
Entre o Caribe e o Pacífico, em uma estreita faixa de terra que conecta o Norte e o Sul do continente americano, seis países vêm produzindo um cinema de enorme vitalidade, variedade de gêneros e formatos, ainda muito pouco conhecido pelo público brasileiro. É esse universo que chega ao Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro (clique aqui), de 23 de setembro a 19 de outubro de 2026, com a mostra “SOY LOCO POR TI, CENTROAMÉRICA”. Com entrada gratuita, a programação reúne 21 filmes — 16 longas e cinco curtas — de realizadores da Guatemala, Honduras, El Salvador, Nicarágua, Costa Rica e Panamá. A maioria das obras será exibida pela primeira vez no país e todas são inéditas no circuito comercial brasileiro.
A mostra tem o patrocínio do Banco do Brasil e produção da Khora Comunicação e Produção. Os ingressos para os filmes e atividades podem ser retirados a partir das 9h do dia da exibição ou da atividade, na bilheteria física ou no site do CCBB RJ. Em abril de 2027, a mostra será realizada nos CCBBs São Paulo e Brasília. Com curadoria da cineasta e produtora Laura Bermúdez, hondurenha-brasileira, a seleção propõe uma aproximação com uma região que, apesar de sua proximidade geográfica e histórica com o Brasil, permanece pouco representada nos grandes relatos audiovisuais sobre a América Latina.
São ficções, documentários e obras híbridas que transformam experiências locais em questões universais. Memória, sexualidade e direitos das mulheres, adolescência, migração, povos indígenas, identidade LGBTQIA+, relações familiares e de trabalho, preservação ambiental aparecem em filmes profundamente enraizados em seus territórios e, ao mesmo tempo, capazes de dialogar diretamente com dilemas contemporâneos vividos também pela sociedade brasileira.
“Realizar esta mostra no Brasil é mais do que uma aproximação cultural: é um gesto político, em um momento atravessado pelo avanço de discursos autoritários, ataques à democracia e erosão de direitos, conhecer as histórias dos países centro-americanos significa também construir pontes entre imaginários latino-americanos e perceber o quanto seus desafios dialogam com os brasileiros” afirma Laura Bermúdez em seu texto curatorial.
Um cinema premiado que o Brasil quase não vê
Se a América Central ainda ocupa pouco espaço nas telas brasileiras, seus cineastas vêm conquistando alguns dos principais festivais do mundo. Entre os diversos destaques da programação está “Memorias de un cuerpo que arde”, da costarriquenha Antonella Sudasassi Furniss, vencedor do Prêmio do Público da mostra Panorama do Festival de Berlim de 2024. O filme acompanha, a partir das memórias de três mulheres de 68, 69 e 71 anos, uma geração criada quando a sexualidade feminina era cercada de silêncios, regras e tabus. Agora, já mais velhas, elas falam sobre seus desejos, segredos e experiências.
Também da Costa Rica vem “Tengo sueños eléctricos”, de Valentina Maurel, que acumulou 34 prêmios e três menções, incluindo Melhor Direção, Melhor Ator e Melhor Atriz no Festival de Locarno, e abre a mostra no dia 23 de setembro. A narrativa acompanha uma adolescente dividida entre a separação dos pais, a instabilidade emocional do pai e sua própria passagem para a vida adulta.
Outro título de destaque é “La Llorona”, de Jayro Bustamante. Partindo da conhecida lenda latino-americana, o cineasta guatemalteco atravessa horror, memória e política para abordar as feridas do conflito armado de seu país. Exibido no Festival de Veneza, tornou-se a primeira produção da Guatemala e da América Central indicada ao Globo de Ouro, em 2021, na categoria de Melhor Filme em Língua Não Inglesa.
Da Guatemala vem ainda “Nuestras Madres”, de César Díaz, vencedor da Caméra d’Or de Melhor Primeiro Longa-Metragem no Festival de Cannes de 2019. Ambientado durante o julgamento de militares acusados de crimes de guerra, o filme acompanha um jovem antropólogo dedicado à identificação de desaparecidos que acredita ter encontrado uma pista sobre o próprio pai.
Mulheres diante e atrás das câmeras
Um dos recortes que atravessam fortemente a seleção é a presença feminina. Diretoras ocupam espaço expressivo na programação e lançam seus olhares sobre experiências que durante muito tempo permaneceram à margem das narrativas cinematográficas. Além de “Memorias de un cuerpo que arde” e “Tengo sueños eléctricos”, a produção costarriquenha vive um momento particularmente vigoroso impulsionado por uma geração de realizadoras. Filmes como “La piel del agua”, de Patricia Velásquez — que estreou em Locarno e foi indicado ao Goya 2026 de Melhor Filme Ibero-Americano — transformam adolescência, relações familiares e experiências femininas em matéria cinematográfica.
Em “Nuestra Libertad”, de Celina Escher, o cinema se aproxima de uma das questões mais duras da realidade de El Salvador. O documentário acompanha Teodora Vásquez e “Las 17”, mulheres condenadas a penas que chegaram a 30 anos de prisão depois de sofrerem abortos espontâneos, partos de natimortos ou outras emergências obstétricas, em um país marcado pela criminalização do aborto. O filme recebeu o prêmio de Documentário Ativista do Movies That Matter e o Grande Prêmio do Júri da competição ibero-americana do Festival Internacional de Cinema de Seattle.
