
Entre uma programação diversa e ampla, a edição de 2025 da Bienal do Livro do Rio de Janeiro abriu espaço para vários debates que o mundo literário possibilita ao público que busca por reflexões mais profundas. A Revista Intertelas teve a oportunidade de participar da conversa realizada no dia 21 de junho de 2025 entre os escritores Milton Hatoum (Brasil), Alexandra Lucas Coelho (Portugal) e Lina Meruane (Chile), com a mediação de Laura Di Pietro (Brasil), diretora editorial da Tabla. O assunto central foi “Palavra em resistência: Literatura, Memória e Palestina”. Em outras palavras, a reunião com o público visou demostrar aos presentes a conexão entre a região, Gaza e o Oriente Médio em geral, e a trajetória profissional e de vida desses autores. Junto a isso, algo ainda mais urgente foi salientado: como a linguagem e a literatura podem contribuir para a resistência de um povo que enfrenta um genocídio e como ela também auxilia no projeto sionista de eliminação dos palestinos.

Nas palavras da mediadora Di Pietro, Milton Hatoum, nascido em Manaus, estreou na ficção com seu livro que fez parte das discussões nesse evento na Bienal. Trata-se de “Relato de um certo oriente”, lançado em 1989, e que venceu o prêmio Jabuti de melhor romance. Já o segundo romance do autor, “Dois Irmãos”, foi adaptado para televisão, teatro e quadrinhos. Alguns títulos de sua obra já foram publicados em 17 países, sendo traduzidos em diversos idiomas. Além do trabalho autoral, Hatoum traduziu para o português autores como Flaubert, Marcel Schwob e Edward Said. Já Alexandra Lucas Coelho nasceu em Lisboa. A autora de “Gaza está em toda a parte” tem 15 livros publicados entre romances, não-ficção, infanto-juvenil e trabalhou como jornalista, editora e repórter por cerca de 30 anos, cobrindo conflitos em diversas partes do mundo.
Ela também foi correspondente do jornal “O Público” em Jerusalém e no Rio de Janeiro e recebeu vários prêmios de jornalismo. Por sua vez, Lina Meruane nasceu no Chile, mas vive nos Estados Unidos, onde leciona escrita criativa na Universidade de Nova Iorque. É autora de diversos livros de ficção e não-ficção, tendo recebido vários prêmios como o iberoamericano de letras, José Donoso, no Chile, em 2023. Publicou o livro “Tornar-se Palestina”, pela editora Relicário em 2019. Em 2025, a obra ganhou uma segunda edição ampliada, com prefácio do Milton Hatoum, que foi lançado nesta edição da Bienal do Rio. “Memória é um tema que está muito presente nos três livros aqui abordados… Eu percebo que há um padrão… como se recuperar a memória só fosse possível por meio de um mosaico. E eu queria que vocês falassem um pouco dessa construção”, disse Di Pietro, abrindo o evento.

Memória, resistência e preservação dos laços culturais
Segundo Hatoum, “Relato de um certo oriente” foi elaborado em um período que ele não morava no Brasil e não planejava retornar, em razão que o país ainda se encontrava sob a ditadura militar. Ele ganhou uma bolsa que possibilitaria que ficasse alguns meses em Madrid, na Espanha, mas acabou permanecendo por quatro anos. Na época conheceu muitos exilados, entre eles um argentino chamado Mário Berlino, que foi também um grande tradutor do português e de obras literárias brasileiras. Foi ele que incentivou Hatoum a retornar as suas origens para escrever e resgatar a memória de sua ancestralidade.
“A literatura fala do passado. E eu comecei a me lembrar das histórias que eu via na minha infância… Histórias de migração, dos navegantes da família que iam para o interior do Amazonas… Histórias de travessias de Beirute a Manaus, passando pelo Recife. Histórias dos mais velhos, dos primeiros imigrantes que foram para o Acre, em 1904. Enfim, e as histórias, sobretudo, que meu avô paterno contava aos domingos para as crianças da família. Ele era um ótimo narrador, meio teatral, mentia muito, mas isso eu só soube depois. Inventava bastante, contava peripécias, coisas que não eram críveis, mas para a minha idade, para a minha imaginação, tudo era crível, tudo era verossímil”, lembrou Hatoum.

