A luta do Brasil contra o fascismo na Itália é uma verdade inconveniente para o exército até hoje

O Exército Brasileiro homenageou o militar alemão Eduard Ernest Thilo Otto Maximilian Von Westernhagen. Crédito: Exame – Abril.com

No último 1 de julho o Exército Brasileiro homenageou o militar alemão Eduard Ernest Thilo Otto Maximilian Von Westernhagen, que fora assassinado em 1968 no Rio de Janeiro por militantes de esquerda que lutavam contra a ditadura (1964-1985), quando então era aluno da Escola de Comando do Estado Maior do Exército (ECEME). A referida homenagem poderia ser mais uma no âmbito da tantas que o EB costuma fazer, se não fosse Von Westernhagen um oficial nazista. E foi justamente contra o nazismo que as forças armadas brasileiras entraram na Segunda Guerra Mundial, depois que submarinos italianos e alemães afundarem dezenas de navios brasileiros, matando mais de 1000 pessoas, em sua maioria, civis, entre eles muitas crianças.

A entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial é um fato ainda muito estudado em nosso país, já que o Brasil era governado por um regime autoritário, centralizador e reacionário (Estado Novo), onde teoricamente se identificava com os regimes fascistas da Europa. A simpatia pelo fascismo não reinava só entre os Integralistas (movimento similar ao fascismo que apoiava Getúlio Vargas), a maior parte do comando do exército e da marinha tinham uma admiração muito grande pelas forças do Eixo. Os comandantes do Exército Brasileiro, em especial, acreditavam em uma vitória de Hitler e andavam muito entusiasmados com as conquistas da Wehrmarcht. Invocavam a neutralidade como uma espécie de apoio tácito ao Eixo. Não queriam nenhuma proximidade com os anglo-estadunidenses, que acusavam de imperialistas.

Entretanto, o projeto político de Vargas, a firmeza do povo brasileiro e o descontrole dos ítalo-alemães provocaram uma situação insustentável. Fazendo com que o governo brasileiro decretasse guerra à Alemanha e a Itália em 22 de agosto de 1942, depois de uma série de afundamentos de navios brasileiros. A ira da população e os acordos econômicos e militares instituídos por Getúlio Vargas e Oswaldo Aranha com os Aliados, obrigou os militares brasileiros a tratarem a guerra contra o Eixo como um projeto de nação. Contrariados e desacreditando no propósito da guerra, foram para a Itália sem muitas expectativas. Contudo, os combatentes brasileiros de terra e ar mostraram muita bravura e grande heroísmo. Para desgosto desses oficiais que tanto criticaram Vargas por não consensualizar com o fascismo.

O comando das forças armadas brasileira foi para a Itália sonhando com Hitler e voltaram dormindo com Harry Truman. Assustados mais do que nunca com o fantasma do comunismo, personificado na União Soviética, regressaram ao Brasil já com planos golpistas. Enquanto Vargas e o Estado Novo democratizavam-se, os militares recrudesciam-se e derrubaram Vargas em 1945 e em 1954. Tentaram impedir a posse de Juscelino Kubitschek em 1955 e tentaram golpeá-lo ao longo de seu mandato. Tentaram também impedir a posse de João Goulart em 1961, para finalmente derrubá-lo em 1964. Desde então, formam uma força política inteiramente reacionária e submissa aos Estados Unidos, que acredita no “inimigo interno” espreitando em cada esquina.

A inconveniência por terem combatido pela democracia e no mesmo campo da União Soviética fez com que as forças armadas escondessem as glórias do militares de terra, ar e mar que lutaram na Itália e no oceano Atlântico contra o Eixo. Condenados ao esquecimento, os heróis brasileiros foram ignorados pelo presidente Eurico Gaspar Dutra (1946 – 1950), que era militar, e por todos os outros militares que foram ditadores entre 1964 a 1985, entre esses, alguns integrantes da Força Expedicionária Brasileira (FEB). A ala germanófila das forças armadas manteve seu carinho pelo fascismo até os dias atuais, ao mesmo tempo em que tenta distanciar-se da herança legalista que os combatentes brasileiros da Segunda Guerra Mundial deixaram.

O Exército Brasileiro homenageou um major nazista e o Twitter reagiu · por NINJA. WhatsApp Telegram Twitter Facebook. Crédito: Mídia Ninja.

A homenagem ao falecido Von Westernhagen é uma maneira do exército brasileiro reparar o “erro” por terem combatido o fascismo na Segunda Guerra Mundial. Na verdade, durante todo o século XX, o comando das forças armadas esforçou-se bastante para se desconectar de todas as tentativas de construção de um projeto político que enaltecesse o nacionalismo, a independência e a autonomia do país. Nesse início de século XXI, os militares aumentaram a sua participação na política, seguindo o mesmo padrão de antes, só que agora tentam reescrever a história para derrotar o legado de Getúlio Vargas e impedir que a Cobra Continue Fumando!

Sobre o assassinato de Von Westernhagen é preciso que se levantem algumas questões: um oficial nazista (tinha que ser nazista para virar oficial), altamente preparado, que combateu na Frente Oriental (a mais importante da guerra); que acompanhou as maiores barbaridades da guerra que foram os extermínios nazistas contra os soviéticos; que viu a “blitzkrieg” e as “táticas constantes dos soviéticos”; que estava completamente integrado à Organização do Tratado no Atlântico Norte (OTAN); e que tinha total ciência do papel a desempenhar na Guerra Fria. O que esta figura teria para aprender na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), em 1968?  Essa pergunta precisa ser respondida, pouco provável que Von Westernhagen tivesse alguma coisa para aprender no Brasil, pelo contrário, tinha muito para ensinar. A sua situação no Brasil precisa ser mais bem explicada, não era em absoluto mais um simples aluno.

Hermann Rauschning, líder nazista e amigo de Hitler afirmou:

“Criaremos lá uma nova Alemanha. Encontraremos lá tudo de que necessitamos. Todas as pré-condições de uma revolução lá se encontram, revolução que em algumas décadas, ou mesmo anos transformaria o Estado mestiço corrupto em domínio alemão… Nós lhe daremos… nossa filosofia… Se há lugar é na América do Sul… Vamos aguardar alguns anos e, nesse interregno, fazer o que pudermos para ajuda-los. Mas temos que enviar nossa gente até eles… Não iremos desembarcar tropas como Guilherme, o Conquistador, e dominar o Brasil pela força das armas. Nossas armas não são visíveis. Nossos conquistadores tem uma missão complexa”.(PRESTES, Anita Leocádia. Da Insurreição Armada (1935) À “União Nacional” (1938 – 1945), São Paulo, Paz e Terra, 2001. Pág.33).

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