
Para além de uma celebração entres brasileiros e chineses, a 4ª edição da Mostra de Cinema ChinaBrasil avançou no seu compromisso de promover e aprofundar as relações sino-brasileiras. Nesse ano, além da seleção e da premiação de seis filmes de cada país, o evento trouxe dois convidados especiais de Shanghai para debater com seus colegas brasileiros e impulsionar a cooperação no âmbito acadêmico e profissional. Representantes da Escola de Cinema da Universidade Federal do Rio de Janeiro, da Academia de Cinema de Shanghai e da Escola de Cinema de Vancouver de Shanghai estabeleceram um primeiro contato para a assinatura de acordos futuros. A Academia de Letras e Arte do Rio de Janeiro assinou um memorando de entendimento com a Escola de Vancouver; já o Curso de Cinema e Audiovisual da Estácio de Sá estabeleceu um protocolo de cooperação acadêmica com a mesma instituição.
Dessa forma, durante a tarde e a noite da quarta-feira de 27 de agosto de 2025, no Cinesystem Belas Artes Botafogo, estudantes, professores, profissionais em geral e amantes da sétima arte tiveram a oportunidade de conhecer uma pouco mais sobre a China, o Brasil, o que há de comum e diferente entre as duas culturas e suas formas de fazer cinema. Assim, na celebração de encerrramento e entrega de prêmios, apresentada pela atriz Tatiana Dangello e por seu colega André Lemos, estiveram presentes autoridades diplomáticas e representantes da comunidade chinesa e da sociedade do Rio.

Em seu discurso, o empresário chinês que vive há 30 anos no Brasil e idealizador da Mostra, Arthur Chen, enfatizou que o audiovisual é um espaço privilegiado para a troca de experiências, para a circulação de ideias e para o fortalecimento dos laços entre os dois povos. “A Mostra de Cinema China-Brasil nasceu e seguiu já em sua quarta edição com esse propósito, estimulando a difusão da cinematografia de ambos os países, consolidando o cinema como ferramenta de aproximação cultural. Seja por meio da exibição de mostras e festivais, seja por licenciamento ou coprodução, buscamos criar pontes que permitam ao povo brasileiro conhecer de perto a riqueza, a atividade e a modernidade da produção cinematográfica chinesa, ao mesmo tempo em que abrimos espaço para que o cinema brasileiro dialogue diretamente com a plateia e seus parceiros na China”, disse.
Segundo ele, essa é uma força tarefa permanente que necessita do envolvendo ativo dos artistas, produtores, distribuidores, indústrias e do público também. “É importante construir esse caminho conjunto e fortalecer o entendimento mútuo, estimular novas parcerias e abrir horizonte para que o cinema continue sendo não apenas uma forma de arte, mas também uma ponte viva entre Brasil e China”, finalizou. Nessa linha, em entrevista à Revista Intertelas, o vice-reitor e professor da Academia de Cinema de Shanghai e reitor executivo da Escola de Cinema de Vancouver na mesma cidade, Cheng Bo, que participou do Seminário de Intercâmbio de Criadores – Curta metragem Jovem China-Brasil 2025, onde foram exibidas produções de curtas universitários de ambos os países, afirmou que áreas como o futebol e a cultura tradicional são pontos de encontro entre os povos e ajudam a estimular um maior interesse pelo conhecimento mútuo.

O acadêmico ainda disse que, no âmbito dos países do BRICS+, a área do cinema avança e, apesar das longas distâncias geográficas entre os países, a internet tem ajudado muito o acesso ao conteúdo cinematográfico produzido nesses diferentes países, auxiliando na ampliação do conhecimento sobre a cultura e a história desses povos. Conforme ele, isso já acontece entre Brasil e China. “Acho que Mostras que apresentem as obras dos estudantes brasileiros, é possível também de serem feitas na China. Festivais e mostras em geral, assim como o intercâmbio de estudantes, ajudam muito a compreensão mútua entre os jovens de ambos os povos”.
Nas palavras do colega de Cheng Bo, o professor associado da Academia de Cinema de Shanghai e vice-presidente da Escola de Cinema de Vancouver na mesma cidade, Chen Xiaoda, um maior intercâmbio entre os festivais de cinema, a exemplo do Festival Internacional de Cinema de Shanghai, auxilia na promoção dos filmes e na compreensão maior entre os povos. “É uma troca cultural muito importante, onde é possível obter mais conhecimento sobre os países. Outra maneira é a colaboração técnica em tecnologia cinematográfica entre os dois países, como a que já ocorre com a Huaxia Feiying Cloud”, explicou. Trata-se de uma plataforma de distribuição digital de filmes, que, segundo o site da CGTN em português, neste ano, anunciou uma cooperação estratégica com o Brasil para a implementação do sistema. Da mesma forma a plataforma CBMídia! também oferece conteúdo de produções chinesas no Brasil.

