Mostra inédita de Sarah Maldoror celebra o legado anticolonial e a estética revolucionária da cineasta franco-guadalupense

Crédito: BJ. Nikolaisen.

Uma mostra inédita dedicada à Sarah Maldoror, considerada uma das primeiras cineastas negras a filmar na África, acontece no Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo (CCBB SP), até 22 de março.  Com entrada gratuita, a retrospectiva traz curtas e longas-metragens, que destacam o papel da cineasta franco-guadalupense na história dos cinemas negros e de mulheres. Nascida na França, filha de pai guadalupense, Sarah Maldoror (1929-2020) foi uma figura central do cinema anticolonial. A cineasta construiu uma filmografia de mais de quarenta títulos que documentam e ficcionalizam as frentes de libertação em Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde, além de tratarem de temas como a imigração, o engajamento político e o pensamento decolonial.

Sua estética diferencia-se por fundir o rigor político à sensibilidade poética, deslocando o olhar para a subjetividade humana e, fundamentalmente, para o protagonismo feminino nas insurgências africanas. Com curadoria conjunta de Lúcia Monteiro, Izabel de Fátima Cruz Melo e Letícia Santinon, a retrospectiva “O Cinema anticolonial de Sarah Maldoror” no CCBB SP pode ser considerada uma das mais completas já realizadas sobre a cineasta no país. Sua programação conta com 34 obras, sendo 19 dirigidas por Sarah Maldoror e outras 15 assinadas por diferentes realizadores.

Faz dez anos que planejamos uma retrospectiva da obra de Sarah Maldoror em São Paulo. Os filmes dela falam da luta contra o colonialismo, o racismo, o preconceito. Ela se interessou pelos imigrantes na França e por intelectuais precursores do pensamento decolonial, como Aimé Césaire e Léopold Senghor. São discussões extremamente necessárias em nosso contexto atual“, diz Lúcia Monteiro, uma das curadoras.

“Sambizanga”, Sarah Maldoror, 1972, 97 minutos, Angola, França. Classificação: 14 anos. Crédito: Divulgação.

Esta mostra faz parte de uma movimentação mais ampla, que nos últimos anos tem reposicionado a figura e a produção de Sarah Maldoror na história do cinema. Por isso, acreditamos que iniciativas como essa colaboram tanto para o conhecimento do público em geral, quanto para o aprofundamento e reflexão dos críticos e pesquisadores“, assinala Izabel de Fátima Cruz Melo, também curadora.

A programação ainda traz filmes em que Maldoror trabalhou como assistente, como o célebre “A Batalha de Argel” (1966), de Gillo Pontecorvo, e o documentário “Elas”, do argelino Ahmed Lallem, que ganha sua primeira exibição na cidade. Haverá também exibições de documentários de Chris Marker, como “Sem sol” (1982) e o episódio 7 da série “A herança da coruja” (1989), que contêm imagens filmadas por Maldoror. A retrospectiva “O Cinema anticolonial de Sarah Maldoror” propõe alguns paralelos entre o cinema de Maldoror e a obra de cineastas negras da América Latina.

Sarah Maldoror. Crédito: C.Lipinksa.

Nesse sentido, a cineasta baiana Safira Moreira dirigirá a leitura dramática do roteiro de “As garotinhas e a morte”, um dos mais de quarenta projetos inacabados de Sarah Maldoror. De Safira Moreira, a mostra exibirá seu primeiro longa-metragem, “Cais”, que estreou na última edição da Mostra Internacional de Cinema, e quatro de seus curtas-metragens. Para completar, o evento também promove os cursos “Memória e ancestralidade” com a cineasta, roteirista, poeta e produtora, Lilian Santiago, e com a crítica, curadora e professora Lúcia Monteiro; e “Restaurar arquivos em vídeo da televisão” com Nathanaël Arnould, que conduziu a restauração da obra televisiva de Maldoror no Instituto Nacional do Audiovisual da França, e os professores Eduardo Morettin (USP) e Daniela Siqueira (UFMS).

Com patrocínio do Banco do Brasil, “O Cinema anticolonial de Sarah Maldoror” é uma produção da Vasto Mundo, com a idealização de Lúcia Monteiro, coordenação geral e produção executiva de Leticia Santinon. A programação está disponível em bb.com.br/cultura. A mostra acontece também no CCBB Rio de Janeiro, até 16 de março, e em Salvador, de 5 a 24 de março.

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