China e Superação do Hegemonismo II

Desgaste do outro lado do fragmento de pedra dos Clássicos Xiping da Dinastia Han Oriental, esculpidos com o I Ching (Clássico das Mutações), coletados pelo Museu Beilin de Xi’an. Crédito: Site oficial do Museu Beilin de Xi’an/

Só quando sabemos herdar, saberemos inovar“. (“A Governança da China II” Xi Jinping, pag. 385.)

O ideal de liderança benigna transmitido aos ancestrais dos primeiros chineses pelos Heróis Fundadores foi mantido vivo durante milênios até a Cultura estar madura para o expressar conceitualmente. Foi então que ascendeu a única Dinastia que liderou a China por oitocentos anos, desde 1046 a.e.c. até 256 a.e.c. Zhou, era o seu nome. A função de um nome é desvelar o que nomeia. Desvelar significa trazer à luz, tornar cognoscível. Adiante veremos o tesouro que um milênio depois o Mestre Zheng Xuan 鄭玄 (127-200 e.o.) encontrou no nome Zhou, 周.

Ao organizarem, e interpretarem relatos do passado, desde as origens no homo pré-sapiens, os Zhou descobriram no Caminho da Mutação o elo que os uniu. Nasciam povo e pátria. Ser e saber são interdependentes. Compreenderam seu modo de ser, inspirados pelo Céu, organizados nos esforços sobre a terra, sempre em prol de tudo e todos. Aprenderam que povo e pátria reúnem o próximo e o distante. Reúnem plantas, animais, pedras, rios, montanhas. Reúnem tudo e todos além do horizonte, até o limite que herdaram dos antepassados. Surgia o embrião da eco-civilização que agora a China se empenha em construir.

Construir Eco-Civilização para Desenvolvimento Sustentável”. (“The Governance of China IV” pag. 413, Xi Jinping)

Os Zhou se descobriram aqueles que se moviam centrados, pois viviam em território centrado. Só quem conhece o centro reconhece limites. Só no interior de limites há liberdade. Tantos milênios contínuos fiéis à essa Cultura demonstram que a China jamais foi expansionista. A Grande Muralha foi construída para ensinar limites às ambições dominadoras que a atacavam. Alguns que invadiram, entraram, não saíram, transformaram-se em novas versões da mesma Cultura que sabia ser tal como sempre foi, mutantes desde sua tríplice raíz de origem, os Heróis Fundadores.

Três mil anos depois da Dinastia Zhou o povo Chinês mantem no nome do país a consciência de centralidade de seu próprio espaço. O nome oficial, 中华 Zhōnghuá, significa Estado que tem centro. Por ter centro, conhece seus limites e respeita limite alheio. Como tudo sobre a terra, limites são partilhados. A herança de Huangdi resgatada pelos Zhou segue viva no povo que os estrangeiros chamam de Chineses, exônimo que os portugueses levaram para a Europa no período das navegações, e remete à mais breve das Dinastias, aquela que durou 14 anos, os Qin,. Três contribuições da Dinastia Zhou ajudam a entender como ao final de milênios o ideal de liderança benigna frutificou sua primeira safra em 1046 a.e.c.

Primeiro legado – Transformaram o Yi no Zhou Yi

A Dinastia Zhou começou quando já era longínquo o tempo em que Huangdi recebeu de Cangjie a escrita ideogramática. A prática literária contínua havia desenvolvido a Cultura escrita. Ela estava madura para receber o que coubesse em palavras do inesgotável manancial de significados contidos nos signos geométricos, os Guá Desde quando Fuxi entregou o código binário aos homo pré-sapiens até surgir na Dinastia Zhou o primeiro texto, o povo Chinês, com a tradição oral, assegurou a transmissão da sabedoria do Yi. Desde quando surgiu o Zhou Yi até hoje a tradição oral segue viva sendo transmitida pelo povo de boca a ouvido em paralelo à tradição de estudo de textos.

Sobre a autoria dos textos do Zhou Yi, o Professor Liu Dajun 刘大钧 em sua obra referencial “An Introduction to the Zhou Yi”, pag. 16, após cotejar autores desde o período de Primavera e Outono (770-475 a.e.c.) até a Dinastia Tang (618 to 907 e.c.) conclui: “To put it another way, the whole book of the Zhou Yi is most likely to have been composed by many predecessor in several generations rather than by one single person. Ou seja, o primeiro livro sobre o código binário, o Zhou Yi, não é obra de dois indivíduos (Rei Zhōu Wén Wáng 周文王, e Duque Wén Zhōu 周文公), mas do povo Chinês. Na Primavera da Dinastia Zhou, o povo Chinês colheu flores poéticas associadas aos hexagramas e suas linhas. Os significados expressavam na escrita o mesmo que os signos geométricos sempre transmitiram na tradição oral desde Fuxi.