A pedido da Revista Intertelas, o cineasta e editor audiovisual da Escola de Comunicação da UFRJ, coordenador do Grupo Criativo de Roteiro e Narrativas Negras do NarratLab (ECO_UFRJ) e curador do CINEfoot, Lobo Mauro, também refletiu sobre a aproximação dos povos através da arte cinematográfica. De acordo com ele, o cinema é feito pelo ser humano que, com seus atravessamentos culturais e históricos, tem todo um jeito de ser. “Nós amamos, odiamos… E todas essas tensões que movem o mundo dos humanos e as suas narrativas, em essência, são as mesmas. Somos animais racionais que usamos da cultura para fazer diversas coisas, entre elas, o cinema. Trata-se de uma tecnologia, mas que está muito vinculada às nossas questões anímicas e que toda a humanidade compartilha”.

O realizador citou a obra de Jia Zhangke, que discute a modernização da China e como ela impacta a sociedade chinesa. “Isso também é algo que fazemos em nosso cinema. Buscamos refletir como a inteligência artificial e outras tecnologias estão transformando o mundo do trabalho. Ou seja, temos pontos comuns que são uma ponte. O cinema é uma linguagem universal, mesmo no experimentalismo. Ele vai além da palavra, da fala, é também sensações. E através dele podemos conhecer como se dão questões humanas dos diferentes povos em suas culturas”.
Para Lobo Mauro, o cinema tem questões de pictórica, de música, de sensações, que não são só racionalizadas. “O corpo também tem uma sabedoria que você carrega, que é imersa no local que você vive, com as pessoas que você convive. E nós conseguimos entender tudo isso através desse tipo de linguagem. Por isso, a importância de mostras como essa, elas estimulam a querermos conhecer mais. A questão da ancestralidade chinesa é muito forte e a nossa é muito ruidosa ainda, mas é um ponto que também dialoga. Da mesma forma, quero entender mais como os conflitos internos sociais deles afetam o indivíduo, algo que também encontramos aqui. A China hoje é um polo tecnológico, mas também de reflexão sobre as tensões éticas, sociais, ambientais que a revolução tecnológica traz”.
Universidades e cinema: uma ponte promissora para estreitar os laços sino-brasileiros
Segundo o professor associado da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Amaury Fernandes, há uma proximidade cultural e afetiva grande entre brasileiros e chineses, apesar de toda a distância geográfica que existe entre os dois países. “Em uma conversa com os representantes da Escola de Cinema de Vancouver em Shanghai, alinhamos ‘as pontas’ para um acordo entre as duas universidades, o que vai permitir uma relação bem mais estreita… a China é o nosso parceiro mais importante no oriente e o segundo mais importante em termos gerais, perdendo apenas para a França no número de acordos que nós temos. Estreitar os laços entre as universidades é um papel dos mais importantes dentro do âmbito universitário. O nosso tipo de instituição de ensino nasceu basicamente para unir aqueles que gostam do conhecimento”.
Já na fala de Gisele Barreto, coordenadora do Curso de Cinema e Audiovisual da Estácio de Sá, durante o encerramento da Mostra, há ênfase na busca por uma aproximação concreta com a China. A coordenadora agradeceu a aposta que os organizadores da Mostra fizeram na Estácio de Sá ao promoverem uma aproximação e uma parceria: “Nós queremos mesmo ir para a China e aprender a cultura, aprender como fazem cinema por lá e queremos receber os alunos e os professores chineses. A Universidade Estácio de Sá está de braços abertos para receber todos que quiserem conhecer o trabalho do Curso Superior de Cinema da Faculdade Estácio de Sá e saber que uma faculdade é feita de alunos, de gente criativa, que quer fazer refletir, de gente que quer fazer o mundo ser mais compreensivo e amoroso”.
Coincidentemente, o cônsul geral interino da China no Rio de Janeiro, Wang Haitao, também salientou a importância do conhecimento aprofundado sobre ambos os povos para o fomento de relações estratégicas e para a luta contra o extremismo que cresce a cada dia no cenário internacional. “Nelson Pereira dos Santos disse que o cinema é a forma de arte mais comunicativa e mais ligada ao povo. Os filmes chineses e brasileiros revelam de maneira vívida a história, a civilização e o espírito nacional de cada país, promovendo significativamente o intercâmbio cultural entre as duas civilizações e aprofundando continuamente a amizade entre os povos da China e do Brasil. Este ano marca o 80º Aniversário da Vitória da Guerra de Resistencia do Povo Chinês contra a Agressão Japonesa na Guerra Antifascista Mundial”.
“Olhando para a história, a China e o Brasil lutaram com coragem em diferentes campos de batalha, contribuindo de forma significativa para a vitória na Guerra Antifascista Mundial. A história é o melhor livro didático, devemos lembrar o passado, cultivar a amizade e defender juntos os frutos da vitória na Segunda Guerra Mundial, salvaguardando o sistema internacional com as Nações Unidas no seu núcleo, provendo conjuntamente a paz e a estabilidade mundial, intensificando a cooperação para o desenvolvimento e impulsionando a construção de uma comunidade de futuro compartilhado para a humanidade”.

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