes de JT Waldman, desenhista também de origem judaica.

O trabalho de Waldman destaca-se pela alternância de estilos de acordo com o momento temporal ilustrado. Quando a história está no presente dos narradores, Waldman dá bastante atenção às expressões faciais da dupla de criadores, demonstrando insatisfação, desprezo e dúvida perante as ações do Estado de Israel e alguns posicionamentos de boa parte da comunidade judaica. Quando retrata eventos históricos, o desenhista muda de estilo, enchendo a tela com vários quadros e sempre utilizando elementos artísticos do período descrito: quando na Antiguidade, os desenhos parecem ser feitos em alto relevo, no período Moderno, assemelham-se a mapas da época das Grandes Navegações, enquanto a partir do século XX a arte ganha um enquadramento mais cinematográfico.

Crédito: Editora Veneta.

 

Ciente que está sendo lido, Pekar transita por sua cidade natal, Cleveland, contando sua história. Filho de pais que migraram da Polônia para os Estados Unidos, o autor nos descreve como o apoio à criação do Estado de Israel ganhou força após a Segunda Guerra Mundial e os horrores do Holocausto. Tal inclinação dava-se em diferentes setores, que podem ser percebidos pelos pais de Pekar: a mãe marxista e ateia, o pai religioso e seguidor das tradições. Ambos, porém, concordavam que os judeus somente estariam seguros quando tivessem seu próprio Estado.

Mesclando sua própria vivência na comunidade judaica com os acontecimentos mundiais, Pekar nos apresenta uma história do povo judeu que evidencia a pluralidade de posicionamentos políticos existentes em tal agrupamento: sionistas, não-sionistas, ateus, fundamentalistas religiosos, comunistas, liberais, fascistas, provincianos, cosmopolitas, etc. Como qualquer coletividade, os judeus não são um monólito. Isso desconstrói tanto o antissemitismo que persegue os judeus ao longo da história, atribuindo-lhes sempre um teor conspiracionista, quanto a posição sionista, que deseja se apresentar como porta-voz de todos os judeus, quando não passa de um posicionamento político de extrema-direita, de teor racista e colonialista, dentro dessa coletividade.

Pekar desnuda as contradições da comunidade judaica, o discurso sionista e o conflito contra os palestinos, como na passagem onde narra a primeira guerra árabe-israelense de 1948-49 considerada a “guerra de independência” pelos judeus devido à criação do Estado de Israel, e, por outro lado, a Nakba (catástrofe, em árabe) para os palestinos que tiveram suas terras e propriedades roubadas e foram expulsos da região que habitavam por séculos.

Crédito: Editora Veneta.

A maioria dos descendentes da Nakba continua vivendo em outros países árabes da região, como cidadãos de segunda classe, num dos maiores impasses para o fim do conflito. Outra passagem importante, é quando Pekar narra que tentou migrar para Israel na juventude e teve seu pedido negado pelas autoridades. Perante a “Lei do Retorno”, qualquer judeu no mundo pode requisitar cidadania israelense e mudar para o país. Ou pelo menos é o que diz a propaganda sionista contestada pelo autor ao narrar sua experiência.

No processo de conscientização de Pekar, a vitória israelense na Guerra dos Seis Dias (1967) foi um ponto crucial. O gradual questionamento a Israel que vinha da interação do autor com outras pessoas, especialmente seus amigos de esquerda, alcança o rompimento ao perceber que Israel não se defendia, mas sim, tomava territórios de outros. Em 1967, Israel anexou as Colinas de Golã da Síria, territórios do Líbano e a Península do Sinai do Egito (essa posteriormente devolvida).

Mais grave, Israel ocupou a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, áreas que pela determinação da ONU deveriam ser parte do Estado da Palestina. Fica evidente para o autor que os governantes israelenses não estavam preocupados em encontrar a paz, mas sim em expandir o país para formar o “Grande Israel” bíblico. Pekar nos salienta como a partir desses acontecimentos a sociedade israelense vai se tornando cada vez mais inclinada para a extrema-direita e o fanatismo religioso, tão evidentes em 2024 com o governo fascista de Benjamin Netanyahu.

Crédito: Editora Veneta.

Ao final da obra, quando se discute a situação permanente de barbárie no Oriente Médio, Waldman preenche o fundo das páginas com um labirinto, para invocar a complexidade da questão. Pekar conclui sua dura autocrítica judaica de maneira direta: “ser judeu não nos isenta automaticamente de culpa. Apesar de os judeus terem uma longa história de opressão, a forma como os israelenses tratam os palestinos vai contra as noções judaicas de justiça”. A obra nos presenteia com um posfácio de Joyce Brabner, viúva de Pekar e coautora de algumas de suas obras, nos informando que até seu funeral foi uma audácia contra o conservadorismo judaico.

“Não é a Israel que meus pais prometeram” é uma obra de suma importância por dois motivos: em primeiro lugar, nos apresenta diversas nuances de um conflito que molda a nossa contemporaneidade por meio de uma narrativa leve e acessível, mas que não significa ausência de rigor histórico. Segundo, promove um compromisso ético e uma catarse autocrítica, expondo a necessidade de encarar o desconfortável e o indesejado na comunidade judaica, fugindo de explicações fáceis e condescendentes. Em tempos de crescente repúdio ao genocídio do povo palestino realizado pelo sionismo, a obra de Pekar e Waldman demonstra que expiar os próprios pecados e não aderir às (violentas) soluções fáceis ainda é o correto a fazer, mesmo que mais trabalhoso.

Roberto Santana Santos
Professor da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (EDU-UERJ), doutor em políticas públicas e mestre em história política.

Ficha técnica
Título: Não é a Israel que meus pais prometeram
Autores: Harvey Pekar e JT Waldman. Posfácio de Joyce Brabner
Editora: Veneta
Ano de publicação: 2024 (publicação original 2012)

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