Zheng Xuan 鄭玄 (127-200 e.o.), pensador da Dinastia Han 后汉, (206 a.e.c.-220 e.c.) interpretava o termo Zhou 周 como: “O Dao da Mutação é circular, universal e omni-abrangente”, (“An introduction to the Zhou Yi”, Liu Dajun, pag. 12, Chiron Publications). Durante um milênio, esse significado do termo Zhou aguardou sua hora de ser desvelado. Coube a Zheng Xuan descobrir a circularidade, universalidade e omni-abrangência que o Yi inspirou ao termo Zhou. Com sua frase sucinta, Zheng Xuan não apenas mudou a compreensão do passado ao descobrir uma dimensão até então ignorada no termo Zhou.

Zheng Xuan mudou também o futuro pois, soubesse ou não, desvelou o que possibilita à China continuar sendo chinesa não importa o quanto ela mude. Essa persistência vem do movimento de circularidade com universalidade e omni-abrangência contido no caminho (Dao) do Yi, que persiste no Zhou Yi, e subsiste no Yijing. As duas obras são comentários sobre as figuras lineares do Yi. Comentários aos comentários seguem a surgir até hoje. A China continuará a ser chinesa, enquanto ela continuar a se inspirar em sua origem para mudar e inovar. É no passado mais distante que mora a fonte de inspiração para o futuro mais ousado a ser sonhado por cada geração de chineses. Na palavra que nomeou sua mais longeva Dinastia estava oculto o movimento circular em que giram passado, presente e futuro.

Pintura do Rei Wen de Zhou por Kanō Sansetsu. Japão, período Edo, 1632.. Crédito: Wikipedia/National Museums, Japan.

O movimento circular que Zheng Xuan encontrou no termo Zhou já estava no código binário no arranjo circular dos hexagramas na sequencia geralmente atribuída ao Rei Wen. Caberá aos arqueólogos do futuro desvelar desde quando circula entre os aspirantes à Humanidade o arranjo dos hexagramas em círculo na ordem que chegou até nós. O arranjo em círculo dos 64 hexagramas desvela o motto perpetuo em que se encadeia o sentido universal e omni-abrangente da Mutação expresso nos hexagramas.

Na sequencia que se preservou, o estudo do Zhou Yi começa no primeiro hexagrama, “O Criativo”, Qián, , que expressa o Céu, e a função de paternidade. Como só pode haver paternidade se houver simultaneamente maternidade, o estudo do primeiro hexagrama não se conclui sem o estudo do segundo, “O Receptivo”, Kūn,, que expressa a Terra e a função de maternidade. Como só pode haver paternidade e maternidade se houver filiação, o estudo do segundo hexagrama não se conclui sem o estudo do terceiro, “Dificuldade Inicial”, Zhūn, ,que descreve condição semelhante ao recém nascido que não pode suprir-se do que necessita, “nada pode ser empreendido”, e depende de quem cuida, “é favorável designar ajudantes”. Tudo e todos que nascem enfrentam dificuldades iniciais e precisam de ajudantes.

Assim o estudante vai sendo encaminhado por cada hexagrama ao hexagrama seguinte. A controversa Nona Asa, Xu gua, , esboça o sentido da sequencia. Ao chegar ao derradeiro hexagrama, o sexagésimo quarto, “Antes da Conclusão”, Wèi Jì, 未濟, o estudante então descobre que o caminho não terminou. O primeiro percurso dos hexagramas preparou o estudante para compreender o hexagrama inicial num novo nível de significado possibilitado pelo estudo dos 63 outros hexagramas. No hexagrama 64, o estudante descobre que não percorria um segmento de reta e sim um círculo, no qual o ponto de partida surge novo para quem chega pois aprendeu sobre o primeiro hexagrama o que só os outros hexagramas ensinam. O estudo do Zhou Yi tem começo e não tem fim.

Sequência de hexagramas do Rei Wen. Crédito: Wikipedia.

