Eleições na Ucrânia: as contradições de um Estado nacional em processo de formação

Um monumento em Savur-Mogila, no leste da Ucrânia, que comemora uma batalha histórica entre forças alemãs e russas durante a Segunda Guerra Mundial. O monumento foi fortemente danificado durante os confrontos entre os separatistas pró-russos e o exército ucraniano no verão de 2014. Crédito: Larry Towell/Magnum/pulitzercenter.org.

No dia 21 de abril, Vladimir Zelenskii venceu as eleições presidenciais da Ucrânia. Além do enorme descontentamento geral do eleitorado ucraniano com os políticos tradicionais e com o chamado establishment, convalidado pelos 75% dos votos recebidos por Zelenskii, quase três vezes mais que seu rival e atual presidente, Piotr Porochenko, uma questão que chama a atenção é o caráter de transitoriedade e fragilidade nos movimentos políticos do país.

Em 2019 o cenário é certamente complexo, que reflete o caráter fugaz da política e dos movimentos políticos ucranianos no início do século XXI. Se por um lado as lideranças políticas do período entre 1991 e 2004 não conseguiram viabilizar seu espaço de ação após a eclosão da Revolução Laranja em 2004, as lideranças que apoiaram o referido movimento tampouco lograram obter grande desempenho frente aos eleitores desde então. Pelo contrário: Viktor Iuschenko, presidente entre 2004 e 2010, perdeu sua popularidade de tal maneira que nas eleições parlamentares de 2012 seu bloco eleitoral não conseguiu sequer atingir os 5% dos votos da cláusula de barreira.

Esse padrão parece repetir-se no caso do Golpe de Estado de 2014. Nenhum dos principais políticos que apoiaram a derrubada do então presidente Viktor Ianukovitch conseguiu conquistar apoio consistente entre os eleitores ucranianos. Porochenko, eleito presidente naquele ano sob uma retórica bastante belicista perdeu rapidamente sua popularidade diante dos insucessos econômicos e da desastrada campanha militar na região do Donbass, no leste do País.

O presidente ucraniano, Viktor Ianukovitch, assiste à sua conferência de imprensa no sul da cidade russa de Rostov-on-Don, em 11 de março de 2014. Crédito: Alexander Nemenov/AFP/Le Monde.

Quais as razões para essa inconstância e precariedade na política ucraniana atual? Há pelo menos duas linhas de resposta possíveis, que não são exclusivas entre si. Uma delas tem a ver com o desempenho econômico bastante aquém daquele país inclusive em comparação com outras antigas repúblicas soviéticas. Ainda que a Ucrânia tenha passado pelos mesmos processos de privatização, formação e aumento da influência econômica e política dos chamados oligarcas (como são chamados aqueles que enriqueceram nos processos de transição econômica ao capitalismo), queda generalizada do poder de compra da população e piora dos indicadores socioeconômicos durante toda a década de 1990, a impressão que se tem é que os processos disruptivos foram bem mais agudos na Ucrânia do que na vizinha Bielorússia, ou mesmo na própria Rússia.

Uma segunda linha de argumentação é a incipiência do processo de construção do Estado nacional ucraniano. Não se quer dizer apenas que o forjamento da identidade nacional ucraniana é incompleto – na verdade os projetos de construção da identidade nacional em geral estão em constante mudança e, necessariamente, estão longe do esgotamento em termos de conteúdo. O que se destaca no caso ucraniano é que a ideia de criação de identidade nacional é uma tarefa hercúlea, para não dizer impossível.

Os contornos do Estado ucraniano atual estão ligados diretamente a três períodos distintos da história soviética. As fronteiras a leste com a Rússia foram delimitadas no momento em a Ucrânia tornou-se uma república soviética em 1922. Já o território ocidental foi incorporado ao país por conta do redesenho das fronteiras nacionais durante e após a Segunda Guerra Mundial, entre 1944 e 1946. Cidades como Lvov e Ternopol’ estavam sob controle da Polônia, ao passo que outras regiões eram controladas pela Hungria, pela então Tchecoslováquia e pela Romênia.

Um jovem Nikita Khrushchov, à esquerda, com Iosif Stálin no Kremlin em 1936. Crédito: Daily Telegraph.

A redefinição das fronteiras nesse período foi acompanhada pelo deslocamento de populações inteiras, com observação do princípio nacional. O redesenho do mapa étnico-político em toda a região foi conduzido pela principal vencedora do teatro europeu da Segunda Guerra, a União Soviética. O capítulo final, porém não conclusivo, deu-se com a incorporação do território da península da Crimeia, em 1954. Esse território, pertencente à Rússia desde o século XVIII, foi concedido à Ucrânia por decisão monocrática do então dirigente máximo soviético, Nikita Khrushchov.

