
Após quatro anos desde a sua primeira entrevista à Revista Intertelas, a carreira e vida do artista visual, Hélio Vianna, passou por transformações profundas, encontrando momentos desafiadores e conquistas criativas notáveis. Mestre em artes visuais pela FAD/UNAM (México), foi também bolsista da Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Após um período considerável no México, ele retorna ao Rio, sua casa, local de nascimento, de lembranças ternas e provações que ele superou através de seu talento artístico. Toda essa trajetória pode ser contemplada em sua primeira exposição individual, intitulada “(IN) CONSCIENTE”, que está disponível ao público até dia 30 de junho, no Fórum do Campo Lacaniano do Rio de Janeiro (Rua Martins Ferreira, 12, Botafogo), de segunda à sexta feira, das 10h às 17h.
O trabalho de Vianna, como descreve o curador de sua exposição, Antonio Quinet, insere-se na arte contemporânea utilizando múltiplas mídias e linguagens, incluindo pintura, fotografia, performance, arte digital, vídeo e meios híbridos. Os temas que atualmente inspiram sua produção artística estão vinculados a debates que há décadas estão presentes na evolução histórica humana, mas que atualmente encontram uma liberdade de discussão e uma atenção maior em diversos cantos do mundo. São eles: preservação de línguas e culturas; diversidade sexual e de gênero; política internacional; e a arte e o inconsciente.
Como afirmado em postagens anteriores das redes sociais do Fórum, a exposição “(IN) CONSCIENTE” celebra um longo percurso de diálogo entre arte, psicanálise e política, incluindo pinturas, gravuras e arte digital. Em especial, durante a noite de abertura, ocorrida na sexta-feira do dia 10 de abril de 2026, o público que compareceu em peso ao Fórum pode apreciar tais obras, além de assistir a uma roda de conversa entre o artista e os psicanalistas Paulo Próspero, Mauricio Loures e Antonio Quinet. Muito é possível abordar sobre a obra de Hélio Vianna. E durante esta publicação da Intertelas, o leitor poderá ter um primeiro contato do que lhe espera, através das fotos feitas por Mariana Scangarelli Brites e dos trechos da explanação do curador Quinet, que você pode conferir a seguir.
A série Soft Power

“…se refere ao poder brando de um país ou região, que é a potência desse lugar de influenciar outros através da atração e sedução em vez da coerção militar ou econômica (hard power).
Nessa série, Hélio Vianna trabalha a geografia do inconsciente estruturado como uma linguagem, pintando mapas de regiões estruturadas pelas próprias palavras (escritas, faladas, captadas).
E assim mapeia a cultura daquele lugar tecendo uma rede de significantes mestres que pulsa da terra para o quadro pelas mãos do artista. A obra de Hélio demonstra que o Inconsciente é a política, no caso a política do poder suave”, – Antonio Quinet.
“Hélio tem método: ele trabalha com a sobreposição e a justaposição das palavras para fazer aparecer as diversas camadas de linguagem que vão do inconsciente ao consciente e retorno.
Ao utilizar na tela a sobreposição de palavras por meio da técnica da veladura, o artista nos mostra a própria metáfora de Freud do bloco mágico (uma lousa com uma película transparente sobre a qual se escreve algo e ao suspendê-la o texto desaparece mas deixa marcas ilegíveis na lousa).
Ela é utilizada para mostrar que por trás do que se diz, estão as marcas do inconsciente. A obra de Hélio desvela a simultaneidade do consciente e do inconsciente, sempre presente mais ou menos velado“, – Antonio Quinet.
“A produção de cada obra dessa série é complexa pois o artista não só estuda a língua de cada país ou região como também sua literatura, filmografia e músicas e além disso entrevista diversos nativos de cada região. Desse caldeirão de dados vem a tinta na qual o artista se banha para daí depositar na tela a escrita-pintura que seu (in)consciente determina.
Assim, Hélio faz a mostração do Inconsciente como discurso do Outro, que reúne palavras, injunções, piadas, bordões, gírias, dizeres que nos são transmitidos por todos aqueles (mãe, pai, parentes, etc) que ocuparam o lugar da alteridade para um sujeito e que estão presentes na cultura fazendo com que o conteúdo de nosso inconsciente esteja sempre em movimento incorporando os significantes da atualidade conectando-os com os mais originários“, – Antonio Quinet.
“Isso não significa que o inconsciente seja coletivo, pois ele se singulariza em cada um segundo a maneira como cada qual se apropria. Cada quadro de Hélio Vianna é uma formação do (in)consciente. E isso serve para cada espectador que se deixará captar pelas palavras que mais o concerne.
Encontramos uma palavra que melhor define seu procedimento artístico: trata-se de ‘pentimento’, que vem do italiano e se refere a uma pintura onde houve um arrependimento e o artista pinta algo por cima daquilo que foi pintado. Em alguns quadros como em Velásquez e Tiziano, os pentimentos são visíveis. No caso de Hélio trata-se de ‘pentimento voluntário‘”, – Antonio Quinet.
A série Hambre de Piel (Fome de Pele)

“…parte de fotos de sexo explícito gay que circularam na clandestinidade da deepweb. Essa série, segundo o curador e galerista, Armando Martínez, da galeria Artspace México, é parte da ‘Arte Pós-pornô’, movimento de arte que emergiu nos anos 1980 reivindicando uma atitude positiva em relação ao sexo, celebrando-o como ferramenta emancipatória.
Nas gravuras de ‘Hambre de piel’ não vemos a cena sexual de onde partiu a obra mas há algo dela que é transmitido para as cores, pixels, listras, linhas geométricas e sombras, fazendo a obra pulsar e explodir as formas. Mas Hélio não abandona a importância das palavras, mesmo que estas não estejam pintadas.
Elas se encontram nos títulos das obras como um projetor que se acende para conduzir a imaginação do espectador. ‘Hambre de piel: Motel’; ‘Hambre de piel: esposas’, sendo que esposas em espanhol significa tanto esposas, como em português, quanto algemas“, – Antonio Quinet.
“O espectador pode imaginar o que quiser, projetar suas fotos, imagens e vídeos pornôs sonhados na calada da noite e assim o quadro se torna a tela da fantasia, da fantasia escusa, abscôndida, velada. A gravura se revela então, com sua mensagem implícita, o oposto da imagem sexual explícita da pornografia… Vemos, portanto na obra de Hélio Vianna a mostração do Inconsciente em suas variadas versões: O inconsciente artista, político, linguageiro, escriba, safado, satírico, chistoso, pulsional e sublimado“, – Antonio Quinet.

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