Programa “Os povos do BRICS escolhem a vida” promove o intercâmbio estratégico entre os países do grupo

Crédito: Mariana Scangarelli/Revista Intertelas.

Promover e fortalecer a cooperação estratégica entre os países do BRICS é o objetivo central do programa sociocultural de negócio internacional e inter-regional “Os Povos do BRICS escolhem a vida”, que teve sua etapa brasileira, a terceira da iniciativa, realizada durante o mês de outubro deste ano, nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. Idealizado pela organização regional pública da Rússia, BRICS: Mundo das Tradições, que é parceira de mídia da Revista Intertelas há cinco anos, o programa tem como lema a seguinte frase: “Da ecologia da alma e do corpo à ecologia do mundo”.

A primeira fase ocorreu na Índia, em 2022, e a segunda na Rússia, em 2024, em cinco regiões do país euroasiático. Nessa etapa participaram estudantes de oito países, dentre eles estudantes brasileiros da Universidade de Brasília. No dia 15 de outubro de 2025, a Intertelas esteve presente no auditório E212, localizado no Centro de Tecnologia (CT), no Bloco E, da Escola de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) para cobrir a primeira parte do programa.

Organizado pela BRICS: Mundo das Tradições, pela Superintendência Geral de Relações Internacionais da UFRJ, pelo Instituto de Desenvolvimento Socio-Criativo LOTUS-AURA LLC, com o apoio do Fundo de Subsídios Presidenciais e assistência dos Consulados Gerais da Rússia no Rio de Janeiro e em São Paulo e da Agência Rossotrudnichestvo, a primeira parte do programa contou com a presença de estudantes acadêmicos, pesquisadores brasileiros, representantes universitários e de organizações do Brasil e da Rússia, além de autoridades diplomáticas.

Crédito: Mariana Scangarelli/Revista Intertelas.

A etapa brasileira do programa “Os povos do BRICS escolhem a vida” foi dedicada ao centenário da Diplomacia Pública Russa, ao 180º Aniversário do Nascimento do Barão do Rio Branco, ao Bicentenário da Primeira Expedição Científica Russa ao Brasil, ao 80º Aniversário da Vitória na Segunda Guerra Mundial e na Grande Guerra Patriótica de 1941-1945 e ao 10º Aniversário do Projeto Multilateral Cultural e Educacional “Grandes Mestres/Professores do BRICS”. Entre os objetivos principais da iniciativa estão: a aproximação dos povos do agrupamento através da implementação conjunta de projetos multilaterais do programa nas áreas da cultura, educação, saúde pública, caridade pública e cooperação empresarial; apoio à juventude criativa na área da cultura e das artes, com o estabelecimento e desenvolvimento de relações educativas amigáveis e mutuamente benéficas entre escolas, faculdades e universidades da Rússia, do Brasil e demais países do grupo; e a contribuição para o desenvolvimento de relações comerciais e econômicas multilaterais entre os países do BRICS.

Entre os projetos contemplados nesse programa, durante a etapa brasileira estão:

