
A vitória eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva vem sendo amplamente celebrada como um dos grandes momentos políticos de nosso tempo: é a primeira vez que um candidato à presidência no Brasil consegue reverter uma derrota no primeiro turno — um feito alcançado graças a uma esquerda revigorada e a uma estratégia digital recém-implementada, por um candidato que, ainda em 2019, encontrava-se confinado injustamente em uma cela de prisão.
Mas é ainda mais impressionante porque exigiu que Lula vencesse não apenas as poderosas forças mobilizadas contra a esquerda dentro do Brasil, mas também um governo hostil em Washington empenhado em removê-lo do poder fora do país. Em linha com a sua Estratégia de Segurança Nacional atualizada, o governo Trump tem estado ocupada ao longo dos últimos 21 meses colocando o polegar na balança sempre que pode para minar os governos de esquerda na América Latina e dar uma vantagem aos candidatos autoritários de direita na região.
Esse documento deixou clara a sua intenção de “reafirmar e fazer cumprir a Doutrina Monroe” e de “recompensar e encorajar os governos, partidos políticos e movimentos da região amplamente alinhados com os nossos princípios e estratégia”. Esta estratégia tem sido extremamente bem sucedida. Trump usou uma combinação de ameaças e uma linha de crédito para manter vivo o caótico e impopular governo de Javier Milei na Argentina. Ele sancionou o presidente de esquerda da Colômbia, Gustavo Petro, antes de apoiar o candidato presidencial de direita e deter um dos seus críticos mais conhecidos. Ele apoiou uma repressão da direita contra os funcionários do governo boliviano, com o objetivo de isolar a direita do país das acusações de corrupção.
E na Venezuela, ele simplesmente sequestrou a presidente em exercício e ameaçou fazer o mesmo à sua sucessora se ela não ficasse de joelhos. O Brasil deveria ser o próximo dominó a cair. Um dia antes da votação no segundo turno presidencial, a Reuters informou que o governo vinha trabalhando para minar Lula antes da eleição. De acordo com esse relatório, os dois funcionários do Departamento de Estado responsáveis por esta campanha tinham dito explicitamente aos diplomatas dos EUA no Brasil que o objetivo final do governo era trazer Jair Bolsonaro – o antigo presidente e pai do oponente de Lula, que está impedido de concorrer e que agora cumpre uma pena de 27 anos de prisão por planejar um golpe de Estado – de volta ao poder.
O relatório da Reuters foi apenas uma confirmação mais ou menos concreta de algo que já era bastante óbvio. Os elementos da campanha contra Lula não eram segredo, quer a aplicação pelo governo de tarifas de 50% ao Brasil como punição pela acusação de Bolsonaro, quer a sanção de um juiz do STF. Até agora, Trump não reconheceu oficialmente o resultado, embora o resto da região, incluindo os líderes de direita na América Latinha, tenha felicitado Lula publicamente.
A tudo isto, provavelmente também podemos adicionar as falcatruas da Meta – a empresa-mãe proprietária do Facebook, Instagram e WhatsApp – para limitar a presença de Lula nas redes sociais e dos seus aliados e para impulsionar o seu rival. Ontem, os trabalhadores da Meta no Reino Unido divulgaram uma declaração atribuindo a culpa aos “executivos e líderes empresariais” da empresa, cujas tendências políticas, escreveram eles, “não têm sido segredo”. O CEO da Meta, Mark Zuckerberg, é um dos vários executivos de tecnologia que se curvaram a Trump desde sua reeleição em 2024, doando US$ 1 milhão para sua posse e aparecendo atrás dele no evento – tanto que Trump supostamente zombou de Zuckerberg, gabando-se para as pessoas sobre como ele estava “me beijando” antes de mostrar-lhes seus textos bajuladores.
Portanto, esta não é apenas uma grande derrota para a direita brasileira, mas também para os seus homólogos do MAGA nos Estados Unidos. O Brasil é o maior país da América do Sul, e a sua importância geopolítica é indicada pelo fato de que mesmo os seus vizinhos com governos de direita estão a optar por não alienar o governo de Lula. Derrubar um líder esquerdista teria dado um grande prémio à “Doutrina Donroe” de Trump; em vez disso, mostrou os limites do seu poder para remodelar a política mesmo no quase “quintal” dos Estados Unidos.
Ao mesmo tempo, o governo Lula respondeu com força, acusando formalmente Washington de interferir nas eleições e de negar vistos a dois responsáveis estadunidenses que disse estarem envolvidos no esforço para interferir, entre outras coisas. Como Trump se recusou a reconhecer a vitória de Lula, um antigo conselheiro de Lula ignorou o fato. “O mundo inteiro já reagiu. Os EUA não podem se opor ao resultado eleitoral”, disse ele, antes de indicar que o Brasil estava preparado para um relacionamento ruim com o governo Trump, se necessário.
Não devemos exagerar esta derrota. Lula pode ter vencido – uma grande vitória tanto para a esquerda brasileira como para qualquer pessoa interessada em ter um planeta habitável para a vida humana – mas terá de governar com um Congresso onde a extrema direita bolsonarista detém grande influência, uma posição difícil que poderia ser ainda mais difícil por uma Washington rancorosa ainda empenhada em infligir a derrota a um proeminente líder de esquerda. Ainda assim, a vitória de Lula dá à esquerda no Brasil uma oportunidade de lutar. E, no mínimo, o fato de ser a primeira vez que um Estado latino-americano deixa o governo Trump com o nariz sangrando enquanto tenta intrometer-se nos negócios dos seus vizinhos não é um marco pequeno.
Fonte: Texto originalmente publicado no site Jacobin.
Link direto: https://jacobin.com.br/2026/10/a-vitoria-de-lula-e-mais-uma-derrota-para-donald-trump-e-as-big-techs/
É escritor da redação da Jacobin e mora em Toronto, Canada
Tradução: Cauê Seigner Ameni

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