Viktor Tsoi: a lenda do soft power soviético

Viktor Tsoi. Crédito: The Moscow Times.

A diáspora coreana provocou mudanças importantes não apenas para os países e cidades que receberam seus imigrantes, mas também para a história da Coreia do Sul e da Coreia do Norte em si, pois ajudou a expandir a integração da cultura coreana com o mundo, provocando pequenos mas também grandes impactos históricos, de ordem política, econômica e social.

Infelizmente, sabe-se mais do resultado desta diáspora para a Coreia do Sul em especial, através dos programas de TV e pelo conteúdo audiovisual. Contudo, há histórias incríveis de imigrantes norte-coreanos e seus descendentes, que, ainda por cima, são positivas e dignas de serem contadas.

Hoje vou apresentar um pouco da trajetória de um russo-soviético, de origem norte-coreana, que, com sua banda (Kino), tornou-se um pioneiro do rock, mais especificamente do Punk Rock, New Wave e Gothic Rock, no antigo bloco soviético, e que possui um séquito de fãs até hoje. E para aqueles que, como eu, dedicaram um bom tempo de suas vidas pesquisando sobre esta região do mundo e gostam de Rock e outros gêneros que foram derivados dele, Viktor Tsoi, também se tornou uma enorme referência. Sou uma fã confessa.

Monumento a Viktor Tsoi em Qarağandı (Karaganda), no Cazaquistão. Crédito: russkiymir.ru

É possível escutar Viktor Tsoi em “Descendentes do Sol”, série sul coreana de grande sucesso de crítica e público, de autoria dos roteiristas Kim Eun-sook e Kim Won-suk. A primeira já recebeu inúmeros prêmios e também assina o drama Goblin, outro grande “hit” da Onda Coreana que avança pelo mundo. No segundo episódio, o personagem principal, o capitão Yoo Si-ji (Song Joong-ki) está com seu colega, o sargento Seo Dae-young (Jin Goo), em um bar na cidade ficcional de Urk, localizada nos Balcãs.

Selo Russo, em homenagem à Viktor Tsoi. Crédito: 123RF.com

Eles conversam com uma atendente russa, que parece usar tal oficio como fachada para esconder sua real função – uma espécie de comerciante de artigos legais e ilegais e que tem contato com vários grupos… Neste episódio, uma “Koryo-saram”, como se autodenominam os grupos de etnia coreana, habitantes do antigo bloco soviético, chega para comprar uma arma com sua compatriota, o que chama a atenção do capitão Yoo Si-ji. Durante toda esta cena quem dá o tom musical do bar, é Viktor Tsoi e a banda Kino.

Um retrato de Viktor Tsoi no centro de São Petersburgo, em 2014. Crédito: Tass.

Viktor Robertovitch Tsoi (Виктор Робертович Цой), nasceu em 21 de junho de 1962, em Leningrado (hoje São Petersburgo), e faleceu em 15 de agosto de 1990 (a exatos 27 anos no dia de hoje), em um acidente de carro na Letônia, em meio às gravações de um novo disco da banda Kino, do qual foi cofundador. Ele foi um cantor e compositor, que começou a escrever músicas ainda adolescente. Ao longo de sua carreira contribuiu com uma infinidade de obras musicais e artísticas, resultando em dez álbuns. Ele também apareceu em alguns filmes soviéticos, como por exemplo “Assa” de 1987, dirigido por Sergei Soloviov, e “Agulha” de Rashid Nugmanov.

Introdução do filme “Agulha“, sucesso cinematográfico do mundo underground soviético.

Ambos os filmes abordam o mundo do crime, e passaram para história do cinema como obras cults, mas também ficaram conhecidos por ampliar a popularidade da banda Kino na região. Estes filmes, junto com o álbum de maior sucesso do grupo Группа крови (grupo sanguíneo, em tradução livre) resultaram na chamada “Kinomania”, uma febre que tomou conta da juventude local. Esta banda foi a responsável pela popularização do gênero Rock e Punk Rock em toda a União Soviética.

Viktor foi o único filho de Valentina Vasilievna Guseva, (nome de solteira), (1939-2009), professora, nascida em São Petersburgo, de origem russa e Roberto Maksimovitch Tsoi (Choi como é pronunciado em coreano) (1937), engenheiro, também nascido na antiga Leningrado, de origem norte-coreana. A ascendência coreana de Tsoi chega até Songjin, Hamgyong, (Kimchaek de hoje), Coréia do Norte, onde seu bisavô Choi Yong-nam nasceu. Esta região tem estreitos laços históricos com os russos antes, durante e após o período soviético, pois historicamente houve uma migração significativa das províncias do norte da Coréia, especialmente de Hamgyong, para o Extremo Oriente Russo.

