
Entre 22 e 24 de outubro Kazan, na Rússia, foi palco da 16ª Reunião dos BRICS. Essa foi a primeira cúpula com a participação dos novos membros-plenos aprovados no ano passado: Irã, Arábia Saudita, Emirados Árabes, Egito e Etiópia. A grande novidade foi a criação de um novo nível de associação ao Bloco, a de Estados parceiros, algo que vinha sendo cogitado desde 2023 por meio de declarações dos chefes de Estado fundadores (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), assim como pelo desejo expressado de mais de trinta países em se juntar à Organização.
A Cúpula de Kazan marcou em definitivo a mudança de forma e sentido dos BRICS. Não se trata mais do encontro de “economias emergentes”, mas de um arrojado espaço para a mudança de paradigma nas relações internacionais pós-hegemonia estadunidense. E essa mudança se tornou necessária, não devido a uma postura “antiocidental” de forças como China e Rússia, como largamente alardeado pela mídia corporativa, mas sim, porque não só o Ocidente não detém mais a iniciativa global de economia e financiamento, como tenta redisciplinar o Sul, seja com sanções, seja com bombas, ao seu decadente poderio.
Qual a grande iniciativa mundial de investimentos liderada pelos Estados Unidos e seus aliados nesse momento? Qual o passo decisivo dado por esse condomínio de forças para viabilizar de fato uma transição energética socialmente justa para os países do Sul? Qual a moral que o Ocidente coletivo possui para se colocar como suprassumo da democracia e da defesa dos direitos humanos enquanto patrocina o genocídio palestino, transmitido ao vivo para o mundo todo, ou os campos de concentração para imigrantes em diversos países do Mediterrâneo no intuito de evitar sua chegada à União Europeia?
É essa postura imperialista e arrogante que leva países tão distintos em matéria de sistemas políticos direcionarem seus esforços diplomáticos para um circuito alternativo de relações internacionais que tem no BRICS seu centro nervoso. O BRICS não é uma aliança anti-Ocidente, muito menos uma Internacional Comunista, mas sim, um novo padrão multipolar de relações entre países que formam o Sul Global, ou seja, a maioria da humanidade, que não vê o sistema Nações Unidas funcionar justamente por sabotagem dos EUA e seus aliados.
O tamanho das economias dos membros-plenos dos BRICS já ultrapassa o G7, a China é o principal parceiro comercial de quase todos os países do mundo e as condições de financiamento e investimentos estruturais por meio dos bancos chineses e do próprio Banco de Desenvolvimento dos BRICS (presidido hoje por Dilma Rousseff) são muito melhores do que o endividamento eterno imposto pelo FMI e o Banco Mundial. A convergência de países interessados em participar do Bloco mostra seu sucesso.
Justamente pelos êxitos conquistados, os Estados Unidos e seus aliados têm tentado minar esse novo modelo de relações, onde se mesclam tanto as ações de aproximação com a Índia, a disputa comercial e tecnológica contra a China e a guerra por procuração da OTAN contra a Rússia por meio da Ucrânia. Um dos mais fortes instrumentos do Ocidente coletivo é o monopólio midiático, que fabrica as “fake news oficiais” sobre as “ditaduras” que querem “governar” o mundo com planos maléficos típicos de vilões de histórias em quadrinhos.
A imprensa empresarial dos países periféricos, como o Brasil, reproduz acriticamente esse conteúdo formulado pelas agências de notícias estadunidenses e europeias, devido aos interesses interligados das burguesias centrais e periféricas, e a visão colonizada de boa parte da classe média que identifica o Ocidente como sinônimo de civilização. Boa parte dos jornalistas vêm justamente dessa camada social. A prova de que o BRICS é visto como uma ameaça por esses atores se deu na cobertura da imprensa brasileira sobre a Cúpula de Kazan. Se antes as reuniões do Bloco eram ignoradas ou diminuídas, dessa vez ganharam as manchetes dos portais, alguns com correspondentes em território russo.
