BBC expõe ofensiva da extrema direita contra o voto feminino

Crédito: Reprodução do site Vermelho.

A extrema direita descobriu um paradoxo eleitoral: precisa disputar o voto das mulheres ao mesmo tempo em que parte de sua própria rede de influência trabalha para desqualificar a capacidade delas de escolher. As mulheres são maioria no eleitorado brasileiro: 83,8 milhões, 52,81% das pessoas aptas a votar em 2026, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ainda assim, influenciadores, comunidades da machosfera, lideranças religiosas e personagens da extrema direita voltam a colocar em circulação uma ideia que parecia confinada aos cantos mais obscuros da internet: a de que mulheres não deveriam votar ou deveriam fazê-lo sob a tutela de um homem.

A investigação publicada pela BBC News Brasil em 14 de setembro mostra que a ofensiva não se resume a uma provocação isolada. Ao longo de três meses, a reportagem identificou uma rede de discursos que questiona o sufrágio feminino, responsabiliza o voto das mulheres por problemas sociais e defende, em diferentes formulações, uma ordem em que decisões femininas estejam subordinadas ao marido.

Como a extrema direita desqualifica a escolha das mulheres

O repertório muda, mas a operação é semelhante. Há quem recorra à ideia de diferenças naturais entre homens e mulheres para justificar papéis políticos distintos. Há quem atribua às mulheres incapacidade emocional para decidir. E há quem leve essa lógica até a defesa de que a escolha deve ser transferida ao chefe da família.

No podcast Redcast, com mais de 1 milhão de inscritos no YouTube, Ana Hering discutiu a possibilidade de abolir o voto feminino e afirmou que o mundo teria começado a “descer ladeira abaixo” quando as mulheres passaram a opinar e a ser ouvidas. Na mesma discussão, foram mobilizados argumentos sobre supostas diferenças entre cérebros masculino e feminino. Paulo Figueiredo foi mais direto. O influenciador, ligado à família Bolsonaro, afirmou que mulheres “votam estatisticamente muito mal”, especialmente as solteiras. A declaração ocorreu durante uma transmissão em que discutia estratégias para a pré-campanha de Flávio Bolsonaro.

Quando a emancipação feminina vira disputa política

Em entrevista ao Entrelinhas Vermelhas, Flávia Calé, secretária nacional da mulher do PCdoB, relacionou o avanço do feminismo nas últimas duas décadas à reação de um machismo estrutural que ganhou novos contornos e passou a funcionar também como instrumento de disputa política e ideológica. “O feminismo, há 20 anos, atingia um público menor. Nas últimas duas décadas, ganhou novas gerações de mulheres. Virou um repertório também para combater o machismo, que é uma condição estrutural e faz parte da formação do Estado brasileiro. Esse machismo estrutural também ganha novos contornos e se transforma em instrumento de disputa política e ideológica.”

É nesse movimento de avanço e reação que ela localiza as propostas que procuram recolocar a autoridade masculina no centro da participação política. “Essa disputa que a gente vive hoje também se expressa em propostas medievais de restrição do voto feminino.” Flávia cita a candidatura do Missão, partido de Renan Santos, e o Livro Amarelo, que apresenta a proposta de “democracia familiar”.

É nesse contexto que ela aponta o efeito do chamado “voto por família” sobre a participação das mulheres: “O voto por família restringe a nossa participação política. Ele restringe o voto feminino.” O Missão afirmou à BBC que os fascículos têm caráter ensaístico e de manifesto e não constituem seu programa. À CNN Brasil, Renan Santos disse que “não há nenhuma menção ao voto familiar” em seu programa. A proposta, porém, está publicada no sexto volume da coleção, nas páginas 127 a 135.

O homem como autoridade política da família

A formulação não surgiu isoladamente. Renato Amoedo, conhecido como Renato 38ão, é um dos nomes da machosfera brasileira. O influenciador chegou a reunir mais de 900 mil seguidores no Instagram antes de ter a conta removida. Em publicações e podcasts, atacou o voto de mulheres não casadas e questionou a centralidade do trabalho e do estudo na vida feminina. Em círculos religiosos influenciados pelo pastor estadunidense Douglas Wilson, a família também aparece como unidade política, com o homem ocupando a posição de autoridade. Wilson chegou a afirmar que, em caso de divergência, determinaria o voto da esposa.

