China e Superação do Hegemonismo IV

Uma foto tirada por drone mostra a escultura de Confúcio no Parque Sagrado de Nishan, em Qufu, província de Shandong, leste da China, em 21 de maio de 2025. Qufu, o berço do renomado filósofo Confúcio, tem integrado a cultura confucionista ao turismo, apresentando uma variedade de espetáculos artísticos, exposições e atividades de cultura popular, que atraem muitos visitantes todos os anos. Crédito: Xu Suhui/Xinhua.

“Transformar e desenvolver de forma criativa a cultura tradicional”

(“A Governança da China II” Xi Jinping, pag. 385.)

Na distância precisa de tempo para a hora do encontro marcado entre ambos, após nascer Lǎozǐ, surgiu a segunda luz, Confúcio, Kǒngzǐ, 孔子, (551-479 a.e.c.). O lugar escolhido para nascer foi Qufu, 曲阜. Desde a Dinastia Han a posteridade celebra o nascimento de Confúcio no vigésimo sétimo dia do oitavo mês no calendário Chinês (setembro), ao se completar a primeira semana após o Equinócio de Outono no hemisfério norte onde ele viveu. Confúcio nasceu para a colheita outonal. Descobriu na origem da cultura chinesa o que enceleirou para alimentar futuros em contínua melhoria. Ensinou o que aprendeu com o exemplo dos líderes do passado como fonte perene de inspiração para o futuro.

Ainda jovem, à noite, quando dormia, Confúcio com frequência sonhava com o Duque de Zhou, 周公. Lá no Mundo dos Imortais ele aprendia com o Mestre dos Ritos (Leis) o Caminho do correto proceder para que a mutação terrestre evitasse desordem, sobressaltos, e fluísse harmônica como lua refletida em águas tranquilas. Assim o esforço do povo poderia alcançar sua plena efetividade. Confúcio aprendia enquanto sonhava no Mundo dos Imortais, o que almejava praticar e partilhar no espaço-tempo. A harmonia das aparências de lá, inspiraria o caminho da harmonia às aparências de cá.

Aprendia com o Duque de Zhou que leis sábias deviam ser claras e simples. Assim as leis ajudariam a reconhecer o melhor modo de ser, agir, conviver. Aprendia que, para governar, era preciso se esforçar em manter organizadas as atividades, se esforçar em estimular que todos se esforcem em suas tarefas, se esforcem para minimizar desperdício, e assim contribuam para o melhor resultado para todos. O caminho do esforço é ensinado pelo Dao, 道, na seiva das árvores que labuta para subir contra a gravidade até a ponta do galho mais alto, e alimenta a última folha.

Duque de Zhou, folha de álbum, guardada no Museu Nacional do Palácio. Crédito: National Palace Museum.

O Duque de Zhou ensinou que era preciso aprender para fazer, e era preciso fazer para aprender. Sempre em prol de tudo e todos. Confúcio então buscou fazeres nos quais pudesse aprender e se capacitar a ajudar o Governante de Lu, um dos menores reinos da China naquele momento de declínio da Dinastia ZhouAos 30 anos conseguiu os primeiros cargos no governo local.  Encargos simples. Responsável por celeiros de grãos. Responsável pelos currais. Responsável pela biblioteca. Aos 50 anos foi indicado prefeito de uma vila. Um ano depois foi indicado para um cargo de nível médio, Ministro do Crime no pequenino reino interiorano de Lu.

Confúcio propôs reformas que buscavam fortalecer a autoridade centralizada no governo do Duque Lǔ Dìng Gōng魯定公, responsável por Lu frente ao governo de Zhou, e também fortalecer a aliança entre as três famílias poderosas Ji, Meng Shu. O plano incluía a unificação da defesa de Lu, o que implicava demolir muralhas entre as áreas das três famílias. Todos se defenderiam juntos caso fossem atacados. O declínio da autoridade benigna do maior, Zhou, instabilizava o menor, Lu. Rebeliões locais antes de Confúcio assumir o cargo estavam vivas na memória. As reformas geravam dúvidas e insegurança não apenas em membros das influentes famílias. O poderoso reino vizinho de Qin temia o fortalecimento de Lu com a união das três famílias.

