10 anos de Sputnik Brasil – BRICS+: uma alternativa à unipolaridade caótica do ocidente coletivo

Crédito: Mariana Scangarelli/Revista Intertelas.

No intuito de refletir sobre a transformação da Nova Ordem Global e celebrar seus 10 anos de existência, a agência  Sputnik Brasil, parceira da Revista Intertelas, promoveu o seminário “BRICS como Promessa de Soberania Econômica, Midiática e Conceitual para o Sul Global”, no dia 3 de julho de 2025, na Câmara Brasil Rússia de Comércio, Indústria e Turismo, localizada no centro da cidade do Rio de Janeiro. Sendo uma agência de notícias multimídia e emissora de rádio de alcance global, a Sputnik realiza cobertura informativa em mais de 30 idiomas por todo o mundo. Com 25 centros multifuncionais, emprega numerosos jornalistas locais. Segundo a equipe da agência, seus conteúdos chegam a cerca de 35 milhões de visualizações diárias e sua audiência mundial de rádio supera 210 milhões de ouvintes. A Sputnik emite em inglês, francês, árabe, espanhol, português, turco, farsi e sérvio. Neste ano, a programação da Rádio Sputnik Brasil será ampliada em breve para 24 horas, trazendo ainda mais notícias e análises sobre assuntos da política nacional e internacional, economia, defesa, ciência e cultura.

Com o slogan “Falando nas entrelinhas”, o evento sobre os BRICS contou com a presença do filósofo russo e um dos principais teóricos do movimento eurasiático, Aleksandr Dugin; do economista brasileiro e ex-vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), além de ex-diretor-executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI), Paulo Nogueira Batista Jr; do jornalista estadunidense e cofundador do site The Intercept, Glenn Greenwald; do presidente do Instituto Pereira Passos e professor de ciências econômicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Elias Jabbour; e do colunista da Sputnik Internacional em Moscou, Pepe Escobar, responsável por mediar a conversa. A Revista Intertelas foi convidada a participar desse debate único que, basicamente, explorou os meandros do embate atual entre a ordem mundial unipolar, liderada pelo chamado ocidente coletivo, e a emergente multipolaridade, impulsionada pelos países do BRICS.

O filósofo russo e um dos principais teóricos do movimento eurasiático, Aleksandr Dugin. Crédito: Mariana Scangarelli/Revista Intertelas.

Abrindo o seminário, o filósofo russo Aleksandr Dugin iniciou a sua fala afirmando que o BRICS representa a união da maioria global, sendo a principal organização que simboliza a multipolaridade. Mesmo a Rússia estando geograficamente localizada no hemisfério norte, ela desempenha um papel especial, ao lado da China, da Índia e do Brasil, fundadores originais do BRIC, na construção de um mundo multipolar. Nas palavras de Dugin, os EUA (líder do ocidente coletivo), junto com seus aliados, insistem na unipolaridade e em sua hegemonia. “Eles desejam formalizar isso em uma organização internacional alternativa, a Liga das Democracias, ou seja, o próprio ocidente e seus vassalos submissos…é uma tentativa desesperada de preservar um mundo unipolar, centrado no ocidente. No entanto, a unipolaridade não é o futuro, mas o passado”.

Conforme Dugin, a era dos BRICS está apenas começando e mesmo com vozes dentro do próprio ocidente coletivo que reconhecem a emergência de ordem multipolar, as forças dos chamados globalistas liberais impedem que essa visão do mundo seja expandida entre os países do ocidente. Dugin explica isso citando Peter Thiel, empresário estadunidense que tem grande influência sobre figuras políticas importantes do atual governo Trump. “…os globalistas liberais, apoiadores da unipolaridade, apresentam o mundo multipolar como um choque de civilizações, o que consequentemente levaria ao Armageddon, ao Apocalipse. Assim, para Peter Thiel e outros apoiadores de Trump, as propostas liberais seriam uma espécie de anticristo que assusta a humanidade com catástrofes, epidemias e guerras para forçar a aceitação de seu domínio total. Para eles, o liberalismo, o globalismo e a unipolaridade são esse anticristo…”.

