
Os antigos cinemas de rua costumam mobilizar o interesse público, e também o acadêmico, enquanto espaços dotados de características arquitetônicas específicas e de promoção de uma experiência sensível e formas de sociabilidade também peculiares. Contudo, apesar da crescente diversificação das abordagens, o estudo do trabalho e dos trabalhadores dos cinemas tem merecido pouca atenção. Embora os operadores cinematográficos tenham sido objeto de entrevistas e documentários cinematográficos, o que dizer daqueles que trabalharam na divulgação, como os cartazistas, nas bilheterias, portarias, zeladorias, na limpeza, na gerência, no departamento contábil e de pessoal, ou dos que coadjuvaram o próprio operador, na cabine de projeção, e ainda daqueles que atuaram no salão de exibição, como os “lanterninhas” e os baleiros?
Os diversos profissionais referidos, aos quais se juntariam os músicos que ambientavam as sessões nos tempos do cinema silencioso, e o seu trabalho, permanecem ausentes da maioria das narrativas históricas sobre o passado das antigas salas de cinema. E a principal razão desse quadro é a inexistência de fontes de pesquisa. A constante troca de arrendatários que caracterizou a administração das salas exibidoras historicamente, após uma primeira fase em que a gestão familiar (do próprio proprietário) costumava ser a regra, é uma das explicações para o vazio documental. Tal característica extrapola o caso de Porto Alegre (RS), que será tratado aqui.
Com o crescimento e complexificação da atividade exibidora, tornou-se muito comum que tais locações ficassem a cargo de empresas que pouco ou nada tinham a ver com a sala de cinema e nem mesmo com a cidade onde estava sediada, configurando uma carência de vínculos de pertencimento entre gestor e espaço, que facilitou o descarte da documentação administrativa após a extinção dos contratos de arrendamento e/ou a baixa nos registros comerciais das firmas. Outra causa do apagamento dos trabalhadores do cinema da História foi a sua própria desvalorização social, seja por sua inscrição étnica e/ou de gênero, seja por sua baixa escolaridade e formação autodidata, que os fazia aprenderem e ensinarem o seu métier aos sucessores de maneira informal, na lida cotidiana do trabalho.
A exposição “Os Trabalhadores do Cinema Capítólio”, em cartaz na Cinemateca Capitólio, de Porto Alegre, tem por objetivo dar visibilidade a tais profissionais, sem os quais espectadores e filmes não teriam se encontrado. A partir da identificação das principais categorias profissionais presentes no cinema Capitólio, passou-se à individualização dos trabalhadores que desempenharam tais funções, revelando-se suas identidades, origens, período de atuação e benefícios sociais e trabalhistas gozados.
Tal iniciativa só foi possível em razão da existência de um acervo documental, textual e iconográfico, que faz remissão ao quadro funcional do cinema Capitólio e que foi mobilizado para subsidiar a pesquisa que deu lugar à exposição. A documentação empresarial, porém, limita-se a uma fase da história do cinema, a da administração de Romeu Pianca, entre 1938-1967. Reunida por Malvina Pianca, sua filha e braço direito na gestão dos cinemas da família, ela se encontra, hoje, preservada e sob a guarda do Centro de Documentação e Memória da Cinemateca Capitólio.
A instituição, que é pública e está vinculada à Prefeitura de Porto Alegre, foi inaugurada em 2015 após um longo processo de restauro do prédio que abrigou o cinema. Um projeto cuja origem foi a mobilização comunitária pela preservação do espaço, reconhecido por sua importância cultural e afetiva, que se concretizou enquanto uma instituição museológica destinada a guardar, preservar e promover a memória audiovisual gaúcha.

Embora incompleto, tal conjunto documental abre uma perspectiva muito promissora e de grande relevância social para os estudos históricos sobre o cinema e o trabalho. A exposição, que integra também outros documentos, de outros períodos, tipologias e acervos, como fotografias, memórias orais e jornais impressos (programação e anúncios), dá conta das pessoas, bem como das práticas, ações e relações por elas empreendidas cotidianamente com o intuito de manter a organização e o funcionamento do cinema, tanto em sua dinâmica interna, quanto em seus vínculos externos, seja com órgãos governamentais, via pagamento de taxas, impostos e direitos sociais, seja com fornecedores diversos.
