China 80 anos depois: uma vitória para além das batalhas

Ensaio para o próximo desfile militar do Dia da Vitória em Pequim, capital da China, em 12 de agosto de 2025. Crédito: Xinhua.

Este ano completam-se 80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial. E longe das envergonhadas e medíocres comemorações que o público brasileiro se acostumou a (não) ver em seu país, Rússia e China preparam grandes desfiles militares. Os russos aproveitaram para exibir os armamentos que estão levando a vitória para Moscou contra toda a OTAN na Ucrânia, enquanto os chineses buscam fazer uma demonstração de que não estão aquém dos assuntos e tensões que povoam a geopolítica nesse momento.

Para os observadores atentos, e não aqueles teleguiados pelo jornalismo parcial dos grandes veículos de mídia brasileiros, é facilmente perceptível que a grande área de interesse de todo o mundo atual é o Oriente, mais especificamente aquilo que envolve a parceria entre China e Rússia. Ampliando o olhar, podemos considerar como estratégicas também as relações desses dois países com os outros gigantes do BRICS, Brasil e Índia. Ou seja, revelar ao mundo o potencial de seu arsenal não nos parece ser o desejo de meros ditadores obcecados pelo poder ou com fixações armamentistas, mas sim uma necessidade frente aos recentes e cada vez mais agressivos ataques dos EUA e dos seus lacaios em várias frentes.

Mas para além disso, qual seria a finalidade de valorizar um evento como o fim das hostilidades no maior evento bélico da história da humanidade? Este esforço se explica em grande parte pela tentativa de apagamento das contribuições chinesa e soviética em relação ao conflito, por parte da Europa e dos EUA. Mais do que isso, europeus e estadunidenses do norte (Canadá e EUA) vêm nos últimos anos indo além do simples apagamento sistemático que ocorreu durante o período da Guerra Fria. Estes países têm buscado revisar elementos de conhecimento público do período da Segunda Guerra Mundial com a clara intenção de reabilitar figuras que contribuíram com o fascismo.

Parlamentares canadenses homenageando notórios colaboradores do nazismo, figuras italianas ligadas a Benito Mussolini recebendo reconhecimento público em um país que já demonstra a decadência senil da sua envelhecida sociedade e o presidente dos EUA usando redes sociais para se gabar da vitória esmagadora sobre o fascismo alemão são apenas alguns dos exemplos absurdos que testemunhamos nos últimos anos. E ao que tudo indica, eles não irão parar de surgir com uma frequência cada vez maior.

Logo, a ação de russos, e agora dos chineses, se enquadra na tentativa de preservar a verdade histórica dos fatos. Afinal, embora seja perfeitamente plausível a ideia de que diferentes interpretações possam ser dadas ao mesmo fato, é inegável a contribuição desses dois povos para a derrota do fascismo e a ascensão das liberdades sociais no século XX após o fim da Segunda Guerra. Seus esforços ficaram demonstrados pela contagem de mortos na casa dos milhões, enquanto aqueles que se gabam de serem os mais poderosos do mundo não perderam mais do que algumas milhares de vidas na guerra. Apagar a memória da vitória contra o fascismo é abrir o caminho para seu retorno em um momento de grandes tensões envolvendo a ascensão da extrema direita em vários países do mundo.

As maiores batalhas em campo aberto da Segunda Guerra Mundial ocorreram na China; enquanto a Europa ainda dialogava com o fascismo alemão, os chineses já eram massacrados pela sanha imperialista do Japão; o grande responsável pela derrota do fascismo japonês foi o povo chinês. Somente esses fatos já seriam suficientes para que a China contemporânea se jubilasse desses 80 anos de forma altiva e patriótica. Porém, o governo da República Popular tem mais deveres do que orgulhos nesse momento. É para a China, inalienável o fato de que ela precisa se defender das movimentações do imperialismo dos EUA, do rearmamento do Japão e das tentativas de boicote econômico da Europa. Para tanto, é preciso fazer uma demonstração de força e disposição. No jargão militar, demonstrar musculatura.

