
Quase todo mundo conhece ou já ouviu falar sobre o bairro da Liberdade, no centro da cidade de São Paulo. Mesmo quem nunca esteve no local, o identifica facilmente por vídeos e fotos, geralmente devido aos postes de iluminação pública que imitam lanternas japonesas. O que pouca gente sabe é que antes de abrigar parte da maior colônia nipônica do mundo, a Liberdade era um reduto negro, de escravos e libertos.
É justamente sobre esse apagamento da história e da confluência de culturas e humanidades tão diversas no mesmo espaço que trata a excelente história em quadrinhos “Indivisível” de Marília Marz. A obra foi o trabalho de conclusão de curso em arquitetura da autora na Escola da Cidade em 2017. De lá para cá, foi impressa de maneira independente e ganhou diversos prêmios, como o do Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo, até ser lançada pela Editora Conrad em formato digital (2020) e impresso (2022).

Em “Indivisível” a forma faz parte intrínseca do conteúdo. O quadrinho apresenta duas histórias, que começam uma em cada capa e terminam juntas no meio do livro. A ordem da leitura fica a critério do leitor. De um lado temos o resgate da presença negra na Liberdade. Na outra, a cultura japonesa, entre o tradicional e o pop, que compõe a paisagem da metrópole paulistana. Marz faz uma utilização livre de amarras da ideia de “quadrinhos”, já que sua história vai se narrando com uma diversidade tamanha de enquadramentos, quando não pela ausência dos mesmos.

A versatilidade da artista é digna de nota, já que entrega tamanha inovação em curta(s) história(s). Ao terminar a primeira narrativa, o leitor tem que virar o quadrinho de cabeça para baixo e ler a segunda. Aqui compreende-se a forma como parte do conteúdo. Marília Marz apresenta a Liberdade negra e a Liberdade nipônica realmente como indivisíveis, onde as histórias são partes de um mesmo todo, a constituição da cidade de São Paulo e do povo brasileiro.
Escolhemos aqui como “primeira” história a que Marz narra a presença negra na Liberdade a partir da escravidão. O nome das localidades, como o Cemitério dos Aflitos e o Largo da Forca, denuncia a barbaridade a que foram submetidos homens e mulheres naquele lugar. Numa disposição heterogênea de quadros, enfatizando expressões faciais e detalhes dos objetos, a autora denuncia a violência, mas também a formação da cultura brasileira a partir da origem afro, com o samba, a capoeira e a religiosidade. O trabalho daquelas mãos negras, escravizadas ou libertas, está presente nas calçadas, paralelepípedos e telhas das igrejas e ruas do centro paulistano.

Aqui somos apresentados também a Francisco José Chagas, o Chaguinhas, homem negro, cabo do Primeiro Batalhão de Santos, que em 1821, liderou uma revolta pela igualdade de pagamento entre militares brasileiros e portugueses, além de utilizar sua posição para facilitar a fuga de escravos. Chaguinhas foi executado pelas autoridades perante uma multidão revoltada que, após a corda utilizada para enforca-lo se partir três vezes, o que na época levava à consideração de suspender a pena de morte, assistiu o cabo ser espancado até o falecimento, ao que os presentes responderam com gritos de “liberdade”. Segundo a história, foi essa manifestação que levou ao novo nome do bairro que permanece até hoje.

Na “segunda” narrativa, tudo muda, mas no mesmo espaço. Estamos diante da Liberdade do século XXI, na maior cidade brasileira, mas com forte presença japonesa. Aqui Marz utiliza o fundo branco (em contraste ao fundo preto da outra história) e, novamente, abole o enquadramento para dar uma sensação de turbilhão urbano, que nos arrasta para o cotidiano de São Paulo. As memórias, esperanças e práticas dos imigrantes japoneses dão forma a uma comunidade nipo-brasileira, que também vive suas alegrias e dissabores tendo o bairro como personagem principal. Ao fim, a “desorganização da cidade acaba organizando nossa vida” e todos que se espreitam pelos cantos da urbe buscam sua própria “liberdade”.
As duas histórias são, na verdade, uma só, como anuncia a presença dos Komainu, figuras mitológicas japonesas em formas de cão que simbolizam o início e o fim, presentes em vários momentos da obra. Os aspectos da memória e do esquecimento são indivisíveis à experiência humana e coabitam o mesmo espaço, a Liberdade, protagonista das narrativas que rompem os limites da cronologia. A versão da Editora Conrad conta ainda com um material paratextual, que contextualiza os fatos históricos e os lugares retratados no livro, além de abordar a própria definição do que é uma “história em quadrinhos”, decisão acertada perante às inovações trazidas pela autora na obra.
“Indivisível” é um dos melhores quadrinhos brasileiros dos últimos anos e merece alcançar um público maior, pois une incrível versatilidade técnica a um conteúdo de suma importância para a compreensão da formação do povo brasileiro. As violências, apagamentos e silenciamentos são parte indelével de nossa história, assim como a resistência e o resgate do que os poderes dominantes gostariam de ver soterrados. Ao fim, fica o desejo por novas obras da autora, que em sua estreia já entrega material de grande qualidade.
Roberto Santana Santos
Professor da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (EDU-UERJ), doutor em políticas públicas e mestre em história política
Ficha técnica
Título: Indivisível
Autora: Marília Marz
Editora: Conrad
Ano de publicação: 2022

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