Câmara de Intercâmbio Cultural Brasil China no Rio celebra o Festival da Lua e debate a importância da cultura para as relações sino-brasileiras

O diretor do Centro de Cultura Oriental do Rio de Janeiro, Rubens Nemitz, em uma apresentação de caligrafia chinesa. Crédito: Alessandra Scangarelli Brites/Intertelas.

Neste domingo, dia 15 de setembro de 2024, a Câmara de Intercâmbio Cultural Brasil China, sediada na cidade do Rio de Janeiro, comemorou, junto a diversos amigos brasileiros, uma data importante na cultura chinesa: o Festival da Lua, ou o Festival do Meio do Outono, ou o Festival do Bolo da Lua, como é popularmente conhecido. Convidada pela presidente executiva da Câmara, Chun Miao Ji, a Revista Intertelas participou do evento. A programação da festividade contou com fórum temático, apresentações artísticas e jantar de confraternização. Na ocasião, estiveram presentes autoridades da diplomacia chinesa, da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, de instituições que trabalham por uma maior cooperação entre os povos brasileiro e chinês, integrantes da mídia do Brasil e da China e representantes da sociedade carioca e comunidade chinesa.

Conforme fontes consultadas, o Festival da Lua é realizado no 15º dia do 8º mês do calendário lunar chinês com lua cheia à noite, correspondendo a meados de setembro ao início de outubro do calendário gregoriano. Neste dia, os chineses acreditam que a lua está em seu tamanho mais brilhante e cheio, coincidindo com a época da colheita no meio do outono. O Festival do Meio Outono é um dos feriados mais importantes da cultura chinesa; sua popularidade está no mesmo nível do Ano Novo Chinês e sua história remonta há mais de 3.000 anos. O evento celebra conceitos como: reunião com a família e amigos; agradecimento por uniões harmoniosas com o oferecimento de bolos lunares uns aos outros; e o desejo de nascimentos de novos membros da família, longevidade e um futuro próspero.

A secretária-geral da Câmara, Wu Xiaoman, abriu o dia de celebração desejando a todos presentes um festival repleto de alegria e união. Em seu discurso de abertura das comemorações, o presidente da Câmara de Comércio de Intercâmbio Cultural Brasil China, Shangghuan Jianfeng, disse que há cinquenta anos foi inaugurado uma nova era na amizade sino-brasileira. “Desde então, as duas brilhantes estrelas da cooperação sul-sul têm avançado lado a lado, sob os princípios de respeito mútuo, benefício recíproco e desenvolvimento compartilhado, criando juntos um futuro glorioso. Estes cinquenta anos têm sido marcados pelo contínuo fortalecimento da confiança política mútua, pelo aumento constante dos intercâmbios econômicos e comerciais e pelo desenvolvimento das trocas culturais”, salientou.

A secretária-geral da Câmara de Intercâmbio Cultural Brasil China, Wu Xiaoman. Crédito: Mariana Scangarelli Brites/Intertelas.

O presidente ainda destacou que o Festival do Meio Outono, um feriado tradicional que simboliza união e abundância, e coincide com o aniversário da fundação da República Popular da China, é o momento ideal para transmitir e promover a cultural chinesa, mas também aproveitar a oportunidade para aprofundar os intercâmbios culturais sino-brasileiros, aumentando a compreensão e a amizade entre os dois povos. “Continuaremos a consolidar a ponte desta amizade e escrever novos capítulos para a cooperação e o intercâmbio entre os dois países”.

O presidente da Câmara de Comércio de Intercâmbio Cultural Brasil China, Shangghuan Jianfeng. Crédito: Mariana Scangarelli Brites/Intertelas.

Fórum – “O papel da cultura chinesa nas relações sino-brasileiras”

Em sua participação no fórum temático, o cônsul-geral interino da China no Rio de Janeiro, Wang Haitao, refletiu sobre como os intercâmbios culturais podem servir de ponte para a cooperação econômica, política e científica entre Brasil-China. “Esta amizade por mais que tenha 50 anos, historicamente, é considerada uma relação nova. E para toda abordagem inovadora é necessário aprender a cultura, a religião e o idioma de ambas as partes. Em todos os campos, é necessária a compreensão das dificuldades de cada um e, em meio a tais adversidades, deve-se construir pontes, no intuito de estabelecer novas amizades”.

Para o diplomata, a cooperação cultural fortalece o entendimento mútuo entre os povos e auxilia áreas como as trocas comerciais e as relações econômicas. “Ao valorizar e compreender os valores de cada nação, criamos bases sólidas para as parcerias estratégicas em diversas áreas. No futuro, a cooperação cultural sino-brasileira pode ser aprofundada nos setores como educação, arte, tecnologia e intercâmbio acadêmico. Podemos investir na promoção de festivais culturais, colaborações artísticas e expansão do aprendizado de idiomas”.

O cônsul-geral interino da China no Rio, Wang Haitao. Crédito: Mariana Scangarelli Brites/Intertelas.