Viktor ao centro e seu pai norte-coreano. Crédito: Diletant Media

Ainda sobre a vida pessoal do cantor, ele casou com Marianna Igorevna Rodovanskaya (nome de solteira), escritora, tradutora e produtora musical de origem russa nascida em Leningrado, com quem teve um filho, chamado Aleksander Viktorovitch Tsoi (5 de agosto de 1985), hoje músico e compositor. A família enfrentou muitas dificuldades financeiras, já que, entre muitos problemas, os álbuns da banda Kino eram considerados ilegais, tendo uma distribuição clandestina. Tsoi também chegou a trabalhar em Kiev, capital da Ucrânia, sendo deportado para Moscou, quando as autoridades descobriram que ele atuava sem permissão no país.

Viktor, sua esposa e filho. Crédito: Diletant Media

Nos anos 1970 e 1980, o rock e seus derivados eram um movimento clandestino na Rússia Soviética, limitado principalmente a Leningrado; as estrelas do pop de Moscou dominavam o cenário da música e recebiam maior exposição da mídia. Os grupos de rock em geral não eram populares com o governo, recebiam muito pouco, ou quase nenhum financiamento, nem exposição da mídia. Tal perseguição é algo comum na história do rock, basta lembrar que o gênero musical também sofreu censura nos Estados Unidos, seu país de origem, na década de 50, em que o rock foi considerado música do diabo por muitos religiosos e, portanto, por muito tempo, proibido em alguns estados e instituições.

No início de sua carreira, Tsoi chegou a colaborar e formar outras bandas, como a Palata N°6, que viria criar uma fusão com o grupo Piligrim e fundar a banda Kino, em Leningrado. Anteriormente o grupo recebeu o nome de “O Hiperboloide do Engenheiro Garine”, uma referência ao clássico da literatura escrita por Aleksei Tolstoi, um escritor soviético de ficção científica. Posteriormente, eles decidiram usar o nome Kino, por ser mais sintético e pela apreciação que todos os integrantes tinham pelo cinema. Em 1982, as apresentações no Rock Club contaram com Tsoi, Aleksei Rubin, na guitarra, e Oleg Valinskii na bateria. Este último acabou deixando a banda um tempo depois.

O Rock Club de Leningrado foi um dos poucos lugares públicos onde as bandas deste estilo podiam tocar. Tsoi apresentou-se como artista solo também, impressionando os frequentadores, entre eles um músico muito conhecido, Boris Grebenshikov, considerado também um dos pais fundadores do Rock Russo. Este com os integrantes de seu grupo Aquarium, em várias ocasiões auxiliaram a banda Kino, quando esta, por exemplo, necessitou de músicos para apresentações, já que com a saída do baterista, apenas dois integrantes permaneceram.

O Rock Club de Leningrado, atual São Petersburgo. Crédito: Seventeen Moments in Soviet History – Michigan State University.

Outros integrantes também participaram momentaneamente do conjunto Yuri Kasparyan, guitarra solo (1983-1990), que substituiu Rubin, Igor Tikhomirov, baixo (1986-1990), que substituiu Aleksander Titov, baixo (1983-1986) e Georgiy Guryanov, bateria (1983-1990).

A banda teve contribuição de uma série de músicos, mas no início foi composta apenas pelos três integrantes mencionados acima, que iniciaram com a gravação de uma demo no apartamento de Tsoi. Esta fita foi copiada e distribuída entre os entusiastas do gênero gratuitamente, de forma clandestina. Segundo o próprio músico, estas limitações ocorriam em razão da resistência que se tinha à época em correr riscos. Conforme ele, ninguém queria inovar musicalmente, nem contestar a política do governo soviético.

Em 1982, a Kino lançou seu primeiro álbum “45”. Neste trabalho, eles abordaram de forma poética a vida na cidade. Mais tarde, com o aumento da popularidade, eles incluíram em seu repertório musical tópicos políticos de forma simbólica, sutil e indireta, contando história de pessoas que são levadas presas para locais distantes e nunca mais são vistas, ou abordavam mensagens contra a guerra, ou discutiam o conservadorismo da população russa.