A linha política da cobertura foi uníssima: perspectiva negativa da aliança, tentativas de criar tensões entre Lula e o “ditador” Putin sobre a Ucrânia, comentários incisivos de que nosso país estava se afastando de seus “aliados naturais” no Ocidente, defesa dos crimes contra a humanidade cometidos por Israel contra os palestinos justificado pelo “terrorismo” do Hamas. Dois pontos, porém, foram priorizados: a oposição brasileira à adesão da Venezuela ao Bloco como Estado parceiro e a repetição exaustiva de que os BRICS se tornaram uma “aliança antiocidental” liderada por Pequim e Moscou.
A diplomacia brasileira, infelizmente, assumiu essa narrativa liberal-colonialista como sua. É evidente, nesses quase dois anos de governo Lula, que nossa política internacional está voltada para uma preferência com o Ocidente, na esperança de uma “aliança democrática” contra a extrema-direita, que passa pelo partido Democrata nos EUA até a direita liberal europeia (Macron) e a desbotada social-democracia (ou neoliberalismo progressista?) do Velho Continente. Acredita-se também que essa aproximação garantiria a reforma do Sistema ONU e o assento permanente do Brasil no Conselho de Segurança.
É de uma ingenuidade enorme pensar que a ONU será reformada pela iniciativa daqueles que há décadas travam essa mudança. Mas, a questão é mais profunda. A política externa segue as necessidades da política interna, o que explica o porquê da secundarização dos BRICS, da integração latino-americana e das relações Sul-Sul nas ações do Itamaraty. Na expectativa de evitar os ataques da extrema-direita e da imprensa empresarial, o Planalto adota a postura de “extremismo de centro”, abandonando uma agenda contra-hegemônica e entregando tudo que a direita liberal quer, na esperança de que com isso receberá sua aprovação.
Ao que parece, não aprenderam nada com 2016 e 2018. Essa é a razão do porquê o Itamaraty elegeu a Venezuela como arqui-inimiga do Brasil e se juntou ao linchamento midiático diário contra a Pátria de Bolívar. A partir dessa posição, a diplomacia brasileira cumpriu o triste programa abaixo em Kazan:
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Inaugurou publicamente o “veto” nos BRICS, trabalhando ativamente contra a admissão da Venezuela como Estado parceiro do Bloco, utilizando a mesma prerrogativa que tanto condena no Conselho de Segurança da ONU.
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Vazou para a imprensa empresarial o “veto” ainda na etapa de reuniões preparativas antes da Cúpula, para que fosse amplamente divulgado a oposição brasileira à candidatura de Caracas. A ação foi capitaneada por Eduardo Saboia, diplomata pertencente à extrema-direita escolhido para representar o país nos preparativos do encontro. O referido diplomata foi citado em nota da chancelaria venezuelana como um dos responsáveis pelo veto à entrada do país nos BRICS. Saboia é um militante de extrema-direita que ascendeu no governo Temer e ajudou inclusive à fuga de um político procurado pela Justiça boliviana, o que causou uma crise entre os dois países como registado em matéria do G1 (clique aqui), e para a referida nota da diplomacia de Caracas ver texto publicado pelo Brasil de Fato (clique aqui). A escalação de alguém com o perfil de Saboia já demonstra o baixo grau de importância que o Itamaraty dá aos BRICS no momento.
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Recebeu uma divergência pública do anfitrião Vladimir Putin, que deixou bem claro que continuará trabalhando pela entrada da Venezuela no Bloco e que discorda da posição do Brasil em relação às eleições venezuelanas.
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O mais importante. Não teve nenhuma participação determinante na escolha dos países associados. As duas nações latino-americanas aceitas foram: Bolívia, que tem seu lítio industrializado pela China; e Cuba, uma unanimidade do Sul Global. Sua entrada é um dever moral dos BRICS, já que todos os países do Bloco receberam ajuda e solidariedade da ilha caribenha pelo menos em algum momento da história.
