45 anos depois de Reagan, o mundo afunda na desigualdade

Reagan e Thatcher. Crédito: reprodução da internet.

Há 45 anos, em 4 de novembro de 1980, Ronald Reagan conquistava a presidência dos Estados Unidos com 51% dos votos e uma vitória avassaladora de 489 delegados contra os 49 de Jimmy Carter. Não foi apenas uma eleição: foi uma ruptura com o consenso pós-guerra e o início de uma era que moldaria o mundo sob o signo do neoliberalismo.

Ao lado de Margaret Thatcher — eleita um ano antes no Reino Unido —, Reagan declarou guerra ao Estado de bem-estar social, que via como obstáculo ao livre mercado. Juntos, atacaram sindicatos, desmontaram regulações e transformaram o neoliberalismo em dogma. Como descreve o economista Thomas Piketty em “O Capital no Século XXI” e “Capital e Ideologia”, essa aliança pariu o “hipercapitalismo”: um sistema em que o capital é premiado, o trabalho punido e a desigualdade naturalizada.

Thatcher, a “Dama de Ferro”, não foi coadjuvante. Inspirou e foi inspirada por Reagan. Enquanto ele cortava impostos e liberava o sistema financeiro nos EUA, ela privatizava Estatais como a British Telecom e enfrentava greves históricas, como a dos mineiros de 1984-1985. Essa sintonia deu origem à chamada “Reagan-Thatcher Revolution”, matriz do Consenso de Washington — formulado em 1989 por economistas como John Williamson, sob tutela do FMI, Banco Mundial e Tesouro dos EUA.

O DNA do hipercapitalismo

O Consenso de Washington transformou-se numa cartilha global. Disciplina fiscal, privatizações, liberalização comercial, abertura de capitais e redução de barreiras eram medidas impostas como condição para empréstimos e renegociações de dívidas. A América Latina foi transformada num laboratório neoliberal. No Brasil, Collor e FHC assimilaram os ideais de Thatcher e Reagan, vendendo estatais como a Vale e a Telebrás. O saldo produziu curtos períodos de estabilidade monetária, mas a um custo social devastador: desemprego, precarização e aumento da desigualdade.

Em 1980, antes de Reagan assumir, a alíquota máxima do imposto de renda nos EUA era de 70%. Em 1988, havia despencado para 28%. Quem ganhava milhões passou a reter quase tudo; quem vivia do salário continuou pagando os mesmos tributos. Um trabalhador com renda anual de US$ 40 mil pagava cerca de US$ 1,2 mil em impostos federais; um executivo com renda de US$ 1 milhão recolhia US$ 260 mil. “Minha secretária paga mais imposto do que eu”, ironizou o bilionário Warren Buffett.

Piketty chama isso de hipercapitalismo: quando o retorno do capital supera o crescimento econômico, e o capital é tributado menos que o trabalho. A perversidade do mecanismo distanciou a renda dos mais ricos do ganho dos mais pobres. Nos EUA, a fatia da riqueza do 1% mais rico passou de 10% para 15% entre 1980 e 1988 e hoje, chega a 29%, — e representa 38% da riqueza global.

Além disso a bondade tributária com os bilionários americanos é, em parte, responsável pela dívida pública dos EUA que saltou de 25% do PIB, antes de Reagan, para mais de 100 %, nos últimos anos. No Reino Unido, Thatcher reduziu o teto dos impostos de 83% para 40%. E o Gini, índice que mede a desigualdade, saltou de 0,25 para 0,35 em uma década. A Dama de Ferro criou 3 milhões de empregos, mas destruiu indústrias inteiras, condenando o Norte inglês à decadência.

A conta chegou

Exportado pelo Consenso de Washington, esse modelo impôs cortes fiscais, desregulamentação e a crença de que “o rico merece mais” — especialmente nos paises do Sul Global. No Brasil dos anos 1990, as privatizações enriqueceram elites e multinacionais, enquanto pobreza e desemprego explodiram. O geógrafo David Harvey, em “Breve História do Neoliberalismo”, e o sociólogo Wolfgang Streeck, em “Tempo Comprado”, descrevem esse processo como uma contraofensiva de classe: Reagan e Thatcher separaram a democracia do capitalismo, tornando os Estados reféns dos mercados. 45 anos após posse de Reagan, os efeitos do Reaganomics são visíveis. Nos EUA, o coração do neoliberalismo, o 1% mais rico detém quase o mesmo dinheiro que os 90% mais pobres. Piketty resume o legado com precisão: “Nada disso foi inevitável. Foi uma escolha — e ainda pode ser desfeita”.

Fonte: Texto publicado originalmente no site do Portal Vermelho.
Link direto: https://vermelho.org.br/2025/10/31/45-anos-depois-de-reagan-o-mundo-afunda-numa-desigualdade-nunca-vista/

Por Davi Molinari

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