China e Superação do Hegemonismo VII 

Soldados japoneses golpeiam um prisioneiro com baionetas. Crédito: Museu Memorial da Resistência Popular de Nanquim contra a Guerra de Agressão Japonesa.

“A China manterá a promessa de nunca buscar a hegemonia, nem agora nem no futuro.” (“A Governança da China I”, Xi Jinping, pag. 541)

No século IV a.e.c. a Dinastia Zhou já se movia sonambúlica. A cortina dos olhos já havia baixado. Encobria o que antes faiscava. No palco, a cena trágica da ferocidade desumana das guerras fratricidas. Às cegas, Zhou caminhava com precisão rumo à pequenina escadaria lateral. Por ali desceria lenta e inexoravelmente rumo à plateia. O último ato já estava em curso. A longa peça de sua própria história findaria rápido.

Os reis de Zhou já não eram reconhecidos como exemplo virtuoso e esforçado, como no tempo do Rei Wen e o Duque de Zhou. Já não luziam aqueles que no passado atraiam e uniam, que antes sabiam ouvir, sabiam identificar objetivos que atendiam necessidades e anseios de todos. Já não brilhava a luz que identificava habilidades e capacidades para realizar os objetivos comunitários. Reis ausentes já não emanavam o calor oloroso que estimulava cada um e todos. “Indivíduo ou comunidade, se não completa o quadrilátero das direções, não descobre em si o centro, não sabe aonde ir, nem aonde chegará.” (“CSH II)

Desunidos pela ausência do centro que antes integrava as partes, reinos lutavam uns contra outros. Cada um percebia ameaça em algum outro. O povo sofria. Perdida a unidade, a multiplicidade vagava sem o rumo que destina tudo e todos. Povo dividido, povo empobrecido. Divisão gera mais divisão e crescente pobreza. Reinos insones não podiam sonhar. Sobreviviam ameaçados por discórdias e disputas internas e externas. Tudo começa no interior, ensinam os trigramas básicos do Zhou Yi.

Crédito: https://www.historyfiles.co.uk/

No caos do século IV a.e.c. competentes pensadores traziam propostas para entender as causas, corrigir os erros, e construir melhorias num tempo em que tudo piorava. A posteridade chamou-os de “Cem Escolas” 诸子百家. Para respeitar limites, escolhemos três luminares.

Começaremos com Shāng Yāng, 商鞅, (c. 390 – 338 a.e.c.), expoente do Legalismo, Fǎ Jiā, 法家. Ainda jovem estudou Direito e conseguiu uma posição oficial no estado de Wei, 魏, como atendente do Ministro Gōngshū Cuò, 公叔痤. Após a morte do Ministro, em torno de 361 a.e.c. Shāng Yāng viajou ao reino de Qin, 秦, em resposta ao Édito de Recrutamento de Talentos emitido pelo Duque Qín Xiào Gōng, 秦孝公, (381–338 a.e.c.).

Falhou na primeira entrevista quando propôs o Caminho do Imperador. Falhou na segunda entrevista quando propôs o Caminho do Rei. Não chegou a acertar na terceira entrevista quando propôs o Caminho do Hegemon. Ao perceber que não havia falhado na terceira entrevista, descobriu como acertar na quarta. Propôs estratégias específicas para fortalecer e enriquecer o Reino de Qin. Conversaram dias sem cansar. O Duque Qín Xiào Gōng havia encontrado aquele que o ajudaria a realizar suas ambiciosas metas.

Hegemon não tem sonhos, tem ambições. O seu próprio poder e dos utilitários que ele chama de aliados, são sua única finalidade. Tirano não tem sonhos, tem desejos insaciáveis. Ele próprio é sua única finalidade. Só a liderança Benigna tem sonhos. Sonhos vêm do Céu e visam tudo e todos na Terra. Shāng Yāng propôs Três Reformas radicais que visavam enriquecer e fortalecer Qin para expandir o reino. Reforma Político-Administrativa, Reforma Econômica-Social, Reforma Legal-Militar.