Uma protagonista trans inédita no cinema hondurenho
Outro filme que merece atenção especial é “Eva”, de William Reyes. A produção hondurenha coloca no centro da narrativa uma mulher trans que, após a morte repentina da nora, passa a cuidar da neta enquanto tenta reconstruir a relação entre seu filho e a criança. Ao colocar essa personagem no centro de uma história sobre maternidade, cuidado, luto e vínculos familiares, “Eva” apresenta uma protagonista trans historicamente ausente das telas hondurenhas. O longa venceu o prêmio de Melhor Filme LGBTQIA+ no Festival de Cinema Independente de Roma e recebeu dois prêmios no Festival Internacional do Novo Cinema Latino-Americano de Havana, em 2025. Um das exibições de “Eva” será uma “sessão comentada” pela professora e pesquisadora Maria Celina Ibazeta.
Memória indígena contada pelos próprios indígenas
A programação abre também espaço para outras maneiras de construir e preservar a memória. Em “Bila Burba”, o cineasta indígena Duiren Wagua, da nação Gunadule, do Panamá, revisita a Revolução Dule de 1925, quando seu povo resistiu à repressão promovida pelo governo panamenho e conquistou sua autonomia. Em vez de recorrer apenas aos arquivos oficiais, o filme parte da memória oral dos descendentes e das encenações teatrais comunitárias realizadas há gerações para preservar essa história. O documentário estreou no IDFA – Festival Internacional de Documentários de Amsterdã e recebeu o Prêmio do Público do Festival Internacional de Cinema do Panamá.
Ditaduras, revoluções e os silêncios que permanecem
A relação entre cinema, memória e democracia constitui outro eixo potente da mostra. No documentário “El silencio del topo”, Anaïs Taracena recupera a história do jornalista Elías Barahona, que, nos anos 1970, infiltrou-se como espião no coração de um dos governos mais repressivos da Guatemala. O filme transforma investigação histórica e memória íntima em uma reflexão sobre os silêncios deixados pelo conflito armado guatemalteco. A obra foi premiada nos festivais de Málaga, Havana e Jeonju.
Já “Heredera del viento”, da nicaraguense Glória Carrión Fonseca, parte da própria história familiar da diretora, que nasceu durante a Revolução Sandinista e cresceu entre o fascínio e o medo da guerra e do poder militar. Mais de três décadas depois, ela retorna às memórias dos pais para confrontar o mito da revolução e aquilo que permaneceu silenciado dentro de casa.
Laura Bermúdez Mesquita: uma ponte entre dois territórios
A própria trajetória da curadora oferece outra porta de entrada para compreender a mostra. Filha de mãe brasileira e pai hondurenho, a cineasta Laura Bermúdez Mesquita nasceu e vive em Honduras; morou em São Paulo quando era criança e, anos mais tarde, estudou cinema documentário na FGV, no Rio de Janeiro.
Laura é fundadora e diretora executiva da Tercer Cine, organização dedicada à exibição, formação e distribuição cinematográfica em Honduras; preside a Colectiva de Cineastas Hondureñas, organização pioneira na América Central voltada à participação das mulheres no cinema; é cofundadora do CENTRADOC – Festival Internacional de Cinema Documentário da América Central e da mostra El Sueño de Alicia, dedicada ao cinema realizado por mulheres.
Sua trajetória inclui ainda participações no Berlinale Talents, Locarno Open Doors e The Festival Academy. Entre 2021 e 2025, presidiu o júri de curta-metragem documental da International Documentary Association (IDA), nos Estados Unidos. Como realizadora, teve filmes selecionados para Sheffield DocFest, Festival de Málaga, DOC NYC, Kinoforum e New Orleans Film Festival, entre outros. Atualmente finaliza seu primeiro longa, “Allá Donde Nace el Sol”, selecionado para o Cannes Docs em 2026.
Muito além das sessões
SOY LOCO POR TI, CENTROAMÉRICA amplia a experiência cinematográfica com uma programação de encontros e atividades especiais. A mostra terá o debate “Cinema documentário centroamericano”, com Laura Bermúdez e Maria Campaña Ramia, equatoriana e programadora sênior do IDFA – Festival Internacional de Documentários de Amsterdã, no dia 30 de setembro, com tradução para Libras; a masterclass “Um olhar para os cinemas da América Central”, com Laura Bermúdez, no dia 26 de setembro; e a sessão comentada de “Eva”, com Maria Celina Ibazeta, no dia 8 de outubro; além de sessão inclusiva (legendas descritivas) de “Tengo sueños eléctricos”.
Será distribuído gratuitamente um catálogo com textos escritos especialmente para a mostra por pesquisadoras, professoras, filósofas brasileiras e centroamericanas. A publicação contará também com informações sobre todos os filmes selecionados. O catálogo poderá ser baixado no site do CCBB.
Por que “Soy Loco por Ti, Centroamérica”?
O título estabelece uma ponte afetiva direta com o Brasil. “SOY LOCO POR TI, CENTROAMÉRICA” faz eco a Soy Loco por Ti, América, canção composta por Gilberto Gil e José Carlos Capinam e imortalizada na voz de Caetano Veloso — uma obra que transformou em música o sonho de uma América Latina atravessada por diversidade, memória e lutas. Décadas depois, esse chamado reaparece através do cinema.
“Estes filmes nos convidam a olhar para a América Central não como uma periferia do continente, mas como um território de criação vibrante, de onde emergem algumas das vozes mais singulares do cinema latino-americano contemporâneo”, diz Laura Bermúdez. “SOY LOCO POR TI, CENTROAMÉRICA” é, assim, um convite para atravessar fronteiras que não são apenas geográficas. Durante quase um mês, o público brasileiro poderá descobrir uma América Central múltipla, inquieta e cinematograficamente pulsante — e talvez reconhecer, nas histórias projetadas na tela, muito mais do Brasil do que imaginava.

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