  • “Os Grandes Mestres/Professores do BRICS”, que objetiva promover e divulgar o legado histórico e filosófico de figuras históricas chaves desses países;
  • A criação de “Centros dos Grandes Mestres/Professores do BRICS” em instituições educacionais do agrupamento (nas etapas anteriores realizadas na Índia e na Rússia foram inaugurados oito centros educacionais e culturais denominados “Centros Liev Tolstói e Mahatma Ghandi” que posteriormente foram renomeados para “Centros dos Grandes Mestres do BRICS”);
  • O projeto social e beneficente “Abra seu coração à bondade”, em que um concurso infantil e internacional de trabalhos criativos sobre o tema é realizado em cada país do grupo.
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  • “Brasil: preservação histórica sobre a Grande Guerra Patriótica”, a apresentação de uma coletânea trilíngue (português, russo e inglês), escrita por autores brasileiros que residem no Rio de Janeiro e receberam medalhas comemorativas, além de exemplares dessa edição que foram doados à biblioteca da UFRJ (as versões russas e inglês foram traduzidas e editadas por alunos e equipe da Kazan Innovative University – KIU);
  • “Expedição de Langsdorff: Diante de seus olhos”, uma exposição de materiais de arquivo sobre o bicentenário da expedição científica russa ao Brasil;
  • “Juventude do BRICS pela segurança do espaço da informação”, projeto que incita jovens pesquisadores e estudantes a desenvolver uma abordagem científica e prática sobre as ameaças no espaço da informação global, a fim de compreendê-las;
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  • “Projeto multilateral de investimento social ‘LOTUS-AURA’ no âmbito do desenvolvimento da vertente empresarial do programa” (a empresa “LOTUS-AURA” organizou em São Paulo uma exposição de amostras de marcas de chá, café e chocolate da Rússia, da Índia e do Brasil, além de assinar memorando sobre futuras parcerias empresariais dos três países); e
  • “Ação ecológica criativa ‘Muro e Alameda da Paz BRICS’”, projeto artístico criativo, em que estudantes criam um mural denominado “Parede da Paz”, com assinaturas, imagens e mensagens pintadas presencialmente.

Em sua fala de abertura, a presidente da BRICS: Mundo das Tradições, Liudmila L. Sekatcheva, afirmou que o programa da organização tem foco específico no público infanto-juvenil. Além de seu discurso, ela foi a mestre de cerimônia do evento que denominou de “Dia da Juventude na UFRJ”. “Eu sempre acreditei que a juventude trabalha e se empenha em mudar o mundo para melhor. Há cinco anos estivemos aqui no Rio, no Campus da UFRJ, localizado na Praia Vermelha, onde plantamos a árvore dos mestres/professores do BRICS”. Na época, em entrevista à Sputnik Brasil, Sekatcheva afirmou: “Essa árvore representa a unificação dos povos e um escudo contra a violência e as adversidades”.

A presidente da BRICS: Mundo das Tradições, Liudmila L. Sekatcheva. Crédito: Mariana Scangarelli/Revista Intertelas.
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Barão do Rio Branco: um legado que serve de exemplo aos povos do BRICS

O projeto principal do programa é “Os Grandes Mestres/Professores do BRICS”, onde cada país tem uma figura histórica que o representa a exemplo de: Mahatma Ghandi (Índia), Nelson Mandela (África do Sul), Liev Tolstói (Rússia), Confúcio (China) e Barão do Rio Branco (Brasil). “Essa figura histórica representa o Brasil e está incluído entre o grupo de mestres/professores do BRICS, em razão de sua atitude em resolver os conflitos pela via pacífica, nunca usando a violência contra os outros países”, disse Sekatcheva.

Durante o evento, foi exibida em vídeo a exposição literária e educativa dedicada ao patrono da diplomacia brasileira, denominada “O Chanceler de Ouro”. A apresentação foi conduzida por Daria Karaseva, coordenadora do programa para o Brasil. Segundo exposto, “o Barão conseguiu resolver pacificamente as disputas territoriais com os países vizinhos e lançou as bases para o processo de integração sul-americana, fortalecendo a posição do Brasil não pela guerra, mas pela força da lei, da palavra e da habilidade diplomática”. Da mesma forma, o embaixador do Brasil na Federação da Rússia, Sérgio Rodrigues dos Santos afirmou que tais projetos e iniciativas desse programa ganham relevância durante as comemorações dos 180 anos do nascimento do Barão do Rio Branco, “uma figura emblemática na defesa da resolução pacífica de conflitos e da diplomacia como meio para a promoção da paz”.

No ano passado e em 2022, foram inaugurados oito centros dedicados aos mestres do BRICS e temos planos de abrir outros aqui no Rio e em São Paulo. Em São Paulo trabalhamos em conjunto com a Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), onde vamos realizar a inauguração de um centro. Nosso objetivo é que os visitantes possam ter maior contato com a filosofia desses grandes mestres”, salientou Sekatcheva. Ela ainda enfatizou a importância do trabalho conjunto entre diplomacia pública e Estatal para o fomento de relações e cooperação estratégica aprofundada entre os países do BRICS. “Nós na diplomacia pública trabalhamos em várias esferas, mas a diplomacia Estatal nos ajuda a organizar eventos nos países, o que mostra uma boa sinergia entre ambas”.

