As propostas de política externa para o Brasil nas eleições de 2018

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O resultado do pleito de 2018 para a presidência da República Federativa do Brasil indica a possibilidade de dois direcionamentos distintos no que se refere à política externa a ser seguida pelo país. As linhas ideológicas e políticas de Jair Bolsonaro e Fernando Haddad são reflexos nacionais do embate que ocorre no cenário internacional. Para muitos estudiosos estamos vivenciando o início de uma Nova Guerra Fria; para outros o processo de criação de uma Nova Ordem Mundial multipolar.

Após o fim da União Soviética, os Estados Unidos usufruíram, por curto período de tempo, de uma hegemonia inquestionável, que atualmente vem sendo questionada pela volta da China, como um dos atores detentor de grande poder e atuação no sistema internacional. A construção de uma Nova Rota da Seda ocupa o centro do plano estratégico chinês para a formação de um novo centro econômico mundial na Ásia. Trata-se de uma série de rotas interligadas através da Ásia do Sul, usadas no comércio da seda entre o Oriente e a Europa. O ressurgimento chinês tem provocado grande mudança no cenário internacional, transformando a balança de poder mundial e desafiando a hegemonia estadunidense sobre o sistema político-econômico global.

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Ao construir diferentes alianças na Ásia, África e até a Europa, a China provoca uma atuação mais incisiva dos norte-americanos para resguardar regiões, nas quais almejam a permanência de seu domínio e controle. No Oriente Médio apelou-se para a forma mais tradicional e antiga do imperialismo. Através do uso da força bélica, invade-se países ou fomenta-se guerras civis,  apoiando grupos insurgentes que venham derrubar o governo não diretamente alinhado com os EUA. Porém, em outras partes da mundo, como na América do Sul, os EUA acabam por escolher a estratégia de estabelecer uma aliança com grupos de poder local, que, através de um acordo, consiga promover seus interesses políticos, militares e econômicos. Esta medida mais sutil em exercer uma ingerência indireta nos assuntos internos dos países ocorre em razão de que boa parte das nações sul-americanas já apresentam uma estrutura estatal e burocrática mais complexa e consolidada, não tão facilmente inclinada ao separatismo como em outras regiões do mundo.

Jair Bolsonaro em seu plano de governo não estabelece linhas claras sobre o que pretende seguir com relação à política externa. Algumas questões referentes ao comércio internacional e à defesa nacional tocam pontos da área, mas nada que possa constituir a formulação de uma política real. De maneira que é bastante incerta a direção que planeja tomar neste quesito. Contudo, é possível inferir de suas viagens que o candidato está em consonância com os principais aliados dos norte-americanos na Ásia como Japão, Coreia do Sul e Taiwan. Este posicionamento pode dar a compreender que Bolsonaro estaria inclinado a seguir um alinhamento com Washington e trabalhar, possivelmente, em distanciamento do Brasil com a China, podendo resultar em perdas significativas para grandes setores econômicos nacionais.

Mais preocupante é que o político parece não perceber que existe uma mudança radical ocorrendo na Ásia, com o fortalecimento da liderança chinesa e com novos fatos históricos como a reunificação das Coreias e o desgaste que os EUA tem sofrido em países tradicionalmente aliados como o próprio Japão. O antiamericanismo no país vem recebendo novos adeptos, em especial em Okinawa, com os inúmeros casos de abusos cometidos pelas tropas estadunidenses contra a população local. A presença chinesa na economia japonesa também é hoje fator tácito, impossível de se negar.

Pode-se ainda somar-se a este fato, as dificuldades que os Estados Unidos vem encontrando de permanecerem como um parceiro confiável, já que diversas medidas econômicas visando enfrentar o crescimento chinês acabam por atingir também outros países, alguns deles aliados dos EUA. A decadência do sistema de Bretton Woods e abandono do dólar como principal moeda de transação comercial e reserva internacional pelos países, em grande parte pela guerra comercial atualmente lançadas por Donald Trump, também, a curto e médio prazo, devem incitar mudanças significativas na correlação de forças no setor comercial, econômico e político mundial.

