
Levar conhecimento técnico, método e instrução para lugares diferentes daqueles que tradicionalmente tem a chancela da educação formal é um desafio dos mais complexos. Se ensinar crianças e adultos dentro de uma instituição de ensino como a conhecemos já se torna difícil em um mundo que desvaloriza o conhecimento, imagine levar estas teorias e práticas para locais em que a prática do ensino se dá em diferentes espaços a cada momento. Este, porém, é um dos principais objetivos da extensão rural. E no caso do Escritório Local de Magé (ESLOC) da Empresa Assistência Técnica e Extensão Rural (EMATER-RIO), o desafio tem sido levado a cabo com pleno sucesso.
Apesar da carência de recursos à qual a EMATER-RIO tem sido relegada há décadas, a dedicação de servidores conscientes de seu papel enquanto promotores do bem-estar da população rural mantêm o funcionamento do Escritório Local com brilhantismo. E aqui não se trata de romantizar o servidor abnegado que beira o sacerdócio e que retira recursos de si próprio para conduzir o trabalho abandonado pelo Estado neoliberal. Neste caso específico, trata-se do reconhecimento de um trabalho que colhe resultados mesmo com problemas estruturais, como a falta de orçamento e de pessoal.
Nosso contato com o Escritório Local foi iniciado a partir daquelas coincidências que abundam no nosso cotidiano. Professor de matemática da rede estadual, o engenheiro agrônomo Edison Cruz apresentou o trabalho desenvolvido pela EMATER-RIO ao irmão do autor deste texto. Uma vez convidado para visitar os produtores rurais atendidos, o autor deste texto ficou imprenssionado com tudo que viu, em um local próximo de uma área urbanizada e carente de empregos e recursos, em hectares espalhados aos pés das formações rochosas típicas da Baixada Fluminense e da região serrana.

Goiaba, mandioca, palmito, uma infinidade de alimentos produzidos tão perto e que enchem a mesa dos fluminenses, mas ao mesmo tempo são ignorados pela maioria da população. Em tempos de valorização do agronegócio e da produção voltada para o exterior, se abre uma janela para conhecermos a agricultura familiar e sua importância para alimentar o povo brasileiro, dos mais ricos aos mais carentes. Estar presente nas visitas aos produtores rurais e testemunhar o trabalho de extensão rural realizado naquele escritório é um privilégio, como uma viagem ao Estado de bem-estar social, onde a principal obsessão de seus servidores e gestores seria a garantia da dignidade da maior quantidade de pessoas, e não a manutenção dos lucros de uma minoria privilegiada como no caso do neoliberalismo instalado no Brasil há décadas. É possível imaginar uma alternativa.
As lutas campesinas e a utilização do aparelho do Estado pela classe dominante
As lutas campesinas têm sido uma constante no cenário político brasileiro. A utilização do aparelho do Estado pela classe dominante na intenção de reprimir a luta pela terra fez parte da agenda política de vários governos, da Primeira República à Ditadura Militar, da Era Vargas ao advento do neoliberalismo. No Brasil, o Estado tem sido o maior apoiador do latifúndio monocultor desde os tempos da Lei de Terras do Império. E se a atuação dos camponeses tem sido limitada pelas lutas envolvendo a posse da terra, a educação para o campo é vítima primeira desse processo. Ou seja, barrando a chegada da educação formal, as classes dominantes impedem a tomada de consciência desses trabalhadores sobre seus direitos e suas possibilidades.
Paulo Freire (2016) já há algum tempo havia chamado a atenção para a construção do conhecimento como uma necessidade de articular os saberes do educando com as práticas docentes. Ou seja, a aprendizagem não poderia ser produtiva se o educador não se propusesse a aceitar que aquele que está aprendendo também produz conhecimento. Isso fica claro na medida em que percebemos o quanto a sabedoria dos trabalhadores do campo, no caso específico de Magé, materializava-se nas conversas com os técnicos responsáveis pela extensão rural.