Segundo Dugin, Trump não tem pressa em cumprir as promessas feitas a quem o elegeu, o que pode ser observado na guerra agressiva contra o Irã, no seu posicionamento contra o próprio BRICS… e em seu apoio à agressão de Israel contra o Irã e ao genocídio da população palestina em Gaza. “Isso causou uma divisão entre seus apoiadores. De qualquer forma, o movimento Maga, que levou o Trump à vitória, quer que os Estados Unidos foquem em seus problemas internos, encerrem a política intervencionista, parem de fornecer enorme ajuda militar à Israel e ao regime de Kiev, reconheçam a multipolaridade. Se Trump fosse consistente, ele deveria solicitar a adesão ao BRICS e, junto com a maioria global, construir uma nova arquitetura para um mundo multipolar justo. No entanto, sob a influência de lobbies, especialmente dos neoconservadores, ele se desviou significativamente dessa linha, encontrando-se entre duas estratégias radicalmente diferentes”.

Assim, levando em conta o contexto relatado acima, Dugin conclui que a tarefa dos países que verdadeiramente escolheram a multipolaridade no nível ideológico e conceitual, e com base no potencial combinado dos meios de comunicação desses países, é provar o caráter harmonioso da multipolaridade, demonstrar o potencial pacificador do BRICS, sua capacidade de negociar eficazmente, apaziguar conflitos existentes e prevenir novos. “É necessário mostrar ao mundo de forma clara que o BRICS não é o caminho para Armageddon, não é o choque de civilizações; mas, ao contrário, a via correta para o mundo estável e confiável, para o diálogo e o respeito às particularidades civilizacionais e à soberania incondicional de todos os países, sem tentar impor novas formas de hegemonia. No BRICS todas são iguais, de fato”.

De acordo com Dugin, um aspecto importante da multipolaridade é que ela representa um modelo completamente novo de organização política do sistema internacional. “O sistema de Westfália foi baseado no reconhecimento da soberania dos Estados-nações, que inicialmente eram as potências coloniais europeias. Mais tarde, o princípio da soberania foi formalmente estendido às formações pós-coloniais. Assim foi criada a Liga das Nações. No entanto, os países não conseguiram desfrutar de uma soberania real por muito tempo. Já nos anos 1930, na Europa e no mundo, formam-se três polos ideológicos: liberal, comunista e fascista. Apenas esses três polos eram soberanos. Os Estados individuais rapidamente perderam qualquer soberania se não se alinhassem a um deles, voluntariamente ou forçadamente. Isso também se refletiu no mundo pós-colonial, incluindo os países da América Latina, onde diferentes Estados foram obrigados a escolher com quem estavam. A Liga das Nações foi dissolvida”.

Na linha de pensamento de Dugin, após a Segunda Guerra Mundial, a soberania nacional não foi restaurada, e embora a Organização das Nações Unidas tenha sido criada, formou-se um mundo bipolar, onde os países foram divididos em dois campos, capitalista e socialista. “As metrópoles desses campos, Moscou e Washington, eram soberanas. Já a maioria dos países da margem, não. Durante a Guerra Fria, havia também um movimento dos não-alinhados, mas ele não se tornou um polo independente. Após o colapso da União Soviética, surgiu um mundo unipolar, onde apenas um campo, o ocidental, permaneceu soberano. Aos demais foi oferecida a escolha: submeter-se ou morrer. Isso é o fim da história, o domínio absoluto da civilização liberal ocidental moderna sobre todos. Todos os outros países tinham uma soberania fictícia, e as votações na Organização das Nações Unidas tornaram-se uma formalidade vazia, refletindo os sucessos da hegemonia. Mas, desde o início dos anos 2000, a ascensão da China, da Rússia, da Índia e do Brasil colocou em xeque a soberania única do ocidente e a sua hegemonia”.

