
“A paz, assim como o ar e a luz do sol, dificilmente é percebida enquanto nos beneficia, mas nenhum de nós pode viver quando nos falta.”
Xi Jinping
Durante quatrocentos anos, a Dinastia Zhou atraiu porque luzia. Ensinou aos que viviam na terra pois aprendia com o Céu. Assegurava o justo para todos, pois seguia o caminho do meio, quinhentos anos antes de Gautama nascer do outro lado do Himalaia. Sua autoridade moral era reconhecida, admirada e seguida. Seu exemplo inspirava o desejo de melhorar sempre. Sua capacidade de defesa desestimulava ataques. Quando atacados, todos se uniam para defender a vida, segundo a vontade do Céu, e por isso nunca lhes faltava o espírito da vitória. Com harmonia ajudavam-se a resolver discordâncias.
Cavalos puxavam arados nos campos. Jovens trabalhavam com a família desde a semeadura até a colheita. No solstício de inverno, quando neves fechavam caminhos, celeiros fartos asseguravam fragrâncias três vezes por dia ao cantar do fogo a crepitar sorrisos. A vida seguia prospera ao longo das recorrentes quatro estações de trabalho esforçado e recompensa justa durante quatro séculos. O Mandato do Céu referendava a autoridade benigna da Dinastia Zhou.
“Ser fiel à aspiração inicial e à missão – uma campanha contínua” (“A Governança da China III”, Xi Jinping, pag. 688.)
As causas do conflito que determinou o fim da Dinastia Zhou do Oeste e a transferência da capital para Leste em Luòyáng, 洛阳, já eram controversas antes da descoberta dos textos em bambu conhecidos como Tsinghua Chengwu. Rigoroso esforço de análise é realizado pela equipe da Universidade Tsinghua junto com o professor Liu Guozhong e gera contribuições inestimáveis como a descoberta do testamento do Rei Wen, e nova compreensão da queda da Dinastia Zhou do Oeste. Reverenciamos essa magnífica e importante pesquisa que ajudará a distinguir fatos e versões.
Para uma análise Cultural fato fictício e fato de historicidade comprovada são igualmente importantes. Um e outro ajudam a compreender como a Cultura segue a formar um povo e como esse povo segue a transformar a Cultura. Escolhemos analisar a célebre e improvável versão consagrada sobre a queda da Dinastia Zhou do Oeste. Sua poderosa presença atuante na Cultura por milênios nos ajudará a entender o apreço e respeito do povo Chinês à autoridade moral. Em diferentes Dinastias estudiosos encontraram evidências de outras causas possíveis. A versão se manteve viva. Sua veracidade não se apoia na factualidade, mas nos valores da narrativa que educou gerações.
Em 781 a.e.c. o Rei Yōu Wáng assumiu o trono. Em 780 a.e.c. Guanzhong sofreu violento terremoto, e o mago Bo Yang Fu, 伯陽甫, pressagiou a queda da Dinastia Zhou. Em 779 a.e.c. Bāo Sì, 褒姒, jovem que a posteridade viria a descrever como uma das mais belas da antiguidade, entrou no Palácio como concubina. Tornou-se a favorita. Ainda em 779, engravidou e nasceu Bofu, 伯服, seu filho com o Rei Yōu. Conta a lenda que a deslumbrante Bāo Sì era filha da reverência de um dragão negro, nascido da transgressão cometida pelo lastimável Rei Zhōu Lì Wáng, 周厲王, (877-841 a.e.c.) ao desrespeitar recomendação deixada por um Rei da Dinastia Xia.
No mesmo ano de 779 o Rei Yōu Wáng decidiu tornar Rainha a recém chegada, e tornar herdeiro do trono o filho recém nascido, Bofu. Para realizar seu desejo, o Rei Yōu destituiu a Rainha, filha de seu aliado, Marquês Shēnhóu, 申侯, e destituiu seu filho com a Rainha, Yíjiù, 宜臼. Ao romper normas reconhecidas como de bom senso e sabedoria, dissolveu o sutil e poderoso vinculo da confiança, base da autoridade benigna. Paixão pessoal se sobrepôs ao amor ao povo. Ao esquecer que a comunidade precede o indivíduo, o Rei Yōu esqueceu a ligação com a origem.
“Para permanecermos fiéis à aspiração inicial, devemos ter em mente o propósito fundamental de servir de todo coração ao povo” (“Governança da China III” Xi Jinping, pag. 669.)
Árvore desenraizada morre. Desencaminhado do Céu, aprisionado à ilusão das formas fugazes, súdito de seus desejos, o poder Celeste já não fluía através dele. Os fatos subsequentes são consequência da causa que os originou. Em 771 a.e.c. o Marquês Shēnhóu liderou revolta com apoio do Estado de Zēng, 曾, e dos selvagens Quǎnróng, 犬戎. Atacou e devastou a capital, Haojing, 镐, situada na área da atual Xian. O Rei Yōu e seu filho Bofu foram mortos. A bela Bāo Sì foi presa pelos Quǎnróng, e levada para o líder. O pai vencedor negociou a libertação com seus aliados selvagens e ela foi solta. Em outro ataque dos Quǎnróng novamente Bāo Sì foi presa. Foi então que ela se enforcou.