A coordenadora do projeto “Grandes Mestres/Professores do BRICS: Código Cultural e Moral da Associação” no Brasil e diretora da organização “ISKRA”, Daria E. Zinkovskaia. Crédito: Mariana Scangarelli/Revista Intertelas.

As relações entre russos e brasileiros através da Expedição Langsdorff 

Outro destaque da programação na UFRJ foi a versão digital da apresentação cultural e educativa “Expedição Langsdorff: Diante dos Seus Olhos”, sobre a primeira expedição científica russa ao Brasil, além de trabalhos sobre o tema que foram expostos no auditório. Organizada por Grigori Ivanovich Langsdorff, um médico e diplomata da Rússia imperial no Rio de Janeiro, ela auxiliou os russos a conhecerem e entenderem melhor as riquezas naturais do Brasil.

Segundo dito ao público presente, a Expedição Langsdorff ocorreu de 1824 a 1829 e percorreu o interior do Brasil, onde foram realizados registros da diversidade da natureza e da sociedade brasileira, constituindo um inventário bastante completo sobre o país da época. A expedição fazia parte dos esforços diplomáticos do Czar Aleksandr I para promover as relações comerciais entre o Brasil e a Rússia e contou com o apoio do jovem Imperador D. Pedro I e de José Bonifácio.

Além das apresentações já citadas, trabalhos criativos dos laureados do Concurso Internacional infanto e juvenil “Sobre o Bem”, realizado entre 2022 e 2024, no âmbito do projeto “Grandes Mestres/Professores do BRICS”, foram expostos no auditório do evento. O projeto contou com a participação de aproximadamente 500 estudantes de escolas e universidades de Moscou, Tver, Barnaul, Kazan (Rússia), Nova Délhi, Faridabad e Hyderabad (Índia), e da Escola Russo-Brasileira Tenente Otávio Pinheiro, com o objetivo de promover o seu autodesenvolvimento por meio da arte, baseada em valores éticos.

O programa “Os Povos do BRICS escolhem a vida” acontece sob os valores promovidos pela bandeira de Nikolai Roerich

Durante a programação, a bandeira de Nikolai Roerich foi trazida por estudantes da universidade ao auditório. Ao final do evento, Sekatcheva convidou o público presente a assinar ou escrever frase sobre paz, bondade e outros temas relacionados. A bandeira que já tem assinaturas de ministros, embaixadores e cônsules será levada aos outros países do BRICS. Roerich foi um pintor, escritor, historiador, poeta e líder intelectual russo.

Segundo consta no site do Instituto Roerich da Paz e Cultura do Brasil, a Bandeira da Paz, como é bem conhecida, é o símbolo do Pacto de Röerich. “Esse grande ideal humanitário estabelece, na área das realizações culturais da humanidade, uma proteção semelhante à da Cruz Vermelha no alívio do sofrimento físico do homem, conforme o estabelecido nos Artigos I e II do Pacto de Paz: (vide Pacto Röerich). As instituições educacionais, artísticas e científicas, as missões artísticas e científicas, o pessoal, a propriedade e coleções de tais instruções e missões serão consideradas neutras e, como tais, serão protegidas e respeitadas pelos beligerantes”.

Crédito: Mariana Scangarelli/Revista Intertelas.

Como parte das atividades foi também apresentado o “Hino dos Povos do BRICS” em português. Durante a etapa russa, os alunos de oito países, incluindo do Brasil, criaram esse hino. A letra contém palavras de esperança e amizade. Somado a isso, no evento no Rio, um vídeo com imagens dos estudantes do Instituto Estatal de Relações Internacionais de Moscou (MGIMO) foi exibido durante a execução do hino, cuja letra permaneceu em um telão para que os presentes no auditório pudessem cantar ao mesmo tempo que balançavam suas bandeiras do programa, onde estavam escritas as palavras: amizade, confiança e amor. Conforme Sekatcheva: “Esse hino é o símbolo da amizade entre nós”.