Em ciclos de decadência prosperam desuniões. Desconfianças geraram intrigas, que resultaram em rebelião. A reforma fracassou. Demolir muralhas às vezes é mais difícil que as construir. É preciso primeiro dissolver as causas invisíveis das muralhas. Aos cinquenta e cinco anos Confúcio e seus discípulos tiveram de abandonar Lu. Autoexilaram-se por mais de uma década.

 

“O viajante não tem morada fixa, seu lar é a estrada”. (“O Livro das Mutações”, trad. Richard Wilhelm, hexagrama 56, “O Viajante”, 旅,comentário ao Julgamento, pag. 172.)

 

Por onde passavam, Confúcio buscava Governantes a quem pudesse ajudar a cumprir os Ritos (Leis), e serem exemplos de virtude. Açoitados por ventos da tempestade que se aproximava, Governantes não alcançavam a autoridade benigna que Confúcio ensinava. O Mestre ensinava o caminho duradouro, os Governantes buscavam atalhos. Confúcio e discípulos voltavam às estradas. Por onde viajavam coletavam escrituras antigas para preservá-las ao futuro. Muitas vezes passaram fome. Ao ver seus companheiros adoecerem por desnutrição, Zilu, um dos discípulos, exclamou: “Há momentos em que nem a pessoa correta tem saída?” Confúcio respondeu: “Quando a pessoa correta não tem saída, persiste. Quando a pessoa incorreta não tem saída, desrespeita as leis.” (Analectos, 15.1)

Só em 484 a.e.c. puderam retornar à Lu. Confúcio estava mais envelhecido que os sessenta e oito anos cronológicos. Em 483 a.e.c. a vida não seguiu a sequência sucessiva das gerações. Coube ao pai enterrar o filho. Confúcio cumpriu as exéquias do seu filho Kong Li 孔鯉. Em 481 a.e.c. o Mestre teve de cumprir as exéquias do discípulo que mais admirava, Yan Hui, 颜回. Em 480 a.e.c. Confúcio teve de cumprir as exéquias do fiel discípulo Zilu, 仲由, assassinado ao lutar para proteger seu Mestre. Em 479 a.e.c. os discípulos cumpriram as exéquias do Mestre.

No Analectos, em duas passagens, Confúcio reflete sobre sua vida ao contemplá-la já no sol poente. A primeira diz: Muito mesmo envelheci! Já faz tanto tempo que não revejo em sonho o Duque de Zhou”. (7.5 Analectos, pag. 215.) O idoso tinha vívido em si o rosto feliz do rapaz que a cada despertar agradecia ao Céu por lhe conceder estudar com o grande Mestre dos Ritos que o preparava para ajudar um Governante a servir ao povo. O idoso contemplava a luminosa esperança do jovem na carreira para a qual sabia que nascera.

Diante do pôr do sol restavam incumpridos anseios e esperanças. O Duque de Zhou viera então ensinar em vão? O idoso sabia que não lhe faltaram empenho nem perseverança. O que faltou, o Céu guardou consigo no breu insondável.  Como entender o fracasso? A segunda passagem diz: “A Fenix não veio, do rio não saiu o mapa, estou acabado!(9.9 Analectos, pag. 283, Giorgio Sinedino, ed. Unesp). A derradeira tarefa era contemplar impassível sua incapacidade de decifrar o enigma do tríplice fato.

Sua viagem pelo espaço-tempo terminava e a Phoenix, Fenghuang 凤凰, ave Sagrada da boa ventura, não viera abençoá-lo. Na balança dos resultados, o peso de seu incansável esforço e inquebrantável perseverança não prevaleceu. Fatos adversos e recorrentes mantiveram irrealizado o destino que os sonhos com o Duque de Zhou pressagiavam. Não saber por que a ave não pousou e o destinado não se cumpriu, mostrava que não lhe fora revelado o sentido do mapa dos trigramas do Yi, legado por Fuxi. Quem tanto buscou saber para servir, acabou sem saber por que serviu tão pouco.