Reforma Político-Administrativa visava 5 mudanças. 1- Extinguir Privilégios Aristocráticos. Abolir títulos e privilégios nobiliárquicos para criar uma elite baseada no mérito militar. 2- Meritocracia. Soldados receberiam terra e títulos como recompensa pelo número de inimigos mortos/decapitados. 3- Sistema de Prefeituras (Junxian). Prefeitos indicados pelo governo central ao qual reportavam. 4- Registro Familiar. Incentivo ao casamento e desestímulo à concentração multigeracional. 5- Padronização. Padronizar pesos e medidas, moeda e escrita, para facilitar comércio e administração.

Reforma Econômica-Social visava 4 mudanças. 1- Reforma Agrária. Mais de um milênio antes da Europa, Shāng Yāng rompia com o feudalismo ao permitir propriedade privada de terras com direito de compra e venda, para estimular a agricultura familiar. 2- Incentivos à Agricultura. Remuneração por largas colheitas, e penalidades por improdutividade. 3- Migrantes. Estímulos para atrair migrantes de outros reinos e aumentar a disponibilidade de mão de obra. 4- Estímulo à família nuclear. Taxação duplicada para famílias com mais de um homem adulto.

Crédito: Wikipedia.

Reforma Legal-Militar visava 3 mudanças. 1- Governo pela Lei (Legalismo). Supremacia da lei. Sistema de Mútua Responsabilidade, 连坐法: Punições iguais com extrema severidade para todos, inclusive nobres, incluindo os elos na cadeia de vínculos familiares e pessoais. 2- Agricultura e Guerra. Leis de obrigatoriedade de trabalho agrícola e militar, com desestímulo à outras atividades, inclusive comércio. 3- Fortes Incentivos Militares. Criação de 20 níveis de nobreza por realizações militares, e recompensas por morte de inimigos/decapitação.

Shāng Yāng aprendeu com os dois erros nas entrevistas iniciais que o Duque Qín Xiào Gōng não estava interessado no Caminho do Imperador, Di Dào, 地道, governar para manter a união de Todos sob o Céu, nem do Rei, Wáng Dào, 王道, governar por virtude, com benevolência e exemplo moral, nem do Hegemon, Bà Dào, 霸道, governar com poder através de leis rigorosas para manter domínio interno e de força militar para conquistar e ampliar domínio externo. O Duque Qín Xiào Gōng buscava quem lhe trouxesse providências eficazes para o reino enriquecer, fortalecer e crescer rápido. Shāng Yāng desenhou Reformas para responder à ambição imediatista do contratante.

Quando contratante e contratado nasceram, os reinos já estavam em guerra. Quando se encontraram, as guerras já duravam cem anos. O Duque Qín Xiào Gōng tinha pressa. Não buscava a benignidade que funda o duradouro. Shāng Yāng desenhou e executou seu modelo de Reformas sem avaliar as consequências da ausência do que funda o duradouro. Ao criar 20 níveis de nobreza para premiar o maior número de cabeças decepadas, não avaliou as consequências na futura Batalha de Maling, 馬陵之戰, 342 a.e.c., em que os combatentes de Qin dizimaram 21.000 combatentes de Wei. A meta do comandante era vencer a batalha, a meta de cada soldado era cortar o maior número de cabeças.

Shāng Yāng nem podia imaginar que milênios mais tarde ainda iria inspirar Aprendizes de Desumanidade estrangeiros a massacrar chineses. Para aclarar a frase anterior, vamos interromper a narrativa sobre vida e obra de Shāng Yāng. Um longo percurso será necessário até podermos retornar ao ponto em que estamos, quando então veremos como Shāng Yāng implementou as Reformas e concluiu sua vida.

Agora acompanhemos Shāng Yāng quatro anos depois da vitória na batalha de Maling. O que ele vai descobrir ao chegar no submundo, Dìyù, 地狱, em 338 a.e.c. esclarecerá a frase enigmática que estabeleceu uma conexão entre Shāng Yāng e estrangeiros que massacraram chineses num futuro distante para ele, e relativamente próximo para nós.

