Fantasmas do passado e espectros do presente: a União Europeia em crise

Crédito: brexitcentral.com

A Crise sistêmica da União Europeia (UE) entrou em um ponto de inflexão nos últimos dois anos pela saída da Grã-Bretanha e a recente sanção política a Hungria. Aliada a política anti-Rússia seguida pelas lideranças da organização, que causam um verdadeiro prejuízo a diversos países europeus e que está levando a saídas políticas radicais com setores fascistas, pôs a UE hoje na sua mais grave crise que traz o risco de desagregação econômica e política. Uma reviravolta não somente na construção das relações entre países do continente, como no início do colapso da ideia de Europa.

O ano de 2018 é marcado pelos 30 anos da entrada da Hungria no Acordo Geral de Tarifas e ComércioGATT-, acontecimento que puxou outros países do leste europeu, com exceção a Romênia em um prazo de um ano para a entrada no acordo. A Hungria foi também o primeiro Estado fascista da Europa. Em 1919 o Almirante da marinha austro-húngara Mikklós Horthy massacrou a República Soviética da Hungria e se tornou o regente no ano de 1920, cargo que manteria até outubro de 1944 sob proteção dos britânicos primeiramente e depois dos alemães.

O almirante foi também comandante do exército durante a repressão aos comunistas na revolução de 1919. Escolhido pela Assembleia Nacional Húngara em 1920 para ser Regente do país até a possibilidade de volta do príncipe herdeiro Otto de Habsburgo, Horthy implantou uma ditadura fascista que durou até o ocupação alemã em 1944. Fugiu e exilou-se nos Estados Unidos, onde morreu na década de 1950.

Horthy ao lado de Hitler em um desfile. Crédito: The Times of Israel.

A Hungria, portanto, é um país importante na conjuntura da Europa, e que denuncia as tendências políticas conjunturais. Membro há 14 anos da UE, a duas semanas foi o primeiro Estado na história da organização a sofrer a cassação de direito de voto por causa de restrições a políticas migratórias, sendo acusada de ofensa ao Estado de direito que é um dos ’’princípios basilares dos europeus’’. Os efeitos desta decisão são ainda incertos, mas o país não é o primeiro, e provavelmente não será o último, a entrar em conflito com as decisões tomadas por Bruxelas.

No início do ano, Polônia e União Europeia também chegaram a trocar acusações mútuas, e os pequenos países também se posicionam radicalmente contra a atual política migratória. O Primeiro Ministro da Eslováquia Robert Fico chegou a falar com todas as palavras ’’O islã não tem lugar na Eslováquia’’, e ele não foi o único a utlizar este tom, recentemente a Suécia também viu crescer partidos com retórica semelhante. Em 2016, Angela Merkel, em meio ao desespero da crise, tentou duas soluções que foram por água a baixo. A primeira foi encarregar Recep Tayyip Erdoğan, por meio do Primeiro Ministro Ahmet Davutoğlu, de segurar os imigrantes nas fronteiras turcas com a Europa, em troca da associação do país a UE.

No entanto com o afastamento do primeiro ministro turco o acordo caiu. A segunda foi ainda mais decepcionante, pois tentou dividir os imigrantes em cotas para os países, onde todos seriam forçados a receber. A medida não somente não foi bem recebida como também não foi aprovada no Parlamento Europeu, onde a única solução possível foi pedir para o não fechamento das fronteiras, mas apenas o estabelecimento do controle.

Desde então, a crise migratória encontra-se no atual estágio, onde dependendo do país existe ou não a recepção, sendo espontânea entre os membros da organização a política com relação aos imigrantes. A Hungria foi dos casos mais escandalosos por chegar a decretar o fechamento das fronteiras e mesmo a colocação das forças armadas no patrulhamento por ordens diretas do Primeiro Ministro Viktor Orban que não esconde suas posições de simpatia por Mikklós Horthy. Ele por sua vez não é a única liderança política na UE a nutrir admiração por lideranças ou movimentos fascistas e com atitudes controversas restritas aos imigrantes.

Crédito: Russia Today.

Desde 2014, os europeus apoiam sem ressalvas o governo de Petro Poroshenko  na Ucrânia que é sustentado por movimentos paramilitares fascistas. Na Polônia, o Partido Lei e Justiça está demolindo a história da Segunda Guerra Mundial, mesmo mediante os protestos de Israel e praticando um verdadeiro revisionismo em personagens do passado. Na Alemanha, nazistas voltam a se exibir sob novas roupagens, sobre novos palavreados como civilização ocidental, cultura europeia, valores morais universais e etc.