A energia vital esvaía suavemente. Sua vida findava. A obra para a qual havia nascido não se realizara. Confúcio percebia o desatracar do barco para a grande travessia. Ouvia choro. Sobrevinha o sono. Ele ainda lembrou o que sempre ensinou. “Aquele que caminha na verdade, pensa com devoção, reverencia pessoas dignas, é abençoado pelo Céu, encontra a boa fortuna e tudo lhe é favorável”. (“O Livro das Mutações” trad. Richard Wilhelm, Comentário à linha na sexta posição, hexagrama 14, Grandes Posses, Dà Yǒu, 大有, pag. 68, ed. Pensamento.)

O ar foi e não voltou. Silêncio. A luz que gerava a fantasmagoria das aparências apagou. O sono não foi longo nem curto. Quem dorme ignora espaço e tempo. Enquanto dorme, transcende ambos. Ao despertar, volta primeiro ao espaço. Em seguida, busca a hora, medida do tempo. Olhos ainda cerrados, Confúcio percebeu o retorno da consciência ao ouvir sublime canto de pássaro. Sempre o alegrava ser despertado pelos cantores alados a louvar o dia. A beleza ímpar do que ouvia aguçou a atenção. Não conseguia reconhecer o trinar. Era o mais belo dos cantos.

Conhecia os pássaros que viviam em Lu. Conheceu outros nas províncias que percorreu durante o exílio. “Que pássaro será esse?”. Prolongou o levíssimo êxtase, sem erguer a cortina das pálpebras. Apreciava contemplar tênue claridade sem formas. A música, que ele tanto venerava, soava agora em plenitude. Expressava o inexpressável. Agradeceu a dádiva do filho do meio, trigrama Kan, audição. Para agradecer a dádiva da filha do meio, trigrama Li, visão, suavemente ele abriu os olhos. Percebeu que estava em pé, sem ter se levantado. A claridade era ofuscante, vinha de todas as direções. O canto do pássaro soava acima. Ergueu o olhar e viu a Fênix, Fenghuang! Era ela a cantar e voar em círculos sobre ele!

Em seguida, na luminosidade intensa, Confúcio viu surgir, a sorrir, aquele com quem à noite, quando jovem, ele estudava os Ritos. Surpreso, Confúcio pensou: “Tantas décadas, eu tão idoso e o Duque de Zhou segue idêntico!”. No mesmo instante, em silêncio o Mestre se moveu. Apareceu, suspenso no ar, espelho que estivera oculto atrás do Duque. Confúcio viu diante de si, no espelho, o jovem que estudava com o Duque. O rapaz usava roupas de estilo antiquíssimo e elas estavam novas. Eram semelhantes às que usava o Duque de Zhou. Confúcio se perguntou: “Será esse o meu tempo?”.

Um leve sorrir permanecia imóvel no rosto do Mestre enquanto Confúcio ouvia em si aquela voz inconfundível dizer-lhe: “Sim e não. Aparições seguem mutantes a agir no espaço-tempo depois que o transcendem. Inspirar é agir, tal como agir é inspirar. Era assim quando você estava lá. Segue a ser assim agora que você está aqui. Aqui e lá são aparências mutantes. Só há aparências mutantes. Surgem, duram e desaparecem. Aparências surgem em incontáveis formas, atendem por incontáveis nomes. Para além de nome e forma, são um só aparecer mutante no interior da vacuidade.”

Quando a voz calou em seu interior, Confúcio ouviu ressoar silêncio como ele nunca ouvira. Simultaneamente percebeu que nunca havia visto um olhar tão intenso como aquele, nos olhos do Duque. Suspeitou que havia visto no olhar do Mestre o que o Mestre havia visto no olhar do aprendiz. Em silêncio o Duque de Zhou sorriu e se moveu. Confúcio o acompanhou.