Nessa mesma linha de pensamento o vice-ministro das Relações Exteriores da Federação da Rússia, sherpa da Rússia no BRICS, Serguei A. Riabkov, enfatizou que cada país do BRICS é singular, possuindo uma identidade civilizatória, cultural e histórica única. “É nesta diversidade que reside a nossa força, abrindo horizontes para uma cooperação que amplia o potencial econômico e social inovador e humano das nossas nações. Uma das principais direções da parceria estratégica do BRICS é a expansão dos laços humanitários, conforme refletido na declaração dos líderes da XVII Cúpula do grupo. Os contatos entre as pessoas constroem relações de confiança entre diferentes civilizações, religiões e macrorregiões, possibilitando pontos de crescimento conjunto”.

O vice-ministro das Relações Exteriores da Federação da Rússia, sherpa da Rússia no BRICS, Serguei A. Riabkov. Crédito: Mariana Scangarelli/Revista Intertelas.

Para o embaixador da Índia na Federação da Rússia, Vinay Kumar, a iniciativa que foi lançada em Nova Delhi, Mumbai e Pune em 2022, contribuiu ao longo dos anos para a realização de um dos resultados mais significativos do BRICS: a formação de um espaço comum de valores humanistas por meio da cooperação entre organizações da sociedade civil e comunidades acadêmicas. “O projeto principal da organização ‘Os Grandes Mestres/Professores do BRICS – o Código moral e cultural da associação’ tem um valor especial para a Índia. A doutrina do pai da nação indiana, Mahatma Ghandi, na Insistência da Verdade (Satyagraha) e da não violência (Ahimsa) e a sua aplicação prática lançaram as bases sólidas para a Índia moderna e podem servir como compasso para toda a humanidade”.

Para o chefe-adjunto da Rossotrudnichestvo, Dmitri V. Polikanov, também responsável pela diplomacia pública e pela política dedicada à juventude, é de grande importância que na etapa brasileira sejam assinados acordos entre escolas, universidades e faculdades, para que novos projetos sejam desenvolvidos, assim como novas negociações empresariais. “Todo esse conjunto de iniciativas mostra que as conexões dentro da aliança BRICS estão se desenvolvendo muito ativamente e que realmente está se formando um novo sistema de governança global, baseado em um fundamento sólido de interação entre pessoas, representantes da sociedade, líderes empresariais, entre universidades e intercâmbio culturais e assim por diante. Esse fundamento sólido estabelece o vetor para o futuro e mostra que essa união tem sucesso”.

Segundo o vice-ministro da Ciência e Ensino Superior da Federação da Rússia, Konstantin I. Mogilevskii, que esteve no Rio para o Fórum de Reitores das Universidades do BRICS+ em junho desse ano e foi recebido na UFRJ, organizadora do Fórum: “Atualmente o programa ‘Os Povos do BRICS escolhem a vida’ implementa com sucesso projetos de educação espiritual e moral de crianças e jovens, baseados nos princípios de respeito à história e fidelidade às tradições e à cultura dos povos do BRICS. Graças as suas várias linhas de ação, são criadas as condições para o desenvolvimento do ambiente acadêmico e para a cooperação entre comunidades empresariais do BRICS”.

BRICS pela construção de um sistema internacional mais igualitário

Nas palavras do cônsul geral da Rússia no Rio de Janeiro, Andrei Petrov, as relações entre os membros do BRICS são diferentes das relações tradicionais que ocorrem pelo mundo. “Como foi possível constatar no legado do Barão do Rio Branco, o direito internacional não pode privilegiar um país em detrimento de outro. O presidente Putin também tem essa visão. Ele disse uma vez que a segurança de cada país não pode ser assegurada em detrimento de outros países. Ou seja, a segurança deve ser comum, para todos. Essa lógica é base da união do BRICS. Da mesma forma, é preciso insistir em uma realidade onde cada membro da comunidade internacional tenha direitos e voz iguais em que não haja um país que domine os demais países”.

