Consulado Geral da China no Rio promove diálogo com a imprensa local

Crédito: Mariana Scangarelli/Revista Intertelas.

Nesta terça-feira, 9 de dezembro de 2025, o Consulado Geral da China no Rio de Janeiro convidou veículos de comunicação brasileiros e chineses, entre eles a Revista Intertelas, para um diálogo sobre a governança do país e sua cooperação com o Brasil. Após a abertura de boas-vindas da cônsul-geral da China, Tian Min, e com a condução da responsável pelos Assuntos da Imprensa do Consulado, Liu Yedan, seis apresentações forneceram um panorama sobre a evolução das políticas implementadas em diferentes áreas no período do 14º Plano Quinquenal, assim como os princípios que deram base para a formulação e implementação do Plano. Na mesma linha, os palestrantes forneceram informações de quais diretrizes vão estar presentes no futuro 15º Plano Quinquenal da China. Confira mais detalhes dos principais tópicos expostos pela equipe diplomática chinesa aos jornalistas.

A cônsul-geral da China no Rio, Tian Min. Crédito: Mariana Scangarelli/Revista Intertelas.

Os princípios que permeiam a formulação e implementação dos planos quinquenais da China

Em sua fala, intitulada “As Características Institucionais dos Planos Quinquenais da China”, o cônsul-geral adjunto, Wang Haitao, explicou aos jornalistas presentes que, desde 1953, a formulação científica e a implementação contínuas desses planos constituem uma experiência importante da governança do Partido Comunista da China (PCCh) na busca por novos paradigmas de desenvolvimento sustentável. Segundo ele, três expressões-chaves resumem as principais características institucionais que permeiam a estrutura e a promoção desse sistema. A primeira é a persistência em formular um plano e levá-lo até a sua plena realização.

A modernização chinesa, concebida como uma estratégia centenária, precisa ser implementada de forma gradual por meio de sucessivos planos. Cada plano quinquenal lança uma base sólida para o seguinte. Assim, da 1º ao 5º Plano, a China estabeleceu um sistema industrial e econômica nacional independente; do 6º ao 13° Plano, o país concluiu a construção de uma sociedade moderadamente próspera em todas os aspectos, alcançando a primeira meta centenária do Partido”. Já durante o 14º Plano Quinquenal, conforme o diplomata, as forças econômica, científica, tecnológica da China avançaram para um novo patamar, marcando um passo sólido rumo à segunda meta centenária. “O período do 15º Plano será uma fase crucial para consolidar as bases e impulsionar, de forma abrangente, a realização básica da modernização socialista”.

O cônsul-geral adjunto, Wang Haitao. Crédito: Mariana Scangarelli/Revista Intertelas.

Nas palavras do cônsul, a segunda expressão é que a liderança do PCCh permite concentrar recursos para realizar grandes missões. “A governança pelo partido a longo prazo possibilita evitar problemas típicos dos sistemas multipartidários ocidentais, tais como conflitos internos, políticas míopes e mudanças súbitas de diretrizes. É a liderança centralizada e unificada do Comitê Central do PCCh que, tanto na formulação quanto na execução dos planos quinquenais, consegue mobilizar diversos recursos, reunir forças de todos os níveis e promover a atuação coordenada de toda a sociedade, assegurando assim o êxito no cumprimento das metas estabelecidas”.

A terceira expressão é colocar o povo no centro. De acordo com Wang, essa última refletiu em três dimensões principais: primeiro, na definição dos indicadores, em que dos 20 principais, sete foram diretamente vinculados ao bem-estar da população, como taxa de desemprego urbano, crescimento de renda disponível per capita e a taxa de cobertura de seguro básico de saúde; segundo, em sua concepção política o governo respondeu diretamente às necessidades mais urgentes da população como cuidados com idosos e crianças; terceiro, na implementação das políticas, o plano estabeleceu que mais de 60% dos investimentos do orçamento central seriam destinados à área social para regiões relativamente menos desenvolvidas.

Os benefícios da cooperação sino-brasileira

Segundo o conselheiro comercial e chefe da Seção de Relações Bilaterais, Jing Yanhui, em sua palestra “Benefícios Mútuos e Conquistas Ganha-Ganha da Cooperação Econômica e Comercial China-Brasil”, a economia chinesa tem uma base sólida, forte resiliência e grande potencial. “A China possui a vantagem de um mercado enorme, com uma população de mais de 1,4 bilhão de pessoas e mais de 400 milhões de pessoas na classe média. As importações chinesas de bens e serviços ultrapassarão 15 trilhões de dólares, durante o período do 14º Plano Quinquenal. No período do 15º Plano Quinquenal, o volume de importações da China continuará a apresentar uma tendência de crescimento. O Brasil pode expandir suas exportações de bens e serviços para a China, o que pode criar oportunidades de emprego no país e aumentar a renda da população”.

