O Museu Nacional e o fim do Projeto Brasil Nação

Acervo do Museu Nacional Brasileiro antes do incêndio deste ano Crédito: vida sem paredes.

A história dos museus guarda forte relação com os nacionalismos e o imaginário de uma Nação – não é diferente no caso do Museu Nacional, cujo acervo de 20 milhões de itens foi quase totalmente consumido pelo fogo em um incêndio no início do mês. Corte de verbas e problemas estruturais, associados à fragilidade das políticas públicas para os museus do país e ao pouco investimento na área, são alguns dos fatores que ajudam a compreender o acontecimento que foi recebido com pesar pela comunidade científica do país e do mundo.

A instituição que completou 200 anos em 2018 era a mais antiga do país e reunia importante acervo de áreas como antropologia, arqueologia, zoologia, entomologia e paleologia. A família real portuguesa havia transferido-se para o Rio de Janeiro há uma década quando D. João VI assinou, em 6 de julho de 1818, o decreto que criou o Museu Real. Com sede em um prédio no Campo de Santana, o primeiro museu do país estava voltado para as ciências naturais, constituindo-se como um museu de história natural.

A antiga primeira sede do Museu Real no atual Campo de Santana no centro do Rio de Janeiro. Crédito: Perfil da Planta.

A coleção de caráter diverso “contava  com material oferecido pelo próprio D. João VI, que se constituía em peças de arte, coleções de quadro, objetos de mineralogia, artefatos indígenas, animais empalhados e produtos naturais” (SCHWARCZ,1989).  Em 1892, após a Proclamação da República (1889) e o banimento da Família Imperial do país (1890), a sede do museu seria transferida para o antigo Palácio em que residiam o Imperador e alguns de seus familiares, na Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão. Uniam-se assim a história do museu e do Palácio, marcados pela relação com o período imperial.

A história da formação do acervo do Museu Nacional guarda forte relação com um projeto de nação, forjado ainda durante o Império, que buscava inserir o Brasil na história das civilizações. Não apenas o prédio foi a residência dos imperadores, mas também as coleções da família imperial foram importantes para a formação do acervo do museu ao longo do século XIX.

Os museus europeus construídos a partir do final do século XVIII forjavam o imaginário da nação a partir da reunião de coleções de objetos do passado (com destaque para a antiguidade clássica) de lugares distantes, a fim de construir uma linearidade temporal ligando a história nacional à uma história da humanidade a partir dos valores da civilização ocidental moderna. Em texto sobre a formação dos museus e o imaginário nacional Myriam Sepúlveda Santos comenta a relação entre esse processo e o imperialismo do século XIX, incluindo o Brasil: 

“Durante o século dezenove, todas as grandes nações européias dedicaram-se a trazer para seus museus objetos da antiguidade clássica. Expedições arqueológicas francesas, inglesas, holandesas e alemãs invadiram a Grécia, Itália, Ásia Menor, Norte da África e regiões onde se localizavam as antigas cidades mesopotâmicas em busca das antiguidades clássicas. O Brasil do século dezenove era regido por uma monarquia européia e participou desta corrida” (SANTOS, 2000, [n.p.])

Assim se formou parte do acervo do Museu Nacional, como a maior coleção egípcia das Américas formada por D. Pedro I e D. Pedro II, a partir de viagens da família real, incluindo presentes e peças adquiridas em leilões. Também vale menção a coleção de arqueologia clássica, formada a partir de peças trazidas pela Imperatriz Teresa Cristina ao chegar no país em 1843 e enriquecido ao longo do século XIX, que incluía, em suas centenas de itens, objetos escavados das ruínas de Pompéia e Herculano, na Itália.

O acervo de história natural, por sua vez, trazia as riquezas naturais do país para o projeto de construção do imaginário da nação. Nesse sentido, conviviam no Museu Nacional, desde o período da sua constituição, natureza e civilização, na tentativa de forjar uma identidade nacional. Ao longo do século XX e XXI, as coleções do Museu Nacional cresceram, principalmente voltadas para as especificidades da cultura e das riquezas naturais do país, tornando-se referência para a pesquisa em diversas áreas. Nesse período, outros projetos de nação estiveram em disputa, questionando os modelos do século XIX e propondo novas leituras do imaginário nacional.

