Eleições 2024: uma avaliação em 7 pontos

Crédito: Senado Federal.

Concluído o segundo turno das eleições municipais 2024 no Brasil, algumas tendências se afirmam e outras se enfraquecem. Ao final, os resultados não foram tão fora da curva do que já se previa. Apresentamos aqui 7 pontos para entender como o pleito mexe com a política nacional.

1 – O grande vencedor das eleições, tanto em número de eleitores, quanto em número de prefeituras relevantes, foi o Centrão, representado por siglas como PSD, PP, Republicanos e MDB. Não há aqui grande mudança. Esse conjunto de siglas sempre venceu a maioria das eleições municipais desde os anos 1980. Se destaca o peso das emendas parlamentares, pelas quais o Centrão sequestrou parte do Orçamento Federal para vitaminar suas candidaturas. Na eleição mais próxima aos problemas do cotidiano, como são as municipais, isso faz toda a diferença, com importância muito maior do que a polarização ideológica. Principalmente o PSD sai fortalecido, apresentando lideranças com cara de “gestores”, longe dos fundamentalismos recentes da direita e com bom número de vereadores em todo país.

2 – O grande derrotado destas eleições foi Jair Bolsonaro. Anunciou que o PL faria mil prefeitos. A meta ficou pela metade. Não venceu em nenhuma capital relevante. Amargou uma derrota acachapante em sua cidade natal, o Rio de Janeiro. E o mais importante, sua presença não foi determinante para a vitória em nenhuma das principais cidades. Pelo contrário, boa parte dos candidatos escondeu Bolsonaro nas eleições, sendo o caso mais notório o de Ricardo Nunes em São Paulo. Na maior parte das cidades onde o PL foi para o segundo turno, acabou derrotado pelo Centrão, e até pelo PT, no caso de Fortaleza, quarta maior cidade do país

3 – Toda eleição a imprensa empresarial anuncia “a morte da esquerda”. Se houve poucas vitórias eleitorais desses partidos, há de se lembrar que o campo progressista ainda está se recuperando do Golpe de 2016, do impacto da Lava-Jato e da ascensão da extrema-direita. Em vários lugares, a votação geral da esquerda aumentou ou permaneceu estável. Os resultados devem ser lidos sob um quadro geral, em que novas lideranças foram expostas ao grande público e já obtiveram votações significativas. Aumentar a base social/eleitoral da esquerda, esse sim, é o grande desafio. Em uma sociedade neoliberal que estimula o individualismo e a pulverização de identidades é importante achar um ponto de equilíbrio entre as pautas gerais e o discurso segmentado para públicos diversos. A vitória eleitoral vem na esteira da vitória social.

4 – A grande derrotada na esquerda foi a moderação. Há pelo menos dez anos boa parte dos “estrategistas”, marqueteiros e pretensos ideólogos da esquerda repetem o mantra de que é necessário recuar de pautas, abaixar bandeiras e vestir a fantasia de candidato de “centro”. Sejamos diretos: isso não deu em nada. Não há nos resultados (nem eleitorais, nem políticos) demonstração de que fingir ser o que não é levou à ampliação de eleitorado. Pelo contrário, “mudar de opinião” (como Marcelo Freixo fez em 2022 no RJ) ou assumir o espantalho midiático do momento (nessas eleições representado pela “ditadura da Venezuela”) soa falso para o eleitorado, não detém as fake news do Whatsapp, e deixa os candidatos de esquerda engessados em um personagem pouco convincente.

Não se trata aqui de defender ser possível popularizar um programa revolucionário com 20 segundos de propaganda eleitoral. O que falta à esquerda não é um radicalismo infantil, mas sim, espírito de combate. Em um momento mundial de polarização extremada, quem decide a eleição não é o eleitor moderado, mas sim, o eleitor disruptivo. Como colocado pelo jornalista Breno Altman.

Esse descontentamento não é necessariamente de esquerda ou direita, mas quer propostas impactantes e de solução imediata para a precarização da vida imposta pelo neoliberalismo. Quando a esquerda tenta emular o centro, justamente a força que mais perdeu terreno nos últimos anos, deixa a contestação nas mãos do fascismo, que se apresenta como antissistema, e arrebata o descontentamento generalizado, mesmo que suas soluções sejam falsas.

5 – Guilherme Boulos é a maior liderança em âmbito nacional que a esquerda brasileira foi capaz de forjar nas últimas décadas. Mescla elementos da classe trabalhadora do século XXI: mora na periferia, mas tem diploma universitário; tem origem nos movimentos sociais, mas não no sindicalismo tradicional de outras eras; mantém a guarda alta na luta de classes, mas não cai em esquerdismos incompreensíveis para as massas. Após críticas no início da campanha de que estava muito recuado, e também pelos ataques de Pablo Marçal, fez uma campanha militante e partiu para a ofensiva.