Leia Mais (Vermelho): Ataques ao voto feminino expõem avanço conservador nos EUA

As formulações variam, mas convergem para uma mesma reorganização da vida pública: a mulher deixa de ser considerada uma eleitora individual e sua decisão passa a ser mediada pela autoridade masculina dentro da família. É uma inversão do sentido histórico da ampliação do sufrágio. O avanço das mulheres na educação, no trabalho remunerado, na independência econômica, no direito ao divórcio e na participação institucional ampliou espaços de decisão que durante muito tempo estiveram concentrados nos homens. O voto individual é parte desse deslocamento.

A contradição entre disputar mulheres e desqualificá-las

A contradição aparece com força quando se olha para as urnas. Mulheres representam mais de 52% do eleitorado brasileiro e estão no centro da disputa eleitoral de 2026. A BBC destacou a vantagem de Lula entre as eleitoras na disputa com Flávio Bolsonaro e ouviu o cientista político Jairo Nicolau sobre o peso desse segmento. A mesma reportagem mostrou como as diferenças entre homens e mulheres passaram a ocupar espaço crescente na estratégia eleitoral.

É nesse ponto que a frase de Flávia — “as mulheres estão sendo disputadas” — ganha peso. Flávio Bolsonaro precisa ampliar seu diálogo com as eleitoras, mas seu próprio repertório público ajuda a revelar a concepção de mulher que atravessa seu campo político. Em agosto, ao anunciar sua chapa, Flávio afirmou que havia “feito duas filhas” para ter quem cuidasse dele na velhice. As próprias filhas aparecem, nessa fala, não como sujeitos de suas próprias escolhas, mas como futuras cuidadoras do pai.

Em outra gravação, o candidato surge sem camisa e encena uma abordagem sexualizada de uma mulher. O vídeo divulgado pela campanha de Lula recupera ainda declarações de Jair Bolsonaro que expõem o mesmo rebaixamento das mulheres: o nascimento da filha associado a uma “fraquejada” e Maria do Rosário atacada por meio de uma referência ao estupro.

Esse repertório encontra eco no entorno político da família. Paulo Figueiredo, ligado ao bolsonarismo e próximo do clã Bolsonaro, não apenas atacou o voto feminino ao afirmar que mulheres “votam estatisticamente muito mal”. Em sucessivas transmissões, também tratou a violência sexual como instrumento de escárnio contra mulheres, inclusive ao celebrar a declaração de Jair Bolsonaro sobre Maria do Rosário e ironizar ameaças de estupro contra Jandira Feghali. O Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul classificou o conteúdo como parte de uma “estratégia de comunicação fundada em ataques pessoais a mulheres na política” e determinou a retirada dos trechos.

A composição da própria chapa de Flávio acrescentou outro elemento à discussão. Escolhido como candidato a vice, o deputado Alfredo Gaspar é alvo de investigação no Supremo Tribunal Federal por suspeita de estupro de vulnerável. São episódios diferentes, mas que ajudam a dimensionar o ambiente político no qual Flávio tenta conquistar as eleitoras: de um lado, a necessidade de disputar um eleitorado majoritariamente feminino; de outro, a circulação de discursos que sexualizam, subordinam ou associam mulheres à violência.

É nesse ponto que a observação de Flávia sobre a transformação das mulheres em “instrumento de nicho eleitoral e de monetização de conteúdo” ganha outra dimensão. A misoginia, nesse ambiente, pode produzir audiência, identidade política e mobilização. O ressentimento contra a autonomia feminina encontra mercado nas plataformas digitais e se transforma em conteúdo.

O alvo é maior que a eleição de 2026

A ofensiva contra o voto feminino pode circular antes de chegar a qualquer disputa legislativa formal: como piada, provocação, vídeo, podcast, manifesto ou discurso eleitoral. A repetição desloca os limites do que pode ser apresentado como debate político. Para Flávia Calé, a ofensiva faz parte de uma reação mais ampla aos avanços das mulheres e se conecta à violência política de gênero e à disputa ideológica travada nas plataformas, inclusive em torno das novas gerações.

O que está em jogo vai além da eleição de 2026. A ofensiva contra o voto feminino expressa a tentativa de conter uma transformação que alterou a distribuição do poder na sociedade: mulheres deixaram de ser apenas representadas para reivindicar o direito de decidir. É por isso que a ideia de devolver essa decisão ao homem, dentro da família, não é uma excentricidade retórica. Ela recoloca em debate quem pode ser reconhecido como sujeito político.

Fonte: Texto publicado originalmente no site do Portal Vermelho.
Link direto: https://vermelho.org.br/2026/09/16/bbc-expoe-ofensiva-da-extrema-direita-contra-o-voto-feminino/

Natália Padalko – Portal Vermelho

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