Flechas Verdes: milícia fascista no Brasil da Segunda Guerra 

Oficiais da milícia integralista do estado do Paraná. Crédito: Wikipedia.

Ao observarmos a trajetória da Ação Integralista Brasileira (AIB) em perspectiva, temos a impressão de que sua atuação foi sendo cada vez menos marcada pela violência. A extinção de suas milícias armadas por ordem de Vargas em 1936 e a retórica de sua principal liderança – Plínio Salgado – de adoção de um programa de “democracia orgânica” poderiam indicar que, aos poucos, a solução violenta foi sendo relegada para segundo plano.

Principalmente após o golpe do Estado Novo, vários foram os momentos em que Plínio Salgado adotou um discurso conciliador e de abandono das soluções armadas. Acumulavam-se discursos de condenação aos métodos violentos. Dentro de suas publicações, as lideranças integralistas nem sempre se colocavam como belicistas, buscando na maioria das vezes transmitir a imagem de amigos da ordem em contraposição aos comunistas.

Seja por puro oportunismo político ou pela adequação ao contexto em que atuavam, fato é que o integralismo brasileiro passou boa parte de sua existência negando seu caráter violento. Sua relação com o catolicismo muitas vezes servia de justificativa para tal posição, onde Salgado se colocava como um cristão que jamais poderia agredir fisicamente seus adversários.  Mas é evidente que o discurso de determinado grupo político não necessariamente corresponde à realidade de suas atuações práticas.

Plínio Salgado. Crédito: Wikipedia.

A Ação Integralista Brasileira sempre foi violenta, tanto com seus adversários, quanto com aqueles que abandonavam suas fileiras. Seja por meio de uma violência simbólica, como a queima da ficha de inscrição do antigo filiado, ou mesmo física, como as constantes confusões que terminavam em brigas e tiroteios dentro das sedes integralistas. Entretanto, esta violência, assim como sua atuação, parece ter desaparecido após 1937 com a decretação da ditadura do Estado Novo, que extinguiu todos os partidos políticos no Brasil e acabou com as garantias de liberdade individual existentes até então.

Por vezes, tem-se mesmo a impressão de que o integralismo desapareceu durante este momento. Mas, para onde teria ido o integralismo? Todos os seus correligionários teriam assumido uma postura de resiliência, frente à realidade nova? Obviamente que temos respostas diferentes para essa pergunta. Sim, uma parte dos integralistas se adequou ao novo estado de coisas e procurou se acomodar frente à nova realidade da melhor maneira possível.

Outros, no entanto, buscaram o enfrentamento direto contra Vargas, se juntando a políticos liberais  e fazendo um ataque frontal ao governo em 1938. Mas existe um pequeno grupo que poderia ser considerado desaparecido, que à primeira vista passou a levar sua vida sem maiores conflitos com a ordem vigente, mas que ao fim e ao cabo, buscava uma maneira diferente de atuar na política. E mesmo com toda a repressão desencadeada por Vargas contra os integralistas durante o Estado Novo, procurou se manter ativo.

O fascismo de ontem e de hoje: integralismo em perspectiva histórica

Este grupo tentou formar uma milícia armada para exterminar ou surrar qualquer um que de alguma maneira se posicionasse contra os princípios integralistas. Eram os Flechas Verdes. O período da Segunda Guerra Mundial foi notório em transformações políticas e econômicas para o Brasil. As negociações em torno da participação do Brasil no teatro de conflitos europeu levaram à consecução de benefícios tecnológicos para o país, como o capital necessário para a criação da Companhia Siderúrgica Nacional e o reaparelhamento do exército com equipamentos militares estadunidenses.

No plano externo Vargas adiou o quanto pôde uma decisão definitiva sobre o lado a escolher no conflito mundial, tendo somente em 1942 escolhido permanecer ao lado das potências ocidentais e da União Soviética contra o Eixo Roma-Berlim-Tóquio. O clima de indecisão na cúpula do governo era reforçado pelas disputas entre duas alas antagônicas: os americanófilos, consagrados historicamente na figura de Oswaldo Aranha e os germanófilos, representados pelos generais Góis Monteiro e Dutra.

Sendo assim, todo o período que compreende o conflito mundial foi repleto de tensões , agravadas muitas vezes pela forte campanha anticomunista desencadeada pelo Estado Novo, principalmente através do Departamento de Imprensa e Propaganda. Mas não somente os comunistas sofreram com retaliações durante esse momento. Os chamados “súditos do Eixo” também foram vítimas de perseguições, prisões e até assassinatos que pouco ou nada teriam de esclarecimentos.

Principalmente no caso dos japoneses, esta repressão se deu de forma assaz violenta, inclusive com a apreensão de bens e envio de pessoas para campos de concentração, além da forte xenofobia a qual estavam submetidos em uma sociedade autoritária e alimentada em seu terror pela imprensa oficial. Ainda observamos o caso dos alemães que viviam no Sul do Brasil que tiveram escolas fechadas, clubes esportivos e sociais extintos, além da famosa proibição de usarem seu idioma em público.