Não há como pensar numa forma de docência que não leve em consideração a formação do educando; não há como pensar em educador que imagina depositar seus conhecimentos sobre o educando como uma caixa vazia. Na medida em que o portador do conhecimento mais acurado relaciona-se com o educando, este também ensina àquele outras formas de produção do conhecimento. Em outras palavras, não há projeto governamental que não seja “deformado” pelas práticas educacionais que acontecem entre um educador progressista e consciente e um educando que utilizará aquele conhecimento para sua vida.
E é justamente nesse ponto que se encontra o trabalho do Esloc-Magé, pois, apesar de receber do Estado (classe dominante) a incumbência de prestar somente a assistência técnica para os agricultores, esses técnicos/educadores transformam essa assistência em um conhecimento radicalmente distinto do que se apresentava no papel. De um simples curso de capacitação, ele se transforma em conhecimento vivo. Freire (2016) entendia que o educador deve relacionar sempre o conhecimento levado ao educando com a formação anterior desse educando, em seus saberes comunitariamente construídos, sem a necessidade de nenhuma intervenção do Estado.
Aquilo que é construído sem a educação formal faz parte do edifício que se construirá com os novos conhecimentos adquiridos. Nossa ideia é de que, apesar do esforço do Estado capitalista em manter sob seu domínio a classe dos trabalhadores, por meio da intervenção dos educadores conscientes da luta do proletariado, é possível construir um conhecimento que manobre a estrutura oficial, que se manifeste criticamente, implodindo a estrutura de dominação por dentro, usando muitas vezes o próprio recurso do Estado financiador. Assim, na perspectiva crítica, o papel desses educadores deve ser o de instigar a natural curiosidade desses que recebem o auxílio da extensão e estimulá-la para que se torne crítica e empenhada em entender quais as razões para a cruel distribuição das terras no Brasil.

Ao trocarem experiências com os trabalhadores rurais, esses profissionais mostram-se como verdadeiros educadores críticos e progressistas, na medida em que constroem, conjuntamente, o conhecimento que será levado a outros locais atendidos. Nada deve impedir que a poda de uma goiabeira feita por produtor tenha mais sucesso nas condições climáticas da área do que aquela apresentada pelo agrônomo. O papel de educador progressista consiste, justamente, em reconhecer esse caráter dialógico da extensão.
A atuação da EMATER-RIO
A contar com a precisão do Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística de 2000, Magé possui pouco mais de 200 mil habitante, com 386km² de extensão, numa população majoritariamente urbana. Dividido em 6 distritos, é o 56° lugar no ranking do IDH do estado do Rio de Janeiro. Em um estado com 92 municípios, sua colocação não é das mais invejáveis, o que só acentua o caráter fundamental da EMATER-RIO no município:
“Como Missão, a EMATER-RIO busca contribuir para o desenvolvimento do setor agropecuário, especialmente dos pequenos e médios produtores, de forma integrada e sustentável, por meio da transferência de conhecimentos de natureza técnica, econômica e social, incorporando o agronegócio nos Programas de Assistência Técnica, Extensão e Engenharia Rural, beneficiando a população do Estado do Rio de Janeiro” (EMATER-RIO, 2015).
Em valores, as maiores produções do município são as de aipim, quiabo, milho verde e batata doce. Em produção absoluta, o milho verde desponta como a maior produção, com mais de 2.500 toneladas. A avicultura de corte lidera a produção em valores, com uma produção de mais 2 milhões de reais por ano. A atuação da EMATER-RIO trata especificamente dos pequenos e médios produtores, algo comum no município de Magé, que não possui grandes latifúndios nas mãos de um único proprietário. Com orçamento modesto e carência de funcionários, o ESLOC-Magé sobrevive com criatividade e excelência nos recursos humanos.

Sua atuação remonta ainda da época da Ditadura Militar, quando foi fundada em 1969. O ESLOC-Magé busca, além do desenvolvimento da agricultura no município, privilegiar estratégias que poupem a natureza de um desgaste desnecessário, além de lutar pelo empoderamento e pela segurança alimentar das áreas carentes do município. Esse tipo de atuação fica patente no próprio relatório anual de atividades produzido pelo ESLOC-Magé:
“Os extensionistas são possuidores de saberes especializados que levam conhecimentos e estimulam o desenvolvimento de atributos pessoais para que os indivíduos desempenhem seus papéis sociais e com isso promovendo transformações na sociedade rural” (EMATER-RIO, 2015).
