
Globalmente, conforme cada contexto cultural, as mulheres são descritas como criaturas únicas, deusas capazes de criar a vida. Porém, ao mesmo tempo, são, muitas vezes, alvo de atrocidades cometidas dentro do seio familiar, ou por pessoas próximas e que deveriam amá-las e respeitá-las. Trata-se de uma contrariedade gigantesca, mas comum, como todas as características da humanidade que, apesar de milênios de existência, continua a repetir os mesmos erros, a ter os mesmos problemas.
Chegamos no século XXI e, talvez, uma das características importantes desse período histórico seja a insistência de continuar o debate e a luta contra a violência que a sociedade ainda continua a inflingir às mulheres. “A Versão da Lei”, filme dirigido por Ninna Fachinello e que será apresentado na seção First Look do VDF Showcase do Brasil, dentro do Marché du Film, no Festival de Cannes, um dos maiores mercados de cinema do mundo, no dia 18 de maio, traz nuances e questões importantes para a discussão sobre o tema na sociedade brasileira e global.

Segundo informado pela assessoria da produção, a obra foi filmada no Rio, e aborda o sistema judicial brasileiro a partir da violência de gênero, apontando falhas e caminhos na proteção às mulheres. O tema dialoga com um cenário crítico: o país e o mundo registram os maiores índices de feminicídio, inclusive com casos de vítimas sob medida protetiva. Ainda conforme divulgado à imprensa, a trama acompanha Sol, advogada negra e lésbica vivida por Tati Vilella, que atua na defesa de mulheres em situação de violência, enquanto lida com os impactos emocionais desses casos.
O elenco inclui ainda a atriz Karen Julia, que interpreta Camila, uma das vítimas de feminicídio, Vitória Rodrigues, Aliny Ulbricht, Mariana Xavier, indicada ao Emmy Internacional 2025, além de Cacau Protásio, que faz uma participação especial como juíza, revelando uma faceta dramática pouco explorada pela atriz, conhecida do grande público por seus papéis na comédia. Completam o elenco Digão Ribeiro e o ator português Pedro Carvalho.

A produção é da ColetivA DELAS e, atualmente, o filme encontra-se em fase final de pós-produção em parceria com O2 Filmes e Nkanda 360. De acordo com a assessoria da obra, trata-se de uma produção que chega ao mercado internacional reforçando o alcance de produções independentes viabilizadas por recursos públicos e ampliando a visibilidade de narrativas femininas e socialmente relevantes no cenário global. A Intertelas teve a oportunidade de enviar algumas perguntas à diretora Ninna Fachinello.
O que o leitor irá ler a seguir é uma síntese da triste realidade dos tempos atuais; o que faz necessário que projetos como esse tenham divulgação ampla, para que as gerações futuras possam ter a chance de tornarem-se humanos melhores. Ao menos é o que se almeja. Confira abaixo.

Como você analisa a luta brasileira contra a violência doméstica e o feminicidio ao longo dos anos e atualmente? Como seu filme retrata este contexto?
Eu analiso com tristeza; apesar de termos várias campanhas em torno disso, os números são alarmantes e cada vez mais crescentes. Acredito que o filme vem como um alerta e também como uma explicação para as mulheres sobre o que são seus direitos e o que constitui a violência, porque muitas situações ainda ficam em uma “área cinzenta”. Espero muito que o filme tenha um alcance grande, principalmente no Brasil, e que reflita em políticas públicas. É apenas através delas que conseguiremos diminuir e, quem sabe, realizar meu grande sonho de erradicar o feminicídio, que hoje já atingiu números de uma epidemia.
Na sua opinião, o que impede o país de avançar nestas questões? Como o seu filme retrata esta situação?
Acredito que o que impede o avanço é a falta de leis mais duras na criminalização e condenação de homens que praticam crimes machistas. Assim como temos para o racismo, deveríamos ter uma lei que torne o machismo crime. Não podemos ter influenciadores de movimentos como “redpill” propagando violência sem controle na internet; isso precisa de regulamentação.
No filme, trazemos esse ponto de vista através da advogada Sol, que atua no Direito de Família cuidando de mulheres que sofrem violência doméstica. Todos os casos do filme são inspirados em fatos reais e buscamos retratá-los de forma feminina, sem violência escrachada, focando na informação: o que é a violência e quais recursos — como a Lei Maria da Penha e medidas protetivas — temos para proteger essas mulheres, embora ainda sejam insuficientes diante do tamanho do problema.

