China e Brasil lançam plataforma estratégica de inovação tecnológica e compartilhamento de experiências no setor elétrico

Brasil e China firmam parceria para buscar soluções inovadoras no setor de energia elétrica. Crédito: SGBH.

Nestes últimos dias, a cidade do Rio de Janeiro, assim como o Brasil, foram sede do G20 de 2024, onde diversos debates foram realizados ao longo do ano. Entre eles, estão a mudança da matriz energética global, a descarbonização do planeta e a preservação da vida humana em meio à crise climática que se aprofunda cada vez mais. Paralelamente a essa agenda do G20, instituições acadêmicas e empresas brasileiras e chinesas reuniram-se no hotel Grand Hyatt, na Barra da Tijuca, no domingo do dia 17 de novembro, para firmar uma parceria estratégica no setor de energia elétrica: a chamada Aliança para Inovação e Compartilhamento Tecnológico no Setor Elétrico (EISA, na sigla em inglês para Electric Innovation and Sharing Alience). A Revista Intertelas foi convidada a participar e conta mais sobre o que ocorreu e foi dito no evento.

Capitaneada pela State Grid Brazil Holding S.A (SGBH), uma subsidiária da State Grid Corporation of China (SGCC), a EISA, como explicou a assessoria da SGBH, tem o objetivo de estabelecer uma plataforma de inovação tecnológica e compartilhamento de experiências para aprofundar a cooperação e a comunicação entre instituições de ponta no Brasil e na China, buscando o aprimoramento e eficiência do setor de energia, diante de um cenário de transição energética e da necessidade cada vez mais premente do uso de fontes de energia renováveis.

Crédito: SGBH.

Durante o evento e cerimônia de lançamento da EISA, foram apresentadas diversas palestras de técnicos, pesquisadores e professores universitários brasileiros e chineses sobre o contexto geral das inovações tecnológicas, desafios que ambos os países enfrentam neste campo, assim como as conquistas na solução de problemas e contribuições que Brasil e China podem compartilhar a aprender um com o outro. A segundo parte da programação foi integralmente focada no lançamento da EISA com a assinatura de um Memorando de Entendimento pelas entidades fundadoras, contando com apoio do Ministério de Minas e Energia do Brasil.

Participaram da assinatura do documento representantes da State Grid Brazil Holding (SGBH); Empresa de Pesquisa Energética (EPE); Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS); CPFL Energia; Chine Electric Power Research Institute (CEPRI); State Grid Energy Research Institute (SGERI)Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); CET Brazil Equipamentos de Energia Elétrica e Tecnologia; Universidade de São Paulo (USP); NARI Brasil; North China Eletric Power University (NCEPU); China Electric Power Planning & Engineering Institute (EPPEI); Universidade Federal Fluminense (UFF); e, como testemunhas, representantes da State Grid Corporation of China (SGCC) e do Ministério das Minas e Energia.

Crédito: SGBH.

Em vídeo, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, disse aos presentes que o processo de transformação da matriz energética mundial é também uma oportunidade de gerar emprego e renda. Assim, ele enfatizou a importância das relações sino-brasileiras para o avanço destas áreas nos dois países. “No mundo globalizado atual, não há outro caminho que não seja estabelecer parcerias estratégicas. O Brasil e a China são exemplos para a produção de energia limpa e renovável”.

Empresas chinesas e a integração sul-americana liderada pelo Brasil

Entre outras questões chaves, o ministro mencionou que as empresas chinesas poderão auxiliar no plano de integração brasileira para a América do Sul. Quem melhor explicou esta questão foi o secretário Nacional de Transição Energética e Planejamento, Thiago Barral, que representou o ministro Alexandre Silveira no lançamento da EISA. Barral disse que o Ministério de Minas e Energia está empenhado, junto ao demais setores do Governo Federal, em avançar nas interligações com os países vizinhos.