A iniciativa também possui representatividade e pertinência inequívocas por abarcar categorias profissionais e práticas que foram comuns a outras salas de cinema e ao modo de funcionamento do setor exibidor ao longo da história e em perspectiva global. Viabilizada por meio de um edital público e financiada com recursos descentralizados pela União para os estados, no caso o Governo do Estado do Rio Grande do Sul, no âmbito da Secretaria de Estado da Cultura, a partir da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), a exposição tem por interesse central romper com o apagamento de uma classe imprescindível para a história dos cinemas: a dos seus trabalhadores.
Torná-los objetos centrais de uma pesquisa e exposição é reconhecer a importância de seu trabalho para o funcionamento das salas exibidoras, como sujeitos e agentes históricos. Simultaneamente, trata-se de valorizar a preservação dos acervos públicos e as instituições suas depositárias, legitimando o seu papel social na guarda e difusão da memória, na produção da história e no fortalecimento de nossa identidade cultural.
O Cine-Theatro Capitólio de Porto Alegre/RS
Inaugurado em 1928 e fechado em 1994, o cinema Capitólio passou por várias transformações ao longo de sua história, feita de sucessos e crises, como expressão e agente da dinâmica social da cidade de Porto Alegre e, sobretudo, da Cidade Baixa, bairro do qual foi um dos principais centros de lazer. Como cinema, ele esteve integrado à vida da comunidade porto-alegrense, com ela interagindo ativamente, enquanto espaço físico e lugar de encontro e estabelecimento de relações sociais e afetivas, de vivência de experiências sensíveis, coletivas e individuais, que viriam se somar às histórias de cada espectador que o frequentou e de cada trabalhador que o fez funcionar, participando da sua formação cultural e da construção de suas identidades.
Hoje, o endereço do antigo cinema Capitólio é o bairro Centro Histórico. Mas até o inicio dos anos 1980, este mesmo território fazia parte do bairro Cidade Baixa. O arrabalde, que já trazia no nome a distinção com a cidade alta, habitada pela elite política, religiosa e econômica desde os primórdios da história da cidade, começou a ser povoado ainda no século XVIII. Na segunda metade do século seguinte, ganhou arruamento e urbanização, sendo também reservados espaços públicos abertos para o lazer dos moradores, onde se alternaram circos de cavalinhos e de touros. O adensamento populacional da região marcou a entrada no século XX, acompanhando o estabelecimento de pequenas indústrias, comércios, igrejas e cinemas.
Socialmente, a Cidade Baixa caracterizou-se pelo predomínio de duas comunidades distintas: a negra, formada por descendentes de escravizados libertos, e a italiana, constituída por uma classe média imigrante, que se dedicaria aos ramos da gastronomia e das diversões públicas. O envolvimento dos italianos com a construção e gestão de salas de cinema foi marcante nas primeiras décadas da atividade exibidora na capital gaúcha, não ficando atrás a exploração de açougues, padarias, mercados, cafés e confeitarias.
Idealizado e financiado pelo italiano José Faillace, projetado e construído por outro italiano, o engenheiro–arquiteto Domingos F. Rocco, o Cine-Theatro Capitólio permaneceu sob a administração de seu proprietário, José, e do seu filho, Luiz, ao longo de sua primeira década de existência. Em 1938, o cinema foi arrendado a Romeu Pianca, também de origem italiana. Em outubro de 1967, após o seu falecimento, foi encerrado o respectivo contrato de locação, passando o cinema a ser locado a outras empresas, sucessivamente, que o fariam alternar tentativas efêmeras de renovação com fases de decadência, até o seu fechamento definitivo.
Tanto José quanto Romeu residiram próximo ao cinema, o que também foi observado com relação a maior parte dos seus funcionários e frequentadores. A monumentalidade, beleza e conforto do Capitólio contribuíram para sua rápida afirmação no bairro como espaço de sociabilidade e lazer, numa época em que os cinemas também foram importantes pontos de encontro e confraternização comunitária, incrementando o movimento das ruas.

Os trabalhadores do cinema Capitólio
Diversas profissões foram imprescindíveis para manter os antigos cinemas de rua em funcionamento. Se imaginarmos um reencontro com tais trabalhadores, considerando a visibilidade do seu próprio trabalho, os primeiros identificados seriam os cartazistas, que pintavam artesanalmente faixas, cartazes e placas, de diferentes tamanhos e formatos, destinados a dar publicidade à programação dos cinemas. Tais materiais eram fixados nas fachadas externas dos edifícios dos cinemas e distribuídos no interior de suas salas de espera.
