Che: uma referência perturbadora

Ernesto Guevara. Crédito: Democracia Socialista.

Ernesto Guevara faria ontem 92 anos, argentino de nascimento, latino-americano e internacionalista por opção, revolucionário e comunista como modo de vida. Che permanece inspirando seus companheiros de luta em pleno século XXI e continua criando pesadelos ao imperialismo e aos representantes da classe dominante, que tentaram enterrar suas ideias com seu assassinato na Bolívia.

Entretanto, ideias, principalmente quando expressam a luta pela igualdade e por liberdade concretizadas por práticas sociais coerentes, são ainda mais invencíveis. E coerência entre pensar, falar e agir sempre foi uma marca desse revolucionário e que ainda se faz presente em todos os cantos do mundo.

Che Guevara no Congo em 1965. Crédito: Wikimedia Commons/Jacobin Brasil.

Ernesto cresceu em uma família argentina politizada, ouvindo as polêmicas sobre a Guerra Civil Espanhola, tomando parte das discussões sobre o peronismo e alimentando uma curiosidade intelectual que o tornou um leitor voraz. Suas viagens pela América Latina fizeram com que percebesse a profunda desigualdade social e a exploração sofrida pelos trabalhadores e também o papel reservado ao imperialismo estadunidense na Nossa América. O jovem argentino não vacilou em sua opção e encontrou no marxismo as explicações e saídas para a construção de uma sociedade mais justa. A sua densidade política foi sendo conformada pela associação íntima entre teoria e prática baseada nessa opção.

Não tendo pertencido a nenhuma organização de esquerda, foi como ator político que percebeu o protagonismo do imperialismo estadunidense na Guatemala quando se deu a derrubada do governo de Juan Jacobo Arbenz Guzmán, defensor da bandeira da reforma agrária. A partir dessa experiência, Ernesto concluiu que um governo popular só poderia efetivar reformas concretas armando o povo e que a libertação nacional só poderia estar associada ao anti-imperialismo.

Juan Jacob Arbenz Guzmán, presidente da Guatemala de 1951 a 1954. Ao tentar realizar a reforma agrária entrou em choque com as forças econômicas empresariais estadunidenses presentes em seu pais. Em razão disso é deposto pela CIA e uma ditadura militar capitalista, parceira dos EUA instala-se, no poder. Crédito: Vermelho.

Quando Che participava da luta contra a ditadura de Fulgencio Batista, primeiro como médico e depois como comandante, na Sierra Maestra cubana, aprendeu com Fidel Castro que não havia contradição entre a radicalidade prática e a amplitude do discurso quando se tem o objetivo de isolar o inimigo principal. A partir de então começou a colher elementos para a formulação de sua teoria sobre a Guerra de Guerrilhas, método de luta que logo se espalhou por todo o continente americano.

Fazendo parte do governo revolucionário, enfrentamentos cotidianos e necessidades práticas como dirigente reforçaram sua formação teórica como intelectual revolucionário marxista. Percebe que o limitado papel da burguesia nacional e sua tendência a não enfrentar o imperialismo deveriam ser superados pela força da unidade dos setores proletarizados do campo e da cidade no momento da tomada do poder. Sendo então necessário organizar um exército popular e uma nova forma de exercício do poder político onde se destacaria o Estado Socialista controlado pelos trabalhadores e o partido de vanguarda representando a unidade dos revolucionários.

Fulgencio Bastista. Crédito: MSNBC.com

Construindo uma teoria de libertação dos povos do terceiro mundo ao analisar a economia política dos países capitalistas dependentes, Che também se revelou um arguto observador dos países socialistas. Che era, por vezes, excessivamente crítico à presença do mercado, ainda que entendesse as necessidades de recuo tático como na ocasião da Nova Política Econômica (NEP) soviética nos anos 1920, à autonomia financeira das empresas e às reformas que vinham desenvolvendo-se no Leste Europeu. Chegou a chamar atenção para uma possível reversibilidade daquelas experiências.

Defendeu então para Cuba um sistema diferenciado sem maiores espaços para a lógica mercantil. Sem desprezar de todo os estímulos materiais, apontava como centro impulsionador do socialismo os estímulos morais, o trabalho voluntário e o exemplo do revolucionário, principalmente para dirigente.

Defendia também a formação de um partido de vanguarda composto a partir do povo trabalhador, evitando com isso a burocratização do poder. O socialismo, para além da socialização econômica, deveria desenvolver a moral comunista, novas relações sociais com base em valores humanistas. Dessa maneira a força dessa consciência revolucionária poderia sim forçar a ultrapassagem dos limites do possível.

Com sua crítica ao determinismo econômico mecanicista, Che propõe que se dê ênfase ao sujeito revolucionário na história, oferecendo assim uma significativa contribuição ao marxismo latino-americano, na esteira de José Carlos Mariátegui, marxista peruano dos anos de 1920, para quem o socialismo não seria cálculo ou cópia e sim criação heroica. Che era internacionalista por princípio, como a própria Revolução Cubana – já que a ilha mostra diversas vezes que razões de Estado não impedem a solidariedade com a luta dos povos do mundo pela libertação.

José Carlos Mariátegui, escritor, jornalista, sociólogo e ativista político peruano. Autodidata, Mariátegui foi um dos primeiros e mais influentes pensadores do marxismo latino-americano no século XX. Crédito: Nova Democracia.

Defendendo esse internacionalismo, ele fez aquilo que era impossível ser feito por Fidel devido as suas tarefas à frente de Cuba, como reconheceu em carta ao eterno comandante cubano. E termina sua vida vitoriosa, mesmo sendo assassinado na Bolívia, por sempre ter sido coerente. Na verdade, Guevara nunca esteve tão vivo quanto depois daquele 9 de outubro de 1967. Isso se explica por ter sido sempre defensor do socialismo como conjunto de valores que devem estar presentes na cultura e na consciência de seu povo.

Os imperialistas não conseguem entender como uma ilha bloqueada e com parcos recursos continue levantando bem alto seu internacionalismo, presente nos contingentes de professores e médicos espalhados pelo mundo. Eles continuam perturbados pela sobrevivência da Revolução Cubana mesmo com o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e com acirramento do bloqueio estadunidense.

Eles também não compreendem como a figura de Che unifica todos os revolucionários de várias gerações, como tem tanta presença entre os jovens e como está sempre presente nos movimentos sociais. Contraditoriamente, a figura do Che também parece por vezes perturbar carinhosamente todos nós, seus camaradas de luta. Fazendo com que nos belisquemos, todos os dias, porque lembramos que era do Che a exigência do estudo profundo da realidade com base em um marxismo sem dogmas, e por isso criativo.

A obrigação dos revolucionários é dar exemplo antes de cobrarem dos demais. A defesa de princípios inegociáveis e a necessidade da unidade prática dos revolucionários deve sempre estar presente sem perder de vista a conquista do poder. Nesse sentindo, compreendemos a fala das crianças cubanas nas escolas quando dizem “Pioneiros na luta pelo comunismo, seremos como o Che”. Nada mais coerente como o pensamento do Che. Nós também tentamos seguir o seu exemplo para conseguir ser, no mínimo, um pouco coerente como ele.

Fonte: Texto originalmente publicado no site do Associação Cultural José Martí – Rio de Janeiro, Casa de Amizade Brasil-Cuba.
Link direto: https://josemartirj.webnode.com/news/che-uma-referencia-perturbadora/

Luis Eduardo Mergulhão Ruas
Doutor em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
Membro do Conselho Diretor da Associação Cultural José Martí – Rio de Janeiro

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