Oficialmente, a ideia era comemorar os 300 anos da união entre a Rússia e a Ucrânia, mas sabe-se que Khrutchiov buscava apoio de dirigentes das repúblicas para consolidar seu poder no Politburo, diante da erupção da disputa entre facções após a morte de Iosif Stálin, no ano anterior. Essa mudança não trouxe grandes consequências práticas naquele momento para a população local, já que Rússia e Ucrânia eram membros plenos da URSS.

Crédito: Reddit.

Se por um lado as fronteiras entre as antigas repúblicas soviéticas terem sido definidas em última instância durante a era soviética, nota-se um aspecto específico no caso ucraniano. Em todas as antigas repúblicas soviéticas havia uma etnia predominante, ao passo que na Ucrânia que emergiu independente em 1991, essa situação não estava tão clara. A população que se considerava ucraniana para efeitos étnicos, culturais e linguísticos concentrava-se (e ainda se concentra) em sua porção ocidental, ao passo que as regiões orientais sempre permaneceram com maior influência da Rússia. Vale destacar que uma série de escritores, poetas, artistas e músicos com enorme reconhecimento na cultura russa são originários dessa região da Ucrânia: Anna Akhmatova, Nikolai Nekrasov, Mikhail Bulgakov, entre muitos outros.

Como consequência desse vício de origem, a política interna e especialmente a política externa da Ucrânia esteve atrelada a essa contradição inicial. No front interno, houve um esforço para promover a identidade e os costumes ucranianos em todas as regiões do país. Essa tendência foi reforçada durante as presidências de Iuschenko  (2005-2010) e de Porochenko (2014-2019).

No front externo, nota-se ao menos duas plataformas para a inserção internacional: o primeiro, e atualmente predominante, que busca maior integração do país com países e organizações do Ocidente. É uma linha que defende ao mesmo tempo maior liberalização do comércio do país, e desregulamentação da economia, e vislumbra a possibilidade de influxo de investimentos ocidentais para a modernização. O lado que defende aproximação estreita com a Rússia e com as organizações internacionais lideradas por Moscou, tende a zelar pela manutenção de uma política industrial ativa por parte do Estado, por meio da estratégia das chamadas campeãs nacionais.

Dado o predomínio da primeira corrente, algumas administrações ucranianas, como a de Ianukovitch (2010-2014), seguiram uma estratégia de meio-termo, e não exatamente pró-Rússia como comumente descreve a imprensa internacional: a Ucrânia sempre teve participação muito discreta nos processos de integração econômica liderados por Moscou (mesmo sob Ianukovitch) e jamais se tornou membra plena da Comunidade de Estados Independentes (CEI) e de seu braço militar, a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (ODKB, na sigla em russo).

O cenário das eleições atuais na Ucrânia desenrola-se a partir da escalada do conflito civil entre ambas essas vertentes. Vale destacar que a disputa entre Zelenskii e Poroshenko deu-se no âmbito da vertente ocidentalista, haja visto que a ala pró-Rússia encontra-se impedida de participar (como é o caso do Partido Comunista), ou enfraquecida (o antigo Partido das Regiões, atualmente rebatizado de Renascimento, encontra-se dividido e desprestigiado perante o eleitorado), ou em luta aberta contra Kiev (como é o caso das autoproclamadas repúblicas populares de Donetsk e Lugansk).

A diferença entre as duas candidaturas dá-se no plano das aparências: enquanto Poroshenko mostra-se como político e empreendedor de sucesso (ele ainda controla a Roshen, uma indústria do ramo de confecção de doces), Zelenskii, artista comediante, passa a imagem de um indivíduo apolítico ou de cidadão comum enojado com a política tradicional, um discurso bastante usado em outras partes do mundo. Em que pese os ucranianos demonstrem enorme insatisfação e alimentem expectativas positivas com seu novo líder, Zelenskii não deve alterar, no curto prazo, o direcionamento da política ucraniana: continuidade das relações tensas com a Rússia, busca pela integração com organizações ocidentais e continuidade do conflito no leste do país. A própria essência da política ucraniana, a inconsistência e o caráter passageiro dos movimentos políticos, ainda deverá permanecer inalterada por muito tempo.

Bruno Mariotto Jubran
Doutor em Estudos Estratégicos Internacionais (UFRGS). Analista Pesquisador da Secretaria de Planejamento, Orçamento Gestão do Rio Grande do Sul (SEPLAG /RS)

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