O conselheiro comercial e chefe da Seção de Relações Bilaterais, Jing Yanhui. Crédito: Mariana Scangarelli/Revista Intertelas.

Com relação as vantagens do país asiático quanto à manufatura, economia digital, energia verde, veículos de nova energia e outras áreas, o diplomata afirmou que no período do 15º Plano Quinquenal, a China expandirá ativamente o investimento bilateral e promoverá a integração do comércio e do investimento. “O Brasil pode aproveitar a oportunidade para atrair investimentos chineses, o que beneficiará o Novo Plano Industrial do Brasil e promoverá a modernização da indústria”.

Ele ainda salientou a cooperação possível entre a “Iniciativa Cinturão e Rota”, uma plataforma para a cooperação internacional, em que 150 países e mais de 30 organizações internacionais assinaram acordos de cooperação com a China, com os planos de integração regional sul-americana do Brasil. “Essa cooperação poderá ser propícia para promover a ‘conectividade física’ da infraestrutura regional e acelerar a construção de ferrovias, portos, usinas de energia e linhas de transmissão, promovendo a ‘conectividade flexível’ de regras e padrões para facilitar projetos e transações”.

Taiwan

Em sua palestra “Como compreender corretamente a questão de Taiwan?”, o cônsul e chefe da Seção de Assuntos Consulares, Qi Ji, relembrou as afirmações feitas pela primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, em uma audiência parlamentar. Para ela, “uma contingência em Taiwan” poderia constituir uma “situação de risco à sobrevivência” do Japão, permitindo ao país exercer o direito de autodefesa coletiva. Segundo Qi, essa é a primeira vez que o Japão manifestou ambições de intervenção militar na questão de Taiwan e emitiu uma ameaça aberta à China com o uso da força. “A China expressa forte insatisfação e firme oposição”, salientou.

O cônsul e chefe da Seção de Assuntos Consulares, Qi Ji. Crédito: Mariana Scangarelli/Revista Intertelas.

O diplomata ainda realizou um resumo histórico sobre Taiwan. “É um território chinês desde os tempos antigos, com história clara e fundamentos legais evidentes. Os governos centrais das diversas dinastias chinesas estabeleceram administrações em Taiwan e exerceram jurisdição sobre a região. Em 1885, o governo da dinastia Qing elevou a ilha à condição de 20ª província da China. Em 1895, devido à derrota na Primeira Guerra Sino-Japonesa, o governo da dinastia Qing foi forçado a ceder Taiwan e as Ilhas de Penghu ao Japão”.

Já durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa, no período de 1943 a 1945, a Declaração do Cairo e a Proclamação de Potsdam estipularam que os territórios chineses usurpados pelo Japão, incluindo Taiwan, fossem devolvidos à China. Em 1945, o Japão assinou o Instrumento de Rendição, no qual prometia cumprir fielmente as obrigações estabelecidas na Proclamação de Potsdam e devolver Taiwan à China incondicionalmente. Em 1949, o governo da República da China foi derrubado e substituído pelo governo da República Popular da China que passou a exerce plenamente a soberania da China e de Taiwan. Assim, a questão de Taiwan é um assunto exclusivamente interno da China”.

O diplomata ainda recordou que, em 1971, a Assembleia Geral da ONU aprovou a Resolução 2758 por maioria, que definiu, nos aspectos político, jurídico e processual, a representação de toda a China, incluindo Taiwan. “Assim cria-se o princípio de ‘Uma Só China’, uma norma fundamental das relações internacionais e um consenso amplamente aceito pela comunidade internacional”. Até o momento, 183 países estabeleceram relações diplomáticas com a República Popular da China e todos apoiam o princípio de “Uma Só China”, incluindo o Brasil.

Qi Ji ainda salientou a história cultural e milenar que faz parte da formação da identidade nacional chinesa: “Ao logo de milênios diferentes grupos étnicos se integraram gradualmente naquelas terras, formando uma forte coesão nacional e um profundo valor cultural baseado na busca e na defesa da unidade”. Segundo ele, todos esses pontos dão base ao alerta do governo da República Popular da China de que não fará concessões sobre a soberania e reunificação do país. “Jamais permitiremos que forças externas obstruam ou prejudiquem o processo de reunificação pacífica da China. E alertamos aos grupos internos de Taiwan que a independência da ilha é um beco sem saída e só levará à autodestruição”.

