Novo fóssil encontrado em Santa Cruz do Sul pode representar um dos dinossauros mais antigos já identificados

Nova espécie de silessauro “Itaguyra occulta”. Crédito Arte: Mauricio Garcia e Matheus Gadelha.

O estudo “Continuous presence of dinosauromorphs in South America throughout the Middle to the Late Triassic” (“Presença contínua de dinossauromorfos na América do Sul durante o Triássico Médio e Superior”, em tradução livre) foi publicado na sexta-feira, 30 de maio, pelo periódico Scientific Reports, do Grupo Nature. Liderado pelo paleontólogo e doutor pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Voltaire Paes Neto, que realiza o pós-doutorado no Museu Nacional – vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro –, o estudo descreve fósseis de uma nova espécie de silessauro, um grupo de répteis característicos do período Triássico.

A principal contribuição do artigo está na descrição de dois novos ossos da cintura (um ílio e um ísquio) de um animal do grupo dos silessaurídeos, que foi batizado pelos pesquisadores como Itaguyra occulta. Segundo Heitor Francischini, professor do Departamento de Paleontologia e Estratigrafia, do Instituto de Geociências (IGeo/UFRGS), e coautor da pesquisa, esse novo achado na área paleontológica permite conhecer mais a biodiversidade passada da região gaúcha. “Com isso, ele é mais um tijolo que é colocado na construção de um panorama sobre a fauna, o ambiente e o clima do passado (aproximadamente 235 milhões de anos atrás) do Rio Grande do Sul. E, como todos já sabemos, é somente quando olhamos para a dinâmica da Terra e da vida no passado, que podemos compreender o futuro do nosso planeta”, explica ele.

A pesquisa iniciou quando Voltaire ainda era estudante de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Geociências da UFRGS. De lá para cá, novos integrantes foram adicionados à pesquisa, sendo que assinam o artigo, além da UFRGS, pesquisadores do Museu Nacional (UFRJ), do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia (Cappa/UFSM), da Unipampa e do Museo Argentino de Ciencias Naturales, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e do projeto INCT-Paleovert.

Artigo: “Continuous presence of dinosauromorphs in South America throughout the Middle to the Late Triassic (“Presença contínua de dinossauromorfos na América do Sul durante o Triássico Médio e Superior”, em tradução livre)

Autores: Voltaire D. Paes Neto (Departamento de Geologia e Paleontologia, Museu Nacional/UFRJ); Flávio A. Pretto (Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica/UFSM); Agustín G. Martinelli (Museo Argentino de Ciencias Naturales Bernardino Rivadavia- Conicet/Argentina); Francesco Battista (Departamento de Paleontologia e Estratigrafia IGeo/UFRGS); Maurício Garcia (Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica/UFSM); Rodrigo T. Müller (Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica/UFSM); Mauricio R. Schmitt (Programa de Pós-Graduação em Geociências/UFRGS); Tomaz P. Melo (Programa de Pós-Graduação em Geociências/UFRGS); Heitor Francischini (Departamento de Paleontologia e Estratigrafia IGeo/UFRGS); Cesar L. Schultz (Programa de Pós-Graduação em Geociências/UFRGS); Felipe Pinheiro (Laboratório de Paleobiologia/Unipampa); Marina B. Soares (Departamento de Geologia e Paleontologia, Museu Nacional/UFRJ) e Alexander W. Kellner (Departamento de Geologia e Paleontologia, Museu Nacional/UFRJ).

Unidades da UFRGS: Departamento de Paleontologia e Estratigrafia/IGeo e Programa de Pós-Graduação em Geociências.

A nova espécie já conta com uma reconstrução artística (escultura em vida) e está em exibição no Museu de Paleontologia Irajá Damiani Pinto, localizado no Campus do Vale da UFRGS (Avenida Bento Gonçalves, 9500, Agronomia, Porto Alegre). O museu conta com diversos fósseis da região e concentra o Núcleo de Paleontologia do projeto Geoparque Vale do Rio Pardo.

Quem eram os silessauros?

Os silessauros foram, em geral, animais pequenos de aproximadamente um metro, caracterizados por apresentarem um bico na região anterior da mandíbula, pernas e braços longos típicos de animais quadrúpedes e muito provavelmente apresentavam diversos hábitos alimentares, sendo em geral insetívoros – ainda que representantes herbívoros sejam frequentes. Foram comuns durante o final do Triássico no mundo todo.

No Brasil, fósseis de silessauros ocorrem apenas no Rio Grande do Sul, em rochas do Triássico Médio de aproximadamente 240 milhões de anos atrás: Gamatavus antiquus (encontrada em Dilermando de Aguiar) e Gondwanax paraisensis (de Paraíso do Sul). Também no Rio Grande do Sul, porém em rochas mais jovens do Triássico Superior, de 233 a 225 milhões de anos atrás, os silessauros são encontrados junto a fósseis de dinossauros saurísquios, como o Amanasaurus nesbitti (de Restinga Sêca) e Sacisaurus agudoensis (de Agudo).

Representação em vida da nova espécie de silessauro “Itaguyra occulta”. Dois “Itaguyra occulta” aguardam a chuva em um leito seco de rio. Junto a eles estão parentes distantes dos mamíferos. Este era o cenário há 227 milhões de anos atrás do que é hoje Santa Cruz do Sul. Crédito Arte: Matheus F. Gadelha.

A nova espécie, Itaguyra occulta, viveu em um momento intermediário, aproximadamente 237 milhões de anos atrás, um intervalo ainda pouco conhecido para os paleontólogos. Ainda que se conheça poucos elementos desta nova espécie, apenas os ossos da cintura foram recuperados, eles são bastante diagnósticos para identificar o grupo dos silessaurídeos. O Itaguyra occulta viveu junto a parentes distantes dos mamíferos, como dicinodontes e os cinodontes herbívoros, além de outros répteis como os rincossauros e parentes distantes dos crocodilos.

O nome desta nova espécie está ligado a como o fóssil foi ‘re-descoberto’, já que é derivado da palavra Tupi ‘Ita’ que significa ‘pedra’ e ‘guyra’ que significa ‘ave’, ou seja, a ave de pedra; e occulta, derivada do latim, oculto – pois seus restos estavam escondidos em meio a ossos de outros animais desta fauna ainda pouco conhecida”, diz Francesco Battista, pesquisador da UFRGS e um dos coautores do artigo. A redescoberta e a análise desses materiais corroboram para o entendimento da evolução dos primeiros dinossauros e reforça a importância do sul do Brasil como uma região-chave para o estudo da origem do grupo.

Fonte: Texto originalmente publicado no site da UFRGS.
Link direto: https://www.ufrgs.br/site/noticias/ciencia/novo-fossil-encontrado-em-santa-cruz-do-sul-pode-representar-um-dos-dinossauros-mais-antigos-ja-identificados/

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