Sobre o papel das novas gerações nos intercâmbios culturais entre China e Brasil, o cônsul interino disse que a função dos jovens é aproximar as pessoas. Segundo ele, com o advento da tecnologia, as pessoas conseguem se comunicar de regiões distantes, em um espaço de tempo menor. “Esta nova base juvenil, ela se constitui e disponibiliza mais recursos, mais conhecimento e, com essas novas facilidades, os jovens conseguem superar as barreiras das gerações anteriores e estabelecer conexões e pontes. Afinal, tudo começa pela conversa e pela troca de informações entre duas pessoas desconhecidas, nesta linha começam as amizades novas”.

Já para a deputada estadual e vice-presidente da Assembleia Legislativa do estado do Rio de Janeiro, Tia Ju, a China causa fascinação pela união entre a preservação da cultura milenar e o desenvolvimento tecnológico, além da inovação da época atual. “Em minhas viagens, chamou a atenção principalmente a forma como a China organiza as suas cidades, a padronização urbanística, a organização de trânsito, a forma de relação entre as pessoas e, destaco também, a forma calorosa, amigável e amável que os chineses recebem os brasileiros e os demais povos visitantes”. Segundo a deputada, a China desmistifica muita informação falsa que é dita sobre ela. “A China representa inovação, tecnologia, relações culturais e bilaterais amigáveis. Da China é possível concluir que é possível crescer e se desenvolver sem perder as suas tradições, a sua essência”.

Quando questionada sobre as possibilidades de integração e aproximação entre os povos através da culinária, a deputada salientou que este ramo é uma forma bastante prazerosa de trocas culturais entre as nações. “E neste campo abra-se um leque de oportunidades para cooperação no ramo gastronômico, como a abertura de restaurantes, e o intercâmbio cultural, pois nestes momentos não apenas nos alimentamos, mas compartilhamos grandes momentos com os amigos e elementos das nossas respectivas culturas”.

A deputada estadual e vice-presidente da Assembleia Legislativa do estado do Rio de Janeiro, Tia Ju. Crédito: Mariana Scangarelli Brites/Intertelas.

O chefe da Agência de Notícia Xinhua no Rio de Janeiro, Chen Weihua, que vive há mais de 10 anos no Brasil, respondeu a perguntas sobre a influência cultural que Brasil e China tem um sobre o outro. Segundo ele, a presença cultural brasileira na China teve avanço significativo com a exibição da novela “Escrava Isaura”, que foi um grande sucesso no país asiático. Esta obra da televisão brasileira traz uma mensagem muito importante sobre a importância das lutas dos povos por liberdade.

Hoje, nos ramos tecnológico e cultural, há até jogos que são baseados na cultura chinesa que ajudam na divulgação cultural, em especial entre os jovens. Além disso, as duas nações já estão tendo esta troca na cooperação artística. Durante as comemorações dos 50 anos das relações sino-brasileiras vieram para o Brasil diversas trupes de festivais culturais da China, onde foram apresentados ao público brasileiro diversos elementos culturais chineses fundamentais”.

Ele ainda comentou sobre o fortalecimento significativo do ensino do mandarim no Brasil, o que representa uma quebra da unipolarização cultural do inglês, dos EUA. “Além disso, unidades de saúde voltadas para a medicina chinesa estão sendo expandidas. A importância do aumento de unidades culturais da China ajuda, pois pela experiência pessoal dele, quando iniciou seus estudos de português, foi importante também expandir seus conhecimentos sobre a cultura, a arte, a geografia brasileira, o que foi essencial para ele absorver o idioma do português brasileiro. Assim, ele sugere aos que têm interesse em estudar mandarim, começar pelo estudo e conhecimento da arte e da cultura”.

O chefe da Agência de Notícia Xinhua no Rio de Janeiro, Chen Weihua. Crédito: Mariana Scangarelli Brites/Intertelas.

Nas palavras do presidente da Associação de Amizade Sino-Brasileira, Henrique Nóbrega, a cultura reflete muito os valores, os costumes, os gostos, tudo que representa as características básicas e os laços de uma sociedade. Assim, para ele, no que se refere à cooperação cultural é importante romper barreiras e aproximar as duas nações que são tão distantes geograficamente.

E nisso podemos citar a área da música que é de extrema importância. O Brasil já possui diversas orquestras sinfônicas levando aos chineses os elementos culturais e históricos da sociedade brasileira. O campo do cinema também tem uma relevância estratégica e há muito espaço para cooperação a ser explorado, em coproduções artísticas. Da mesma forma podemos mencionar a área de produção de softwares. Por isso, a relação de pessoa a pessoa, com o aumento de viagens que os brasileiros e chineses estão realizando entre os dois países, promove um intercâmbio e trocas culturais grandes e profundas entre os povos”.

O presidente da Associação de Amizade Sino-Brasileira, Henrique Nóbrega. Crédito: Mariana Scangarelli Brites/Intertelas.