O cônsul geral da Rússia no Rio de Janeiro, Andrei Petrov. Crédito: Mariana Scangarelli/Revista Intertelas.
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Em entrevista à Intertelas, o diplomata afirmou que fortalecimento dos intercâmbios entre os membros do BRICS, em especial na cultura e no modus vivendi desses países, possibilita a elaboração de um código unificado. “Há uma grande diversidade entre os países do grupo, mas é preciso encontrar um local comum entre nós, no intuito de poder compreender um ao outro. Além disso, o trabalho dessa organização destaca a importância de atuação de cada membro do BRICS no cenário internacional”.

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Já quanto às relações russo brasileiras, o cônsul disse que há muito espaço para melhorar, em especial nos esforços entre os dois países para fomentar cooperação maior na área de tecnologia. “Não apenas vender tecnologia um para o outro, mas compartilhar e desenvolver juntos. Penso que essa é a característica especial das nossas relações. No mais Brasil e Rússia são países grandes em termos de território e de riquezas naturais. E a mentalidade de nossos povos têm muitas semelhanças, pois não podemos pensar de forma individualizada, mas sim ampla. Temos tradições também que se assemelham. Claro que temos nossas peculiaridades, mas até nessas peculiaridades há semelhanças interessantes. Esses dois países possuem diversos mundo culturais unidos em uma mesma nação”.

Na mesma linha de raciocínio, o presidente nacional da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil, Adilson Araújo que foi convidado a participar do evento em diálogo com a presidente da BRICS: Mundo das Tradições, durante a 8ª edição da Assembleia Pública Mundial, realizada em Moscou, afirmou que é preciso dialogar sobre a crise do capitalismo global, assim como sobre os problemas que afligem a classe trabalhadora em todo o mundo. “Temos a necessidade de compreender mais e melhor o espaço em que vivemos. Como lideranças de países do BRICS, a exemplo de Xi Jinping na China, deixam claro, o mundo deve ambicionar o progresso comum, respeitando a autodeterminação dos povos. O Brasil pode potencializar o desbravamento de uma contemporaneidade que vai ajustar uma nova ordem. O mundo reivindica a necessidade de haver um desenvolvimento sustentável e solidário”.

Segundo o coordenador especial de Relações Internacionais para a Federação da Rússia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Fabio Krykhtine, em entrevista à Intertelas, a globalização elegeu algumas culturas de alguns países como hegemônicas. “No entanto, no BRICS a dinâmica não é essa. Esse é um espaço onde todas as culturas são respeitadas, assim como as diversidades culturais. Quando falamos de Rússia, estamos falando de um poço cultural rico. E Brasil e Rússia, como países que apresentam uma grande diversidade cultural, precisam celebrar essa amizade entre os povos para combater ideias e imagens que são propagadas pela grande mídia ocidental contra os países do BRICS. O BRICS tem uma composição multicêntrica, com a existências de diversos centros de poder regionais que torna o sistema muito mais resiliente”.

O coordenador especial de Relações Internacionais para a Federação da Rússia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Fabio Krykhtine. Crédito: Mariana Scangarelli/Revista Intertelas.
Crédito: Mariana Scangarelli/Revista Intertelas.

Para o também professor, o Brasil precisa entender que a Rússia não é só Moscou, e a Rússia que o Brasil não é apenas o Rio de Janeiro. “O nosso intercâmbio acadêmico aumentou significativamente. Hoje temos parceria com instituições até em Vladivostok. Ano passado, a Moscow State Universilty – Lomonosov sediou o Fórum de Reitores do BRICS e um Fórum de Reitores da Rússia, da Bielorrússia e do Brasil. Nesse ano, quem sediou foi a UFRJ. Nós já temos em torno de 11 ou 12 acordos e hoje vamos assinar mais um com a Kazan Innovative University (KIU). Ano passado, nós tivemos 40 universidades brasileiras em Moscou. Então, temos hoje estados como a Bahia e Minas Gerais promovendo eventos e todas essas iniciativas contam com o apoio do governo federal. Trata-se de uma estratégia de Estado, não apenas de governo, no âmbito do fomento da cooperação entre os países do BRICS”.