Em entrevista para a Revista Intertelas, o secretário explicou que a presença de empresas procedentes de várias regiões do mundo no Brasil, para o esforço de integração energética da região, é muito bem-vinda. “Quanto mais empresas atuantes nesse setor, maior a competição, maior a diversidade de tecnologias à disposição. O presidente Lula e o ministro Alexandre Silveira estiveram na Bolívia, em Santa Cruz de la Sierra, há alguns meses. Um dos acordos firmados foi um memorando para desenvolver estudos de integração elétrica entre os dois países. Esses estudos vão revelar futuramente os mecanismos de contratação a serem estabelecidos”.

O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira. Crédito: Mariana Scangarelli Brites/Intertelas.

O secretário também respondeu à indagação da Intertelas sobre os especialistas em geopolítica que se preocupam com um possível avanço da China em setores estratégicos na América do Sul. Segundo Barral, o processo de cooperação entre Brasil e Bolívia tem uma liderança do presidente boliviano e do presidente Lula.

Não há qualquer hipótese de que essa aproximação, essa colaboração, seja influenciada. O que buscamos é que os investimentos em infraestrutura possam acontecer em um ambiente de competitividade, porque isso permite que a gente possa reduzir o custo dessas soluções e melhorar o desenvolvimento dos países. Eu diria que o protagonismo do presidente Lula nesse esforço é muito grande. E esse diálogo existe também de maneira muito viva com o Chile, a Argentina, o Uruguai, o Paraguai, o Peru e os demais vizinhos. E vamos buscar a integração energética. O sistema elétrico brasileiro interligado, que interliga grande parte do território brasileiro, 99,5% dos consumidores de energia, é a maior demonstração de que a integração energética vale a pena. Ela traz mais resiliência, mais economia e permite que a gente tenha uma matriz cada vez mais limpa, porque as fontes renováveis podem se complementar”.

Nesta mesma linha, a Revista Intertelas indagou ao ministro Alexandre Silveira, durante coletiva realizada na Cúpula dos Líderes do G20, no dia 18 de novembro, segunda-feira, sobre o papel de países do BRICS no projeto brasileiro de integração para a América do Sul.  Conforme o ministro, empresas como a State Grid, que estabelecem parcerias como a EISA e estão dispostas a transferir tecnologia, podem auxiliar no processo de integração. “A ida do presidente Lula à China no terceiro mês do seu mandato trouxe mais de 150 bilhões de reais em investimento ao Brasil. Assinamos com a State Grid um documento de transferência de tecnologia para que a gente tenha uma indústria nacional que possa produzir o que só a State Grid produz no Bipolo de Graça Aranha no Maranhão: a tecnologia de alta capacidade em corrente contínua”.

O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, em mensagem por vídeo. Crédito: SGBH.

Conforme o vice-presidente da State Grid Brazil Holding, Ramon Haddad, a empresa está participando ativamente nos estudos associados às interligações da América do Sul. “A proposta é que façamos uma grande integração energética através da conexão das linhas de transmissão, dos sistemas de transmissão do Brasil e dos demais países. É claro que existem algumas dificuldades, alguns desafios, não apenas tecnológicos, mas desafios econômicos, desafios políticos, desafios regionais, desafios de toda a natureza. Mas nós estamos estudando, estamos analisando, estamos cooperando com todos os estudos associados às interligações da América Latina”.

O conhecimento e o desenvolvimento tecnológico compartilhado entre os países

Segundo o secretário Barral, para alcançar um nível de país desenvolvido, o Brasil precisa nos próximos anos mais que triplicar a produção e consumo de energia elétrica. “Dar conta desta demanda, do crescimento desta demanda, ao mesmo tempo manter a característica da nossa matriz elétrica, altamente sustentável e renovável, é o desafio do nosso tempo. Novas forças de eletrificação têm sido consideradas. Por exemplo, os projetos de hidrogênio e a eletrificação de processos industriais. Também precisamos enfrentar e garantir que o nosso sistema elétrico seja mais resiliente e adaptado para eventos climáticos extremos, além de garantir a segurança cibernética. Tudo isso só pode ser alcançado com um foco muito forte, com dois pilares fundamentais: a inovação tecnológica e o planejamento de políticas públicas para apoiar a adoção destas soluções inovadoras”.