Nas lutas desencadeadas entre pretendentes ao trono, o favorito que reunia maior apoio acabou por ser assassinado por um opositor. Só após alguns anos o Marquês Shēn conseguiu apoio para entronizar seu neto Yíjiù, Rei Píng Wáng, 周平王, e este transferiu a capital para leste, em Luòyáng 洛阳. Era o fim da Dinastia Zhou do Oeste. O Leste, lugar do Sol Nascente, estava fadado a ser o lugar do Poente da Dinastia Zhou. Revolta e guerras para disputa de sucessão evidenciavam perda da autoridade moral. A mudança da capital do Oeste para o Leste não foi uma escolha, era consequência da violência dos revoltosos. Para vencer, arrasaram a capital criada pelos fundadores da Dinastia.
Faltavam duzentos anos para Sūn Wǔ, 孫武, ensinar em palavras o que o Dao já ensinava com fatos. Em guerra, até os vitoriosos são derrotados, pois não souberam evitar a guerra. As primeiras geadas anunciaram que adiante viria gelo sólido (linha na primeira posição no hexagrama 2, Receptivo, Kūn 坤).Para acudir tempos conturbados, duas grandes luzes díspares e complementares nasceram. Primeiro surgiu na vila de Quren, 曲仁里, o misterioso Lǎozǐ, 老子, (571 a.e.c.-) sobre quem a única certeza que se tem são dúvidas sobre quem ele foi, como viveu, como e quando desapareceu do espaço-tempo numa curva de estrada que chamam de morte. Seu nome também é incerto. O sufixo Zǐ é um honorífico acrescentado pela posteridade.
Segundo alguns relatos chamava-se Lǐ Ěr, 李耳, era arquivista do Reino de Zhou na então capital, a atual Luoyang. Segundo outros relatos seu nome seria Lǎo Laizi, 老莱子,um dos 24 Paradigmas do Amor Filial, e Mestre da tradição de saúde e longevidade. Segundo outros, seu nome seria Lǎo Dān,老聃, astrólogo, mestre da tradição esotérica. Em diferentes fontes um mesmo fato aparece atribuído a diferentes nomes. Aqui seguiremos o nome com o qual a posteridade homenageia o misterioso personagem.
No controvertido e célebre diálogo com Confúcio, ao ser perguntado sobre os Ritos, Lǎozǐ respondeu sem responder. Não falou sobre o que Confúcio indagou. Descreveu o caminho dos sábios e, na condição de mais velho, aconselhou o mais jovem. Várias passagens no Dao De Jing, tais como “Quebra a tua lâmina!” “Desata teus nós!” “Harmoniza o brilho!” “Iguala-te ao pó”, soam semelhantes à resposta de Lǎozǐ a Confúcio como veremos mais adiante. (“Dao De Jing”, Laozi, capítulo 4, tradução Giorgio Sinedino, pag. 42, ed. Unesp)
Responder com um ensinamento, e não necessariamente ao que foi perguntado, corresponde ao texto do Julgamento do hexagrama 4, Insensatez Juvenil, Méng, 蒙, no qual o Zhou Yi esclarece aos consulentes que responde perguntas pertinentes, mas não responde perguntas impertinentes. A primeira frase da única obra de Lǎozǐ, o Dao De Jing, 道德经, contêm em semente as duas frases seguintes que, ao serem enunciadas, desdobram e desvelam o que estava oculto na primeira. Do mesmo modo, as três primeiras frases contêm o livro inteiro, como Lǎozǐ sugere nas quatro primeiras frases do capítulo 42: “O Dào gera a Unidade. A Unidade gera o Par. O Par gera a Tríade. A Tríade gera as dez mil aparências“. (Dào shēng yī, yī shēng èr, èr shēng sān, sān shēng wànwù,道生一,一生二,二生三,三生萬物)
A primeira frase no Dao De Jing diz: “O Dào que pode ser verbalizado não é o Dào Eterno.” (Dào kě dào fēi cháng dào 道可道非常道) Lǎozǐ afirma que o sentido do Dao é inexpressável em palavras. Ao acrescentar na conclusão o termo Eterno, Lǎozǐ indica o que a verbalização não alcança. Nomes designam fenômenos, φαινόμενον, isto é, aparências. Nenhuma aparência é Eterna. A segunda frase diz: “O nome que pode nomear não é o nome Eterno.” (Míng kě míng fēi cháng míng 名可名非常名). Nomear significa circunscrever o que é próprio à uma aparência e assim a distingue de outras aparências. Ao final da frase Lǎozǐ acrescenta o termo Eterno para indicar a impossibilidade de circunscrever o ilimitado.
A terceira frase diz: “O que não pode ser nomeado é a origem do Céu e da Terra.” (Wú míng tiān dì zhī shǐ 无名天地之始). Não poder ser nomeado significa ser incognoscível. Ao afirmar que o incognoscível é a origem do cognoscível o Dao De Jing precede em quase setecentos anos a Vacuidade, Śūnyatā, em Nāgārjuna (c. 150 – c. 250 e.c.), e em quase um milênio a Via Negativa de Pseudo-Dionísio (c. final V e.c. início de VI e.c.).