Contudo, para Dugin, o mundo multipolar não é apenas a restauração da soberania dos Estados-nações, mas das grandes potências, dos Estados-civilizações. “Eles reúnem, com base em sua civilização geopolítica, grandes espaços que têm a chance de se tornar povos verdadeiramente soberanos. O que quero dizer? O Polo não é apenas a Federação da Rússia, mas a Rússia-Eurásia, o mundo russo, a União Eurasiana. Por isso, a China luta pelo controle sobre Taiwan e promove o projeto Iniciativa Cinturão e Rota para além de suas fronteiras. A Índia segue o mesmo caminho. O mundo islâmico fragmentado não tem chance de se tornar um sujeito do mundo multipolar se não superar suas contradições internas… A temática da União Africana e do Pan-Africanismo na África torna-se cada vez mais relevante… e a América Latina se deseja ser soberana, deve encontrar uma forma de integração em um grande espaço ecúmeno, como diz o filósofo argentino Alberto Buela… a liderança do Brasil provou-se ser a mais perspicaz entre os países da América Latina, é o próprio Brasil, o mais responsável, o mais próximo do status de grande potência. O Brasil não apenas ingressou no BRICS, ele criou essa união. Estava e está na origem da multipolaridade. É hora de o Brasil desempenhar um papel de liderança na construção do grande espaço latino-americano”.

Dugin lembrou que esse era a ideia principal de Bolívar e San Martín, pioneiros da descolonização, e na formação dos Estados Unidos da América Latina, um Estado-civilização único, um polo soberano. “Mais tarde, essa ideia foi retomada tanto por forças de esquerda, de Castro, de Che Guevara, Hugo Chávez, quanto por forças de direita, o general Perón e o presidente do Brasil, Getúlio Vargas. Portanto, hoje é necessário um novo projeto integral, nem de direita nem de esquerda, de integração da América Latina, uma espécie de império soberano independente de qualquer um, nem dos Estados Unidos ou do ocidente coletivo, nem de qualquer outro povo. É nisso que vejo a missão do grande Brasil”.

O preparo dos EUA para a guerra contra o BRICS e os problemas internos do grupo

Em uma de suas intervenções, o escritor Glenn Greenwald salientou que com o fim da Guerra Fria, acreditava-se nos Estados Unidos que não era mais necessário ao país gastar tanto com guerras. No entanto, o também advogado estadunidense lembrou que, ao contrário desta lógica, os EUA logo buscaram estar presentes em outras guerras e o advento do 11 de setembro piorou esta situação. Nessa semana, segundo Greenwald, o Congresso dos Estados Unidos está pronto para aprovar um orçamento militar de 1 trilhão de dólares, o primeiro na história. “As elites governantes dos EUA acreditam que seu poder é tanto que não existe quem possa desafiá-los. Por isso, a emergência da aliança entre os BRICS torna-se fundamental na minha visão. É uma aliança entre países bem poderosos que pode impor limites ao que os EUA, a OTAN, Israel e outros almejam fazer no mundo”.

O jornalista estadunidense e cofundador do site The Intercept, Glenn Greenwald. Crédito: Mariana Scangarelli/Revista Intertelas.

Já para o professor Elias Jabbour, o mundo está passando por um processo, do qual o BRICS faz parte. Um processo que Milton Santos, um dos expoentes da intelectualidade brasileira, chamava de período popular da história. Ou seja, o período em que a humanidade passaria a ter acesso a tudo que o chamado meio técnico-científico, ou quarta revolução industrial, poderia oferecer para a humanidade. “Existe uma relação, no caso, dialética entre o fortalecimento e a soberania desse Estado-Civilização. Por exemplo, na minha visão, o conflito da Ucrânia é uma rebelião militar russa contra a ordem liberal, liderada pelo OTAN. E isso, consequentemente é uma afirmação do Estado civilização russo. A China com a Revolução Socialista de 1949, a reafirmação do socialismo em outro patamar a partir de 1978 e a construção de uma sociabilidade de nível superior baseada na liderança de um partido comunista na grande propriedade pública, também, na sua forma, afirma-se como Estado-Civilização. E isso leva a outras questões importantes como a integração produtiva entre China e Rússia, que está alcançando patamares altíssimos”.