Crédito: Portal Viu.

A diversificação de parceiros comerciais e políticos no cenário internacional é elemento básico de qualquer país soberano que almeje impulsionar sua economia também através das parcerias externas. O posicionamento radical de Bolsonaro contra países vizinhos, além de infringirem princípios básicos do direito internacional como a autodeterminação dos povos, podem também colocar em risco interesses econômicos futuros do Brasil na região.  Por fim, a modernização tecnológica das forças armadas brasileiras, até no intuito de resguardar as fronteiras do país como o candidato promete, carecem de medidas estratégicas e detalhes maiores em seu plano de governo para melhor análise do tema.

Fernando Haddad em suas propostas parece continuar a seguir a linha até o momento adotada pelo Partido dos Trabalhadores sobre o que denominam de uma política externa altiva e ativa. Especificamente ao longo dos anos de governo foi ampliado o espectro de parcerias do Brasil com o mundo. Mantiveram-se as relações com países parceiros tradicionais como os Estados Unidos e a Europa ocidental, e foi incentivada a cooperação Sul-Sul com países em desenvolvimento da América Central, Sul, do Oriente Médio, da África e da Ásia.

Em especial a retomada da cooperação com os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) faz parte da estratégia de ampliar o poder de barganha do Estado brasileiro no cenário internacional, assim como adquirir ativos econômicos importantes para o país. A busca por promover o Brasil como uma liderança sul-americana, consolidando organismos de integração regional, também faz parte da construção a longo prazo de buscar uma inserção maior da economia e do país no mundo.

Esta integração sul-americana aproxima o Brasil do projeto da Nova Rota da Seda e vai expandir as oportunidades comerciais e parcerias. A participação brasileira hoje no comércio mundial está abaixo de 1%, conforme dados lançados em 2017 pela Organização Mundial do Comércio (OMC), resultado completamente incipiente para um país que detém uma das maiores economias do mundo.

O plano de governo de Haddad estabelece medidas também importantes para a modernização das Forças Armadas brasileiras, componente de extrema importância caso o país vise futuramente conquistar seu acento no Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU). Assim foi estabelecido nas propostas do candidato: “…priorizaremos a reorganização da Base Industrial de Defesa, para assegurar o atendimento às necessidades de equipamento das Forças Armadas apoiado em tecnologias sob domínio nacional, preferencialmente as de emprego dual (militar e civil). 

Será retomada a política de defesa de nosso território e mares, ‘a defesa da Pátria’ preconizada para as Forças Armadas por nossa Constituição, por meio de projetos para o resguardo de nossa soberania, como a consolidação de uma Base Industrial e Tecnológica da Defesa (BITD), o submarino de propulsão nuclear, a política aeroespacial a partir da Base de Alcântara, o satélite geoestacionário, o Sistema de Foguetes – Astros 2020 e Blindados Guarani. O governo Haddad retomará os investimentos e valorizará as Forças Armadas, recompondo os efetivos e melhorando as condições de trabalho”.

As diferenças adotadas por ambos os candidatos apenas deixam claro ao analista de política internacional que o Brasil está intrinsecamente inserido na competição de forças políticas mundiais, neste período de transição para a constituição de uma Nova Ordem Mundial, ou da Nova Guerra Fria. Haddad parece estar mais preparado e consciente de retomar e seguir com a tradição da diplomacia brasileira em assegurar uma Política Externa Independente que garanta os interesses soberanos do país.

Tal política foi levada à risca, inclusive, durante o Regime Militar. Especificamente é preciso lembrar que Ernesto Geisel, um dos últimos militares a comandar o Brasil, chegou a intensificar as trocas comerciais com a União Soviética e outros países socialistas, reconhecendo a independência da Angola e restabelecendo relações com  a China Comunista em nome da preservação da soberania e fortalecimento do projeto Brasil nação. Assim, promoveu ainda parcerias com um leque bastante diversos de países, conforme a demanda e os interesses estratégicos nacionais.

 

 

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