Moviam-se pelo jardim sem tocar a relva. Confúcio percebeu que seu corpo não tinha peso. Chegaram à uma falésia. Visão de grandiosa beleza renovava o êxtase do jovem Confúcio recém-chegado àquele mundo fascinante. Lá embaixo, a unidade de duas dimensões: o microcosmos espaço-temporal. Lembrou quando vivia lá, e diante de imensa planície, imaginava a imensidão do mundo que se estendia além do horizonte. Desperto do longo sono em que havia sonhado o caminho daquela vida, agora que ele descortinava desde o nascimento até a conclusão, ela lhe parecia brevíssima.

O Duque de Zhou começou então a mostrar-lhe o inimaginável. Confúcio descobriu que era ao findar que seu caminho no espaço-tempo começava. O Duque de Zhou mostrou frases ditas por ele no cotidiano, e anotadas pelos discípulos, tornarem-se um livro, Analectos, 論語. Milhares de pessoas o estudavam.

“Antes enquanto você dormia lá no espaço-tempo, aprendia comigo aqui. Agora que você acordou aqui, pode ver o quanto trabalhou enquanto dormia aqui, e inspirava lá multidões que estudavam sua obra. Inclusive seu neto, Zǐsī, 子思. Sem que ele o percebesse, você o ajudava compreender questões difíceis. Depois ajudou também um aluno do seu neto, o jovem MenciusMèngzǐ, 孟子. Desde aqui você pode atuar no espaço-tempo em incontáveis mundos e tempos, tal como sol atua sobre incontáveis vidas sobre a terra. No espaço-tempo sua obra segue em estudos e esforços de muitos povos”.

“Tudo o que vou lhe mostrar, já foi e ainda será. Passado, presente e futuro estão ao seu dispor”.

“Depois você já não precisará de mim, e seguirá a atuar até o ciclo dessas quatro estações celestiais se concluir. Venha ainda ver comigo um pouco mais do que você já fez, faz e fará”.

O Duque de Zhou então mostrou quase trezentos anos após Confúcio partir do espaço-tempo, uma nova Dinastia chamada Hàn, 汉, que adotou oficialmente seus ensinamentos como doutrina do Estado e, com base nos Analectos, montou o sistema educacional e burocrático do Império que a China havia se tornado. O Duque de Zhou mostrou que novecentos anos depois dele desaparecer, as condições estavam maduras para a Dinastia Sui em 605 e.c. criar um sistema de seleção por mérito para aqueles que desejavam dedicar suas vidas a ajudar a governar.

Candidatos precisavam estudar e memorizar o Analectos, e trechos dos textos antigos que ele e seus discípulos haviam recolhido nas estradas durante o exílio. As velharias que só uns poucos buscavam preservar, tornaram-se preciosidades intituladas “Clássicos”, cuja importância cresce quanto mais a antiguidade dista. Os exames eram rigorosos, e disputados por muitos. Poucos eram aprovados em cada um dos níveis. Após cada exame, trabalho e estudo até o próximo exame. Em ciclos recorrentes, trabalho, estudo, exames.

O Duque mostrou que o Analectos nasceu viajante por vocação de origem, nas estradas por onde Confúcio e os discípulos caminharam durante mais de doze anos. As primeiras viagens de seu livro foram por terra, tal como desde a antiguidade remota faziam os andarilhos. Frases, circunstâncias e atitudes seguiram com as narrativas além das fronteiras, ao mesmo tempo em que continuavam a viajar pela China. O povo do qual e para o qual ele nasceu, sempre foi generoso em partilhar o melhor de si com outros povos.

Depois o Analectos enveredou por caminho chamado Rota da Seda para o Oeste. Viajou em companhia de mercadorias que geravam prosperidade para muitos povos. Livro e exemplo das atitudes dos comerciantes chineses chegaram a uma região longínqua chamada Europa. Seus conterrâneos continuavam a visitar outras terras e povos para que próximos e distantes pudessem enriquecer juntos e conviver em amizade.

“Para nós chineses, o nosso país estará bem somente se o mundo estiver bem e vice-versa.” (“A Governança da China II” Xi Jinping, pag. 669.)