O mistério é a fonte do conhecimento. Quanto mais progride o conhecimento, tanto mais amplia a consciência do mistério antes e depois do pouco que se sabe. O conhecido é uma vela acesa na escuridão do sem começo, nem fim. Aparências giram enquanto duram no interior da vacuidade insondável. Aparências de aspirantes à Humanidade giram em aparente espiral cognitiva na vacuidade insondável do ignorado, até serem libertadas da circunscrição aparente que chamamos de espaço-tempo. Aparências surgem, duram enquanto mudam, e desaparecem na vacuidade como bolhas de sabão somem no ar.

Aparências são como nuvens que flutuam livres no Céu. O mesmo ar invisível em que pairam, as move, reúne, condensa, e dissolve ao fazer chover. Caem águas doces a saciar aparências sedentas. Caem sobre aparência que chamamos terra, sem escolha nem preferência, por pura consonância. Livre de intento, cada gota de chuva cai no lugar preciso de seu destino.
Ao chegarem na terra, águas mergulham, ávidas por profundezas. Qualquer mínimo espaço lhes permite passagem. Descem, alimentam lençóis subterrâneos, depois sobem como fontes. Ao reencontrar a superfície de onde mergulharam, descem declives a escorrer como rios. Águas amam declives. Quando encontram barreiras, fluem para erguer o nível até que possam saltar desde onde estiverem para voltar a correr por declives adiante. Aprendem adaptabilidade ao contornar grandes pedras. Aprendem perseverança ao arredondar as pequenas.
Declives são infalíveis pois conhecem sem precisar saber, o destino das águas perseverantes. A proximidade da foz acalma a chegada das águas doces que alcançam o destino complementar, semelhante, oposto, mais velho e originário, a imensidão d’água salgada que circunda a esfera e lhe concede a mesma cor do céu, azul. O oceano é um só, ainda que lhe atribuam vários nomes. Os deuses que os aspirantes a humanos cultuam também.
Águas de longa viagem nasceram em grandes altitudes. Para persistir, reuniram muitas outras águas que vieram convergir ao mesmo anseio do longínquo. Águas de mais curta duração nascem de fontes em falésias ante o mar. Grandes volumes de águas doces a correr sobre a terra supõem rios celestes que alimentem múltiplas nascentes protegidas por florestas. Grandes rios amam o caminho do meio, o equador, onde luz do fogo celeste incide de forma direta sobre a pequenina esfera que parece grande aos seus minúsculos habitantes.
Ao aquecer águas, o fogo celeste gera evaporação, que gera nuvens, que geram chuva que alimenta incontáveis seres. “O Dao da Mutação é circular, universal e omni-abrangente.” Zheng Xuan 鄭玄 (127-200 e.c.) O movimento circular dos hexagramas mencionado no artigo anterior se explicita quando os mesmos trigramas básicos e nucleares fogo e água, os incompatíveis, compõem os hexagramas 63, “Depois da Conclusão”, Jì Jì, 既濟, e 64 “Antes da Conclusão”, Wèi Jì, 未濟,do Zhou Yi.
Dentre os seis estágios da Mutação nos hexagramas, o caminho de Lǎozǐ corresponde à morada do Sábio Recluso, o sexto e último espaço sempre vazio sobre o qual linhas passam sem deixar rastro sessenta e quatro vezes nos hexagramas do Zhou Yi. A sexta posição é lugar do mistério, breu por trás das estrelas que brilham na quinta posição, lugar de Governo. Lǎozǐ acolhia quem o procurava tal como ensina o Julgamento do Hexagrama 4 Insensatez Juvenil, Méng, 蒙: “Não sou eu quem procura o jovem insensato. É o jovem insensato quem me procura”. O lago não vai ao sedento. Aos que vinham, Lǎozǐ compartilhava o caminho das águas que seguem declives.
O Outono da Dinastia Zhou foi terrível e maravilhoso. Terrível por duzentos anos de guerras e maravilhoso pela florada primaveril de cem luzes que até hoje inspiram quem estuda os pensadores do período que se pode entender como Primavera no Outono. Lǎozǐ foi o precursor da constelação de luzes que vieram acudir os que viviam naqueles séculos de guerras. Na Primavera muitas flores desabrocham, flores de diferentes cores, com diferentes fragrâncias. Dadivosas, cada uma oferece sua beleza e perfume. Nenhuma flor pede que outras sejam como ela.
“A diversidade das civilizações humanas confere ao mundo uma riqueza de cores.” (“A Governança da China II”, Xi Jinping, pag. 643.)
Gustavo A.C. Pinto
Formado em Filosofia pela PUC-RJ e tradutor do “I Ching”. É autor dos livros “Relâmpagos”, “Gotas de Orvalho”, “Rito da Montanha Sagrada” e “Astrologia e Budismo”

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