Para cinemas de bairro, como o Capitólio, essa era uma opção financeiramente mais viável do que a publicação de anúncios nos jornais, muito caros. As despesas cotidianas do cinema, anotadas em cadernos, incluíam a regular compra de materiais utilizados pelos cartazistas para a execução do seu trabalho, como tintas, pinceis, goma e alvaiade. Este último era um pigmento branco, em pó, constituído de carbonato de chumbo, portanto tóxico, que era usado em pintura, na produção de cores claras e na cobertura de cores escuras.
Normalmente, os pintores de cartazes eram jovens solteiros, que permaneciam por pouco tempo na função. A alta rotatividade foi uma característica da profissão, já que os cartazistas costumavam prestar serviços simultaneamente em diferentes espaços, como cinemas, teatros e sociedades carnavalescas, realizando serviços pontuais. Atraído pelas imagens coloridas dispostas na fachada, o transeunte ficava informado sobre a programação e podia acessar a Bilheteria, que costumava ser externa, a fim de adquirir o seu ingresso para a sessão. Como outros cinemas de bairro, o Capitólio caracterizou-se, ao longo da maior parte de sua história, por não ser um cinema lançador de filmes, por oferecer menos horários de sessões do que os cinemas centrais e por proporcionar ingressos com preços mais acessíveis, mesmo quando os programas eram duplos, inclusive de meia-entrada para menores.

Entre os anos de 1930 e 1970, as entradas para o cinema eram seladas. O valor do selo equivalia ao imposto municipal pago pelo exibidor e era uma despesa diária dos cinemas. A colagem dos selos nos ingressos era feita pelos próprios bilheteiros, que também tinham por função a venda das entradas e a elaboração dos borderôs com o movimento da bilheteria. O posto, que exigia pessoas de confiança, podia se tornar um trampolim para cargos de maior responsabilidade dentro do cinema.
De acordo com a documentação disponível, a bilheteria do Capitólio foi ocupada inicialmente por homens. Foi a partir da década de 1950 que as mulheres passaram a ocupar o posto. O aspecto pode indicar mudanças culturais nos padrões de comportamento que orientavam a definição dos espaços e dos postos de trabalho aptos à presença feminina, sobretudo daqueles que envolviam a relação direta com o público.
Embora as cadeiras nos antigos cinemas não fossem numeradas, os ingressos eram, para fins de controle. Após adquiri-lo, o espectador deveria entregá-lo ao porteiro, postado na entrada do cinema, que o depositaria na urna coletora ou o invalidaria. A fim de garantir a lisura da prática, procurava-se colocar nessas funções pessoas de retidão. De sua parte, as companhias distribuidoras, que ficavam com cerca de 40% da arrecadação, tinham os seus próprios fiscais, que se postavam ao lado dos porteiros.

A identificação dos ocupantes da portaria do cinema Capitólio foi dificultada pela ausência de documentos e informações. Por exemplo, no caderno onde foram anotadas as despesas e entradas do cinema em 1944, entre as quais o pagamento dos funcionários, o porteiro, a zeladora e o ajudante de operador não foram nomeados individualmente. Diferente foi o caso de profissionais que ocupavam cargos de maior valorização social e remuneração, como o gerente, o operador cinematográfico e o bilheteiro. Talvez tal apagamento possa ser explicado pela alta rotatividade dos porteiros no período, em que foi observada a contratação de rapazes muito jovens e que restaram pouco tempo no exercício da função.
Outra figura cuja presença foi habitual na recepção dos cinemas foi o gerente, que, juntamente com o porteiro, era aquele que estabelecia laços mais estreitos com a comunidade frequentadora da sala. O gerente integrava a administração do cinema no plano mais cotidiano, anotando manualmente em cadernos avulsos o que depois seria registrado oficialmente nos livros-caixa produzidos pelo contador profissional para a prestação de contas aos órgãos governamentais. A partir dos anos 1950, as demandas relativas à burocracia administrativa interna do cinema, bem como ao departamento de pessoal, ficaram a cargo de uma contadora.