Para Jabbour, pode-se dizer que existe hoje uma economia quase unificada entre China e Rússia, uma economia continental única. Que, para ele, talvez seja o grande fato geopolítico da nossa época histórica. “Então a União Eurasiática vai se consolidando e leva a que o futuro de países como o Brasil passe por uma integração produtiva total com a China e com a Rússia. Ao lado disso, o imperialismo estadunidense demonstra o seu lado mais obscuro, que é o lado da tendência à violência, que está bastante expressa nos ataques de Israel e Estados Unidos ao Irã. Eu acredito que os Estados Unidos e Israel não buscaram derrotar o Irã nos bombardeios a Teerã e as plantas nucleares, e sim tentaram enfraquecer, inclusive derrotar, os BRICS. Por outro lado, aqui na América Latina e em pontos sensíveis na Ásia como Taiwan, Hong Kong e Xinjiang, estão ocorrendo as guerras de quinta e sexta geração, as chamadas guerras híbridas. Essas guerras, junto com a questão da Ucrânia, de Taiwan e a guerra tecnológica entre China e os EUA, em que os estadunidenses tentam bloquear o acesso da China à tecnologia de semicondutores, são destaques. Ano que vem tem eleições aqui no Brasil. O país como eu costumo dizer, está sob ocupação estrangeira desde 2013 e os EUA novamente vão jogar suas fichas contra a candidatura de Lula. Essa eleição pode moldar o futuro da América Latina”.

O presidente do Instituto Pereira Passos e professor de ciências econômicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Elias Jabbour. Crédito: Mariana Scangarelli/Revista Intertelas.

Tentando detalhar alguns conceitos, o economista Paulo Nogueira Batista lembra que o ocidente é um grupo de países de alta renda, que inclui a superpotência EUA, mais Canadá, União Europeia, Reino Unido, outros países europeus, Israel, Japão, Coreia, Singapura, Austrália e Nova Zelândia. Segundo ele, esse grupo representa apenas 15% da população mundial que, mesmo assim, quer continuar mandando. “Está cada vez mais difícil para eles. Reparem que, como disse o professor Dugin, uma coisa é o ocidente geográfico, outra coisa é o ocidente político. Por exemplo, o Japão faz parte do ocidente político, mas não faz parte do ocidente geográfico. Nós, no Brasil, somos parte do ocidente geográfico, mas não somos parte do ocidente político, pois mesmo que quiséssemos, nós não seríamos aceitos como membros plenos. O Brasil tem vários laços com o ocidente, mas ele só será parte do ocidente político se aceitar servir à mesa e não participar do jantar”.

Seguindo a linha de pensamento de Batista, o sul global é praticamente o resto todo do planeta. “Esse ocidente político está em uma decadência muito grande. Continua poderoso, mas está em decadência cultural, política, econômica e até populacional. O BRICS Plus é a principal alternativa ao ocidente político. Se você pegar os 10 países que agora compõem o grupo, nós temos quase 50% do PIB, 40% da população e 30% do território global do planeta. Então, é um contraponto fundamental que existe a esse ocidente perigoso, delinquente e decadente que nós temos hoje no mundo”. Contudo, Batista afirma que é preciso lembrar que essas estatísticas, apesar de válidas e reais, não são suficientes. “Na realidade os BRICS são mais uma promessa, porque nós ainda estamos com problemas de ação. Somos um grupo muito heterogêneo e que tem dificuldade de tomar decisões. Somos heterogêneos em vários sentidos e num muito especial que é a heterogeneidade política do grupo. Os dez se dividem em dois grandes grupos do ponto de vista geopolítico: Rússia, Irã e China de um lado e os sete outros do outro lado. Rússia, Irã e China estão efetivamente em guerra com o ocidente. Já os sete outros não têm uma confrontação real, aberta com o ocidente. O Brasil, por exemplo, não quer hostilizar o ocidente. Não tem por que o Brasil comprar os conflitos da Rússia e da China totalmente. Eles não fazem isso conosco”.

O economista brasileiro e ex-vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), além de ex-diretor-executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI), Paulo Nogueira Batista Jr. Crédito: Mariana Scangarelli/Revista Intertelas.