 

Em seguida, o Duque de Zhou mostrou que mil e oitocentos anos depois de Confúcio, viagens do Analectos cumpriram ensinamento antigo.“Eles escavaram troncos para construir embarcações e enrijeceram madeiras no fogo para fazer remos. … Eles atingiram regiões distantes de modo a beneficiar o mundo. Provavelmente inspiraram-se para isso no hexagrama Dispersão”. (“O Livro das Mutações” trad. Richard Wilhelm, Comentário ao Julgamento, pag. 253, ed. Pensamento.)”

O Analectos embarcou nas navegações pacíficas empreendidas pela frota do Almirante Zhèng Hé, 郑和, (1371–1433 e.c.) para visitar povos, partilhar conhecimentos e estreitar laços de amizade da China com estrangeiros, mil e quinhentos anos antes de ser fundada em maio de 1954 a Associação do Povo Chinês para Amizade com Países Estrangeiros, CPAFFC. Em seguida, o Duque de Zhou mostrou que o Analectos, quase dois mil e quinhentos anos depois de Confúcio, viajou pelo ar graças ao invento de máquinas voadoras criadas por um brasileiro chamado Alberto Santos Dumont.

Três razões despertaram o interesse de Confúcio pela máquina voadora e seu criador. Primeiro, pois quando jovem ele voava na forma sutil, em sonhos, para aprender com o Duque de Zhou, enquanto Dumont criou máquinas para voar na forma densa que chamam de corpo. Segundo, pois o caminho da vida de Confúcio tinha sido esforço em melhorias práticas para Todos sob o Céu, e Santos Dumont havia criado a máquina voadora para aproximar Todos sob o Céu. Terceiro, pois a matemática, Shù, 數, foi entregue por Fuxi nas raízes primevas da China no código binário do Yie Confúcio estava curioso para ver os belos cálculos que possibilitaram voar na forma densa.

O Duque de Zhou atendeu a curiosidade de Confúcio. Mostrou Santos Dumont ainda criança numa fazenda em terras distantes da China. O menino insistia e argumentava com a mãe, e com outro menino, que se urubus voavam, pessoas também seriam capazes de voar. Todos riam, só o Albertinho estava sério. Só ele sabia que estava certo.

O caminho exigiu estudo, esforço, tentativas, fracassos, riscos fatais e inquebrantável perseverança.  Em 23 de outubro de 1906, aos 33 anos de idade, Santos Dumont foi o primeiro a voar com um artefato mais pesado que o ar. Decolou em terreno plano e com propulsão própria. O fato foi testemunhado pelo povo no campo de Bagatelle, em Paris, e pelos juízes que concederam o prêmio Coup d’Archdeacon, pois todas as cláusulas haviam sido cumpridas. No dia seguinte, ele recebeu um telegrama do amigo de infância. “Você estava certo.”

Voou novamente em 12 de novembro do mesmo ano, quando o fato foi homologado pelo Aeroclube da França. Em 17 de novembro de 1907 voou com o novo modelo Demoiselle. Ele criou máquinas voadoras para aproximar os povos. “Não trabalhei para a glória do meu nome, nem para a riqueza. […] Pus tudo em domínio público. Acho que é meu dever para com a Humanidade”. Santos Dumont trabalhava para Todos sob o Céu por intenção e ação. Doou o dinheiro do prêmio que recebeu aos que trabalharam com ele e aos pobres de Paris. Anos depois horrorizou-se ao ver que usavam para a guerra o invento em que ele arriscara a vida para promover amizade.

O Duque de Zhou mostrou então que o tempo acelerava cada vez mais. Para a forma seguinte do Analectos ser transportado bastaram décadas, e não séculos ou milênios. Aprendizes de Humanidade criaram meios visíveis capazes de gerar aparições visíveis do que foi transportado invisivelmente, na velocidade de piscar d’olhos, independente da distância física e do número de destinatários. Na delicadeza de um toque se podia enviar o Analectos simultaneamente ao vizinho do outro lado da rua e à multidões do outro lado do planeta.