Na escuridão do submundo Dìyù, a aparição chamada Shāng Yāng, após contemplar seu passado, viu a obra de alunos que estudaram a sua obra. Diante dele estava Nanjing, na manhã de 13 de dezembro de 1937. Após duros combates durante o cerco, tropas japonesas invadiam a então capital da China. Uma semana antes, Chiang Kai-shek, a cúpula do governo e tropas de elite tinham transferido o governo para Chongqing. Na véspera à noite o general Tang Shengzhi ordenou retirada à sua tropa e atravessou o rio Yangtzé. A retirada foi caótica.

Não havia barcos suficientes para o transporte das tropas. As primeiras unidades japonesas (6ª e 114ª Divisões) entraram em Nanjing pelas portas Zhonghua Men, Guanghua Men e outras. Encontraram a cidade em colapso total, repleta de soldados chineses desarmados ou que haviam trocado seus uniformes por roupas civis. A população civil aterrorizada. O Príncipe Asaka-no-miya Yasuhiko-ō, 朝香宮鳩彦王, comandante efetivo das tropas, ordenou que matassem imediatamente todos os prisioneiros de guerra.

Muito antes da guerra, em 31 de outubro de 1917, ele já havia recebido a Grã-Cruz da Ordem do Crisântemo, a mais alta condecoração japonesa, devido à sua linhagem imperial, não por méritos em combate. Antes das tropas invasoras chegarem a Nanjing, muitos soldados japoneses morreram para conseguir vencer a inesperada resistência em Shanghai. Vingança era virtude já antiga na Cultura guerreira do Japão. Wu Changde, um policial, testemunhou a execução em massa de mais de 2.000 homens nos arredores da cidade nos dias seguintes à ocupação. Era só o começo.

Havia uma área de exceção. Um mês antes, estrangeiros liderados pelo empresário alemão John Rabe, criaram o Comitê de Estrangeiros e estabeleceram 25 Áreas de Segurança. No jardim de sua própria residência Rabe abrigou 600 civis chineses e estendeu no gramado uma bandeira com a mesma suástica que usava na braçadeira para tentar evitar que seus protegidos fossem atacados. Estima-se que Rabe ajudou a salvar 200.000 chineses. O caos se estendia por toda a cidade de Nanjing.

I know not where to end. Never I have heard or read suchbrutality. Rape! Rape! Rape! Weestimateat least 1,000 cases a night and many by day. In case of resistance or anything that seems like disapproval, there is a bayonetstabor abulletPeople arehysterical… Women are being carried off every morning, afternoon and evening.”  (Hu, Hua-ling (2000). American Goddess at the Rape of Nanking: The Courage of Minnie Vautrin. Southern Illinois University Press. p. 97. ISBN978-0809323869.)

“Japanese soldiers also rapedBuddhistnunsand forcedmonksto rape women.” (Yu, Xue (2013).Buddhism, War, and Nationalism: Chinese Monks in the Struggle Against Japanese Aggression, 1931–1945. Routledge. p. 152.ISBN978-1135487324.)

“We were living in an age where we were taught that Chinese were not human. The army used a trumpet sound that meant ‘Kill all Chinese who run away.” (“Japanese veterans recall Nanjing in documentary” Taipei Times. Taipei. May 17, 2010. p. 4. Retrieved April 14,2016.)

Quando terminou o caos que começou nos parágrafos acima, e foi descrito nos três breves testemunhos citados? Segundo algumas fontes, terminou 6 semanas depois, em fevereiro. Segundo outras fontes terminou 7 semanas depois, ainda em fevereiro. Vamos considerar a hipótese mais longa. Nesse caso, durante 49 dias consecutivos, soldados do exército japonês conseguiram, a cada dia de um cotidiano ininterrupto, matar mais de 6.000 pessoas, desde quando acordavam até quando exaustos dormiam.

Além dessa tarefa, conseguiram a cada um de todos os dias estuprar 1000 mulheres, crianças e idosas. Algumas vítimas, após o estupro foram empaladas com sabres, bambus, garrafas. Se a data de término correta tiver sido antes, como consta em algumas fontes que afirmam ter sido 6 semanas, os soldados japoneses conseguiram superar os números mencionados acima. O total de mortos foi 300.000. O total de mulheres estupradas foi 50.000.