A promoção das relações acadêmicas e culturais entre Brasil e Rússia

Durante a segunda metade do evento foi realizada uma cerimônia de assinatura do memorando de entendimento em área acadêmica e profissional entre a UFRJ e a Kazan Innovative University e foi anunciado um plano para a futura assinatura de um memorando entre a BRICS: Mundo das Tradições, a organização ISKRA e a UFRJ. Além disso, a presidente da organização, Sekatcheva, presenteou Fabio Krykhtine com um chá da Índia e uma edição especial sobre uma biografia do Barão do Rio Branco, livro que lhe foi dado há cinco anos, no Palácio do Itamaraty, em 2019. A edição especial ficará disponível na biblioteca de relações internacionais da UFRJ. Acompanharam todo evento, via online, representantes da Kazan Innovative University.

Crédito: Mariana Scangarelli/Revista Intertelas.

Conforme o primeiro reitor da KIU, Igor I. Bikeev, Kazan, capital e maior cidade da República do Tartaristão, onde a Rússia sediou a edição de 2024 da Cúpula dos BRICS e a etapa russa do programa ocorreu, tem mais de mil anos de história e é um dos principais centros educacionais e científicos do país. “A educação e a ciência transformam as pessoas, ampliando a sua capacidade intelectual, permitindo com que compreendam processos mais complexos e tomem decisões mais sensatas. Essas áreas são capazes de unir as pessoas no combate à ignorância, à pobreza e à crueldade. No ano passado, em nossa universidade, foi inaugurado um auditório relacionado aos BRICS e onde é contada a história desse grupo. E nele estão expostos os valores que nos unem: igualdade, solidariedade, confiança, justiça, prosperidade, honestidade, humanidade e reciprocidade.  Preservando esses valores, os países do BRICS serão capazes de mudar o nosso mundo para melhor”.

O primeiro reitor da Kazan Innovative University (KIU), Igor I. Bikeev. Crédito: Mariana Scangarelli/Revista Intertelas.

Após a fala de Bikeev, o público foi convidado a assistir a pré-estreia do documentário “Grandes Mestres do BRICS: Código Cultural e Moral da Associação”. O vídeo foi criado em conjunto com os estudantes do MGIMO, da Kazan Innovative University e com o apoio de profissionais da área cinematográfica. Para a coordenadora do projeto “Grandes Mestres/Professores do BRICS: Código Cultural e Moral da Associação” no Brasil e diretora da organização “ISKRA”, Daria E. Zinkovskaia, para alguns russos, o Brasil tornou-se um país próximo através de produtos culturais como as excelentes novelas brasileiras, a exemplo de “Escrava Isaura”. “Na verdade, graças a essa novela, a palavra fazenda passou a ser usada na língua russa e tem o significado de uma casa que fica na zona rural. E algumas meninas na época que a novela foi exibida na Rússia, em 1980, receberam o nome de Isaura. Isso mostra que a cultura brasileira entrou nas nossas vidas há um certo tempo o que é profundamente simbólico”, concluiu Zinkovskaia.

A atuação do BRICS na Segunda Guerra Mundial

Por fim, a coletânea brasileira de artigos de pesquisa “A Grande Guerra Patriótica dos Soviéticos”, publicada no Brasil pela editora Multifoco e na Rússia, nas versões em português, inglês e russo, organizadas pela Kazan Innovative University, compõe o projeto literário-histórico “Voz da Verdade”. A iniciativa é dedicada ao 80º aniversário da Vitória sobre o fascismo e à solidariedade dos povos dos países do BRICS na luta contra um inimigo comum. “Ontem realizamos uma visita ao monumento dedicado aos mortos da Segunda Guerra Mundial no Rio e depositamos flores aos homenageados. Para nós é importante preservar a memória desse período histórico. Infelizmente hoje, no mundo, existem várias falsificações da história e nossa missão é preservar a verdade”, explicou Sekatcheva.