Assim, Barral afirmou que, com base no diálogo bilateral entre Brasil e China, foi acordado fortalecer um ecossistema de instituições e especialistas para aprofundar o intercâmbio e o desenvolvimento tecnológico compartilhado. “Combinar as escalas de Brasil e China é a oportunidade de acelerar as transformações e o desenvolvimento da aplicação em larga escala de soluções para a energia elétrica, fortalecendo uma presença estratégica dos dois países nas novas cadeias de valor e nesses novos mercados. E não só nos dois países, mas também em outros países da região. Este é o único modo de levarmos a colaboração econômica de Brasil e China para um novo patamar”.

O secretário nacional de transição energética e planejamento do Ministério de Minas e Energia, Thiago Barral. Crédito: SGBH.

De acordo com ele, o Ministério confirma haver no futuro uma missão técnica de especialistas brasileiros à China, de representantes da EPE e do Ministério de Minas e Energia com foco em tecnologias de HVDC, de alta tensão, para apoiar os planos do Brasil, nos próximos anos, de ampliação das estruturas de transmissão. “Além dos investimentos bilionários em transmissão, o Brasil prevê destinar pelo menos 500 bilhões ao setor de distribuição, a partir dos novos contratos que estão sendo firmados com o decreto estabelecido pelo Ministério de Minas e Energia e pelo Governo Federal. Novas regras para investimento na distribuição tendem também a criar muitas oportunidades no desenvolvimento tecnológico e aplicação de soluções inteligentes para essas redes. O Ministério de Minas e Energia também já anunciou para o próximo ano o primeiro leilão de baterias para apoio ao suprimento de potência do sistema elétrico, trazendo mais flexibilidade”.

Em seu discurso, o presidente da State Grid Brazil Holding, Sun Tao, informou que a empresa trabalhará em estreita colaboração com todas as unidades membros para promover o desenvolvimento de alto nível da Aliança de Inovação em Energia Elétrica China-Brasil. Em especial, a SGBH vai concentrar esforços na interconexão da indústria de rede elétrica, tecnologias, recursos, padrões e talentos, além de assumir o compromisso em construir cinco plataformas principais:

Primeiro, uma plataforma para atender às necessidades de transição energética, promovendo conquistas avançadas e soluções inovadoras no campo da tecnologia de energia elétrica e fomentando a inovação e o desenvolvimento industrial;

Segundo, uma plataforma para cooperação integrada indústria-academia-pesquisa, promovendo a transformação de inovações tecnológicas, conquistas de pesquisa e cultivando tecnologias avançadas de energia elétrica;

Terceiro, uma plataforma de acoplamento de recursos de cooperação internacional, promovendo o fluxo de recursos e a colaboração entre a China e o Brasil nas áreas de equipamentos, serviços e tecnologia de rede;

Quarto, uma plataforma internacional de troca de padrões técnicos, promovendo o consenso e o desenvolvimento de padrões entre a China e o Brasil no campo da tecnologia de rede, aumentando a influência e a voz de ambos os países na indústria global de energia;

E Quinto, uma plataforma para fomentar talentos em ciência e tecnologia, promovendo trocas e interações entre técnicos da China e do Brasil, expandindo perspectivas internacionais e cultivando talentos de tecnologia de energia de primeira linha.

O presidente da State Grid Brazil Holding, Sun Tao. Crédito: SGBH.

Cada membro da aliança é um praticante e promotor de nossa visão compartilhada, e esperamos que mais parceiros com ideias semelhantes se juntem a nós para compartilhar oportunidades e enfrentar desafios juntos. Estamos ansiosos para unir forças com todos vocês para ajudar a facilitar a transição energética da China e do Brasil, apoiar o desenvolvimento econômico e social, beneficiar as pessoas de ambas as nações e contribuir para a realização de um futuro global verde e de baixo carbono!”.