Como você avalia o impacto que seu filme poderá ter no combate a estas questões? Que papel as produções audiovisuais em geral podem ter no combate a estes problemas?
Acredito que o impacto pode ser gigante. Dependerá da nossa distribuição, mas estou confiante em fechar boas parcerias para levar o maior número possível de mulheres ao cinema. O papel do audiovisual aqui é fazer com que todas nós, juntas, possamos pensar em possibilidades para que essa situação seja revertida e para que tenhamos leis que nos protejam cada dia mais.

Diversos casos de assédio que ocorreram dentro da própria indústria audiovisual vieram a público nos últimos anos. Como você percebe o combate a estas formas de violência dentro da indústria?
Percebo uma movimentação muito lenta e muitas vezes “polida” apenas para quando é conveniente; não vejo uma mudança real nos sets de filmagem. Essa é uma das minhas maiores lutas. No meu trabalho, busco priorizar equipes o mais femininas possível, com diversidade e respeito. Fazemos reuniões para cuidar do humano, reduzindo a carga horária e respeitando a vida pessoal, especialmente das mulheres, que são as mais sobrecarregadas, recebem menos e dificilmente ocupam cargos de chefia em grandes produções. É raro ver mulheres nessas cadeiras quando falamos de grandes orçamentos.
A indústria audiovisual ainda é bastante desigual. A grande maioria de seus realizadores são homens brancos e provenientes de famílias de renda média ou alta. Isso certamente reflete no tipo de histórias que são produzidas no Brasil. Na sua opinião, o que é preciso fazer para mudar esta situação e a indústria brasileira refletir a diversidade social do país?
Políticas públicas fazem toda a diferença. Tivemos uma ponta de esperança com editais para estreantes, como o Edital Ruth de Souza, que permitiu a realização deste filme. Eu jamais conseguiria acessar esses recursos via iniciativa privada, que foca em empresas já consolidadas. Hoje, estou inclusive prospectando parceiros no mercado de Cannes, algo que só foi possível graças a esse incentivo. Esse tipo de política é o que realmente altera o cenário e traz diversidade para o audiovisual brasileiro.

Se possível, fale um pouco sobre a formulação de seus personagens e a importância deles para o enredo.
A protagonista é a Sol, uma advogada à beira de um burnout pelo peso do trabalho. Acompanhamos um período profissional difícil em contraste com sua vida pessoal, já que ela está casada e espera uma filha. Sua esposa, Fabiana, é uma personagem potente que traz cuidado e aconchego, mas também cobranças e diálogos necessários; elas formam um casal muito bonito. Temos também a Camila, vítima de violência doméstica. Através dela, mostramos como é difícil para a mulher que vive a violência enxergar a situação, e o desafio de quem tenta acolhê-la. São personagens complexas e potentes que estou ansiosa para mostrar ao mundo.
O desenvolvimento da história parece retratar os problemas da lei e do sistema judiciário no combate à violência contra a mulher. Poderia comentar mais sobre esse ponto em específico? O que a levou a incluir esta questão na história?
Incluímos isso porque, por vezes, a justiça é utilizada como ferramenta de violência contra a mulher. Um exemplo é o uso da Lei de Alienação Parental por genitores para atacar mães, sobrecarregando-as com processos, gastos e desgaste emocional, muitas vezes sem priorizar a proteção da criança. O judiciário precisa rever essas questões. O intuito de trazer isso para a história é dar visibilidade a temas que precisam ser conversados para que possamos, de fato, proteger nossas mulheres e crianças.
Confira o teaser sem som de “A Versão da Lei”

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