Um terceiro ente da administração do cinema Capitólio durante o seu arrendamento por Romeu Pianca (1938-1967) foi sua própria família. Entre os Pianca, de origem italiana, todos ajudavam nos negócios. Foi assim desde a padaria que antecedeu o seu primeiro cinema, o Ipiranga, e seria assim nos cinemas Capitólio e Vera Cruz, que contaram, em alguma medida, com a colaboração de suas filhas. Dentre elas, destacou-se Malvina, que era a filha mais velha e foi a responsável pela preservação do acervo documental da empresa do pai. Malvina trabalhou desde o início dos anos de 1940 no cinema Vera Cruz (1940-52), onde foi mais presente, mas também no Capitólio. Neste último, ocupou-se da elaboração dos borderôs, conferindo a arrecadação da bilheteria, do preenchimento da folha de pagamento, e, particularmente, das negociações com distribuidores e exibidores.
A zeladoria e a limpeza do Capitólio foram áreas de atuação ocupadas por mulheres, que desempenhavam suas funções nos bastidores, principalmente no horário em que o cinema estava fechado para o público. Em sua maior parte, as zeladoras eram negras, de baixa escolaridade ou mesmo analfabetas e solteiras. Algumas residiram no próprio cinema, inclusive com filhos menores.
Cabe destacar o caso da funcionária que afastou-se do trabalho por motivo de parto, em 1952, entrando em licença-maternidade, com o que a empresa cumpria um direito legal da trabalhadora, incluso no Art. 392 da CLT – Consolidação das Leis do Trabalho, de 1943. Ele garantia à mulher o direito à licença nos 120 dias antes e depois do parto, sem prejuízo do emprego e do salário. Até 1974, o “salário-maternidade” era pago pelo empregador, causando grande discriminação no emprego da mulher, além de ameaçar sua volta ao cargo. A partir de então, ele passou a ser pago pela Previdência Social.

A remuneração das zeladoras, assim como a dos porteiros e auxiliares, era de um salário mínimo, além das horas extras. Com valores regionais fixados no Brasil em 1940, o salário mínimo foi reajustado para Cr$ 800,00 em dezembro de 1951. Outros reajustes nacionais foram incorporados aos ordenados dos funcionários do Capitólio nos anos seguintes, abarcando todas as categorias profissionais.
Outros profissionais cujo trabalho permanecia oculto aos espectadores eram os que atuavam na cabine de projeção: o operador cinematográfico, depois denominado projecionista, o seu ajudante e o carregador de filmes. A necessidade de um operador e seu ajudante na cabine explica-se pelo fato de haver ao menos dois projetores a manejar. Na época da projeção 35mm, os longas-metragens ocupavam vários rolos, que precisavam ser distribuídos pelos projetores e sucedidos rapidamente, a fim de evitar a interrupção da projeção. Também cabia aos operadores montarem e revisarem as películas antes de colocá-las no projetor e exibi-las. Em cinemas de bairro, como o Capitólio, que recebiam os filmes em segunda mão dos cinemas lançadores, muitas vezes gastos e incompletos, esse trabalho era vital.
Os operadores recebiam horas extras pela realização de matinês, matinais, avant-premières e “experiências”, que eram, provavelmente, sessões de filmes restritas à imprensa. Outra função dos operadores paga separadamente ao ordenado era a projeção de slides publicitários, cuja exibição foi prática corrente no início ou intervalo das sessões de cinema por décadas. Havia operadores que se distinguiam por prestarem serviços como eletricistas e na manutenção dos projetores. Os ajudantes de operador sempre estiveram presentes nas cabines de projeção, atuando ao lado dos operadores e auxiliando na revisão e troca de filmes. Eles também os substituíam nas folgas e férias. O cargo costumava ser ocupado por rapazes jovens, que aprendiam o ofício e podiam se tornar futuros operadores. O seu ordenado correspondia a 2/3 do ordenado do operador.
Outro auxiliar dos operadores era o carredor de filmes. O único trabalhador identificado nessa função no cinema Capitólio foi Waldemar Gomes. Admitido em agosto de 1951, aos 33 anos, continuava no cargo em fevereiro de 1959. Waldemar, que era natural de São Gabriel/RS, recebeu apenas horas extras ao longo de quase uma década de trabalho e, assim, não contribuiu para a aposentadoria. Seu ordenado sempre foi o de menor valor: em novembro de 1958, por exemplo, recebia Cr$ 350,00, enquanto funcionários com ordenados fixos, que atuavam na bilheteria, portaria e zeladoria, recebiam o salário mínimo de Cr$ 3.100,00. O ordenado mais alto era o da contadora, seguindo-se, em ordem decrescente, o do gerente e o dos operadores cinematográficos.
