Notre-Dame e seus personagens: a construção da imagem de uma França universal

Cena de “O Corcunda de Notre Dame” (1939) de William Dieterle. Crédito: mubi.com

Passado algum tempo do incêndio que fez a Catedral de Notre-Dame de Paris perder boa parte de seu patrimônio, é importante considerar que tipo de influência monumentos icônicos como este tem sobre o mundo. Notre-Dame começou a ser construída em 1163, terminando suas obras em 1345. Certamente, se construções tivessem a habilidade de falar, a catedral seria uma verdadeira testemunha da história tendo sido um símbolo de cortejo e ataques, a exemplo durante a Revolução Francesa (1793) e a Comuna de Paris (1871).

Contudo, um dos símbolos da cidade de Paris ganharia destaque mesmo com a literatura, em especial ao ser cenário para um romance clássico francês, escrito por Victor Hugo, em 1831, o romance “Notre-Dame de Paris”, ou com é mais conhecido “O Corcunda de Notre-Dame”. A história é uma tentativa de relembrar uma Paris da Idade Média e todos os acontecimentos da época centram-se no personagem Quasimodo, um sineiro que apresenta uma deformidade e que se apaixona por uma cigana de nome Esmeralda. A obra seria adaptada para o cinema e depois ganharia uma versão animada pela Disney que eleva a catedral a ser um símbolo cultural das massas.

A história em si de Quasimodo reúne diversas questões universais que vão de uma certa luta de classes, a exclusão social e perseguição política, características existentes em praticamente todas as regiões do mundo. Isso poderia explicar em parte o porquê desta obra ser tão querida por diferentes culturas, ou ao menos conhecida. Porém, se fosse apenas por estas características milhares de histórias e símbolos culturais e religiosos também teriam o mesmo apelo e incitariam a urgência de bilionários e milionários ao redor do mundo em ajudar na sua reconstrução, em caso de destruição por incêndio, ou qualquer outro motivo. No entanto, isso não ocorre. Milhares de monumentos, com histórias tão comoventes quanto a do fictício corcunda de Notre-Dame, acabam não tendo a mesma inclinação, atenção e disposição mundial.

Em agosto do ano passado, por exemplo, o site “The Conversation”, um meio de comunicação sem fins lucrativos que usa conteúdo de acadêmicos e pesquisadores, publicou um artigo da autora Carolyn Roberts sobre os problemas que o Taj Mahal, na India, vem enfrentando para conservação e restauração. Já no Oriente Médio, os diversos conflitos, em especial a Guerra do Iraque (2003) fez com que a região tivesse monumentos, templos e outras símbolos culturais dos povos da Mesopotâmia destruídos. Mesmo com os protestos da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), o clamor popular e a iniciativa das elites globais não chegaram nem próxima ao que Notre-Dame teve em algumas horas, ainda que as notícias mais recentes tenham divulgado que grande parte do dinheiro arrecadado ainda não foi disponibilizado.

Talvez uma das características que se pode considerar positiva em tempos tão cheio de contradições e tumultos como este início do século XXI é a clareza com que as situações e contextos, antes complexos demais e invisíveis ao público em geral, atualmente se tornam cada vez mais claros a melhor compreensão. Se antes era complicado compreender o poder de influência que o mundo Eurocêntrico exerce sobre suas ex-colônias, em especial sobre as elites destas regiões, agora, este poder torna-se mais evidente a uma quantidade maior de pessoas. Para a elite e as classes médias, sejam culturais, sejam intelectuais, nada mais importante do que garantir o exercício das conquistas de mentes e corações, como diria o jargão, para que após se possa obter alianças em outras áreas estratégicas como a econômica, geoestratégica e militar.

A indústria cultural, especificamente a audiovisual, carrega em suas narrativas diversos códigos de valores, costumes e aspectos culturais que sutilmente são transmitidos aos mais diferentes públicos. Aqui não se vislumbra saber como o público de cada país interpreta estas questões, mas que lhes são passados e que acabam pertencendo a um conhecimento geral. Portanto, em conjunto com a grande mídia jornalística e de entretenimento, incitam na audiência internacional ideais e desejos de todos os tipos. Junto a isso é possível somar um controle do mercado de distribuição mundial de produtos audiovisuais, assim como de grandes conglomerados de mídia com sede nos Estados Unidos e na Europa, e com diversas filiais que reportam, exibem, distribuem e produzem conteúdo no idioma local.

Crédito: metrojornal.com.br

Segundo notícia publicada por Judy Brennan, no Los Angeles Times a produção da Disney “O Corcunda de Notre-Dame”, lançada em 1996, arrecadou US 21,3 milhões em seu fim de semana de abertura nos Estados Unidos, colocando-o em segundo lugar no ranking de bilheteria. Em uma nova estratégia, a Disney também incluiu vendas de ingressos em suas lojas, adicionando cerca de US $ 1 milhão aos números das bilheterias. No entanto, conforme reportagem, publicada no mesmo ano, por Don Groves, na revista Variety francesa, o filme rendeu apenas US $ 100.138.851 no mercado interno. No exterior, ele se tornaria o décimo quinto filme naquele ano, acumulando US $ 225,2 milhões e superando o faturamento internacional de US $ 204,5 milhões de “Pocahontas”. De acordo com o site Box Office Mojo “O corcunda de Notre-Dame” arrecadou no total mais de 325.338.851 dólares, tornando-se o quinto filme de maior bilheteria de 1996.

O sineiro de Notre-Dame agora estaria no imaginário de diversas crianças e famílias, que para as que assim tivessem a oportunidade, não deixariam de ir a França e visitar o local onde o personagem, gentil, solitário e de bom coração transitou. Por vias sutis imagens são construídas de um ocidente que, apesar de excluir Quasimodo, em razão de sua deficiência, apresenta “mecanismos sociais” capazes de confrontar esta situação e promover uma microrrevolução, ou uma transformação de valores que acabem fazendo com que o sineiro torne-se um herói e seja aceito por todos. Pouco importa se esta situação é refletida na realidade, o que interessa é que se criou um conceito, uma imagem, uma ideia que Paris e seus personagens são universais e que todos podem hipoteticamente pertencer a ela. Assim, a ela são voltadas a solidariedade e as atenções, ainda que outras construções e símbolos históricos, culturais e religiosos até pelo mundo estejam há tempos “pedindo socorro”.

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