Os Tenentes Toshiaki Mukai e Tsuyoshi Noda do 16º Batalhão de Infantaria fizeram uma competição para ver quem seria o primeiro a matar 100 pessoas com sua espada. A imprensa japonesa da época, como o jornal Tokyo Nichi Nichi Shimbun, 東京日日新聞, Tokyo Daily News, cobriu o evento como se fosse uma competição esportiva, noticiando que ambos ultrapassaram a marca de 100 e não conseguiram determinar um vencedor.

Então reiniciaram a disputa elevando a marca para 150. O Príncipe Asaka-no-miya Yasuhiko-ō, indicado pelo Imperador Hiroito, só deixou Nanjing e retornou ao Japão em fevereiro, após constatar que suas ordens tinham sido cumpridas. Em Tóquio, retomou seu posto no Conselho Supremo de Guerra, (onde permaneceu até 1945) e um ano depois, em agosto de 1939 foi promovido a general.

(Historiadores chineses e japoneses trabalharam em conjunto de 2006 a 2010 no China-Japan Joint History Research Committee. Na conclusão, os historiadores Chineses discordaram do professor Sun Zhaiwei que estimava 400.000 mortos, e chegaram a um consenso de 300.000 mortos. Quanto ao número de estupros, concordaram que foram entre 20.000 e 80.000+. Escolhemos o Caminho do Meio, 50.000 estupros. Os historiadores japoneses não conseguiram chegar a um consenso, nem no número de mortos, nem de estupros. Para o Professor Akira Fujiwara, o número de mortos foi 200.000. Para o Professor Ikuhiko Hata o número foi entre 38.000 e 42.000.)

A aparição que assistia o que foi narrado acima, tremia incontrolavelmente ao ouvir a frase: “Desde 1882, os oficiais japoneses na ‘Escola de Guerra’, Rikugun Daigakko, estudavam a Reforma Militar de Shāng Yāng”. O tremor da aparição aliviou ao menos um pouco quando ouviu: “O pior, quando piora, pode piorar em três níveis. Pouco, bastante, surpreendente. O melhor, quando melhora, pode melhorar no mesmo tríplice padrão. O pior pode melhorar, e o melhor pode piorar, ambos sempre em três níveis”.

No submundo Dìyù, além do que foi narrado, a aparição chamada Shāng Yāng viu também o que ignoramos: até quando no futuro políticos japoneses continuarão a se curvar todos os anos no Santuário Yassukuni em reverência aos 14 criminosos condenados por crimes em Nanjing como fazem, indiferentes aos protestos pois confiantes no apoio de seus eleitores. Enquanto Yasukuni funcionar como um pilar simbólico da identidade conservadora japonesa e o voto doméstico continuar a recompensar o gesto, políticos continuarão a se curvar ali, geração após geração. Enquanto persistir a negação da culpa, continuará viva a causa do que acabamos de assistir. Não esqueçamos que o pior pode piorar em três níveis.

O que sucedeu em Nanjing evidencia um trauma profundo no inconsciente coletivo da Cultura nipônica, reprimido e negado, por milênios. O trauma atou um nó em ponto preciso onde bloqueia o fluir construtivo da energia da Vida. Quando a energia da Vida é impedida de fluir, a energia destrutiva da morte prospera. A desumanização do outro é a forma extrema e patológica da pretensão de superioridade característica do hegemonismo. A desumanidade dos crimes prazerosamente cometidos em Nanjing foi precedida pela desumanização das vítimas, os chineses.

We were taught from childhood in schools that Chinese were like insects.” (“Japanese veterans recall Nanjing in documentary” Taipei Times. Taipei. May 17, 2010. p. 4. Retrieved April 14, 2016.) Como é evidente a qualquer leitor de Freud, quando um trauma é banido da consciência e negado, tende a ser projetado no exterior onde precisa ser atacado e destruído. Não se pode aceitar a existência externa do que não se admite internamente. Culturas adoecem. Culturas podem se curar. Só a admissão da verdade negada pode curar quem nega a verdade.