Em resposta à pergunta da Intertelas sobre as relações sino-brasileiros, Batista foi categórico: “Nós precisamos repaginar a nossa relação econômica com a China, que é uma relação antiquada, com o Brasil exportando produtos primários e importando produtos industriais. Nós temos que ter um diálogo com a China, para que ela perceba a necessidade de diversificar essa relação. Por exemplo, quando a China investe no Brasil, não deve ser comprar capacidade produtiva já existente, e sim criar capacidade nova e transferir tecnologia. Mas isso depende de uma posição independente do Brasil, não só em relação ao ocidente, mas em relação à China também. É isso que é necessário observar para que o Brasil possa realmente progredir”.

Crédito: Mariana Scangarelli/Revista Intertelas.

Ainda sobre problemas a serem enfrentados pelos países do BRICS, Batista afirma que é preciso rever a tradição arraigada de resolver questões por consenso, pois ela seria uma receita para uma paralisia. “Por exemplo, a Índia é hoje um país problemático dentro do grupo BRICS. Ela se opõe a muitas iniciativas. Se opôs a uma linguagem mais dura, que eu saiba, na questão de Gaza e no ataque ao Irã. Bloqueia, sistematicamente, o avanço nosso como grupo em matéria de desdolarização. E isso ocorre porque a Índia teme a China e quer ter uma proximidade com os EUA. O Trump já ameaçou os BRICS caso eles criem uma moeda de reserva alternativa ao dólar. A Índia escuta isso, a quinta coluna do Brasil escuta isso. Então, é importante pensarmos bem e levarmos em conta alguns pontos: primeiro, vamos suspender a ampliação do grupo, que já está ficando grande demais, o que dificulta a nossa coordenação eficaz; segundo, vamos atuar na base de subconjuntos, não precisa o grupo inteiro aderir a certas iniciativas”. Segundo Batista a desdolarização avançou bastante nas transações entre países, porém avançou menos no que diz respeito à moeda BRICS. “Trata-se de uma moeda paralela que coexistiria com as moedas nacionais nossas e com os nossos bancos centrais”.

 O plano do ocidente para desmantelar o Irã e atacar os corredores de conectividade

O mediador Pepe Escobar, colunista da Sputnik, aproveitou a chance para explicar aos presentes mais detalhes sobre o que está em jogo no ataque de Israel e EUA ao Irã, país que é peça central para entender o embate entre o projeto do ocidente coletivo e o projeto do BRICS. Segundo ele, a guerra recente contra o Irã foi planejada ainda no fim dos anos 1990. De acordo com ele, entre 1997 e 1998, durante o segundo governo Clinton, os chamados Neocons estavam mancomunando com o Netanyahu o mapa mundial para os próximos anos e décadas, o que foi confirmado após o 11 de setembro. Trata-se do memorando chamado sete países em cinco anos. Ou seja, uma intervenção em países como Afeganistão, Iraque, Síria, Líbia, Somália, Sudão e o Irã, a cereja do bolo. Somado a isso, Escobar afirma que está a atual compreensão do ocidente coletivo do que são efetivamente as Novas Rotas da Seda: a expulsão dos EUA da Eurásia, da afro-eurásia, chegando à América Latina. Segundo o também analista, esse plano coincidiu com a chegada de Trump ao poder, candidatura sustentada pelo financiamento da grande elite econômica e financeira dos EUA.

Juntos eles almejam deter os BRICS e os chamados corredores da conectividade, onde todos podem fazer negócios com todos, através de corredores geográficos que já existem e de novos que estão sendo criados. Por exemplo, entre os novos, estão a Rota da Seda do Ártico que é um concorrente do Canal de Suez; e o Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul, que necessita de três países do BRICS para acontecer: Rússia, Irã e Índia. Este é uma rota que também passa ao largo do Canal de Suez, ou seja do controle ocidental”. Por isso, Escobar salienta, as lideranças ocidentais apostam na instigação de conflitos entre países do BRICS, ou em países aspirantes a BRICS, que podem mudar de lado, e, finalmente, em guerras como a realizada atualmente contra o Irã, no intuito de desestabilizar os projetos citados anteriormente. Contudo, Escobar enfatiza que a destruição do país está longe de acontecer. Conforme ele, ao contrário do que as forças israelenses e estadunidenses almejavam ao atacar o Irã e tentar provocar uma onda interna contra o governo iraniano, as diversas alas e grupos políticos acabaram unindo-se pela defesa do país.