De acordo com ele, a memória é fundamental para as artes, sobretudo para a literatura. “Vamos dizer que a memória é a musa tutelar dos poetas e escritores… Como dizia Borges, o esquecimento faz parte da memória… a memória escolhe o que ela quer lembrar. A Clarice Lispector dizia: ‘Você se lembra daquilo que você esqueceu’. Parece uma contradição… mas a memória é importantíssima para quem escreve ficção, porque a passagem do tempo é uma aliada do escritor e da escritora. Você começa a esquecer, ou não se lembra mais com nitidez aquilo que existiu, aquilo que aconteceu. E são exatamente essas imagens um pouco nebulosas, sem muito contorno, que já não são mais retratos fiéis do passado que a imaginação vai agir. A memória é uma irmã siamesa da imaginação”.
Nas palavras do autor, a vantagem de ser filho de imigrantes é que você já convive com a alteridade, com uma outra cultura na sua própria casa. “Então, eu estava ali com árabes, com mulheres indígenas, com caboclos, com judeus marroquinos e que sorte poder ter convivido com essas pessoas e ter estudado numa escola pública, onde eu conheci meninos e meninas de toda a pirâmide social de Manaus. Eu montei esse romance como um mosaico, com fragmentos. É preciso lembrar que quando a gente fala, há também o silêncio da nossa fala, que é uma coisa misteriosa. O leitor trabalha com esse silêncio, ele imagina a partir desse silêncio, dessas lacunas, desses momentos quando nem tudo é dito, nem tudo é revelado. Então eu montei esse quebra-cabeça. Cada capítulo tem a voz de um personagem… a nossa memória quer entender o passado, embora a gente não compreenda o passado na sua plenitude. E essa tentativa de compreensão passa pela escuta dos outros. E a escuta, que hoje é tão raro, na literatura, é fundamental”.

Lina Meruane, descendente de palestinos no Chile, começou a escrever a “Tornar-se Palestina” em 2012, em razão de uma viagem à Palestina. “Eu não cresci como palestina, cresci como chilena… Eu sabia que tinha avós palestinos, mas não pensava na minha palestinidade. Até que cheguei aos Estados Unidos e com o ataque às Torres Gêmeas, a imprensa, imediatamente, levantou a ideia de que esse ataque poderia ter sido perpetrado por ‘Yasser Arafat e sua tropa de terroristas palestinos’. Aí eu percebi que ser palestina era um problema por lá, coisa que eu não tinha no Chile. Com isso, comecei a pensar na minha palestinidade e isso está contado nesse livro, mas foi quando cheguei aos territórios ocupados que comecei a escrevê-lo e ainda o estou escrevendo. A Palestina não deixa de me lançar perguntas urgentes, que tenho de tentar responder. Quando comecei a escrever sobre a palestinidade da minha família, o que eu entendi é que a memória familiar estava em ruínas. E eu quase poderia dizer que a própria Palestina estava em pedaços”.
Meruane contou que também compôs sua história a partir dos pedacinhos que foi encontrando e com a ajuda da investigação de historiadores e historiadoras que tomaram testemunho dos velhos e velhas palestinas que chegaram ao Chile no início do século XX. “O que minha família e grande parte da migração palestina havia feito foi apagar as partes tristes dessa memória, da dor, para poder dar um passo adiante e viver um presente feliz. Tentar que a nova geração, que é a geração de meu pai e minhas tias, pudesse ter uma vida melhor. E nessas partes apagadas também está o apagamento da língua. Para mim, meu livro é uma costura de todos esses pedaços. Mas também queria dizer que, quando se escreve a memória, tem que pensar em que língua se escreve. Porque essa memória é uma memória em árabe. Nesse árabe que também desapareceu”.
A escritora disse ainda tentar fazer um pouco de justiça para essas perdas do idioma e da memória na primeira parte do livro. “As seguintes duas partes têm a ver com a discussão sobre o idioma do conflito e, de novo, em que língua contamos isso e onde nos posicionamos no idioma. A terceira parte é uma volta para a Palestina e empreendo uma viagem acompanhada de outros estrangeiros e de palestinos, tanto pelo território da Palestina, quanto por Israel, onde os palestinos que nos acompanhavam não podiam entrar. Porque me interessava muito sair do eu que narro no princípio do livro e entrar também nessa experiência coletiva desse povo para poder incorporar outras vozes, outros olhares e outros problemas. O livro começa a incorporar, na última parte, o árabe como uma língua daquele lugar. E, de fato, é um livro que termina escrito em árabe. Já não no árabe transliterado, mas com a escrita árabe para honrar a língua que se perdeu e colocá-la em meu livro com um gesto de carinho para meus avós”.