Ao pensar no binômio “saberes especializados/atributos pessoais”, fica claro como o desenvolvimento de uma política que pense nas experiências e expectativas do trabalhador rural tem a oportunidade de sucesso ampliada. Nossa intenção não é de promover um ato de desagravo à instituição EMATER-RIO, mas sim comprovar, empiricamente, como foi possível direcionar os recursos do Estado, que deveriam ser utilizados na melhoria da qualidade de vida material da população, visando a contenção de conflitos na terra, para novas experiências que dêem consciência e poder aos agricultores, o que ocorre quando eles se veem reconhecidos no conhecimento construído para a prática de seu trabalho.

As práticas desenvolvidas pelos agentes públicos EMATER-RIO
Com base nas entrevistas realizadas com três profissionais da EMATER-RIO e três agricultores, é possível compreender algumas das práticas desenvolvidas pelos agentes públicos que atuam na empresa, assim como o que pensam sobre o caráter educacional que o trabalho desenvolvido adquiriu ao longo dos anos e como esse trabalho vem sendo apreendido pelos homens e mulheres do campo. Em nossa primeira entrevista, o aspecto educacional do trabalho da EMATER-RIO fica evidenciado na fala do médico veterinário Thiago Ribeiro Castello Branco, funcionário do Escritório Local de Magé, e extensionista rural.
“A gente tá sempre, a todo momento educando. A gente não é… a extensão rural, o que eu acho muito interessante é que a gente não tem aquela hierarquia da pessoa: “Eu sou o técnico… Eu sou…” A gente sempre tem aquela horizontalidade… Então a gente chega, é amigo do produtor e com isso a gente tem muito contato com eles, muita abertura deles. Conversa, almoça com eles…”.
O tipo de relação construída com o produtor rural se mostra como aquele defendido por Freire (2016), buscando respeitar o saber e a identidade do educando, deixando claro que o conhecimento a ser produzido será fruto do diálogo entre os dois agentes. Isso fica mais patente no reconhecimento por parte do médico veterinário da validade dos conhecimentos adquiridos pelos produtores:
“Chega lá e tem um conhecimento, que eles acham que o nosso conhecimento é maior. Mas a gente tá lá aprendendo sempre. A gente as vezes aprende mais do que ensina. E, é legal essa relação.”
É a partir desse referencial que se pode construir uma relação entre educador e educando que motiva a participação do trabalhador rural e mostra que seu conhecimento será valorizado e respeitado no diálogo. Estas práticas não podem ficar restritas aos discursos e às obras escritas, devendo fazer parte do cotidiano do extensionista e do educador, como fica claro nas palavras do produtor Roberto (Os nomes dos produtores rurais serão preservados em nome de sua privacidade):
“Eles numa conversa, se os caras rodaram a roça você já tem uma ideia… Outro dia eu conversando com Édison ali, pô, os dez minutos que eu conversei com ele, já me ajudou e muito. Técnicas e alguns produtos. Igual que eu mexo com orgânico… Algumas coisas que podem ser usados, que não podem, porque tem todo uma legislação. Ele falou de algumas coisas que podem ser usadas, alguns tipos de adubos que podem ser usados, que para mim, na minha concepção, não poderia ser usado, entendeu? Não, isso pode ser usado na agricultura orgânica sim! Todo mundo usa, pode ser usado…”.