A história é chave para compreender como chegou-se a este ponto, em que se constroem as narrativas políticas para sustentar a ideologia sobre a qual os Estados fundam-se, neste sentido a própria UE. Recapitular a própria construção da ideia de Europa ajuda a compreender a como deu-se a relação entre os países da organização, e mesmo a própria critica a este contexto que não é recentemente.

O historiador da Escola dos Annales Jacques Le Goff, na década de 1960, publicou um importante trabalho sobre a história medieval europeia, cujo nome é “As Raízes Medievais da Europa. Apaixonantemente ufanista, este livro do francês consolida a ideia de uma narrativa histórica que localiza na Idade Média elementos culturais de autoafirmação- embora tenha sido meticuloso na fronteira com o idealismo de uma Europa como fizeram os historiadores do século XIX- de uma formação social, econômica e histórica comum que punha os povos europeus em consonância.

Entretanto, isso não era visto como um problema na época, a Europa precisava combater o socialismo e espantar o fantasma do fascismo que havia ’’dividido’’ os países da região, especialmente Alemanha e França. Acreditava-se que uma união incondicional mudaria tudo e seria capaz de deixar o passado para trás, no entanto seria necessário criar um mito de origem. Com a desagregação do bloco socialista e a absorção dos países do leste europeu ao sistema capitalista, um dos grandes perigos na década de 1990 para muitos era a discrepância existente entre estes e o ocidente.

Mas obviamente que o baronato diretor da UE não estava se importando muito com isso, e muito menos com quais eram as lideranças e bases ideológicas que fundariam estes novos Estados. A ideia de Europa funcionava muito bem para os franceses, alemães, britânicos e nórdicos. Afinal, todos eles eram a Europa nascida do medievo, como se referia Jacques Le Goff. No entanto, para os países do leste europeu esta narrativa histórica era duvidosa. Já nesta época outro historiador medievalista Patrick Geary escreveu um trabalho de grande impacto cujo o nome era “O Mito das Nações: A invenção do nacionalismo”,onde teceu críticas ferrenhas a estas construções históricas que estavam transparecendo velhos conflitos passados entre povos europeus que denotavam disputas crescentes no presente.

A década de 1990 verá o aparecimento com grande força de discursos no leste europeu com conotações fortemente étnicas, húngaros voltam a se reinvindicar magyares; os sérvios a construção da ’’Grande Sérvia’’; e os croatas ressuscitam o Movimento Revolucionário Croata (Ustaše), fascista, ultranacionalista e racista que foi recentemente muito citado por ocasião das polêmicas em volta da seleção croata durante a Copa do Mundo desta ano, na Rússia. Como esses movimentos ressuscitados sobre outras roupagens eram inimigos do socialismo, a UE os via com bons olhos na década de 1990.

O mesmo Viktor Orban que hoje é Primeiro Ministro, na década de 1980, defendeu o fim do socialismo na Hungria, assim como o atual Partido Lei e Justiça na Polônia tem suas origens no movimento Solidariedade na década de 1980, que havia rachado em vários pequenos movimentos no país unidos contra o socialismo, mas divididos quanto a relação com o ocidente de proximidade ou afastamento. Temos dois exemplos clássicos quanto a isso, onde o Partido Radical Sérvio posiciona-se ainda contra a UE, e o próprio nacionalismo croata que tendeu a aproximar-se da organização.

Esses movimentos de cunho fascista não eram restritos ao leste na década de 1990, pelo contrário. A Frente Nacional na França arregimentou muitos em um momento em que havia uma corrente migratória de cidadãos do leste europeu para o ocidente por causa da ’’Terapia de choque’’ neoliberal, que visava destruir as antigas democracias populares. Isso para não lembrar do bonapartismo de personagens como Silvio Berlusconi na Itália mediante a Operação Mãos Limpas, que foi uma série de operações conduzida pela justiça da Itália ao longo da década de 1990, em volta do famoso escândalo do Banco Ambrosiano e do Banco do Vaticano. Atinge diversos partidos políticos da Itália que são dissolvidos assim como marca a ascensão do milionário Silvio Berlusconi ao poder.