Fuxi viu o Yi ao contemplar o Céu, ou seja além do espaço-tempo, o que significa além de começo e fim. Fuxi entregou o Yi ao homo pré-sapiens para ajudá-lo a se tornar sapiens. Isso implica descobrir que tudo e todos que aparecem no espaço-tempo vieram para descobrir e realizar um sentido em duas dimensões, horizontal e vertical. A dimensão horizontal é aprender para empreender melhorias em prol de tudo e todos. A dimensão vertical é aprender a deixar fluir através de si a harmonia entre o Céu e a Terra, tarefa dos aspirantes à Humanidade. A verticalidade da harmonia entre Céu e Terra supõe a horizontalidade da harmonia dos aspirantes à Humanidade consigo mesmos e com todos os seres. Em ambas as dimensões, não há quem mude, nem há o que mude. Só há aparências mutantes.

No estudo do Zhou Yi cada giro é sem igual. Muda quem estuda, e muda o que ele estuda, pois no mesmo texto se revela o que ele antes não via. Em cada giro, o estudante aprende o que antes não sabia, e aprende que ignora mais do que antes sabia que ignorava. Ampliar o saber amplia simultaneamente a consciência do ignorado. Estudo e vida no caminho do Zhou Yi são inseparáveis. Ao circularmos no Dao do Yi, graças ao Zhou Yi, descobrimos o universal como horizonte sobre o qual ninguém pisa, pois ele recua sempre que caminhamos em sua direção, e é omni-abrangente, pois não cessa de ampliar a abrangência.

A Cultura Chinesa nascida do Yi é como andar de bicicleta. Existe para o movimento.  Bicicletas tem duas rodas, uma traciona, a outra direciona. Aquela que traciona é tracionada por outra menor que faz girar a maior graças à uma corrente que ensina colaboração. Quem faz uma girar a outra e mover a bicicleta são duas pernas. Quem move as duas pernas é o que motiva quem pedala. Na Cultura Chinesa o motivo é gratidão, pois vivemos para retribuir. Trabalhar em prol de outrem é o sentido da vida para cada indivíduo, pois ele só existe graças aos outros. Basta lembrar a origem. Quando nascemos, a cada três horas fomos salvos por outrem.

Parte do Yijing (“I Ching” / “Livro das Mutações”) gravada em pedra (fim de Wu Wang e início de Da Xu). Tirada em Beilin (the forest of steles), Xi’an, província de Shaanxi, China. Crédito: Wikipedia.

Mil e oitocentos anos depois da frase comentada acima ser pintada por um velho Chinês, em manhã ensolarada de inverno paulistano, um velhote carioca sorri ao agradecer ao velho Mestre Zheng Xuan a aula que acabou de receber graças ao livro do Professor Liu Dajun. Todos vivemos sob o mesmo Céu, como veremos adiante no segundo legado. Após a viagem circular com Zheng Xuan, voltemos aos textos do Zhou Yi. Suas breves frases variam na forma de expressão. O tom mais frequente lembra o versejar de um poeta sucinto. A escolha dos autores pelo caminho da poesia coincide com Homero que também fundou com poesia a Cultura Grega, séculos depois do Zhou Yi. O plural nas origens Chinesas (o povo) e o singular (um indivíduo) na origem Grega antecipa distintos caminhos. A consciência das diferenças convida ao diálogo harmonioso que nos aguarda para além do Hegemonismo.

A palavra poesia vem do grego poiesis, ποίησις , que significa “criar, surgir, aparecer”. A etimologia indica que poesia, na antiguidade, expressava a função primordial da palavra que é desvelar o sentido das aparências (que chamamos seres) aos aprendizes de Humanidade. Quando palavras se esvaziam de sentido e resta mera tagarelice, resta sem sentido o aprendiz de Humanidade, ao qual Martin Heidegger chamava Dasein. Os autores dos textos do Zhou Yi escolheram a poesia, pois ela voa mais alto que a prosa, ao inverter a preponderância de impulso das asas com as quais alça voo a ave aprendiz de Humanidade.

Na prosa, a preponderância do impulso vem da asa que nos ergue pelo poder do entendimento (intelecto), alça voo até o nível possível à nossa compreensão, e ao descer inverte a preponderância para a asa, cujo poder faz florescer a inspiração (sentimento-intuição). A poesia é irmã da música. Ergue o voo com a preponderância do impulso da asa da inspiração (sentimento-intuição) graças ao enlevo de três belezas:  significado dos termos, sonoridade melódica das palavras e harmonia rítmica das sonoridades. A inspiração (sentimento-intuição) cresce, à medida que a ave ergue voo, até que alcança o apogeu nas alturas do nível que aquele aprendiz de Humanidade alcança. Ao descer, inverte a preponderância para a asa que faz desabrochar a compreensão, forma mais elevada do entendimento.