Fez o que a esquerda precisa fazer. Empolgar, apaixonar, combater. Sua disposição de dialogar nas ruas com o povo e a linguagem pop de suas redes mostram que Boulos não é um mero candidato. É um líder de massas em formação. O próprio Lula já compreendeu isso, pois percebe semelhanças com a sua própria trajetória.  Fica aqui, no entanto, um ponto de reflexão: é necessário que Boulos se torne prefeito ou vença qualquer eleição majoritária? Depois de duas derrotas seguidas, mas com prestígio em alta até mesmo com o Presidente, não seria melhor Boulos cruzar o país para organizar os descontentes que a esquerda tradicional tem se mostrado incapaz de atingir?

Lula não se tornou o que é porque foi prefeito e governador. No extremo oposto, Bolsonaro também não. Para se tornar o expoente máximo de um campo político no Brasil, não é necessário um etapismo de cargos majoritários. Há muita gente lutando em cada esquina do Brasil, seja num coletivo de comunicação, numa associação de bairro, ou desenvolvendo trabalhos sociais auto-organizados. Essas pessoas não têm se mostrado encantadas com partidos tradicionais ou sindicatos, mas Boulos sabe conversar com elas, como demonstra seu excelente trabalho de comunicação. Não estaria aí uma maneira de atingir um método de organização e conscientização adequados às características da classe trabalhadora deste século? Não estaria aí a maneira de forjar uma liderança nacional da esquerda para o pós-Lula que se aproxima?

6 – O Governo Federal precisa acordar para a realidade. Segue a aposta do Planalto de que negar o confronto contra o fascismo é a melhor forma de vencê-lo. Durante o período eleitoral essa tática se manifestou pela quase total ausência de Lula como cabo eleitoral, quando ele é o único nome na esquerda hoje capaz de desempenhar tal tarefa. A avaliação é de que se Lula apoiasse alguém que perdesse, a derrota seria creditada ao Presidente. É justamente o inverso. Uma candidatura viável do campo popular potencializa seu desempenho quando liga sua imagem a de Lula.

Se houve revés para a esquerda na maior parte dos pleitos, isso se deve também a um governo que não empolga e permanece no stand by frente a um país em combustão. Um governo progressista que não se pauta pela mobilização ativa de sua militância fica refém das negociatas do Centrão e das manchetes da mídia corporativa, terrenos que não o favorecem. O governo é de Frente Ampla, mas cabe à esquerda, que detém a presidência, lidera-la. Não é o que tem acontecido nesses quase dois anos.

7 – A formulação do “bolsonarismo moderado” sai fortalecida. Já ventilada na mídia empresarial desde o início do ano, ganha corpo entre a burguesia brasileira a possibilidade de juntar o Centrão e “bolsonaristas que respeitem o processo democrático” para derrotar Lula em 2026. Essa posição, que demonstra a memória curta e o baixíssimo grau de compromisso da Casa-grande com valores democráticos, é produto de uma confluência de constatações: a) a força do Centrão que controla as emendas parlamentares; b) a possibilidade de uma extrema-direita para além da figura de Bolsonaro (cujo o exemplo mais estridente foi Pablo Marçal, mas não o único); c) uma burguesia e alta classe média liberal carente de grandes quadros de projeção nacional; d) um governo presidido pela esquerda, mas que não demonstra nenhuma capacidade de mobilização de massas.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), sai empoderado para desempenhar o papel de principal cabo eleitoral na reeleição de Ricardo Nunes, e aparece como nome preferível para esse projeto. Muito ainda acontecerá para sabermos se esse ornitorrinco conservador ganhará forma, inclusive se Tarcísio trocará uma reeleição praticamente certa em São Paulo, para a ingrata posição de ter que enfrentar Lula nas urnas.

O tal “terceiro turno” de 2022 não aconteceu. As eleições municipais seguiram a tradição de serem pautadas por questões locais e vitórias do Centrão. A diferença é o peso que o Orçamento Federal desviado via emendas parlamentares desempenhou. Para o campo popular será necessário aprender a manejar esse instrumento que veio para ficar. A campanha de Boulos aponta o caminho para a esquerda voltar a ter orgulho de dizer seu nome. Se esconder atrás de ternos e gravatas e negar debates espinhosos não se converteu em mais votos e vitórias eleitorais.

Pelo contrário, a maior vitória nas urnas que a esquerda brasileira conseguiu nos últimos dez anos se deu quando Lula polarizou com Bolsonaro em 2022. Do seu lado, o ex-Capitão se vê praticamente obrigado a lançar sua pré-candidatura a Presidente mesmo inelegível não só para lutar contra sua possível prisão, mas para manter relevância no campo da direita, onde não só concertações são ensaiadas, como candidatos a novos líderes surgem. E afinal, Bolsonaro vai ser preso em 2025? As peças continuam se mexendo sobre terreno instável no Brasil.

Roberto Santana Santos
Professor da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (EDU-UERJ), doutor em políticas públicas e mestre em história política

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