Os anos 2000, ofuscaram esses fantasmas em razão da prosperidade econômica, porém o sismo causado pela crise de 2007-08 expôs novamente esses desacordos e fantasmas do passado. De uma família unida por laços de interesse, a UE passou a ser um problema local para essas elites políticas instaladas em 1989, já que a solução adotada pelo G20 de segurar os cintos e impor medidas de austeridade geraria novas convulsões sociais. Dramática foi por exemplo a situação da Grécia entre 2009 e 2015, onde governos seguiam com diversas coalizões, sem resolver os problemas do país e pegavam pacotes de empréstimos sequencialmente.

Os países menores e mais periféricos economicamente da UE sentiam a crise e aplicavam a cartilha neoliberal, Espanha, Portugal, e países do leste como Romênia e Bulgária. Isso abria alas para que os setores fascistas entrassem com força, mas o pior não foi isso. A partir da crise gerada pelo Golpe de Estado de fevereiro de 2014 na Ucrânia contra o então presidente democraticamente eleito Viktor Yanukovich, os Estados Unidos praticamente obrigou a UE a aplicar contra sua própria vontade uma enxurrada de sanções contra a Rússia respondidas de igual maneira.

A consequência não poderia ter sido pior, pois diversos países europeus como Espanha, Finlândia, Eslováquia, e especialmente a Alemanha tiveram um prejuízo milionário por causa de uma guerra econômica. De acordo com cálculos feitos pelo Instituto Austríaco de Pesquisa Econômica- WIFO, no ano de 2017, as perdas anuais desde o ano de 2014 eram de 15% das exportações na Europa, somente a Alemanha viu cair 1/3 às exportações, conforme o site russo Sputnik.

Entretanto, as sanções que andaram lado a lado com o prejuízo econômico não tardaram a trazerem efeitos colaterais sob os aliados do alicerce da UE, especialmente a Alemanha que hoje se vê em isolamento crescente. As elites locais dos países pressionadas pela crise e o prejuízo causado pelas sanções tentaram voltar atrás e normalizar as relações comerciais com os russos, pressionando inclusive as lideranças da organização a não aplicarem mais sanções.

A manutenção da politica de beligerância econômica forçou estes grupos a agirem então pela dissidência com a organização, e mesmo Ângela Merkel recentemente recusa-se a aplicar mais sanções sobre os russos e caminha no sentido de acordar com o presidente Vladimir Putin um “cessar fogo” para tentar salvar a organização da fragmentação e salvar sua própria pele na Alemanha, devido ao crescimento evolutivo de partidos como AFD que põem em pauta a anulação da guerra e poderia afastar setores empresariais que entraram em prejuízo.

As elites locais destes países foram plenamente convencidas na prática do quão contraproducente foram as sanções, em muitos países, incluso a Alemanha, depois dos EUA, a Rússia era a principal parceira comercial, ou estava entre as três primeiras. As sanções tornaram-se um bumerangue, e um a um, principalmente entre os países do leste, a autoridade da UE foi esvaindo-se. Desde 2012, o Aurora Dourada, partido de extrema-direita, cresceu na Grécia, os nacionalismos da Catalunha e Escócia voltaram a reafirmarem-se, o FIDESZ, sigla para União Cívica Húngara, partido conservador de Viktor Orban, de tendências fascistas, nos últimos anos vem crescendo e assumindo a posição eurocéptica. Da mesma forma, houve a estrondosa vitória do Lei e Justiça na Polônia em 2015.

Essas vitórias, assim como estes movimentos políticos, tinham um novo caráter contra a organização pan-europeia, agora encaradas como um instrumento de extorsão e autoritarismo sobre estes pequenos países que aspiram liberdade. Eles foram os mais prejudicados com a crise iniciada em 2008 e após a aplicação das sanções econômicas contra a Rússia, esses fatos levam com que contestem, na realidade, se a entrada na organização pan-europeia foi sabia escolha.

Esta crítica não é algo recente. Existia ceticismo desde a década de 1990 acerca da organização, não somente dentro do ponto de vista econômico dos menores países que teriam de se submeter a um mercado já monopolizado, como do ponto de vista de uma ideologia nacional destes países. O ideal de Europa criado pela UE desde o começo da absorção destes países foi imposto como algo universal, e isso tem relação não somente com os valores políticos, sociais e econômicos como os étnicos e religiosos- embora estes últimos fossem escamoteados. Isso explica a não admissão da Turquia na UE até sua desistência recente, e mesmo da própria Rússia.