Interação entre as áreas do comércio e da cultura

Para a correspondente e chefe da Rádio e Televisão Central da China, Tang Ye, no que diz respeito à interação das relações comerciais e culturais é preciso levar em conta os interesses do consumidor chinês e do brasileiro que, atualmente, estão mais atentos e inclinados a um consumo mais responsável, onde se utiliza a tecnologia verde, menos prejudicial ao meio ambiente. “O potencial do Brasil para esta área ambiental é gigantesco, o que atrai o interesse de muitas empresas da China com foco neste ramo, a exemplo dos carros elétricos, cujas companhias já têm fábricas instaladas em território brasileiro e ajudam a demonstrar ao público local o potencial tecnológico de qualidade da China.  E isso auxilia na percepção positiva e nas trocas culturais”.

Já quanto a compreender a cultura de um país distante, a jornalista sublinhou a necessidade de viajar e conhecer a cultural local dos países, para que as pessoas possam ter suas próprias vivências e formar suas próprias percepções sobre os povos e suas culturas. “Nada substitui o contato direto, o calor humano, o contato e troca de informações direta, de forma presencial, entre as pessoas. Infelizmente, o povo brasileiro ainda é muito influenciado pela mídia dos países do ocidente que abordam problemas e questões da China que, na realidade, já foram superados em um passado mais próximo”.

O conselheiro comercial do Consulado Geral da China no Rio de Janeiro, Jing Yanhui, também foi chamado a responder perguntas e arguir sobre a interação de cultura e comércio. Segundo ele, os comerciantes têm intrinsicamente o objetivo de atender às demandas dos consumidores e isso reflete muitas características culturais que estão presentes desde a forma como os produtos estão sendo formulados para atender às necessidades de um público. “Neste cenário, Brasil e China podem e devem explorar de forma mais ampla”.

Crédito: Mariana Scangarelli Brites/Intertelas.

Turismo na China

O vice-cônsul do Consulado Geral da China no Rio, Can Zeng, trouxe mais informações ao público presente sobre as possibilidades de turismo no país asiático. Para ele, a experiência turística na China vai além dos tradicionais pontos históricos e das paisagens tradicionais. “O país combina o seu rico passado cultural com um estilo de vida moderno e altamente tecnológico. O uso de tecnologias avançadas facilita a exploração dos pontos turísticos, fornecendo informações em vários idiomas através de aplicativos e guias com inteligência artificial”.

O diplomata também ressaltou a existência do transporte inteligente como carros elétricos, bicicletas compartilhadas e até veículos autônomos, que permitem o deslocamento mais prático e sustentável dos turistas no território chinês. “A cooperação entre Brasil e China na área do turismo tem sido intensificada com políticas de vistos mais flexíveis e pagamentos móveis que simplificam a vida do turista. Atualmente, cidadãos de 54 países, incluindo o Brasil, podem aproveitar a política de isenção de visto por 144 horas em 37 cidades chinesas como Beijing, Shanghai, Guangzhou e Shenzhen. Para isso, basta ter um passaporte válido e uma passagem aérea para um terceiro país dentro deste prazo. Além disso, a recente introdução do visto de múltiplas entradas por dez anos tornou as viagens à China ainda mais acessíveis e práticas”.

Ele ainda lembrou que as plataformas como Alipay e WeChat Pay estão disponíveis aos estrangeiros, permitindo que os brasileiros vinculem seus cartões internacionais e façam pagamentos com facilidade, seja em grandes lojas, seja em pequenos comércios ou até mesmo nos mercados de rua. “A possibilidade de usar os mesmos serviços que os moradores locais faz com que os turistas se sintam mais integrados e à vontade na China”.

A China compromete-se a ampliar suas reformas internas, trazendo mais oportunidades ao mundo

 O encerramento da festividade ficou sob responsabilidade do cônsul interino da China, Wang Haitao. De acordo com ele, o Festival da Lua tem um grande significado, carregado de romantismo, e que encapsula os anseios do povo chinês em valorizar os laços familiares, saudade da Terra Natal e a aspiração dos chineses a estarem novamente reunidos com todos aqueles que lhes são caros. Além disso, reflete a sincera expectativa do povo chinês de viver em paz e em harmonia no mundo.

Em outubro, será comemorado septuagésimo quinto aniversário da fundação da República Popular da China. Nestes setenta e cinco anos, o país, sob liderança do Partido Comunista, progrediu de uma condição de sociedade de carência para uma sociedade moderadamente próspera, atingindo feitos grandiosos. O terceiro plenário do vigésimo comitê central do Partido Comunista da China foi recentemente realizado com sucesso em Beijing. Na reunião, foi estabelecido um plano abrangente para aprofundar ainda mais reformas e promover a modernização no estilo chinês”, contou o diplomata.

Conforme ele, o encontro delineou medidas importantes das reformas para os próximos cinco anos que fornecerão uma base sólida para a construção de uma China mais forte e o rejuvenescimento da nação. “Este evento também enviou ao mundo um sinal importante de que a China continuará a promover reformas e abertura, demonstrando a sua determinação em compartilhar oportunidades com o mundo”.

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