Já Alexandra da Lucas Coelho afirmou que estamos rodeados de grandes silêncios perante o horror que estamos vivendo em Gaza. Conforme ela, seu livro pode ser lido como uma espécie de crônica do genocídio que está sendo testemunhado desde o dia 7 de outubro de 2023. “A minha relação com a Palestina vem de 2002, são 23 anos… Gaza é um lugar sem paralelo no planeta. Para mim foi também uma forma de transportar Gaza e a Palestina para a literatura portuguesa. De encrustar este escândalo que é Gaza há muito tempo dentro da literatura. Esse é, na verdade, o quarto livro, digamos que é atravessado por essa presença central na minha vida. No dia 7 de outubro, voltei para casa de uma caminhada, peguei o meu telefone que tinha deixado na banca da cozinha e vi as notícias. Vi o que tinha acontecido e senti que a história se dividia ali. Nada seria mais como antes. A minha vida não seria igual a partir daquele momento. Comprei uma passagem nesse mesmo dia. Já não trabalhava como repórter, escrevia livros. Eu precisava estar lá, mas o voo acabou sendo cancelado na escala e eu tive de voltar. E o que é que eu podia fazer? Eu tinha que tentar escrever. Então, eu comecei a enviar textos ao jornal onde eu tinha trabalhado por 20 anos, o Público, que é o principal diário português”.
A autora comentou sobre a decisão de Israel de impedir que a imprensa mundial possa cobrir o que ocorre em Gaza desde a data mencionada. “Eu considero isto a maior derrota da história do jornalismo. Além disso, 220 repórteres palestinos foram assassinados por Israel. E nesse instante, tudo aquilo que nós fomos recebendo de Gaza, que nós fomos vendo de Gaza, foi enviado à custa da vida dos que nos deram todas as provas possíveis do genocídio que estão vivendo… depois de passar mais de um ano escrevendo textos, eu pensei, ok, eu vou juntar isto num livro para guardar. Aí eu fui encontrar a última viagem que eu tinha feito a Gaza para que as pessoas pudessem entender o que era aquele mundo que já estava à beira de explodir. Como foi possível que durante décadas o mundo tenha abandonado 2 milhões de humanos atrás de um muro, como se não fossem humanos, como se não fossem iguais a nós”.


A palavra que busca a verdade e a palavra que está a serviço da guerra
Em “Tornar-se Palestina”, como já mencionado antes, Lina Meruane faz uma reflexão profunda sobre a linguagem. Como ela contou a plateia presente, na sua trajetória como escritora, pensava que o idioma literário era sempre transgressor, revolucionário e contrário ao poder constituído. Porém, com o passar do tempo percebeu que a literatura e o idioma também atuam em favor da repressão, do autoritarismo e do extermínio. “Lendo muito sobre o tema palestino, em particular, e sobre a ditadura chilena em geral, percebi que o idioma pode questionar o status quo das coisas, mas também pode confirmá-lo. Isto nós estamos vendo de uma maneira muito brutal, quando Israel defende ou proclama seu direito à defesa e, assim, comete um genocídio. Gaza não está fechada apenas para os jornalistas, está fechada para alimentação há mais de um mês. Crianças estão morrendo de sede e de fome. Vão morrer, na próxima semana, se continuarmos assim, pelo menos 500 mil pessoas, dos menos de 2 milhões que lá estão. Portanto, a linguagem pode servir para justificar e até mesmo fazer uma lavagem cerebral nos leitores. Em especial, quando a mídia segue essa narrativa oficial e a repete inúmeras vezes até que ela se torne normalizada”.

Desta forma Meruane começou também a pensar e analisar a questão de Gaza através do uso do idioma. “Até antes de sua fundação, Israel já tinha entendido que o idioma era um campo de batalha fundamental. Por isso, Israel funda certas instituições para renomear lugares e realidades da Palestina, para censurar o uso de certas palavras como, por exemplo, o Nakba, a grande catástrofe”. Conforme ela, os primeiros que vieram da Europa para a então Palestina, mudaram os nomes para deixarem de ser vítimas judias dos Pogroms na Rússia do século XIX e do Holocausto na Alemanha, no intuito de criar outra identidade.
“Ou seja, é uma forma muito clara e sutil de usar o idioma para fundar uma nação e fazer desaparecer outra. Ao ver a grande manipulação instalada na forma como as pessoas falam, percebi que tinha de repensar a questão da linguagem não somente para escrever melhor, mas para evitar cair nas armadilhas do idioma, que estão em todas as partes. Quando dizemos que há uma guerra na Palestina, isso é uma manipulação muito grave da verdade. Uma guerra se luta entre dois Estados, porém o que estamos vendo é um genocídio e essa palavra está proibida e até foi convertida em discurso de ódio. Hoje, se eu digo que Israel está cometendo um genocídio, para esses que manipulam as palavras, significa que eu estou fazendo parte de um discurso de ódio contra Israel, cometendo um ato de ódio coletivo”.