Em meio a uma crise econômica e política, a ideia de civilização europeia é contestada igualmente, e do ponto de vista histórico nascem aberrações e acusações mútuas na cultura onde ocorrem os embates mais duros. Nos anos 90 e primeira metade de 2000, os responsáveis pela separação da grande família europeia eram os soviéticos e os nazistas, e um filme clássico quanto a isso é “A Queda, as últimas horas de Hitler” (2005), dirigido por Oliver Hirschbiegel. A partir dos anos de 2007 e 2008, outros culpados aparecem, e podem também serem vistos no cinema, em uma releitura perigosa da história do continente.  

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A série alemã “Unsere Mütter, unsere Väter” (Generation of War/Nossas Mães, nossos Pais) (2013), dirigida por Philipp Kadelbach conta a história de jovens berlinenses que foram para a guerra e chocaram-se com o horror, mas não da parte dos sistemáticos extermínios no leste, mas do ’’terrível’’ Exército Vermelho e dos poloneses maliciosos e assassinos. A sociedade alemã do pré-guerra é romantizada no seriado como se simplesmente o nazismo não existisse e tudo estivesse no lugar na Alemanha de Hitler, isto é, os nazistas tinham bom coração. O seriado levou a um incidente diplomático com a Polônia na época, organizações condenaram a produção publicamente.

Na mesma Polônia, no entanto o filme “Aftermath” (Após amanhã) de 2012, produzido e dirigido por Wladislaw Pasikowisk constrói a imagem de uma Polônia em 1941 não vítima do hitlerismo, mas colaboracionista do massacre de judeus e antissemita. O filme enfureceu diversos setores políticos do país que condenaram o filme, especialmente a exposição feita da figura sacra do ex-oficial do exército czarista e ditador fascista Josef Pilsudski que é dia a dia retomado como herói no país. Contudo, ele foi ex-oficial czarista e proclamou a independência da Polônia em 1919. Participou da Guerra Civil Russa ao lado do Exército Branco. A partir de 1926 implantou na Polônia uma ditadura de caráter antissemita. Pilsudski, a exemplo da época do czarismo, praticou diversos progroms (perseguição a grupos étnicos e religiosos). 

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A Euromaidan, onda de manifestações nacionalista ucranianas, chacoalhou ainda mais essas relações entre estes países, pois a Ucrânia passa publica e internacionalmente a reivindicar como heróis soldados nazistas do Exército Nacional Ucraniano que era parte da 14º Divisão da SS Galícia que cometeram crimes na URSS e Polônia, durante a Segunda Guerra Mundial. O recente filme polonês “Wołyń/Volhynia” (2016), dirgido por Wojciech Smarzowski que retrata o massacre perpetrado pela 14º Divisão da SS Galícia, bem recebido no mundo, é criticado pelo governo ucraniano que proíbe a exibição do filme no país, por atacar figuras como Pavlo Shandruk e Stepan Bandera, considerados heróis hoje na Ucrânia.

Na realidade, estes dois foram criminosos de guerra ucranianos que colaboraram com a ocupação nazista na URSS. Integraram o Exército Nacional Ucraniano que lutou pela formação de um Estado fantoche controlado pelos nazistas. Pavlo Shandruk morreu nos Estados Unidos, e Stepan Bandera foi executado em uma operação da KGB em Munique no ano de 1959. Isso se tornou sério a ponto do presidente Poroshenko condenar publicamente o filme seguido de uma resolução do parlamento polonês que decreta as ações do exército nacionalista ucraniano como crimes de guerra.