Edifício principal do Yasukuni Jinja. Crédito: Wikipedia.

Em 2019, graças a amigos chineses, o digitador dos artigos China e Superação do Hegemonismo contemplou no Museu do Massacre em Nanjing incontáveis fotografias das vítimas. Viu crianças como um dia foram seus filhos. Viu adultos como hoje são seus filhos. Viu idosos como ele próprio. O digitador abraçou os amigos chineses e disse: “Obrigado por cuidarem da memória de minha família”. Em silêncio, à sós consigo mesmo, o digitador pediu perdão às vítimas.

Lembrou um dia quando ainda jovem havia aprendido o que a Dinastia Zhou ensinou em 1.046 a.e.c. Somos Unos sob o Céu. Agora o digitador precisa pedir ao leitor que o acompanhe numa análise da Cultura japonesa desde a origem para entendermos como o nó se atou. Um nó só se desata quando o fio percorre de volta o mesmo caminho que o atou. Devemos aos nossos 300.000 parentes o esforço que faremos.

Honrar a memória nesse caso significa buscar a origem da atrocidade que os assassinou desumanamente. Precisamos ajudar os criminosos, que também são nossa família. Eles é que se desumanizaram, ao tratarem desumanamente os parentes que renegaram. Os assassinos de Nanjing precisam entender como se desumanizaram ao ponto impensável do que cometeram. Ao descobrirem a China, os japoneses queriam se tornar chineses.

Pediram reconhecimento como súditos e o receberam. Nanjing foi parricídio, o mais horrendo dos crimes. Ao matar o pai, o filho não se torna o pai. Torna-se órfão de si mesmo, condenado a fugir da culpa que o persegue. Sem entender como pudemos errar tanto, não poderemos mudar o que precisamos mudar. Quem foge da culpa, dela nunca escapará. Busquemos a origem do trauma. O percurso será longo pois um tal horror vem de muito longe.

A origem da Cultura japonesa remonta ao período Yayoi (c. 300 a.e.c. a 250 e.c.). O professoe Jun Ohashi, e sua equipe no Departamento de Ciências Biológicas da Universidade de Tóquio, analisou DNA de esqueletos do período Yayoi e comparou com genomas de populações da antiguidade e contemporâneas do continente Asiático. Os resultados mostraram que dentre os genomas Asiáticos atuais (excetuando a população japonesa que é 80% descendente dos Yayoi) o mais próximo aos Yayoi é a população da península coreana.

Só os japoneses conhecem bem o preconceito que os japoneses têm com coreanos. O percurso nos ajudará a entender também esse preconceito e as monstruosidades expostas no Museu Nacional da História Contemporânea da Coreia, no Museu Memorial de Guerra da Coreia, e no Museu das Mulheres de Conforto. O momento da travessia e o local de partida dos Yayoi são controversos. Provavelmente vieram em levas. Talvez não tenham partido sempre do mesmo ponto.

As duas hipóteses mais prováveis quanto ao local de partida são, a península coreana (possivelmente sul), ou o delta do rio Yangtzé (Jiangnan). O ponto de chegada e primeiro florescimento da cultura Yayoi foi o norte de Kyushu. Os Yayoi não tinham escrita. Trouxeram saberes-fazeres como agricultura, controle das águas em diques e canais para cultivo do arroz irrigado, metalurgia de bronze e ferro. A metalurgia na Coréia veio da China. Os Yayoi tinham senhorio sobre fogo e água inexistente nas tribos insulares.

Os invasores subjugaram e aculturaram os vários povos aborígenes Jomon que viviam na etapa do caçador-pescador-coletor, imersos numa cultura refinada, de sutil sensibilidade, como evidenciado na sua cerâmica, uma das mais antigas do mundo. Os Yayoi eram filhos de Cultura guerreira. Disputas com outros povos no continente adestrou-os brutos. Para os Yayoi, saberes-fazeres eram meios para dominar quem não os tivesse. Subjugaram os povos originários que encontraram no arquipélago, os Jomon, e usaram-nos como mão de obra na agricultura.