Na mesma linha de raciocínio de Meruane, Milton Hatoum citou o trabalho desenvolvido pelo ex-professor da Universidade de Columbia e autor das obras “Orientalismo” e “Cultura e Imperialismo”, Edward Said. “Ele foi professor de literatura inglesa e comparada e analisou de uma forma brilhante todo o discurso de superioridade do ocidente em relação ao oriente, sobretudo árabe e islâmico. Ou seja, como o ocidente demonizou o outro. O que precede a conquista do território é o discurso sobre o outro. O negro, ou os africanos, ou os palestinos ou os árabes, ou, às vezes, os japoneses, são desqualificados e colocados na condição de animais humanos. Só que isso não é novidade no discurso sionista. Em 1982, um general israelense chamado Rafael Eitan disse que os palestinos eram iguais a baratas drogadas numa garrafa. A criminalização dos árabes e dos palestinos existe antes da criação do Estado de Israel. É anterior a 1948”.

Para Hatoum, de forma sutil e erudita, Said analisa os discursos dos escritores, dos artistas, dos políticos ocidentais e esmiuça o que havia de racista e supremacista em seus discursos, sem deixar de admirar alguns grandes livros da literatura de língua inglesa e francesa. “Ele foi muito criticado. Alguns críticos ocidentais ficaram muito tocados, melindrosos, porque, para eles, você não pode criticar os cânones. Só que ele criticava a partir de um ponto de vista histórico, analisando aquilo que muitos leitores não conseguiram ler”. Hatoum citou ainda um exemplo que está na obra “Cultura e Imperialismo”, onde Said menciona o romance da Jane Austen, “Mansfield Park”.
“Nesse romance ele diz: ‘Mansfield Park’ é uma fazenda, é um recanto da Inglaterra, muito burguês, onde as pessoas vivem em paz. Mas, a personagem tem um parente que mora nas Antilhas. De onde vem essa riqueza de ‘Mansfield Park’? Vem da escravidão, dos negros escravizados nas Antilhas. Ou seja, não haveria ‘Mansfield Park’, sem a escravidão. Ele analisou como as relações sociais e históricas determinam no romance coisas que, às vezes, o leitor precisa do olhar crítico para perceber as sutilezas dessas tensões sociais. Ler Edward Said foi importante para eu me desintoxicar dos meus preconceitos também. Eu, filho de libanês, neto de libaneses, católicos e muçulmanos, ainda tinha certos clichês na minha cabeça. Esse livro me salvou”.
Por fim, a escritora Alexandra Lucas Coelho, representante europeia nessa conversa, salientou o papel colonial europeu na história de Gaza e como os governos europeus, em especial o alemão, estão reprimindo quem protesta pelo fim da violência e por uma Palestina livre, repetindo traços autoritários e preconceituosos do passado. “Hoje, no país que supostamente é a cabeça da Europa, é a maior potência do continente, a Alemanha, pode acontecer de alguém sair na rua usando um keffiyeh, ou uma bandeira da Palestina, e ser detido, ser arrastado no chão, sofrer agressões da polícia. É isso que está acontecendo em Berlim. É isso que está acontecendo na Europa. Portanto, vamos homenagear a Bienal do Rio e não esquecer o quão é preciosa a liberdade de poder escolher as palavras justas e verdadeiras para o que está acontecendo. Provavelmente eu seria presa na Alemanha hoje e meu livro não poderia ser publicado lá. Eu escrevi sobre esses 500 anos de violência da história portuguesa ligada ao Brasil, dos mortos no Atlântico, desses milhões de corpos que foram traficados, que foram violentados pela colonização portuguesa. E para mim, o que nós estamos vendo em Gaza hoje é o resquício da velha Europa colonial também”.
Para a autora, o sionismo nasce como uma resposta europeia, ao racismo incrustado da Europa. “A Europa é mãe e filha de Israel. Mãe, porque Israel é um produto da Europa. Filha, porque a Europa ficou refém, paralisada, supostamente por uma culpa do Holocausto. Mas essa culpa… na verdade, é racismo. Esse racismo implacável da Europa que ficou mais uma vez exposto a partir de 7 de outubro. O que os líderes europeus, uns após os outros, nos têm dito? Essas vidas palestinas não contam. Estas crianças não contam. A Europa é a primeira cúmplice desse genocídio. E isto inclui os líderes de Portugal, inclui quase todos os líderes europeus, com poucas exceções”.

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