Por fim, ao adentrar a sala de projeção e procurar um lugar vazio, o visitante podia contar com o auxílio do fiscal de salão, apelidado como “lanterninha” pelos espectadores cinematográficos em razão do seu principal instrumento de trabalho. Tais profissionais estão presentes nas lembranças dos frequentadores dos cinemas de todas as épocas. Eles tinham originalmente a função de encontrar um lugar vago para os retardatários, que entravam na sessão após o apagar das luzes. Tanto é que, em 1941, no cinema Vera Cruz, as moças empregadas nesta tarefa eram chamadas “indicadoras”. Eles também auxiliavam o público a deixar o cinema após o final da sessão, abrindo as portas para a rua, normalmente laterais e distintas da porta de entrada.

Segundo relatos de memória, o Capitólio contava com dois ou mais lanterninhas por sessão, distribuídos pelos seus diferentes espaços de acomodação: a plateia no térreo, frisas no segundo piso e um balcão no terceiro. Foi comum que o posto fosse ocupado por rapazes. Munidos de lanternas, eles também eram responsáveis por evitar desordens e manter o ambiente da sessão respeitoso e seguro. Contudo, são escassas as informações sobre tais trabalhadores, embora sejam regulares nos livros-caixa diários do cinema as anotações dos gastos com a compra de pilhas e lâmpadas para as lanternas. Essa foi mais uma profissão de caráter iniciático, dentre outras presentes nos cinemas, que não exigia capacitação e experiência prévias e por isso também contava com baixa remuneração.
E, por último, não poderia faltar o baleiro, que aproveitava o intervalo das sessões, sobretudo quando elas eram duplas, para atravessar o corredor central dos salões de projeção com seu tabuleiro, oferecendo balas, chocolates e também amendoim torrado. Embora os menores fossem proibidos por lei (CLT 1943 – Art. 405) de trabalhar nos cinemas, o seu emprego como baleiros, entre outras funções, foi uma infração largamente cometida pelo setor exibidor porto-alegrense, ao menos nos anos 1940 e 50. A consequência da prática é a ausência de uma documentação formal capaz de informar sobre suas identidades. Restam a memória oral e as fotografias, onde os baleiros aparecem acidentalmente, como as principais fontes a documentarem e reafirmarem a presença e atuação dos meninos adolescentes baleiros nos antigos cinemas.
Majoritariamente, os trabalhadores do cinema Capitólio foram egressos do interior do estado, das mais diversas cidades, tendo buscado a capital em busca de melhores oportunidades. Alguns funcionários mantiveram-se vinculados ao cinema por muitos anos, como o cartazista Osvaldo Gomes Carollo, o gerente Djalma Peixoto, a bilheteira Cecília Brito de Oliveira, o porteiro Manoel Pedro Barbosa, a zeladora Maria Joaquina Pacheco e o operador cinematográfico Victorio Polli.
Até onde a documentação administrativa preservada do cinema Capitólio permite observar, a empresa Romeu Pianca cumpriu a legislação trabalhista em vigor (CLT/1943) nos seguintes aspectos: os seus funcionários tiveram ficha de registro de empregados e carteira profissional, receberam e gozaram férias remuneradas anuais e pagaram o imposto sindical. Seus ordenados foram reajustados de acordo com as atualizações do salário mínimo, os trabalhadores fixos contribuíram para a aposentadoria e o empregador pagou o Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Comerciários (IAPC) mensalmente. Outra característica da administração Pianca no Capitólio foi o pagamento de gratificações de Natal aos empregados (em 1950, 1951, 1956 e 1957). Vale lembrar que o 13º Salário ainda não existia. Ele só seria instituído em 1962, no governo do presidente João Goulart.

Alice D. Trusz
Historiadora curadora da exposição “Os trabalhadores do cinema Capitólio”. Com mestrado e doutorado em História na UFRGS, estágio de doutorado-sanduíche na EHESS, em Paris/FR, e pós-doutorado na ECA-USP. Desde 2004, pesquisa a história da exibição cinematográfica no Brasil. É autora de “Entre lanternas mágicas e cinematógrafos: as origens do espetáculo cinematográfico em Porto Alegre (1861-1908)” (Ecofalante, 2010), pesquisa vencedora do Prêmio SAV-Minc 2009, e de “Verdes anos. Memórias de um filme e de uma geração” (PMPA – Editora da Universidade/UFRGS, 2016)

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