Assim, temos um clima de forte censura e repressão a quaisquer ações que pudessem ser interpretadas como contrárias ao esforço ufanista do Estado Novo. Contudo , isso não impediu a atuação deste grupo de se reunir e tentar a fundação de uma milícia que pretendia fazer justiça com as próprias mãos contra aqueles que se opusessem de forma enfática ao integralismo. Os Flechas Verdes pareciam dispostos a qualquer coisa para preservarem a memória integralista imaculada, mesmo em um momento tão adverso para eles, como era aquele.

Através da criação do grupo Flechas Verdes esses integralistas pretendiam eliminar agentes da polícia que torturassem seus companheiros fascistas; comunistas, declarados ou não; ou mesmo autoridades militares; qualquer um que se posicionasse publicamente contra a “doutrina verde”. Sob a iniciativa de José Queiroz Muniz e Edgard Lisboa Lemos, um grupo de 12 integralistas seria formado para efetuar missões de vingança contra essas figuras consideradas inimigas da AIB. Este grupo poderia, segundo seus criadores, aumentar de efetivo em caso de necessidade e, através de sorteio, destinaria missões para surras, castigos e humilhações desencadeadas contra os alvos escolhidos.

Clique em “Assistir no YouTube” para conferir entrevista com o professor e pesquisador Vinícius Ramos sobre o integralismo no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial

Majoritariamente formada por militantes do núcleo da Penha, a reunião para a fundação do grupo ocorreu no fim do ano de 1940 no escritório de Edgard Lemos, na rua Primeiro de Março, 17, 5° andar. Atualmente abrigando escritórios de advocacia, de corretagem de imóveis e um restaurante, o prédio já foi palco de acertos para execução de antifascistas. Ao fim da reunião de fundação do grupo, como de costume, os participantes prestaram um juramento de fidelidade a Plínio Salgado. Contando em suas fileiras com um ex-fuzileiro naval e um tenente, a milícia tinha a intenção de ser um instrumento de morte no cenário da política brasileira.

Estas mobilizações não eram movimentos isolados, tendo a anuência de outros membros da antiga hierarquia da AIB, mesmo que estivessem fora do país. Por exemplo, Raimundo Barbosa Lima, participante ativo do putsch integralista de 1938, estava a par de toda a articulação mesmo exilado em Montevidéu, Uruguai. Foi um dos primeiros a ser informado sobre as “homenagens cívicas” planejadas pelo grupo dos Flechas Verdes.

Sua primeira vítima seria Átila Soares, ex-vereador pelo Distrito Federal, próximo de Pedro Ernesto e da Aliança Nacional Libertadora, opositor ferrenho do integralismo. Oficial da Marinha e posteriormente membro do Tribunal de Contas do Município, Soares por pouco não foi “justiçado”. O ataque teria sido abortado devido à denúncia realizada pelo próprio Átila Soares, nos jornais Correio da Noite, O Radical e Vanguarda. A denúncia que provavelmente salvou sua vida se eternizou:

OS MASORQUEIROS BOTAM AS MANGAS DE FORA… Abordada a organização de uma ‘seta verde’. Alguns remanescentes do extinto partido integralista, desses poucos espíritos emperrados que ainda há por aí, tentaram a organização de uma instituição que se chamaria ‘Seta verde’ e, cujos fins seriam encobrir nova investida de sua ação subversiva contra a integridade das instituições nacionais. Ao ter conhecimento dessas atividades, a Delegacia Especial de Segurança Política Social logo tomou as providências necessárias, identificando os responsáveis pela ideia, prendendo e anulando as suas ‘demarches’ tendentes a reavivar a chama da desordem.

O sentimento nacional que vê com desprezo essas manobras impatrióticas, repele toda tentativa tendente a criar dissenções no espírito do povo. Por isso, mais um ensejo devem ter encontrado esses indesejáveis masorqueiros profissionais, nesta oportunidade, para avaliar o quanto é repelente a sua negregada ação e com que nojo a opinião nacional aprecia suas torpes atividades de falso idealismo e traição à pátria”.

(O Radical, 15/12/1940)

Segundo um relatório da polícia, os integralistas teriam desistido não só da empreitada contra Soares, mas de toda a organização, devido à repercussão do caso na imprensa. Os próprios milicianos desconfiavam que sua correspondência havia sido interceptada pelas autoridades, já combinando de antemão uma versão para o fato em caso de possível prisão: os Flechas Verdes seriam apenas um clube esportivo.

Assim, o projeto ficaria interrompido já no nascedouro, em dezembro de 1940. Seja pela intensa repressão das autoridades varguistas, ou pela repercussão na imprensa, fato é que o grupo armado não buscou realizar novos ataques. Embora sua atuação tenha permanecida apenas no reino das hipóteses, é esclarecedora a vontade dos fascistas de buscar o extermínio daqueles que pensavam diferente.

Referências bibliográficas

ALVES, Eliane Bisan. Etnicidade, nacionalismo e autoritarismo: a comunidade alemã sob vigilância do DEOPS. São Paulo: Associação Editorial Humanitas, 2006.
BERTONHA, João Fábio. Plínio Salgado: biografia política (1895-1975). São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo: 2018.
CYTRYNOWICZ, Roney. Guerra sem guerra: a mobilização e o cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Geração Editorial, 2002.
NETO, Lira. Getúlio (1930-1945): do governo provisório à ditadura do Estado Novo. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
TRINDADE, Hélgio. Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30. São Paulo: Difel, 1979.
Arquivos e periódicos consultados
Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, fundo Integralismo.
O Radical

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