Nas palavras do vice-presidente da State Grid Corporation of China, Jin Wei, diante das novas demandas da transformação global de energia, a empresa vem adotando a estratégia de desenvolvimento orientada para a inovação, promovendo vigorosamente a inovação científico-tecnológica, a transformação digital, o cultivo e o desenvolvimento de um novo tipo de produtividade, acelerando a construção do novo sistema de energia.

Por meio de inovação independente, a State Grid alcançou uma série de inovações científicas e tecnológicas com direito de propriedade intelectual, liderando o desenvolvimento da tecnologia de redes elétricas em muitos campos, como transmissão de ultra alta tensão, segurança de grandes redes elétricas, conexão de rede de energia nova, redes inteligentes e assim por diante. Construiu o primeiro projeto de transmissão de corrente contínua de ultra alta tensão em mais de mil KVA do mundo e o projeto de transmissão de corrente contínua flexível de ultra alta tensão em cascata híbrida de 800 KVA. Construiu o primeiro projeto de rede de corrente contínua flexível de 500 KVA do mundo com conexão de rede em quatro extremidades para transmitir energia renovável que foi ligado à capital da China, Beijing. Este ano, a empresa também iniciou a construção do primeiro projeto UAHV de corrente contínua flexível, em 800KV, com duas extremidades do mundo”.

O lançamento da EISA com a assinatura de um Memorando de Entendimento pelas entidades fundadoras, contando com apoio do Ministério de Minas e Energia do Brasil. Crédito: SGBH.

Ainda conforme o vice-presidente da SGCC, a empresa tem negócios em 45 países ao redor do mundo e realizou investimentos e participação na operação de 13 projetos de rede de transmissão em 10 países. “No Brasil, adotamos desde 2010 a operação orientada para o mercado, de longo prazo e nacionalizada. E tocamos com sucesso muitas cooperações com parceiros brasileiros no campo da infraestrutura de energia elétrica. Participamos da construção e desenvolvimento do setor de energia do Brasil e fornecemos serviços estáveis de fornecimento para 15 estados brasileiros, atendendo ao forte desenvolvimento econômico e social do país. A amizade entre o Brasil e China tem uma longa história. Como os dois maiores países em desenvolvimento no Oriente e no Ocidente, os dois países têm responsabilidades importantes no enfrentamento dos desafios comuns na mudança climática e na transição energética, especialmente na operação e na segurança de grandes redes de energia, no desenvolvimento e na utilização de fontes de energias renováveis e em outras questões comuns”.

Por fim, o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Thiago Prado, afirmou que o Brasil desponta como o maior mercado sul-americano e parceiro estratégico da China. Entre 2005 e 2020, o país recebeu 47% do estoque de investimentos chineses na América do Sul. Ele ainda enfatizou que o Brasil se tornou um dos maiores fornecedores do mercado chinês, o que demonstra, segundo ele, a existência de uma interdependência econômica que contribui para a estabilidade e o avanço de ambas as nações. O presidente da EPE ainda mencionou o Plano Decenal de Expansão de Energia 2034, que se encontra em consulta pública e aponta trilhões de reais de investimentos no setor de energia nos próximos anos, está recebendo contribuições.

O intercâmbio de conhecimento entre entidades brasileiras e chinesas têm um potencial para impulsionar a produtividade e criar oportunidades de crescimento para ambos os países… A aliança que hoje celebramos resulta de um processo colaborativo entre nada menos que 16 instituições que se dividem entre ordenamentos jurídicos brasileiros e chineses… A construção de um consenso sobre os termos dessa parceria, que rendeu diversos debates, durou menos de um ano. Trata-se de um feito notável, que nos mostra a existência dos interesses convergentes e o elemento mais importante da construção de uma aliança… Lideremos esse caminho para um setor elétrico inovador, sustentável e inclusivo”.

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