
O que chamamos, em literatura, de subtexto é uma forma de revelar camadas mais profundas de significado, sentimentos sutis, críticas e reflexões sociais implícitas. Portanto, os que reduzem a série coreana “Previsão do Tempo e do Amor”, ou simplesmente, “Clima de Amor”, a apenas uma comédia romântica, identificou apenas a ponta do iceberg, como diria Ernest Hemingway sobre as qualidades do texto literário, deixando passar desapercebidos, a atualidade dos dilemas que afligem a população da bela península asiática.
É fato que a série em 16 episódios, na plataforma Netflix, tem muito mais a oferecer ao expectador. Começando pela analogia entre previsão do tempo e suas características de variabilidade e as relações humanas que carregam a marca da imprevisibilidade. Ambientada no Instituto de Meteorologia da Coreia, cujo lema é de Inovação Meteorológica um avanço para Segurança Pública, enquanto acompanhamos os encontros e desencontros da competente equipe 2 da Previsão do Tempo, comandada pela sra. Jin (Park Min Young), a nova diretora Jin Ha Kyung e o mais jovem e impetuoso meteorologista Lee Sin Woo (Song Kang), recém incluído na equipe, somos envolvidos nos dilemas profissionais e existenciais dos personagens.
Os protagonistas da equipe de Prevenção do Tempo são um exemplo desses dilemas. O sr. Um, experiente meteorologista, passou os últimos anos trabalhando longe da família, deixou o rastro de ressentimento na mulher e na filha, que não reconhece o pai. A sra. Oh deixou para trás uma carreira em ascensão para criar os filhos e ajudar o frágil marido. Esses sofrem com as dores do arrependimento? E mais, o solteiro que ama sua solidão e é envolvido pela brisa subterfugia de uma escritora de contos infantis.

Os mais jovens estão focados em suas carreiras e sofrem com o dilema profissão versus casamento, maternidade/paternidade, especialmente as mulheres. Já os homens são confrontados nos seus papéis de pais e maridos. Há de tudo: pai que sobrevive do jogo e vive da extorsão do filho, mãe autoritária que só pensa no casamento das filhas, e filhos que informam que “se o objetivo do namoro é, necessariamente, casamento e família, é tudo muito sufocante” e perguntam: “porque não apenas amar, deixar o amor acontecer?”
Outro dilema da equipe é enfrentar o ambiente de trabalho, numa situação de namoro entre colegas. As críticas, as intrigas e, também, o apoio que faz do possível futuro casal foco constrangedor do interesse dos demais. Em meio às idas e vindas do clima e dos amores, o roteiro utiliza recuos para criar expectativas de continuidade, múltiplos narradores de subtextos e falas líricas como: “a traição é como o vento que, por onde passa, deixa um rastro invisível de destruição”.

Recentemente, uma reportagem da BBC Brasil informou que o indicador de renovação populacional na Coreia era apenas 0,72, por habitante, revelando que o país pode desaparecer em algumas décadas. A pressão por desempenho escolar e profissional é apontado como uma das causas do alto número de suicídios, assim como o fato de ser uma sociedade muito competitiva. Há, igualmente, uma discussão implícita sobre a responsabilidade do funcionário público, selecionado por concurso no país.
Uma série que nos introduz a uma Coreia cheia de contrastes entre montanhas majestosas, belas praias, chuvas torrenciais, calor escaldante, granizo e neve e que pode ser varrida por tufões. Acima de tudo uma sociedade muito empreendedora, talvez a mais tecnológica do mundo e a pergunta: é possível prever o futuro com alguma segurança? Um roteiro competente, uma trilha musical cativante, os ambientes modernos e bem desenhados, natureza exuberante e a bela ilha de Jeju, conferem à série diversão e leveza, momentos cômicos, outros de dor e superação.
Ana Maria Otoni Mesquita
Graduada em Psicologia pela PUC-RS
Mestre em Psicologia Clínica e Psicodrama pela PUC-Rio
Doutora em Ciências pela Ensp-Fiocruz, Rio de Janeiro

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