As importantes reflexões e debates de alguns curtas premiados no Anima Mundi 2019

“Tio Tomás e a contabilidade dos dias” (2019), de Regina Pessoa. Crédito: TSF.

Mesmo enfrentando grandes dificuldades com a falta de patrocínio, com a perda de sua principal fonte de apoio financeiro a Petrobrás, o Anima Mundi, através de um financiamento coletivo, conseguiu promover a sua tradicional agenda e trazer uma seleção do que há de melhor no mundo da animação nacional e internacional para o público do Rio de Janeiro e São Paulo. Passados alguns dias desde o encerramento desta edição, a Intertelas traz uma breve análise sobre alguns curtas-metragens que foram premiados, mas, acima de tudo, destacaram-se pelo conteúdo apresentado ao espectador, refletindo temáticas atuais e que analisam em alguns minutos as questões mais delicadas e complexas que hoje se encontram no centro da atenção e do debate mundial.

Crédito: O Globo.

O início do século XXI pode ser caracterizado em grande parte, no que diz respeito aos problemas que afetam a sociedade, como a era da febre por celebridades e heróis líquidos, como diria o filósofo e sociólogo polonês Zygmunt Bauman. A fissura por ganhar fãs seja nas redes sociais, ou em qualquer outro espaço, acaba promovendo um cenário em que aquelas pessoas que verdadeiramente tocam as nossas vidas, ou que realmente fazem diferença no cotidiano sejam relegadas a segundo plano, ou até mesmo esquecidas. Sobre esta temática, três curtas podem ser destacados: “Tio Tomás e a Contabilidade dos Dias” (2019), da diretora portuguesa Regina Pessoa e vencedor Grande Prêmio Anima Mundi, que possibilita ao filme ser inscrito pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas e concorrer ao Oscar de melhor curta-metragem de animação; “Invisível” (2018), de Akihiko Yamashita, que ganhou o prêmio de Melhor Técnica de Animação; e “Drawing Life” (2019) de Luciano Lagares, que ganhou o prêmio de Melhor Curta-Metragem Brasileiro.

Em “Tio Tomás e a contabilidade dos dias”, a diretora faz uma homenagem ao próprio tio, a quem descreve como um homem humilde, pouco excêntrico e que viveu de forma simples e anônima. Contudo, o impacto que teve na vida da realizadora foi tamanho que hoje ela nesta obra almeja salientar que não é preciso ter uma vida extraordinária para ser alguém de extrema importância na vida dos outros.

“Tio Tomás e a contabilidade dos dias” (2019), de Regina Pessoa. Crédito: Público PT.

Na mesma linha, “Invisível” o terceiro da série “Contos de herois modestos do nosso tempo”, uma antologia de três curtas da Ponoc Short Films Theatre narra a vida de um trabalhador assalariado que por ser invisível tem dificuldades de manter-se preso ao chão. Para tanto, usa um extintor de incêndio para não flutuar. Acostumado a ser sempre ignorado por todos, ele, um dia, finalmente tem a atenção de um cego que conversa e oferece-lhe um lanche. Ao sentir-se melhor depois deste evento, ele acaba por realizar um resgate, tornando-se um heroi.

“Invisível” (2018), de Akihiko Yamashita. Crédito: Paste Magazine.

Em “Drawing Life”, um simples caricaturista e pintor de rua tem constantemente o seu trabalho desprezado, inclusive por aqueles que decidem pagar para que ele faça os seus retratos. Contudo, uma mãe com um filho deficiente e cadeirante darão um outro sentido ao seu talento. Através dos desenhos que faz para criança, colocando-a em situações inusitadas e fazendo-a conhecer lugares que ela jamais vai estar, o pacato pintor acaba tornando-se uma figura de extrema importância para esta família. Mãe e filho também dão um sentido único ao trabalho e a vida difícil deste artista.

“Drawing Life” (2019) de Luciano Lagares

Como de costume o festival não se esquivou de abordar questões delicadas como abuso sexual de crianças, apresentado em curtas como “Wicked Girl” (2018), de Ayçe Kardal, da Turquia, vencedor de melhor roteiro, e temáticas políticas através de produções como “Ostrich Politic” (2018), do diretor libanês Mohammad Houhou que ganhou o prêmio de melhor filme de estudante. Em especial, a violência foi o tema principal do festival deste ano.

Na curta obra de Kardal, o universo infantil é bem representado através da imaginação fértil de uma menina que vai narrando momentos felizes de sua vida. Com o pensamento bastante irregular de uma criança, dando voltas e reviravoltas, ela nos leva para aquele período repleto de sonhos, onde os códigos sociais ainda não delimitam a nossa expressão e o nosso ser. Contudo, monstros horríveis aparecem de repente em sua história, assim como close-ups de partes de corpos masculinos, indicando uma criança que provavelmente sofreu abuso sexual. A forma sutil encontrada pelo diretor em representar como esta forma de violência acaba introjetando-se e impactando as áreas mais profundas do consciente e inconsciente, afetando a personalidade e certamente a vida futura desta criança estão entre os aspectos mais únicos desta obra.

“Wicked Girl” (2018), de Ayce Kardal. Crédito: Animation Wolrd Network.

Já em “Ostrich Politic” (2018), nas palavras do próprio diretor para o site StashMedia: “o filme conta a história de um avestruz poético que lida com equívocos comportamentais que levam a mais problemas em sua sociedade”. Trata-se de uma obra que contesta normas sociais e comportamentos ditos instintivos. Mais uma vez os animais substituem a figura humana. O enredo passa em um mundo composto por avestruzes. A escolha por esta ave dá base ao significado e a crítica do autor, pois o centro da questão debate a incapacidade desta sociedade de lidar com a mudança, enterrando suas cabeças quando estão com medo. Acredita-se tratar-se apenas de um comportamento instintivo, mas logo um pesquisador prova o contrário.

“Ostrich Politic” (2018), do diretor Mohammad Houhou. Crédito: Stash.

Por fim, o curta espanhol, ganhador também de melhor filme de estudante, um senhor avô conta para o neto, que praticamente não lhe dá atenção, como as coisas eram na sua época. O diferencial é que a história passa em décadas no futuro e o relato do senhor narra a vida atual com os relacionamentos intermediados em grande parte pela tecnologia e as redes sociais.

“Un día en el parque” (2018), de Diego Porral. Crédito: ArteCult.

Trata-se de uma bela analogia que argumenta que as coisas mudam, para essencialmente continuarem as mesmas. Com estas e tantas outras histórias, o Anima Mundi mostra mais uma vez que é espaço importante da cultura e do cinema de animação, onde das mais variadas formas, permanece promovendo debates e reflexões importantes para o grande público.

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