Capa de um álbum da Banda Kino. Crédito: Google.

Na segunda edição do Concerto do Leningrado Rock Club, a banda ganhou a competição com a música anti-guerra de Tsoi “Я объявляю свой дом … (безъядерной зоной)” (“Eu declaro a minha casa, uma zona livre de armas nucleares” – tradução livre da autora deste texto). A popularidade da música foi alimentada pela guerra no Afeganistão (1979-1989), e reivindicava a vida de milhares de jovens cidadãos soviéticos. Contudo, ainda que as letras de Tsoi tivessem certo apelo político, as músicas não continham uma excessiva abordagem política, sendo a liberdade o único tema recorrente.

Em geral, suas canções enfocavam principalmente as dificuldades do dia-a-dia e tratavam de temas tão abrangentes como o amor, a guerra e a busca pela liberdade. As letras de Tsoi são caracterizadas por uma simplicidade poética e, musicalmente, a Kino inspirou-se no Post Punk, na New Wave e outros derivados do Rock, seguindo a mesma tendência do Ocidente, em que surgiam, na mesma época, bandas como The Cure e The Smiths, por exemplo.

A era Gorbatchiov iria transformar o rumo da banda. As reformas políticas, sociais e econômicas associadas da Glasnost e Perestroika amenizaram as restrições na mídia e as bandas de rock começaram a poder ser mencionadas nos jornais e exibidas na TV. Em 1986, Tsoi usou este ambiente de flexibilização do sistema para lançar músicas que falavam politicamente de forma mais direta ao público jovem, como a intitulada Хочу Перемен! (“Quero Mudanças!”), do álbum “Последний Герой” (“O Último Herói”), lançado em 1989, que convocava a geração jovem a exigir mudanças dentro do sistema. Problemas de ordem social também foram abordados e o sucesso foi tanto, que fãs de outras repúblicas soviéticas passaram a traduzir as músicas do russo para suas línguas locais (vale lembrar que a União Soviética foi oficialmente uma união de repúblicas autônomas, e não um país só, como muitos no Ocidente ainda pensam).

Grupo Kino. Crédito: The Calvet Journal

Embora Tsoi fosse uma grande estrela, ele ainda vivia de maneira relativamente comum. Ele manteve seu antigo emprego em uma caldeira, chamada Kamchatka, local onde alguns acreditam que tenha morado também. Mais tarde, o espaço seria projetado como um museu / clube dedicado ao cantor. O fato de ele trabalhar em uma fábrica de caldeiras surpreendeu muitas pessoas.

Tsoi disse que gostava do trabalho e também precisava do dinheiro para apoiar a banda, já que ainda não recebiam apoio do governo e seus álbuns foram copiados e transmitidos gratuitamente, o que apenas ampliou o número de seguidores pelo cantor e pela Kino. Em 1990, eles se apresentaram no Estádio Luzhniki de Moscou (estádio onde ocorreu a abertura e o encerramento das olimpíadas de 1980) com a presença de 62.000 fãs.

Show de 1990, no Estádio Luzhniki de Moscou:

Porém, com a morte de Tsoi, a Kino encerrou suas atividades. Dois dias depois de seu falecimento, em 17 de agosto de 1990, Komsomolskaia Pravda, um dos principais jornais soviéticos, publicou a seguinte definição sobre Tsoi, uma figura da música bastante fiel aos valores coletivos sociais, e seu significado para a juventude da nação: “Tsoi significa mais para os jovens de nossa nação do que qualquer político, celebridade ou escritor. Isso ocorre porque Tsoi nunca mentiu e nunca se vendeu. Ele era e permanece sendo ele mesmo. É impossível não acreditar nele … Tsoi é o único roqueiro em que não há diferença entre sua imagem de rocker e sua vida real, ele viveu do jeito que ele cantou … Tsoi é o último herói do rock”. O impacto foi tal que um dos slogans de graffiti mais populares na Rússia e dentro de ex-nações da URSS diz: “Tsoi está vivo e sempre estará em nossos corações”. Até hoje o Rock e suas outras linhas continuam bastante fortes na Rússia.

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Fonte: Texto originalmente publicado no site do Koreapost
Link direto: http://www.koreapost.com.br/entretenimento/jovem-de-origem-coreana-e-a-maior-lenda-do-rock-sovietico/

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