O mediador do evento e colunista da Sputnik Internacional em Moscou, Pepe Escobar. Crédito: Mariana Scangarelli/Revista Intertelas.

Na mesma linha de pensamento, Escobar afirma que, no que diz respeito a guerra entre Rússia e Ucrânia/ocidente, os russos já são vencedores. E sobre a guerra futura contra a China, ainda está longe de ser efetivada, mas ela ainda é possível. Dessa forma, a questão iraniana passa a ser crucial para a segurança dos chineses, que não podem deixar o país do Oriente Médio ser desmantelado. Nas palavras de Escobar, ao “quebrar” o Irã por dentro, o ocidente quebraria os corredores de conectividade, consequentemente acabando com a integração da eurásia e criando um foco de insurreição pró-ocidental no flanco sul da Rússia, e promovendo um ataque direto à China, com o apoio de um suposto governo iraniano pró-ocidente.

A luta do Brasil contra o Estado profundo brasileiro

Para Elias Jabbour será muito difícil discutir os dilemas apresentados anteriormente nesta matéria, durante a Cúpula dos BRICS no Rio, com a profundidade necessária. Para ele, os motivos são muito variados, mas em especial estão os dilemas internos brasileiros e de outros países do BRICS. No caso do Brasil seria a implementação de um Estado neoliberal que tende a uma visão submissa ao ocidente e à ordem unipolar. Já com relação a outros países do grupo, Jabbour diz que, por exemplo, a resposta muito tímida de China e Rússia, sobre o ataque dos EUA ao Irã, se dá porque ambos se encontram em uma espécie de saia justa nesta questão. “Na Rússia, o Sionismo tem penetrações dentro do Estado russo, que não são pequenas. E a China é por uma posição de ultra cautela que ela tem tomado desde as reformas econômicas de 1978, mas que também tem um prazo de validade, já que o alvo um dia será ela”. Para Jabbour a resposta dos BRICS com relação ao Irã não está clara, mas deveria ser uma condenação frontal durante à Cúpula dos BRICS. Isso vale para a situação em Gaza também.

No caso brasileiro, Jabbour argumenta que a própria escolha do Brasil de realizar uma presidência dos BRICS de apenas seis meses é uma resposta muito tímida, até para a pauta que o Brasil almeja liderar: a das mudanças climáticas. Segundo ele, o Brasil quer se colocar como um mediador, como um país que negocia com todos, mas essa é uma posição complicada. E quanto ao ser protagonista em mudanças climáticas, Jabbour diz que o país deveria liderar uma discussão sobre nova arquitetura financeira internacional. “Para entender essas escolhas brasileiras, nós temos que entender o papel que o Itamaraty tem jogado no Brasil ultimamente. No passado, o papel dessa instituição foi ultra funcional durante o período econômico nacional-desenvolvimentista brasileiro. Já, no pós-década de 90, o Itamaraty se reinventa e em seus principais quadros estão diplomatas com uma visão vinculada ao Atlântico e à ordem global unipolar. Com exceção dos governos 1 e 2 do Lula, o Itamaraty passou a ser uma peça funcional aos interesses do ocidente coletivo dentro do Estado brasileiro. Existem exceções? Existem. Não estou falando que o Itamaraty age em bloco, mas a orientação geral deles é essa”.

Jabbour ainda salienta que o presidente Lula tem as melhores intenções com relação aos BRICS, mas para entender esse conflito do Brasil é preciso entender o que estudioso chama de: Estado profundo brasileiro. “Segundo pesquisas de mestrado e doutorado, hoje 70% do serviço público brasileiro é bolsonarista, lavajatista e se vê como ocidental. Ou seja houve uma contrarrevolução ao governo Collor e agora há uma contrarrevolução a essa contrarrevolução, que surgiu com o golpe ao governo Dilma. Lula governa ainda com as instituições criadas no golpe de 2016. Então, o Brasil precisa se reencontrar urgentemente e, para isso, nós temos que ter a capacidade de discutir em termos de projeto nacional de desenvolvimento”.