Ou seja, os trabalhadores rurais reconhecem o trabalho do ESLOC-Magé como um referencial de legislação e de boas práticas, principalmente em um momento em que a agricultura familiar tem sido cada vez mais exigida em relação ao seu manejo. Este acolhimento e atenção sobre o produtor e seus conhecimentos anteriores não passa despercebido pelos maiores interessados no trabalho da EMATER-RIO, que são os próprios agricultores. Vejamos Max, produtor rural da região tratando das relações estabelecidas com os extensionistas:
“Às vezes o projeto, igual ao que tá saindo aí, o Rio Rural. Eles que fazem o trabalho muito bem. Acolhendo todo mundo. Englobando o pessoal que vem a ser beneficiado, né? Eles tem um trabalho muito atencioso com a gente. Essa equipe que está ai agora, está muito boa. O Thiago, o Edison, pessoal do escritório também. Para mim, sempre me atenderam bem“.
Dessa forma fica claro o cuidado com os trabalhadores rurais e a possibilidade de ampliação do escopo de atuação dos extensionistas, afinal quanto maior a relação de confiança entre os agentes da produção do conhecimento, maior o potencial das práticas. Isso fica evidente na fala de Aluísio Sturm, engenheiro agrônomo do ESLOC-Magé:
“Se você olhasse Magé lá atrás, nós fizemos o levantamento de verminoses, acho que deu 85% dos cidadãos da área rural tinha verminose. A maioria não tinha filtro, nós fizemos campanha de filtro, você vê, isso há 50 anos atrás”.
A relação entre a extensão rural e a população atendida não se limitou e não se limita a tratar de aspectos técnicos e burocráticos. O trabalho que chega às pontas da atuação estatal, quando articulado por profissionais que enxergam a possibilidade de construir o conhecimento junto dos cidadãos atendidos leva à melhoria da qualidade de vida e às possibilidades de emancipação. A produtora rural Eliane, que junto do marido abandonou as terras em que trabalhava para um proprietário, denota esta faceta:
“A gente chegou aqui, para morar aqui… A gente veio do Rio (de Janeiro). E a gente veio querendo fazer um trabalho aqui mesmo. Só que a gente veio, assim, meio sem saber como fazer. Aí foi quando indicaram a EMATER. E a EMATER ajudou a gente muito, até hoje eles ajudam a gente“.
Os frutos do movimento intrínseco dessa educação libertadora surgem quase que espontaneamente, brotando na melhoria da qualidade de vida da população rural como as flores na terra. E este processo fica exemplificado nas palavras de Edison Cruz, engenheiro agrônomo e supervisor local da EMATER-RIO no ESLOC-Magé:
“Aí você começa a atuar como educador, quando você começa a construir com o agricultor unidades demonstrativas de observação. Exemplo: poxa, vamos fazer uma adubação diferente na batata doce? Que é uma lavoura importante aqui. Vamos! De que maneira? Eu não chego para ele e formulo não. Eu formulo junto com ele e crio um campo de testes. Quatro ou cinco adubos, quatro ou cinco maneiras de plantar e ele vai observando qual é o melhor adubo, qual é a melhor época de plantio. Entendeu? E aí ele toma as decisões dele. Logicamente, vem um lado técnico e estatístico nosso. Aqui você produziu mais dois mil quilos e gastou mais cem reais; ali tu produziu mais dois quilos, mas gastou mais mil reais. Então não compensa aqui. É relação custo x beneficio. E ele vai tomando as decisões. Quando ele descobre isso aí, o papel de educador atingiu, correto? Você atingiu o objetivo. Porque depois ele vai replicar, entendeu?“.
Ou seja, a educação dialógica se pratica a partir desse reconhecimento. Da assunção de que o trabalhador rural tem conhecimento e de que a sua emancipação passa também pela tomada de consciência própria, fugindo dos chavões paternalistas. Assim, resta o reconhecimento do trabalho promovido pela EMATER-RIO no Escritório Local de Magé, onde a extensão rural é praticada não somente como acessório das práticas acadêmicas, mas sim como possibilidade de levar cidadania e dignidade ao campo, local tão fértil no questionamento da ordem estabelecida como testemunhamos há tanto tempo no Brasil.
Referencias bibliográficas
EMATER-RIO. Relatório das atividades da EMATER-RIO. Rio de Janeiro: Embrapa, 2015.
ENGELS, Friederich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2016.

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