Martin Heidegger. Crédito: https://www.ex-isto.com/

Segundo legado: Todos sob o Céu, Tiānxià, 天下

Três milênios atrás, a Dinastia Zhou ensinou a unidade de tudo sob o Céu. Tiānxià, 天下. Tudo inclui o que chamamos de “todos”. A compreensão integrada das incontáveis formas de expressão da vida, breves aparências mutantes, ajudou as comunidades de aprendizes de Humanidade a perceber a diversidade de formas como riqueza. A mesma energia, , 气 constitui e interliga todas as aparências que chamamos de “seres”. Assim, a Cultura Chinesa se formou aberta ao diferente.

O povo Chinês aprendeu com os Heróis Fundadores que ao fluir em harmonia com o Céu, a vida na terra floresce. Ao fluir em desarmonia com o Céu, a vida na terra fenece. A vida celeste é mais velha, mais experiente, sabe o que os aprendizes ignoram. Seguir o modelo celeste é seguir o caminho do “ser superior”, Junzi, 君子, expressão usada no Yijing no texto intitulado Imagem, Xiangzhuan, 象传. Superior é o Céu, com suas leis invariáveis, serenas, tranquilas. Seguir o superior significa confiar e aprender a se mover em sintonia com o Céu.

Tiānxià se inspira no modelo de superposição das linhas na formação dos trigramas e hexagramas no Zhou Yi. Nos trigramas, a primeira posição abaixo corresponde à Terra. A segunda posição corresponde aos aprendizes de Humanidade. A terceira posição acima, corresponde ao Céu. Nos hexagramas, o modelo se repete. As duas primeiras posições correspondem à Terra. A terceira e a quarta correspondem aos aprendizes de Humanidade. As posições quinta e sexta acima correspondem ao Céu.

O reflexo humano do ser superior, Junzi, 君子, é o líder benigno, aquele que o povo escolhe alçar à liderança, pois ele se coloca abaixo de todos para servir sem excluir ninguém. O líder se inspira no hexagrama 15, Modéstia, Qiān, 謙, ao seguir a água que se coloca abaixo para alimentar a todos. Com sua interpretação de Tiānxià, 天下, a Dinastia Zhou criou o primeiro modelo cosmo-político de democracia. O Governo surge da escolha do povo, ao identificar aqueles que ajudarão a seguir a harmonia Celestial. O Governo jamais se afasta do povo pois com ele aprende, nele se fundamenta e inspira, para poder o ajudar.

 

O povo faz a história. Todo sucesso se deve ao povo, e toda a glória pertence a ele”. (“A Governança da China III”, Xi Jinping, pag. 419)

 

A China hoje respeita, valoriza e propõe a Reforma dos órgãos mundiais como ONU, OMS, OMC, para que todos os países tenham participação igualitária nas decisões. As razões que fundamentam essa posição têm raízes multimilenares, pois a Cultura Chinesa aprendeu com os Zhou que todos os povos são unos sob o Céu.

Todos os países, grandes ou pequenos, fortes ou fracos, ricos ou pobres, são iguais”. (“A Governança da China II”, Xi Jinping, pag. 47)

Os Chineses da Dinastia Zhou, inspirados no Zhou Yi, aprenderam que, para manter a vida de uma comunidade em harmonia com as mudanças celestes e as mudanças terrestres, é preciso trabalho sempre renovado, pois a mutação é incessante. Para que diferentes tarefas sejam coordenadas e realizadas no tempo certo de cada uma, é preciso que alguém lidere e assegure que o movimento siga Li, 礼, os procedimentos corretos. Cabe à comunidade identificar quem é a pessoa a ser convidada a assumir tal responsabilidade.

A primeira qualidade necessária é que seja exemplo virtuoso e esforçado. A segunda é ser alguém que saiba ouvir a comunidade para ajudá-la a identificar objetivos que atendam necessidades e anseios razoáveis de todos. A terceira é ser alguém que saiba identificar habilidades e capacidades correspondentes às tarefas necessárias à realização dos objetivos comunitários. A quarta é ser alguém que saiba estimular cada um e todos. Quando a comunidade encontra quem reúne as quatro qualidades, formou o quadrilátero dos pontos cardeais e descobriu o quinto ponto, o centro, seu líder. Indivíduo ou comunidade, se não completa o quadrilátero das direções, não descobre em si o centro, não sabe aonde ir, nem aonde chegará.