O desfile que comemora a vitória de seu povo na guerra é um acontecimento a que se deve dar bastante atenção. Ao lado do líder chinês, os chefes de Estado da Rússia e da República Democrática da Coreia se posicionam como símbolos desta defesa contra a tentativa de reescrever a história, não sendo por acaso suas posições de destaque no centro do evento. Esta aliança pode ensinar valiosas lições para o Brasil, que neste grave momento orbita entre a posição de subalternidade que o Ocidente sempre lhe outorgou e o desejo de real e verdadeira soberania que seu povo tanto anseia.

E por falar no Brasil, não seria justo nem honesto deixá-lo de fora desta discussão. A lamentar, a postura degradante do Exército em proibir a exibição da bandeira da vitória soviética na comemoração do dia da Vitória no Aterro do Flamengo em maio. Mas esperar algo diferente desta aberração histórica seria como imaginar que orgulho nacional e decência crescessem em nossos militares como crescem os privilégios de suas filhas solteiras e viúvas. A discussão assim, precisa ir além da já conhecida postura de subserviência dos nossos militares aos EUA. Precisamos falar sobre soberania.

Nosso já partido mestre, Luiz Alberto Moniz Bandeira, defendia que o povo brasileiro demonstrava conhecimento do potencial do Brasil desde a nossa independência, no mínimo. Seja através das manifestações contrárias às ofensas proferidas pelos imperialistas contra nós no século XIX, ou pelas diversas oportunidades em que se colocou ao lado das grandes causas da humanidade no século XX, o brasileiro em geral exigiu de seus representantes respeito ao tamanho do Brasil e à sua posição: a de potência em ascensão. Muito ao contrário, quase sempre coube às “elites” brasileiras a defesa do papel de coadjuvante para o nosso país.

Assim, a ideia de defesa da soberania não é algo que se precise criar entre os trabalhadores, mas apenas despertá-la, como fez o presidente dos EUA com sua postura atabalhoada na questão das tarifas de 50% impostas ao Brasil como forma de punição em relação ao nosso protagonismo nos BRICS. O crescimento da popularidade do presidente Lula ao defender uma postura de orgulho estratégico demonstra bem isso, enquanto os representantes dos interesses do imperialismo – família Bolsonaro e seus asseclas – perderam espaço entre a população.

No entanto, ao analisarmos o presente, vemos motivos para preocupações. A postura brasileira frente a exploração de minerais estratégicos, por exemplo, ainda carece de uma altivez mais robusta, pois assistimos a um acelerado processo de compras de territórios com subsolos ricos por empresas Estatais da China. O fato de que nossos parceiros asiáticos têm uma postura de maior respeito quando comparados com os EUA não pode nublar nossa visão de que essas riquezas são do Brasil e devem assim permanecer. A recente privatização da Eletrobras e a consequente abertura do mercado de energia a empresas estrangeiras é outro ponto sensível, onde um Estado (China) adquire ações de empresas estratégicas para o futuro de outro (Brasil).

Há pontos positivos, porém, onde o Brasil vem demonstrando mais resiliência, principalmente no que tange à agricultura – de ponta ou familiar -, onde exportamos equipamentos e técnicas da sempre negligenciada EMBRAPA, além da já tradicional produção de alta tecnologia nas universidades brasileiras, que vêm demonstrando nos últimos anos uma forte tendência a exigir a transferência de conhecimentos para a assinatura de acordos e parcerias com outros países.

Assim, tomando como exemplo a postura de nossos parceiros dos BRICS, nos cabe a obrigação de mobilizar sentimentos latentes em nossa população para podermos pressionar com maior efetividade um Congresso Nacional de maioria entreguista que tenta a todo custo emparedar um Executivo que, apesar de pressionado à esquerda e à direita, ainda se mostra como um bastião da luta por soberania, ao menos em seus quadros mais bem formados. E ao dizermos bem formados, não tratamos de cursos de graduação no estrangeiro ou mestrados e doutorados limpinhos e cheirosos, mas formados no sentido amplo do conceito, com vivência de Brasil, proximidade com os trabalhadores e visão de longo prazo para a construção do que deveria ser a nossa obsessão do século XXI: a construção de um socialismo brasileiro.

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