Acompanhando o debate sobre estes temas, Paulo Nogueira Batista também lembra que a relação Índia-China é conflituosa e antiga. “Remonta pelo menos aos anos 60, quando houve aquela guerra entre os dois países que foi vencida pela China, mas eu queria ressaltar um ponto que ainda é menos conhecido: ao longo dos anos, a posição da Índia piorou dentro dos BRICS. Durante o governo de Manmohan Singh, a Índia foi o país que sugeriu a criação do Banco dos BRICS… Já o Modi é uma figura estranha, que tem uma ligação com Netanyahu, com o Estado genocida de Israel. O que isso diz sobre ele? O que isso diz sobre a Índia com esse posicionamento? E sobre a presidência brasileira atual foi um erro marcar a Cúpula de Líderes para o meio do ano. No entanto, isso pode ser remediado com uma série de reuniões ministeriais, de sherpas, de bancos centrais, ao longo do segundo semestre deste ano. Isso culminaria em uma nova reunião dos líderes dos BRICS, quando eles todos, ou em grande medida, estarão na cúpula do G20, na África do Sul, no final de 2025”.

Outro ponto destacado por Batista foi a resistência sistemática dos Bancos Centrais dos BRICS às iniciativas estratégicas do grupo, em especial a máquina do Banco Central do Brasil. “Os bancos centrais, inclusive os dos BRICS, são uma confraria internacional que se julga independente e discute assuntos geopolíticos independentemente dos Estados nacionais. É uma distorção gigantesca que precisa ser enfrentada. Como eu dizia: é uma quinta coluna que existe em todos os países dos BRICS, até na China e na Rússia. Uma outra questão: em dez anos, o progresso no Arranjo Contingente de Reservas, que é o fundo monetário dos BRICS, foi muito pequeno. Os nossos Bancos Centrais praticamente congelaram o Arranjo Contingente de Reservas. Já o Novo Banco de Desenvolvimento avançou, mas está muito aquém do que nós queríamos, que é formar um banco global alternativo ao Banco Mundial e aos bancos tradicionais”.

A censura da mídia na Europa

Segundo Greenwald, quem mora nos EUA, ou na Europa, ou no Reino Unido, quase nunca ouve sobre as ideias que estão sendo expressas em outras regiões do mundo. “Nos Estados Unidos e na Europa somos treinados a acreditar que nossos países são os países da liberdade. O presidente dos Estados Unidos sempre é chamado de líder do mundo livre”. Greenwald lembra que com a Guerra da Ucrânia e em razão da pressão exercida pelos EUA e pela OTAN, a Europa passou a criminalizar qualquer plataforma de mídia da Rússia. “Então, o Russia Today, mas também o Sputnik, estão banidos na Europa. Assim, quando o Lula disse que 50% da culpa para o surgimento da guerra na Ucrânia reside nas atuações dos Estados Unidos, do Reino Unido e do presidente Zelenski, muitos acharam que foi uma opinião maluca, ou ao menos equivocada. O Batista fala que são apenas 15% da população representada pelos países do ocidente coletivo, os que são chamados de comunidade internacional, mas é preciso levar em conta o poder e a união desses 15%.

Conforme Greewlad, isso significa que a denominada comunidade internacional está unida. “Quem vai enfrentar os Estados Unidos e a Europa? No Tribunal Internacional, Putin é indicado como criminoso da guerra e a ele não é permitido viajar aos países membros do Tribunal, pois estes têm a obrigação legal de prendê-lo, mesmo que não concordem com essa obrigação. Já no caso do Netanyahu, que também é considerado criminoso de guerra pelo Tribunal Internacional, ele viaja livremente pela Europa. Ou seja os países do ocidente dizem seguir as regras do sistema internacional, mas de forma que não atinja seus interesses. Isso significa que tem um grupo com poder absoluto e ilimitado, que faz o que quer, por isso a importância dos BRICS”.

Confira na íntegra o vídeo do seminário “BRICS como Promessa de Soberania Econômica, Midiática e Conceitual para o Sul Global” (clique na foto para ter acesso ao link)

Crédito: Mariana Scangarelli/Revista Intertelas.

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