Deve-se estar em absoluta conformidade de sentimentos com o povo e lutar junto com o povo com espírito de unidade”. (“A Governança da China I”, Xi Jinping, pag. 524.)

Terceiro legado: Mandato do Céu, Tiānmìng , 天命

 Diz-se que o Mandato do Céu, Tiānmìng , 天命, foi  compreendido pelo Rei Zhōu Wén Wáng 周文王, e expresso como “liderar através da virtude”, De Zheng, 德政. A energia virtuosa é dom que o Céu faz fluir através dos que se esvaziam de si e se voltam para tudo e todos em torno, para que próximos e distantes fluam juntos, em complementação, tal como o Yin Yang no interior do círculo do Dao. A virtude Celeste move os astros em harmonia e regularidade. Quando o modo Celeste de fluir passa por um aspirante à Humanidade, esvaziado de si e acolhedor aos outros, a comunidade o segue, cativada por sua benignidade.

Um dos deveres do líder é ajudar a comunidade a evitar erros. Quando a comunidade não consegue evitar erros, o líder ajuda a corrigir. Quando a vida de uma comunidade começa a acumular sofrimentos, é sinal de erros (desvios da harmonia) que não estão sendo corrigidos. Quando erros se acumulam e infortúnios se repetem, o Céu indica que a desarmonia e suas consequências mostram vacância de liderança. O líder pode se corrigir, ou pode abdicar e um novo líder será identificado. Se o líder que não lidera recusa abdicar, mostra que ama o poder mais que ao povo. Aquele que usa o poder para servir a si cairá, pois desserve ao povo e o expõe a infortúnios.

Água flui através de bambu oco. Enquanto através do bambu fluir água, a vida prosperará para tudo e todos. Minerais poderão liberar suas virtudes em prol dos vegetais, que poderão crescer em prol de animais, inclusive os aprendizes de Humanidade, para que estes prosperem em prol de todos os seres visíveis e invisíveis. Todas as aparências são mutantes condensações da energia vital, 气. Através de bambu entupido com interesses e desejos próprios, a água não pode fluir. Sem água nada prosperará.

A vida de todos precede a de cada um. A vida de cada um tem a todos como o sentido de cada um. Individualismo ignora que dois precede um. Ignora a interdependência na tríade Paternidade, Maternidade e Filiação. O Céu ensina com o vento que reúne rebanho de nuvens para chuvas benfazejas, quando esforços benignos para a vida de tudo e todos prosperam e a hora se faz madura para a consequência retributiva. O Céu ensina também, com o vento que reúne nuvens tempestuosas, quando esforços adversos para a vida de tudo e todos prosperam e a hora se faz madura para a consequência retributiva. O Céu não castiga, nem premia. A consequência retributiva é pura Lei, livre de voluntarismos. Não há acasos. A vida dos aprendizes de Humanidade flui no enredo determinado por virtude e desvirtude.

Raízes e frutos

Xia,,a primeira Dinastia, e seu líder (o Grande que Controlou as Águas, Dà Yǔ zhì shuǐ 大禹治水) ainda nos aguarda no futuro. Só conhecemos a Dinastia Xia através de relatos das Dinastias posteriores. Arqueólogos do amanhã desvelarão o que ainda ignoramos. O símbolo que une o primeiro líder e sua obra remete ao que possibilita a vida, água, e o que possibilita civilização, esforço organizado e controlado para proteger a vida dos aprendizes de Humanidade.

Shāng, 商, (1.700-1100 a.e.c.) a segunda Dinastia, além de metalurgia e agricultura, legou as primeiras evidências de escrita. Nas inscrições em ossos e cascos de tartaruga, jiaguwen, 甲骨文, para uso oracular estão caracteres quase idênticos à escrita atual. O povo de Shāng consultava o Céu para se orientar na Terra, tal como desde quando Fuxi entregou o Yi aos homo-pré sapiens. Para prosseguir, os descendentes do homo pré sapiens sempre voltavam à origem. O movimento circular descoberto por Zheng Xuan 鄭玄 (127-200 e.o.) no termo Zhou 周 antecede a Dinastia Zhou 周.

Gustavo A.C. Pinto

Formado em Filosofia pela PUC-RJ e tradutor do “I Ching”. É autor dos livros “Relâmpagos”, “Gotas de Orvalho”, “Rito da Montanha Sagrada” e “Astrologia e Budismo”

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