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A história é chave para compreender este momento, porque é dela que nascem medidas concretas que evidenciam disputas políticas que erodem a autoridade da organização. Recentemente por exemplo renomeou-se a Antiga República Iugoslava da Macedônia para República da Macedônia do Norte, causando uma onda de protestos na Grécia, pois isso pode significar no futuro demandas territoriais dos macedônios em direção a terras gregas na Trácia e Tessalônica. O movimento Setor de Direita na Ucrânia que deseja restaurar a Rus Kiev precisaria de territórios na Rússia, Polônia e Bielorrússia para realizar seus objetivos políticos, assim como os seguidores de Pilsudski na Polônia para construir o Miedzmorze (Reino dos Dois Mares- Mediterrâneo e Báltico) precisaria do ocidente da Ucrânia, Lituânia e Letônia, Kaliningrado e parte da própria Eslováquia. O nome é em alusão ao Reino das Duas Nações existente no século XVII que aglutinava Polônia e Lituânia, era conhecido também por União Polaco-Lituana. Tem fim durante as guerras de repartição do Estado ao longo do século XVIII entre Prússia e a Rússia. 

A UE na figura das suas grandes potências baluartes, França e Alemanha, não têm mecanismos de controle desses conflitos que crescem a cada dia entre os países da organização- exceto a Ucrânia que não é membro-, e a política migratória parece ser este clímax, onde o velho ufanismo nacionalista é usado não somente contra a vinda dos imigrantes, como também contra a própria interferência da organização em assuntos internos. A crise política que é vernizada de demandas históricas causa esta convulsão hoje na organização que não possui alguma resposta até agora. Pelo contrário, a tendência tem sido a saída de países que optam por buscar em si, e fora dos organismos internacionais, soluções para sua crise, e isso vem gerando estes conflitos.

Ao estabelecer-se a ideia de Europa no pós-guerra para unificar a sua parte ocidental em torno da ideia de uma civilização, que depois abrangeria o leste por suas características próprias já citadas, criou-se contradições internas, pois países como Bulgária e Romênia jamais poderiam ser iguais a França e Alemanha. Eram não somente promessas vazias, como impossíveis historicamente de realizarem-se, pois do ponto de vista estrutural, estes países têm uma construção diferente. Quanto às elites da Hungria, estas viam na Europa um exemplo oposto ao modelo socialista, não esperavam ter que impôr goela a baixo medidas de austeridade para ter que salvar os bancos e empresas, sendo extorquidos financeiramente. Esses problemas seduziram a elite destes países para a retomada do bom e velho nacionalismo ufanista.

Portanto, não é coincidência em meio à crise econômica, os efeitos destrutivos das sanções sobre estas economias e a retomada do nacionalismo vazio e ufanista. Nos últimos quatro anos, o movimento de saída da UE é fortalecido a partir de novas forças políticas que não escondem suas nítidas tendências fascistas. O desgaste dos partidos tradicionais sociais democratas e democratas cristãos, ligados umbilicalmente à organização, vem sendo exposto cada vez mais com a crise. Esses partidos que nas décadas de 1970 e 1980 lutavam pelo poder, tornaram-se justamente o stablishment político do modelo neoliberal. A fusão de interesses entre eles e os velhos conservadores e centristas criou uma plataforma unificada que não diferenciava os partidos, onde todos tornam-se porta vozes de um mesmo projeto político.

O surgimento destes novos movimentos fascistas nasceu justamente da defasagem deste projeto que, por meio de medidas completamente impopulares, queimava a ambos os lados que sustentavam o mesmo e radicaliza as lutas nestes países contra o sistema construído pela UE. Na maior parte dos países onde existiu a restauração do capitalismo nos anos 90, este movimento tendeu ao fascismo justamente pela força destes grupos no período em que a organização estava sendo estruturada, embora paulatinamente os movimentos socialistas também se fortaleçam por serem ainda correntes políticas com força considerável, diga-se, por exemplo, que na Moldávia um membro do Partido Socialista é presidente.

O atual Presidente da Moldavia Igor Dodon, do Partido Socialista da República da Moldávia fala ao público. Crédito: Moldova.org

Enquanto que nos países da Europa ocidental ou que foram capitalistas durante a Guerra Fria ocorreu uma polarização maior entre setores socialistas e fascistas. A França, por exemplo, teve uma diferença entre o candidato socialista Jean-Luc Mèlenchon e Marine Le Pen de apenas 3%, e Emmanuel Macron 6%, um cenário de total divisão. Note-se que tanto Le Pen, quanto Mèlenchon defendem a saída da UE, o que denota ainda mais problemas dentro da organização em virtude desta ser a segunda principal economia do bloco.