As possíveis adesões ventiladas (já que não constam nos documentos oficiais da Cúpula) passam longe do Brasil: Turquia e Indonésia (indicações consensuais pelo tamanho e importância geopolítica desses países); Belarus, Cazaquistão e Uzbequistão (aliados naturais da Rússia); Vietnã, Tailândia e Malásia (interesses econômicos e militares diretos da China no Sudeste Asiático); Uganda, Nigéria e Argélia como representantes africanos (os dois últimos importantes produtores de petróleo, sendo a última também relevante voz no mundo árabe).
Esses países serão consultados se desejam entrar no Bloco ou não, mostrando cuidado na adesão dos membros parceiros, etapa prévia para que futuramente sejam aceitos como membros plenos. A defasagem no número de latino-americanos convidados comparado a outras regiões do mundo denuncia que realmente havia um lugar para Caracas, sacada na última hora pela oposição brasileira.
O saldo da participação brasileira na Cúpula de Kazan, portanto, é bem negativo. Os BRICS estão se transformando em uma nova realidade das relações internacionais, e, ao que parece, o Itamaraty está desconfortável com a situação. A ideia de que o Bloco seria apenas uma “alfândega privilegiada” no comércio mundial acabou. China e Rússia não querem atritos com o Brasil, mas também não vão esperar o Planalto acordar para a nova realidade do cenário internacional, o que fica claro a partir da expansão acelerada de membros e os planos em andamento para a criação de um novo sistema de pagamentos por fora do dólar (o que tornaria inúteis as sanções norte-americanas contra seus desafetos).
A entrada da Venezuela foi adiada, mas não poderá ser travada para sempre. Para desdolarizar suas relações comerciais e financeiras, os BRICS necessitarão dos petrodólares de Caracas. A Venezuela é um importante mercado para o complexo industrial-militar russo e a indústria petrolífera iraniana. É um espaço econômico em que, devido às sanções ocidentais, a maioria das empresas estadunidenses e europeias não se encontra presente para concorrência. A China se movimenta para ter os países com maiores reservas de petróleo nos BRICS (Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes como membros-plenos, Nigéria e Argélia, indicados como países associados).
Da sua parte, Maduro vê nos BRICS e no seu futuro sistema de pagamentos alternativos a chave para driblar em definitivo o bloqueio imposto pelos Estados Unidos e contará agora com a ação interna de Cuba e Bolívia pela sua admissão. Tudo isso é uma confluência de interesses muito mais forte do que a oposição brasileira, que, mais cedo ou mais tarde, terá que ceder. Caracas entrará para os BRICS à revelia da posição do Itamaraty. A única dúvida é quando.
Pautado pela grande imprensa, pela burocracia colonizada do Itamaraty e pela direita dentro e fora do governo, a diplomacia brasileira apequenou o país nos BRICS. O Brasil não teve a iniciativa de nenhuma das grandes decisões tomadas pelo Bloco nos últimos dois anos. Pior, aparecemos somente como força negativa, apenas para embarrerar a participação de outro país, com o qual não temos nenhum contencioso. A médio prazo essa posição será insustentável. Ao publicizar divergências e vetos, o Brasil dá razão para China e Rússia aumentarem o número de participantes no Bloco de modo a diluir o posicionamento de países que não estão em sintonia com o que o momento histórico exige.
Ainda há tempo para retificar essa postura temerária. Estamos diante de uma janela de oportunidades ímpar, que está redesenhando o mundo e as relações internacionais. Para aproveitá-la, é necessária uma mudança imediata de posição, recolocando o Brasil no seu lugar de direito, como um dos líderes do Sul Global e um dos marcos do mundo multipolar. Bajular aqueles que só esperam submissão e que desejam manter a periferia nas mesmas condições de sempre, é prender o país a um sistema decadente. Fugir sempre do confronto não leva à vitória, mas sim, permite que o inimigo avance por todo o tabuleiro.
Roberto Santana Santos
Professor da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (EDU-UERJ), doutor em políticas públicas e mestre em história política

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