Crédito: Mariana Scangarelli/Revista Intertelas.

Após a sua fala, foi exibida a reportagem da TV BRICS “Escritores e jornalistas dos países do BRICS contaram sobre a Segunda Guerra Mundial nos seus livros”. A matéria apresentou diversas obras escritas por variados pesquisadores dos países do BRICS, na tentativa de resgatar a participação e a contribuição desses países na Segunda Guerra Mundial que ainda é pouco conhecida mundialmente. Posteriormente, um minuto de silêncio foi feito em homenagem aos heróis da Segunda Guerra Mundial e medalhas foram entregues aos autores presentes, assim como cópias das edições publicadas em Kazan.

Crédito: Mariana Scangarelli/Revista Intertelas.

Essa medalha foi criada há cinco anos. E nela temos duas imagens. Uma com as bandeiras do Brasil e da Rússia e a frase: ‘Na luta contra o fascismo e o nazismo, nós estivemos juntos’. A medalha também foi criada com o apoio de uma organização internacional de veteranos daquela guerra e claro que os veteranos russos e brasileiros são membros dessa organização” explicou Sekatcheva. Conforme ela, copias da edição do livro organizada em Kazan foram disponibilizadas à biblioteca da UFRJ, assim como o serão em instituições educacionais de outros países do BRICS.

A jornalista, especialista em Política Internacional pela PUCRS e mestre em estudos estratégicos internacionais pela UFRGS, Alessandra Scangarelli Brites. Crédito: Mariana Scangarelli/Revista Intertelas. Crédito: Mariana Scangarelli/Revista Intertelas.
O doutor em história pela UERJ, Vinícius da Silva Ramos. Crédito: Mariana Scangarelli/Revista Intertelas.

A equipe que idealizou e escreveu o livro “A Grande Guerra Patriótica dos Soviéticos” é composta de 10 integrantes. Estavam presentes para receber a homenagem e representar o grupo de autores: Alessandra Scangarelli Brites (Jornalista, especialista em Política Internacional pela PUCRS e mestre em estudos estratégicos internacionais pela UFRGS), Marina Magalhães Barreto Leite da Silva (Pós-doutora em relações internacionais pela Universidade do Estado Livre da África do Sul e doutora em políticas públicas internacionais pela Universidade de Osaka, Japão), Ricardo Quiroga Vinhas (Bacharel em direito e pesquisador da Segunda Guerra Mundial) e Vinícius da Silva Ramos (Doutor em história pela UERJ).

A pós-doutora em relações internacionais pela Universidade do Estado Livre da África do Sul e doutora em políticas públicas internacionais pela Universidade de Osaka, Marina Magalhães Barreto Leite da Silva. Crédito: Mariana Scangarelli/Revista Intertelas.
O bacharel em direito e pesquisador da Segunda Guerra Mundial, Ricardo Quiroga Vinhas. Crédito: Mariana Scangarelli/Revista Intertelas.

Falando em nome de seus colegas, Ricardo Quiroga Vinhas, um dos principais idealizadores da obra, disse que estudar esse período histórico tem um significado pessoal para ele. “Nasci em Praga, cidade salva pelo Exército Soviético no dia 9 de maio de 1945. Meu pai nasceu em 8 de maio de 1945. Quero agradecer por esta homenagem realizada pela BRICS: Mundo das Tradições. Uma obra feita a várias mãos e que se contrapõe ao revisionismo histórico, resgatando o papel histórico da União Soviética na derrota do nazismo. É sempre importante que as novas gerações saibam do papel que os membros fundadores dos BRICS cumpriram na Segunda Guerra Mundial em defesa da humanidade”.

Assista a parte do programa realizado em São Paulo no vídeo abaixo

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