“Baikonur, Terra”: o início da jornada espacial soviética nas terras do Cazaquistão

Crédito: IMDb.

Baikonur, antiga Leninski, é a maior base espacial do planeta. Neste local de cultura e história milenares, ligado à antiga Rota da Seda, foi onde iniciou o Programa Espacial Soviético. Em meados dos anos 1950, um acordo entre o Cazaquistão e a Rússia foi o começo desta ousada iniciativa. Os atualmente russos pagam U$ 115 milhões, ou mais ao governo cazaque, dependendo da quantidade de lançamentos anuais, segundo o jornalista que visitou a base Ethevaldo Siqueira. A parceria entre estes países resultou em dois fatos históricos importantes para a humanidade: o lançamento do Sputnik I, primeiro satélite artificial, em 1957, e pela primeira vez um humano conseguiu dar a volta em torno da Terra, com a ida de Iuri Gagarin, ao espaço em 1961.

A grandiosidade histórica da tentativa de chegar ao espaço pelos soviéticos está diretamente vinculada à grandiosidade histórica desta região do mundo. Da mesma forma, o está a imensidão das planícies do Cazaquistão, localizado na Ásia Central, região que une Rússia e China e conecta o continente asiático com o europeu. Terra explorada pelos mongóis, que estabeleceram o maior império territorial contíguo do mundo, parte da antiga Rota da Seda, depois território integrante do Império Czarista e posteriormente, com a transformação política, o país, assim como seus vizinhos, tornou-se uma das repúblicas que formou a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). No anos 1990, com o fim da URSS, novas mudanças o levaram à condição de país capitalista.

Crédito: IMDb.

O documentário Baikonur, Terra (2018) do diretor italiano Andrea Sorini, exibido durante o Festival do Rio 2019, é uma contemplação, que deixa o local e as pessoas que residem nele falarem por si, apresentando os contrastes do país. O Cazaquistão abriga o Islã e o Cristianismo Ortodoxo Russo, sem maiores problemas e conflitos entres eles. Desde o fim da URSS, enfrenta dificuldades de promover desenvolvimento e crescimento econômico no mundo capitalista, que agora parece, aos poucos, encontrar soluções, sendo uma delas o antigo e ambicioso projeto espacial soviético, que ainda resguarda importância crucial.

Assim, a câmera vai conduzindo o espectador por paisagens extraordinárias, capazes de, por alguns minutos, fazer com que esqueça a vida contemporânea das grandes metrópoles e possa ter a sensação de conseguir ver o tempo passando lentamente, permitindo uma conexão maior com a imensidão do planeta Terra. É como se estivesse, de repente, em terras de um planeta desconhecido, deserto, intocado e, cuja vastidão impõe-se ao seres que um dia ousam explorá-las.

Crédito: baikonur.earth

Assim, percorre-se, em tom de observação, as ruínas de habitações comunais soviéticas, até chegar aos prédios habitacionais do cosmódromo, a cidade com seus restaurantes, praças, o museu do programa espacial, a escola, onde até hoje alunos de idade bastante jovem preparam-se para serem futuros astronautas. Finalmente, chegando à base de lançamento, onde o foguete que conduziu a tripulação espacial liderada pela Rússia à Estação Espacial Internacional (ISS) em 2015, com a presença de mais dois astronautas dos Estados Unidos e do Japão, foi lançado.

Os astronautas Kjell Lindgren, da Agência Espacial Americana (Nasa), Oleg Kononenko, da Agência Espacial Federal Russa (Roscosmos) e Kimiya Yui, da Agência de Exploração Aeroespacial do Japão (Jaxa) permaneceram no espaço até dezembro do mesmo ano. O percurso que leva o foguete à base de lançamento é um dos pontos altos do filme.

Crédito: IMDb.

De início, na tela apenas dois homens aparecem distantes caminhando rente à linha do horizonte, em um dia que vai nascendo lentamente com a chegada vagarosa do sol. À medida que avançam, o enorme foguete, aos poucos, toma o espaço da tela e acompanha os humanos em uma bela fotografia que representa, de forma muito bonita, a capacidade grandiosa da sociedade mundial de atingir objetivos antes considerados impossíveis.

Com depoimentos de “personagens” enigmáticos que nos levam ao desfecho com o foguete levantando em direção ao cosmos consegue-se perceber que, ao direcionar seus esforços ao progresso e não à destruição, o humano é capaz de realizações únicas. Baikonur é o ponto mais central da Terra e, talvez, por isso, guarde tamanha simbologia das civilizações passadas e das futuras na mensagem de que o humano, apesar de suas diversas faces e culturas, é um só, construindo o seu caminho rumo ao desconhecido, ampliando os horizontes, interconectando os mundos e pavimentando uma estrada para outros que virão.

Título: Baikonur, Terra.
País: Itália, Cazaquistão e Rússia
Direção: Andrea Sorini
Roteirista: Eliseo Acanfora, Andrea Sorini
Duração: 74min
Lançamento: 16 junho de 2019
Idioma: Russo, Inglês, Cazaque
Legendas: português/inglês

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