Entrevista Intertelas – A sensibilidade artística e a vida profunda de Amelia Toledo são revelados em documentário dirigido por Hélio Goldsztejn

Amélia Toledo em “Lembrar de Não Esquecer”. Crédito: B2 Produções.

Amelia Toledo, nascida em São Paulo, teve uma trajetória de vida profunda, em que o principal lema foi estabelecer a ponte entre o mundo natural, as artes e os humanos. Como salientado pela equipe de divulgação do filme, Toledo (1926-2017) foi uma das artistas mais inquietas e inovadoras da arte brasileira. Em “Amelia Toledo – Lembrar de Não Esquecer”, documentário dirigido por Hélio Goldsztejn e que chegou aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, dia 20 de agosto de 2026, mergulhamos por alguns instantes no mundo criativo da artista que fez de suas criações uma extensão de seu mundo físico, transformando a própria casa em ateliê e buscando uma nova forma de observar a vida.

Toledo tornou compreensível o significado do que parece não ter importância, revelou a outros a beleza e a profundidade que há na natureza e que para muitos não passam de coisas insignificantes. Tal capacidade só existe no olhar sensível de uma pessoa talentosa, que tornam possível construir um diálogo entre a arte e a vida.

Como informado pela assessoria do filme, Toledo ainda foi professora em instituições como o Mackenzie e a FAAP, além de ter integrado a equipe da recém-criada Universidade de Brasília, sob a reitoria de Darcy Ribeiro. Saiba mais um pouco sobre esta produção e o humano incrível que foi Amelia Toledo através da entrevista que o diretor Goldsztejn forneceu à Revista Intertelas. Confira abaixo.

O que fez com que escolhesse a vida de Amelia Toledo para documentário?

Eu já tinha uma relação com Amelia desde as entrevistas que fiz com ela no Metrópolis. Quando o Moacir, filho dela, me procurou com o convite para o documentário, fez sentido imediato — eu já conhecia a obra, já tinha um vínculo, e via nela uma artista que merecia um filme só dela, não só uma reportagem.

​Na sua opinião, qual o significado da obra e vida de Amelia Toledo para o mundo das artes e para a sociedade?

Amelia representa uma forma de artista que não separava vida e obra — ela vivia pesquisando matéria, forma, natureza, o tempo todo. Isso é raro. Ela também abre espaço para pensar o papel da mulher artista na arte brasileira do século 20, num momento em que esse espaço não era dado facilmente.

​​A natureza tem grande importância na obra de Amelia Toledo. Como você observa a origem dessa relação da artista com o mundo natural e como impactou a trajetória criativa e a própria vida dela?

Vem da infância, da praia, da coleta de conchas e pedras. Isso nunca deixou de ser central na obra dela — ela sempre trabalhou com material bruto, encontrado, transformado. A vida pessoal e a prática artística estavam amarradas nisso: colecionar, observar, recriar.

​O que lhe causou maior impacto na construção deste documentário?

​ As imagens inéditas do Rubens Crispim Jr. registrando Amelia trabalhando no ateliê. Ver o processo dela, não só o resultado, muda a percepção da obra completamente. E lidar com a perda do Rubens e da Carolina durante o processo também marcou o filme de um jeito que não estava previsto.

​​Como seu documentário contribui para a divulgação e explanação da obra de Toledo para um público mais amplo?

Ele traduz uma obra às vezes vista como hermética — de museu, de colecionador — para linguagem acessível, mostrando a pessoa por trás da produção. Isso aproxima gente que nunca teve contato com a obra dela. Espero que tenha atingido essa meta .

​​Qual a sua análise da relação das artes plásticas com o audiovisual? 

O audiovisual consegue mostrar processo, gesto, tempo — coisas que a fotografia de uma obra parada não mostra. No caso de Amelia, isso é essencial, porque a obra dela é sobre transformação de matéria, e isso só se entende vendo ela manipular o material.

​Quais os desafios encontrados no processo de criação do documentário?

Reunir material de arquivo disperso, lidar com a perda de colaboradores-chave durante a produção, e condensar uma trajetória de décadas sem simplificar demais a complexidade da obra. Desafio maior foi passar o tesão que ela tinha na vidafui curador das obras que ficavam no cenário e na arte

Muitos pesquisadores salientam que, ao redor do mundo, as obras de mulheres ainda não recebem a mesma atenção que de artistas homens. Como você observa esta situação?

É um problema real e histórico. Amelia é um exemplo direto disso — produção consistente, décadas de trabalho, e reconhecimento menor do que artistas homens da mesma geração e relevância. O documentário é também uma tentativa de corrigir isso, mesmo que parcialmente.

​O mundo das artes plásticas tem grande influência na sua vida e trabalho?

​ Sim, boa parte da minha carreira foi documentar artistas plásticos — Tomie Ohtake, e agora Amelia. É um universo que me interessa desde sempre, essa relação entre criação visual e narrativa de vida. trabalhei quase 30 anos num programa diário de artes.

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