Para criar essa dimensão de transporte de imagens foi preciso recorrer à origem da cultura chinesa, mencionada ao início do primeiro artigo dessa série. Foi o código binário do Yi que possibilitou à Leibnitz encontrar a solução matemática graças a qual algoritmos enviam o Analectos cumprindo a linha na segunda posição do hexagrama 11, Paz, Tài, : “Não negligenciar o longínquo, não privilegiar o próximo.” (“O Livro das Mutações” trad. Richard Wilhelm, pag. 59, ed. Pensamento.)

O Duque de Zhou mostrou Institutos Confúcio em mais de cento e sessenta países. Mostrou também que seus descendentes jamais deixaram de o reverenciar. Desde então a família segue a registrar novos descendentes já perto de completar 100 gerações. O ponto de partida rumo à celebração da ducentésima geração dos descendentes de Confúcio é muito diferente do que se passou em Lu quando o filho de Confúcio, Kong Li, 孔鯉, registrou o filho com o nome de Kong Ji, 孔伋.

O pai morreu sem ver o filho adulto. O avô morreu sem imaginar que seu neto Kong Ji, 孔伋, seria reconhecido ao longo de milênios como Zǐsī, 子思, um  dos principais precursores no caminho de sabedoria fundado pelo avô que completou sua vida no espaço-tempo como um desconhecido aos olhos dos poderosos de então. O grande historiador, Sima Qian, catalogou 35 discípulos, e encontrou referências vagas sobre possíveis 52 outros.

Os atuais descendentes começam a preparar o legado da memória para as próximas gerações com a bagagem de experiência de cem gerações contínuas como exemplo. Se os primeiros descendentes tivessem estabelecido a meta que exigia 2.500 anos, talvez vissem diante de si pasmos silentes e risos incrédulos. Para os atuais descendentes basta prosseguir.

Os antepassados demonstraram que basta cada geração seguir a estudar sua origem e se esforçar para viver em harmonia com o exemplo do fundador. Hoje todos os povos registram seus filhos. O Yijing, origem da cultura chinesa, no texto do Julgamento Tuàn Cí, 彖辞, do hexagrama 32 do Yijing, Duração, Héng, 恆, ensina: “Duração. Sucesso. Nenhuma culpa. A perseverança é favorável. É aconselhável ter aonde ir”. (“O Livro das Mutações” trad. Richard Wilhelm, Comentário ao Julgamento, pag. 111, ed. Pensamento.)

Meu caro leitor, o Duque de Zhou não parou no tempo em que estamos. Mostrou adiante o que ainda ignoramos. Para explorar futuros é preciso revisitar a origem. Nela mora o segredo da criação. O futuro é pleno de possibilidades. Cada geração é responsável pelas escolhas que faz no presente, pois delas se desdobram efeitos para as gerações vindouras. A história é a conselheira do melhor intento para o presente. Ensina nos erros o que evitar. Ensina nos acertos o que aprimorar.

“Nunca devemos nos esquecer de nossa história, pois só assim poderemos abrir o futuro”. (“A Governança da China II.” Xi Jinping, pag. 385.)

Cada povo tem sua história. A afirmação do presidente Xi Jinping é válida para todos. Nenhum povo deve esquecer sua história. Cada povo pode e deve aprender também com a história de outros povos. Cada povo pode enriquecer a compreensão de sua própria história com o que aprende com a alheia. Basta nos libertarmos da desrespeitosa pretensão de superioridade que a cultura de hegemonismo promoveu em desonroso proveito próprio. Todos que estudamos a cultura tradicional chinesa podemos seguir tal como viemos, a colher flores que Confúcio semeou para vivermos.

“Compro arroz para comer. Compro flores para viver”. Confúcio

Gustavo A.C. Pinto

Formado em Filosofia pela PUC-RJ e tradutor do “I Ching”. É autor dos livros “Relâmpagos”, “Gotas de Orvalho”, “Rito da Montanha Sagrada” e “Astrologia e Budismo”

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