A fase da Cultura oral constitui o padrão sempre mutante do pensar-sentir fundamental de um povo. Na Cultura oral conteúdos do passado desaparecem e/ou se recriam na dinâmica da transmissão de boca a ouvido. O que é dito e o que é escutado nunca são idênticos. O conteúdo expresso por quem fala, nunca é idêntico ao conteúdo vivido por ele próprio antes de “tentar pôr em palavras”. Cada vez que alguém se expressa, o conteúdo que existia antes de ser “posto em palavras” muda pois quem fala segue a pensar-sentir enquanto ouve o que diz.

A mudança e quem fala é pouco percebida pois a atenção está focada no que é dito e no que é percebido no recipiente da comunicação. Quem ouve o que é dito, recebe o conteúdo através da energia de palavras, gestos, entonações, ritmos, transmitidos por outrem. O ouvinte escuta segundo a energia dos seus próprios conteúdos. Mesmidade é ilusão. Semelhança é possível. Na Cultura oral memórias desaparecem fácil e se recriam sempre.

Mesmo os elementos constantes, como mitos e lendas, seguem em transformação. A consolidação da narrativa desses elementos constantes só ocorre com a escrita. Quando a narrativa estabiliza, seguem em mutação as interpretações, isto é, o modo como a Cultura de um momento da história compreende dados gerados em outro momento histórico.

A inseminação que deu origem à Cultura oral japonesa não foi fruto de convívio amoroso ao longo de gerações na vida de um povo. A Cultura dos Yayoi estuprou a Cultura dos Jomon. O primeiro encontro foi mortífero e traumático para o Receptivo, isto é, para o princípio de maternidade, a Terra, hexagrama 2, “O Receptivo”, Kūn, 坤. Os Jomon só não foram dizimados porque eram úteis como mão de obra. No convívio entre o dominador e o dominado a primeira interação foi a necessidade de comunicação.

Como sempre acontece em sistemas de dominação, o dominador precisa entender o código linguístico do dominado para poder impor-lhe o seu próprio código linguístico. No curso do processo de apagamento do idioma do submetido, o idioma de quem subjuga acaba incorporando elementos do subjugado. Palavras expressam um modo de ser. A Cultura oral dos Yayoi incorporou sutil e suavemente elementos dos Jomon enquanto estes foram arrastados involuntariamente para o interior de uma Cultura que lhes era imposta. A base Cultural oral que nascia nesse convívio era uma variante da Cultura oral estrangeira que subjugou os Jomon.

Com a disponibilidade da mão de obra Jomon na agricultura e na pesca, os Yayoi conseguiram maior disponibilidade de alimento. Sem adversários que os desafiasse em combate, cresceram numericamente, tornaram-se maioria. Avançaram sobre outras ilhas. Criaram aldeamentos. A hierarquização social nasceu radicalizada. O invasor partilhou entre si os estratos sociais que criou. Aos Jomon subjugados lhes foi imposta condição de perene alteridade pelo estigma da perene inferioridade.

A revolta dos povos originários segue viva 2.300 anos depois pois a discriminação também segue viva. “A negação dos Ainu constitui discurso de ódio”, “A discriminação contra os Ainu é ilegal”. Frases de cartazes exibidos no protesto ocorrido em novembro de 2024 em Sapporo. Desde a origem na fase oral a Cultura dominante no Japão se move esquizofrenicamente cindida. O corpo não reconhece os seus pés.

A vida se origina do amor. A vida é sustentada pelo amor. Nos poucos milênios desde a invasão dos Yayoi, no Japão a amorosidade dos pés segue a sustentar afetuosamente quem os despreza, discrimina e renega. Em alguma geração futura, até o Japão superará o hegemonismo. Quando isso vier a acontecer, a implacável e fria curvatura de corpos separados, descobrirá a alegria antípoda que Gilberto Gil musicou a sorrir em 1969 pouco antes de partir para o exílio no caloroso “Aquele abraço”.

Gustavo A.C. Pinto

Formado em Filosofia pela PUC-RJ e tradutor do “I Ching”. É autor dos livros “Relâmpagos”, “Gotas de Orvalho”, “Rito da Montanha Sagrada” e “Astrologia e Budismo”

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