Crédito: Mariana Scangarelli/Revista Intertelas.

Inovação Científica e Tecnológica

O progresso da China em ciência e tecnologia durante o 14º Plano Quinquenal foi o tema central da apresentação do cônsul, Zhou You. Ele explicou que, com os avanços históricos, um sistema de inovação tornou-se mais completo, a força científico-tecnológica atingiu um novo patamar e uma base foi consolidada para a construção de um país mais forte em ciência e tecnologia. “Em 2024, o investimento total em pesquisa e desenvolvimento, ou P&D, alcançou aproximadamente 511,27 bilhões de dólares, e a intensidade de P&D subiu para 2,69% do PIB. O número total de pesquisadores do país passou a ser o maior do mundo. Os investimentos em pesquisa básica atingiram aproximadamente 35,22 bilhões de dólares, mais de 70% acima de 2020”.

Segundo ele, a China manteve, por cinco anos seguidos, o primeiro lugar em artigos internacionais e patentes globais e o polo de inovação Shenzhen–Hong Kong–Guangzhou tornou-se o número um do mundo. “No índice global de inovação, a China subiu da 14ª posição em 2020 para a 10ª em 2024. A inovação científica e industrial tornou-se mais integrada. As empresas passaram a representar mais de 77% do investimento nacional em P&D”.

O cônsul, Zhou You. Crédito: Mariana Scangarelli/Revista Intertelas.

Assim, vários avanços importantes apareceram rapidamente: a estação espacial Tiangong entrou em operação rotineira; a sonda Chang’e-6 realizou a missão de coleta de amostras no lado oculto da Lua e retorno à Terra; o sistema de navegação BeiDou passou a oferecer serviços globais de posicionamento de alta precisão; a tecnologia móvel 5G alcançou a maior implantação do mundo; a aeronave C919 entrou em operação comercial; e o trem CR450, com velocidade aproximada de 450 km/h, manteve liderança mundial. “A China continua líder mundial em veículos de novas energias; sua capacidade instalada de energia solar e eólica segue em primeiro lugar; a primeira usina nuclear de quarta geração do mundo entrou em operação comercial e a transmissão de ultra-alta tensão permanece em destaque global”.

De acordo com o cônsul, as diretrizes estratégicas de inovação científica e tecnológica no 15º Plano Quinquenal objetivam elevar substancialmente o nível de autossuficiência e autofortalecimento em ciência e tecnologia. “Para alcançar esse objetivo, o Plano estabelece várias metas específicas: aumentar a eficiência do sistema nacional de inovação; integrar melhor educação, ciência-tecnologia e formação de talentos; reforçar a pesquisa básica e a inovação original; avançar rapidamente em tecnologias essenciais de áreas estratégicas; ampliar os setores-Chave em que a China possa acompanhar ou liderar no cenário mundial; aprofundar a integração entre inovação científica e industrial; e fortalecer o papel da inovação como motor do desenvolvimento. De maneira especial, as recomendações ressaltam que a China vai se integrar ainda mais à rede global de inovação. O país passará a liderar e participar ativamente de grandes programas e megaprojetos científicos internacionais, além de ampliar a cooperação em pesquisa, formação de talentos e intercâmbio acadêmico. Hoje, as patentes chinesas com contribuição brasileira cresceram de 237 em 2018 para 2.107 em apenas cinco anos depois”.

Entre as possibilidades de cooperação com o Brasil, o diplomata destacou a áreas da inteligência artificial, com o ritmo de crescimento superior a 20% ao ano da indústria chinesa para o setor, alcançando em 2024 a escala de cerca de 95,9 bilhões de dólares, e o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, sob o lema “IA para o bem de todos”, em linha com as iniciativas chinesas. Entre iniciativas que já estão em andamento está o Programa Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres (CBERS).

Seis satélites foram lançados com sucesso. Os CBERS-04 e CBERS-04A operam de maneira estável, fornecendo dados para agricultura, meio ambiente e planejamento urbano. O CBERS-06, cujo acordo de cooperação já foi assinado, será equipado com Radar de Abertura Sintética e apoiará o monitoramento da Amazônia. A cooperação para o CBERS-05 também já foi iniciada. É um satélite meteorológico em órbita geoestacionária, capaz de fazer observações contínuas de toda a América do Sul”. Na área da astronomia, o telescópio BINGO, promovido em conjunto por China e Brasil, é um importante projeto de cooperação na área da astronomia.

Crédito: Mariana Scangarelli/Revista Intertelas.