O acirramento das contradições é ainda maior em virtude da questão migratória que é um divisor de águas junto com a política anti-Rússia, que tem causado descontentamento em setores do empresariado europeu. Esses fatos denotam a paulatina destruição da ideia de manutenção da organização e da mesma ideia de Europa, frente à construção de novos ideais que fundamentem a independência destes Estados da organização. O momento histórico analisado, portanto no fim, indica dois acontecimentos em médio prazo extremamente importantes que podem ser conjecturados.

 O primeiro é a possibilidade de saída de mais países da organização a partir da negação das instituições europeias com a exaltação de um nacionalismo cada vez mais ufanista e agressivo entre os países membros a partir do crescimento, muito mais tendente à direita, especialmente a fascista que defende abertamente hoje o fim da organização. Isso potencializa também a possibilidade de conflitos entre os países e o colapso violento da organização em um cenário de possível enfrentamento.

Em segundo lugar, indica também a própria dissolução da ideia de Europa e civilização europeia frente à consolidação de uma ideia Estado nação orgânica- que foi muito forte entre o fim do século XIX e perdurou até o fim da Segunda Guerra Mundial-, e que na verdade já está em curso. Uma ideia fascista de Estado que atinge não somente os países ’’de características autoritárias’’ como os do leste europeu, mas também os de tradição liberal democrática. Recentemente o presidente da França Emmanuel Macron disse que os franceses são resistentes as mudanças pela sua origem gaulesa frente ao ’’espírito livre’’ dos povos nórdicos.

Crédito: Daily Star.

Por fim, surge a pergunta de como o capitalismo mundial está lidando com essa tendência fascista? Conseguirá aceitar setores retrógrados da sociedade? A resposta já está hoje sediada na Casa Branca, sede do poder dos EUA, demonstrando não somente a decadência mundial da atual ordem, mas como o liberalismo consegue lidar muito bem com regimes mais autoritários e mesmo fascistas, desde que elas ponham os homens no caminho do progresso e defenda o direito à propriedade. No entanto, este já é um outro tema.

Eden Pereira Lopes da Silva

Professor de História da UERJ, pesquisador de história contemporânea com ênfase na União Soviética, estuda o desempenho econômico e militar do país durante a Segunda Guerra Mundial.

Filmes citados neste artigo:

“A Queda, as últimas horas de Hitler” (2005), dirigido por Oliver Hirschbiegel

Unsere Mütter, unsere Väter” (War Generation -ing. Nossas Mães, nossos Pais – port) (2013), dirigida por Philipp Kadelbach

Aftermath” (Após amanhã) de 2012, produzido e dirigido por Wladislaw Pasikowisk

“Wołyń/Volhynia” (2016), dirgido por Wojciech Smarzowski

Documentários recomendados:

“Renaiscensse” (2016). Produção da Russia Today (RT)

“Zadelo” (2014). Produção Telekanal Zvezada.

“The EU and Refugee crisis” (2018). Produção Deutsch Welle.

Bibliografia recomendada:

DA SILVA, Francisco Carlos Teixeira. Revoluções Conservadoras, Terror e Fundamentalismo: Regressões do indivíduo na modernidade. In: O Século sombrio- Uma História Geral do Século XX. Editora Campus, Rio de Janeiro, 2004, pp. 123-190

GEARY, Patrick. O mito das nações: A invenção do nacionalismo. Editora Conrad, São Paulo, 2005

KATASONOV, Valentin. Economic Wars and Economic Sanctions. Artigo publicado no site Strategic Culture. Disponível no link: https://www.strategic-culture.org/news/2015/02/05/economics-wars-and-economic-sanctions-i.html

KURZ, Robert. A síndrome fascista neofascista da Fortaleza Europa. Artigo publicado no jornal Folha de São Paulo. Disponível no link: http://www.obeco-online.org/rkurz44.htm.

Matérias recomendadas:

https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Pelo-Mundo/Intelectuais-advertem-ideia-de-Europa-esta-morrendo/6/27299sput.

https://br.sputniknews.com/economia/201710089538110-europa-sancoes-antirussas/.

https://www.politico.eu/blogs/playbook-plus/2017/09/yanis-varoufakis-eu-at-risk-of-disintegration/

https://www.bbc.com/news/world-europe-41177420

https://www.ft.com/content/0f43470c-f09e-11e7-b220-857e26d1aca4

https://www.reuters.com/article/us-europe-migrants/eu-migration-policies-seen-building-blocks-for-fortress-europe-idUSKBN1JY07X

 

 

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