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A situação que levou ao incêndio do Museu Nacional diz muito dessas disputas sobre a história do país e seus sentidos. Agora que restam apenas as ruínas, o que se pode disputar são os projetos para a reconstrução do museu. Se este foi forjado a partir de um projeto de nação do século XIX que visava incluir o Brasil no panteão das civilizações, o que não se deu sem críticas, incompletudes e contradições, o futuro das ruínas nos coloca novamente diante de projetos de país.

Nem bem esfriadas as cinzas, a saraivada de críticas feitas à gestão do Museu pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) dá o tom do debate em curso. Surpreendentemente – talvez nem tanto -, boa parte das acusações vem do próprio governo federal, responsável pela dotação orçamentária da Universidade e do próprio Museu, e que propõe que o mesmo passe a ser administrado separadamente  da UFRJ. Fazem eco às críticas setores da sociedade muito bem representados nos órgãos de mídia tradicionais, os quais defendem “outros modelos de gestão” para o Museu, mais alinhados com as práticas do setor privado.

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Embora o Governo Federal e os setores liberais não estejam, oficialmente, dizendo a mesma coisa, basta conhecer as relações entre eles para reconhecer o alinhamento em prol de um modelo de administração privada menos preocupado com a reformulação de um acervo de interesse nacional e mais com a criação de um espaço expositivo de interesse econômico – um “Museu (Nacional) do Amanhã”, quem sabe.

Museu Nacional do Amanhã; Crédito: Blog Edilson Silva.

Será este o Brasil que um novo Museu Nacional representará? Uma sociedade que valoriza o “choque de gestão” e o utilitarismo econômico certamente se verá mais claramente neste espaço do que em meio a coleções de história natural e antropologia, por exemplo. Entretanto, que argumentos outros setores da ampla sociedade brasileira darão para a construção de um projeto alternativo? Não basta defender a Universidade, pois o debate não é simplesmente sobre a capacidade de a UFRJ gerir ou não um museu, mas sim sobre que tipo de país se quer construir e como este país deve administrar seu patrimônio. Desse modo, uma política de museus para o país, que não seja resolvida por decretos, nos coloca diante do desafio de pensar o encontro entre passado e futuro na reconstrução dos imaginários nacionais.

Juliana Muylaert Mager

Historiadora e professora de história, atualmente cursa o doutorado em História Social na Universidade Federal Fluminense. Realiza pesquisas sobre as relações entre história e cinema, tendo também participado na produção de dois filmes curta-metragem realizados a partir de imagens de arquivo.

Videos sobre a história e um tour pelo que foi um dia o Museu Nacional do Rio de Janeiro. 

TV Brasil

Uma visita mediada ao Museu Nacional – UFRJ – Canal no YouTube

Debate com o historiador Bruno de Cerqueira e a antropóloga Luísa Molina na TV Senado sobre as consequências da perda do acervo para o Brasil. 

Bibliografia consultada:

SANTOS, Myriam Sepúlveda. Os museus brasileiros e a constituição do imaginário nacional. Sociedade e Estado. v. 15, n. 2, Brasília, Jun. /Dez. 2000. Disponível em:                           

<http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-69922000000200005&script=sci_arttext&tlng=pt>.

SCHWARCZ, Lilian M. O nascimento dos museus brasileiros 1870-1910. In: MICELI, Sergio. História das ciências sociais no Brasil. São Paulo: Vértice, 1989.

Para saber mais sobre o tema:

http://www.museunacional.ufrj.br/

DANTAS, Regine. A casa do Imperador. Do paço de São Cristóvão ao Museu Nacional. Disponível em: <http://www.museunacional.ufrj.br/semear/docs/Livros/livro_DANTAS-REGINA.pdf>.

KNAUSS, Paulo. Quais os desafios dos museus em face da história pública? In: MAUAD, Ana Maria; SANTHIAGO; Ricardo; BORGES, Viviane Trindade (Org.). Que história pública queremos? São Paulo: Letra e Voz. 2018.

RANGEL, Marcio. Os museus de história natural como espaços de construção do saber. História, Ciências, Saúde. v.17, n.3, jul.-set. 2010, p.845-848.

SANTOS, Myriam Sepúlveda. Museus brasileiros e política cultural. Revista Brasileira de Ciências Sociais. v. 19, n. 55, junho, 2004. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf//rbcsoc/v19n55/a04v1955.pdf&gt;.

 

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