Em 2025, a estrutura principal do telescópio, fabricada na China, chegou ao estado da Paraíba, marcando a entrada do projeto em uma fase crucial de instalação. O telescópio será utilizado para estudar a energia escura, a estrutura em grande escala do universo e os rápidos surtos de rádio, ou FRBs (Fast Radio Bursts, em inglês). O projeto favorecerá a cooperação de longo prazo entre pesquisadores dos dois países, a formação conjunta de talentos e o compartilhamento de resultados científicos”.

Transição verde e desenvolvimento socioeconômico

Nas palavras da vice-cônsul, Wang Zhiyi, desde o 18º Congresso Nacional do Partido Comunista da China, o país tem promovido a construção ecológica. “Sob a liderança do presidente Xi Jinping, foi formada uma base teórica e prática sólida para orientar esse processo: o Pensamento de Xi Jinping sobre a Civilização Ecológica. Esse conjunto de ideias responde a três questões fundamentais: por que construir uma civilização ecológica, que tipo queremos construir e como alcançá-la, tornando-se a diretriz fundamental para promover a construção de uma Bela China”.

Conforme ela, no país asiático atualmente se reconhece que a construção de uma civilização ecológica está relacionada ao bem-estar do povo e ao futuro da nação. “No campo da governança ambiental, a China estabeleceu um sistema de políticas com desenho de topo, metas claras e tarefas-chave articuladas. No Plano Integrado de Cinco Esferas, a civilização ecológica é um componente essencial; na diretriz básica de sustentar e desenvolver o socialismo com características chinesas na nova era, é claramente exigido o princípio da convivência harmônica entre o ser humano e a natureza. No novo conceito de desenvolvimento, o ‘verde’ é um elemento central; e, entre as três batalhas decisivas, a prevenção e o controle da poluição constituem uma tarefa crucial”.

Entre os principais objetivos do período do 15º Plano Quinquenal está a posição estratégica da civilização ecológica no conjunto das iniciativas do Partido e do Estado. Segundo a diplomata, nos últimos cinco anos, a China estabeleceu o maior e mais rápido sistema de energias renováveis do mundo, formou a maior e mais completa cadeia industrial de energia limpa do planeta e contribuiu com um quarto do aumento da área verde global. “Olhando para o futuro, a China buscará realizar a maior redução de intensidade de carbono do mundo e completar a transição do pico à neutralidade em tempo historicamente recorde, injetando estabilidade e motivação no processo mundial de governança climática”.

O caminho da China na erradicação da pobreza 

Na última intervenção do evento, a vice-cônsul, Wang Sihan, relatou que, ao longo de mais de 40 anos de reforma e abertura, o governo chinês dedicou-se à redução da pobreza e à garantia do bem-estar da população. “Em 2021, a China declarou que concluiu, conforme o planejado e com sucesso, as metas e tarefas de combate à pobreza na nova era. Com 800.000.000 de pessoas libertas da pobreza, o país atingiu com uma década de antecedência a meta de redução da pobreza da Agenda 2030 das Nações Unidas, respondendo por mais de 70% da redução global da pobreza e oferecendo uma contribuição extraordinária ao desenvolvimento e ao progresso da humanidade”.

A vice-cônsul, Wang Sihan. Crédito: Mariana Scangarelli/Revista Intertelas.

Segundo ela, até o final de 2024, os 832 condados que haviam superado a pobreza desenvolveram indústrias principais com vantagens e características distintas, e com forte capacidade de impulsionar o crescimento local. O número de pessoas que saíram da pobreza e encontraram emprego ultrapassou 33 milhões. Na parceria com o Brasil, ela citou redução da pobreza e revitalização rural como áreas em que ambos os lados promoveram a troca de experiências e estratégias de desenvolvimento por meio de um mecanismo de coordenação de alto nível.

Um projeto de cooperação internacional para a restauração de terras degradadas e a proteção da floresta tropical ajuda as comunidades amazônicas a superar verdadeiramente a pobreza, alcançando um desenvolvimento sustentável. No pequeno município de Apodi, no nordeste do Brasil, há 50 hectares de terra que hoje se tornaram o projeto de demonstração de cooperação em mecanização agrícola China-Brasil, permitindo que a agricultura familiar local se torne mecanizada e pondo fim ao modo de cultivo manual transmitido por gerações. No futuro, a China está disposta, juntamente com o Brasil, a aprofundar ainda mais a troca de experiências e criar mais bens públicos voltados para países em desenvolvimento, beneficiando os seus povos”.

Um comentário em “Consulado Geral da China no Rio promove diálogo com a imprensa local

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  1. Parabéns por este excelente trabalho. China cada vez mais se aproxima do Brasil.

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